domingo, 28 de dezembro de 2025

Carros elétricos e a Margem Equatorial: o Brasil entre o desafio e a solução

Foto: Ilustração

Nos últimos anos, os carros elétricos e híbridos têm ganhado espaço no Brasil. Em 2025, eles já representam uma fatia crescente das vendas de veículos novos. Mas uma pergunta continua ecoando entre consumidores: por que esses modelos, que prometem reduzir a poluição e ajudar o meio ambiente, ainda custam tão caro?

O principal fator está nas baterias de íon-lítio, que podem representar até 40% do valor do veículo. A produção dessas baterias exige minerais como lítio, cobalto e níquel, cuja extração e comercialização são caras e muitas vezes dependem de importação. Além disso, a tecnologia embarcada nos carros elétricos, motores sofisticados, sistemas de regeneração e softwares de gerenciamento e ainda está em fase de expansão, o que aumenta o custo final.

Outro ponto é a escala de produção. Enquanto os carros a combustão têm mais de um século de fabricação em massa, os elétricos e híbridos ainda são produzidos em menor volume. Isso significa que o preço por unidade é mais alto. No Brasil, a chegada de fábricas nacionais começa a mudar esse cenário, mas o impacto nos preços ainda é limitado.

Há também a questão da infraestrutura e impostos. Embora alguns estados ofereçam isenção ou desconto de IPVA para veículos eletrificados, a rede de recarga ainda é restrita fora dos grandes centros urbanos. Isso dificulta a popularização e mantém os custos elevados. Além disso, muitos modelos são importados, o que adiciona taxas alfandegárias ao preço final.

Apesar do valor inicial alto, os carros elétricos e híbridos podem gerar economia a longo prazo. Eles gastam menos com combustível e manutenção, já que possuem menos peças móveis e sistemas mais eficientes. Para quem roda muito na cidade, a diferença pode ser significativa. Além disso, o impacto ambiental é muito menor, ajudando a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Reprodução/CNN

Nesse contexto, surge uma discussão estratégica:
a exploração da Margem Equatorial Brasileira (MEB). Autoridades como o presidente Lula e o ministro de Minas e Energia destacam que os recursos provenientes dessa exploração podem financiar a transição energética, modernizar a infraestrutura e fortalecer a industrialização nacional. A Petrobras e a Confederação Nacional da Indústria também defendem que, com segurança jurídica e ambiental, a MEB pode ser um motor de desenvolvimento regional e nacional.

Em resumo, ajudar o meio ambiente ainda custa caro porque a transição energética exige investimentos pesados em tecnologia, infraestrutura e produção. Mas a tendência é que, com o aumento da demanda, a produção nacional e os recursos da Margem Equatorial, os preços caiam nos próximos anos. O consumidor brasileiro já começa a perceber essa mudança, e a mobilidade sustentável avança como uma realidade cada vez mais próxima.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Prefeitura, sindicato e povo expostos; empresários escondidos

Foto: Nice Ribeiro/TV Mirante

Por Jorge Antonio Carvalho*

O sistema de transporte público de São Luís vive mais uma crise, desta vez protagonizada pela empresa 1001, que deixou de cumprir acordos firmados com a Prefeitura, o SET e o Sindicato dos Trabalhadores. A greve já se arrasta por dias e mantém 162 ônibus parados, afetando diretamente milhares de usuários que dependem do serviço para trabalhar, estudar e se deslocar pela cidade. Mais uma vez, quem paga a conta é a população, enquanto os verdadeiros donos do negócio permanecem invisíveis.

É sempre o mesmo roteiro: Prefeitura exposta em coletivas e entrevistas, Sindicato dos Rodoviários à frente das mobilizações, motoristas e cobradores dando voz às suas dificuldades, e a população sofrendo nos pontos de ônibus. O SET aparece como representante patronal, mas os empresários que lucram com o sistema nunca se mostram. Quem são essas pessoas? Onde vivem? Qual sua classe social? Por que não se expõem ao debate público? Essas perguntas ecoam sem resposta.

A invisibilidade dos empresários é conveniente. Enquanto trabalhadores enfrentam atrasos salariais e a população amarga filas e atrasos, os donos das empresas se escondem atrás da sigla do sindicato patronal. São eles que recebem subsídios milionários da Prefeitura, mas nunca aparecem para explicar o destino desses recursos ou justificar a precariedade da frota. Essa ausência de transparência é um problema estrutural que mina a credibilidade do sistema e perpetua a desigualdade de responsabilidades.

O debate sobre municipalização do transporte público deve ganhar força justamente nesse contexto. Se o sistema só funciona graças ao dinheiro público, por que continuar nas mãos de empresários privados que não se mostram e não prestam contas? A gestão pública poderia trazer maior transparência e controle social, ainda que enfrente desafios de eficiência. Mas antes de qualquer mudança estrutural, a população merece uma resposta simples: 

Quem são os donos do transporte em São Luís?

A crise atual é mais do que uma paralisação de ônibus. É um retrato da falta de transparência e da desigualdade de responsabilidades. Enquanto trabalhadores e usuários se expõem, os empresários se escondem. É hora de cobrar nomes, rostos e responsabilidades. O transporte público não é apenas um negócio: é um direito de cidadania, e a população tem o direito de saber quem lucra com sua precariedade.

*Jorge Antonio Carvalho - Oficial do Blog Conversa de Feira

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Da Terra Plana às Havaianas: Pneu, Chinelos, Papai Noel e o limite da burrice

Garotos Podres - YouTube

A extrema direita no Brasil virou uma sitcom sem roteirista. Cada semana, seus atores inventam uma nova temporada de maluquices. Já tivemos o episódio da Terra Plana, o spin-off da oração para pneu e agora o especial de Natal com dois enredos: o boicote às Havaianas e a denúncia contra os Garotos Podres. É como se o país fosse governado por roteiristas de “Os Trapalhões”, só que sem a graça.

No caso das Havaianas, Fernanda Torres ousou dizer que queria que as pessoas começassem 2026 “com os dois pés”. Pronto: foi o suficiente para transformar chinelo em arma ideológica. Vídeos de gente rasgando sandália, discursos inflamados e hashtags de boicote. O Brasil, pela extrema direita, conseguiu o feito histórico de transformar um acessório de praia em símbolo da luta política. Enquanto o mundo discute inteligência artificial, aqui a briga é com borracha colorida.

Já no caso dos Garotos Podres, a polícia paulista resolveu ressuscitar uma música de 1985, “Papai Noel Velho Batuta”, como se fosse ameaça à fé nacional. Quarenta anos depois, alguém decidiu que chamar o Bom Velhinho de “porco capitalista” é ofensa religiosa. É como se o Estado tivesse descoberto o punk só agora, e achado que era perigoso demais para a sociedade. O próximo passo deve ser abrir inquérito contra o Chaves por “incitação à pobreza”.

E o mais irônico é que, enquanto o governo e políticos sérios não medem esforços para enfrentar os problemas reais, desemprego, violência, custo de vida e a necessidade urgente de melhorar a educação, a extrema direita prefere brincar de tribunal cultural. Em vez de ajudar a construir soluções, escolhem o limite da burrice: lacrar contra quem não pensa como eles. Pensar o quê? Asneira. É como se o país tivesse dois mundos paralelos: um tentando resolver a vida das pessoas, e outro transformando chinelo e Papai Noel em caso de polícia.

No fim das contas, a extrema direita no Brasil virou uma caricatura: um grupo que prefere transformar chinelo e música punk em caso de polícia enquanto a vida real exige soluções sérias. É como se estivessem presos num circo paralelo, com palhaços que não fazem rir e mágicos que só desaparecem com o bom senso. O público assiste incrédulo e se pergunta: até quando essa turma vai viver no limite da burrice, em vez de ajudar a enfrentar os problemas de verdade?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Do púlpito ao saco preto: a moral seletiva de Sóstenes Cavalcante


Imagem: Ilustrativa da internet

Por Jorge Antonio Carvalho*

A Polícia Federal encontrou cerca de R$ 430 mil em espécie no flat funcional do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder da oposição e apadrinhado do pastor Silas Malafaia. O montante estava escondido em um saco preto dentro de um armário, durante a Operação Galho Fraco, que investiga desvio de recursos da cota parlamentar por meio de contratos fictícios com locadoras de veículos.

É curioso como o deputado, conhecido por atacar o governo Lula e posar de guardião da moralidade, agora precisa explicar por que guardava tanto dinheiro em casa. A justificativa oficial? Segundo ele, seria fruto da venda de um imóvel, e o depósito não foi feito “por lapso”, afinal, quem nunca esqueceu de levar quase meio milhão ao banco?

Enquanto brada contra “corruptos” e defende golpistas, Sóstenes é pego com uma cena digna de novela: dinheiro vivo, saco preto, armário fechado. O contraste entre o discurso moralista e a prática é tão gritante que parece piada pronta. O deputado que debocha da esquerda agora precisa explicar como se tornou protagonista de uma operação policial.

A Operação Galho Fraco é um desdobramento da “Rent a Car”, que já investigava assessores parlamentares. Agora, o foco recai diretamente sobre os deputados, e Sóstenes aparece como figura central. O caso expõe não apenas um suposto esquema de desvio de verbas públicas, mas também a fragilidade da narrativa de quem se coloca como paladino da ética.

No mercado da política, Sóstenes Cavalcante vendia moralismo a granel. Mas quando a PF abriu o armário, encontrou apenas dinheiro vivo e contradição. Para quem gosta de ironia, é como se o pregador da honestidade tivesse sido flagrado com a mão na sacola, literalmente.

*Jorge Antonio Carvalho - Oficial do Blog Conversa de Feira

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Congresso da Impunidade: blindagem aos golpistas e bloqueio às pautas sociais

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A maioria do Congresso Nacional tem demonstrado uma capacidade notável de articulação quando o assunto é proteger figuras ligadas ao golpismo e à extrema direita. A redução de penas e a suavização de responsabilidades de Jair Bolsonaro e seus aliados mostram como a máquina política se move com rapidez e eficiência quando o objetivo é blindar quem atentou contra a democracia.

A subordinação estrutural da política e da economia

Segundo análises críticas, o Brasil vive uma “subordinação estrutural” marcada pela financeirização e pela dependência externa. Essa lógica não apenas enfraquece a soberania nacional, mas também molda a atuação do Congresso, que se mostra mais preocupado em preservar privilégios e interesses de elites econômicas do que em aprovar medidas que beneficiem a maioria.

A resistência às pautas sociais

Enquanto a impunidade avança com vigor, projetos que poderiam melhorar a vida da população enfrentam enormes barreiras. A proposta de redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, aprovada na CCJ do Senado, é um exemplo: apesar de representar um avanço para milhões de trabalhadores, encontra forte resistência de setores empresariais e parlamentares, que travam sua tramitação.

Para que pautas sociais avancem, é quase sempre necessário recorrer à barganha com emendas parlamentares. Essa prática transforma direitos fundamentais em moeda de troca, subordinando o interesse coletivo às negociações de bastidores. O resultado é um sistema político que privilegia acordos de conveniência e posterga reformas estruturais.

Mesmo quando pautas estruturais como a reforma tributária ou sociais como o fim da jornada 6x1 avançam na CCJ, o caminho até a aprovação definitiva é marcado por resistência, lobby e negociações intermináveis, em contraste com a agilidade demonstrada pelo Congresso na blindagem de golpistas.

Democracia enfraquecida

O contraste é evidente: quando se trata de proteger golpistas, a mobilização é imediata e eficaz; quando o tema é saúde, educação, trabalho e bem-estar social, o caminho é tortuoso e dependente de barganhas. O Congresso brasileiro reafirma, assim, sua função de guardião da impunidade e dos privilégios, deixando em segundo plano o compromisso com a democracia e com o povo.

Fontes:



domingo, 7 de dezembro de 2025

“Banco Master: a festa de fraudes que desmascara o discurso anticorrupção de Bolsonaro”

Foto:WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO
Durante seu governo, Jair Bolsonaro repetia que “não havia corrupção” em sua gestão. Mas o escândalo do Banco Master, liquidado pelo Banco Central após fraudes bilionárias, mostra o contrário: uma teia de empresários e políticos ligados ao bolsonarismo aparece no centro das investigações.

O epicentro

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso pela Polícia Federal, acusado de comandar esquema de emissão de títulos sem lastro e operações internas fraudulentas, transformou o banco em uma verdadeira “festa de esquemas”. Hoje tá solto usando tornozeleira.

Os empresários cúmplices André Felipe de Oliveira Seixas Maia e Henrique Souza Silva Peretto foram presos temporariamente, ligados a empresas que participaram das fraudes, ambos já soltos, mas seguem sob investigação.

Políticos bolsonaristas Ciro Nogueira (PP), ex-ministro da Casa Civil, citado em articulações de lobby para favorecer o banco e Antônio Rueda (União Brasil): aliado político, também mencionado em movimentações de influência. Ambos representam a ponte entre o banco e o poder político em Brasília.

O caso Rioprevidência Pedro Pinheiro Guerra Leal, ex-diretor de investimentos do Rioprevidência, exonerado após liberar R$ 960 milhões em letras financeiras sem garantia para o Banco Master. Sua saída foi recomendada pelo Ministério Público para proteger o patrimônio previdenciário.

Ex-ministros de Bolsonaro Ronaldo Vieira Bento, ex-ministro da Cidadania. Após deixar o governo, assumiu cargos em empresas ligadas ao grupo Master. A CGU identificou irregularidades de R$ 8 milhões em descontos indevidos no Auxílio Brasil, programa que Bento comandava. Já é alvo de pedido de convocação na CPMI do INSS.

A contradição

O escândalo expõe uma incoerência brutal do discurso do ex-presidente sempre afirmando que não havia corruptos em seu governo, mas na realidade, ex-ministros, aliados e empresários ligados ao bolsonarismo aparecem no centro de um esquema bilionário.

O Banco Master não era apenas uma instituição financeira, era um palco de operações fraudulentas, sustentado por uma rede política e empresarial que orbitava o bolsonarismo.

Impacto

Esse caso mostra como a narrativa anticorrupção não resiste à realidade. A presença de ex-ministros e aliados diretos de Bolsonaro em um esquema bilionário reforça a necessidade de investigação profunda e responsabilização.

Mais do que um escândalo financeiro, o Banco Master revela como política e sistema bancário se entrelaçam em fraudes que drenam recursos públicos e fragilizam a confiança da população.


sábado, 6 de dezembro de 2025

“Corolário Trump: América Latina entre a exclusão e a intervenção”


Anunciado pelo governo americano, o chamado “Corolário Trump” reacende velhos fantasmas de intervenção na região.

O anúncio oficial

Em dezembro de 2025, o governo dos Estados Unidos apresentou uma nova Estratégia de Segurança Nacional, evocando a antiga Doutrina Monroe. A medida, apelidada de “Corolário Trump”, foi interpretada como uma tentativa de reafirmar a hegemonia norte-americana no hemisfério ocidental, ampliando presença militar e econômica na América Latina (O Globo).

Políticas contra imigrantes latinos

  • Ao mesmo tempo em que busca controlar a região, o governo Trump mantém políticas duras contra imigrantes latinos:
  • Fim do DACA, retirando direitos de jovens que cresceram nos EUA.
  • Construção do muro na fronteira com o México, símbolo de exclusão.
  • Promessa de deportações em massa, ignorando histórias de vida e contribuições sociais.
Essas medidas reforçam uma narrativa xenófoba, tratando latinos como ameaça, não como cidadãos.

Linha do tempo: Doutrina Monroe até o Corolário Trump:


Mostra os marcos históricos de 1823, 1904, 2018 e 2025, com ícones representando cada fase da Doutrina Monroe à nova estratégia de segurança anunciada por Trump.

Intervenção militar na América Latina

O “Corolário Trump” prevê:

  • Reforço da Marinha e Guarda Costeira para controlar rotas marítimas.
  • Uso de força letal contra cartéis e grupos armados.
  • Ampliação de bases militares em pontos estratégicos.
  • Expulsão de empresas estrangeiras para favorecer corporações americanas.
  • Parcerias seletivas com governos locais, muitas vezes em troca de submissão política.
Essa postura revive práticas imperialistas, tratando a América Latina como “zona de influência” e não como parceira soberana.

A contradição

O paradoxo é evidente: os EUA não aceitam os latinos como cidadãos em seu território, mas querem comandar os territórios onde vivemos. Essa incoerência revela uma visão colonialista, que reduz nossa região a peça de tabuleiro geopolítico, ignorando nossa autonomia e diversidade.

Defesa da América Latina

Como latino, é fundamental afirmar: não somos quintal de ninguém. A América Latina tem direito a decidir seu próprio destino, sem tutela externa. Nossa riqueza cultural, nossos recursos naturais e nossa força social não podem ser subordinados a interesses de Washington.

O “Corolário Trump” deve ser denunciado como ataque à soberania e à dignidade latino-americana. Cabe a nós reafirmar que somos povos com história, identidade e futuro próprios e que não aceitaremos ser tratados como subordinados em nossa própria casa.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

“Literatura, cidade e futebol: Humberto de Campos e o Sampaio Corrêa”

Foto: Blog Roteirando Slz

Por Jorge Antonio Carvalho*

O Sampaio Corrêa parte em viagem para Humberto de Campos, e não é apenas o ônibus que corta estradas e poeiras: é a própria história que se desloca, carregando consigo o peso de derrotas recentes, a sombra de gestões sem credibilidade, e a esperança tênue de que, ao chegar à cidade que leva o nome de um dos maiores escritores maranhenses, possa encontrar no espírito modernista de Humberto de Campos um espelho, uma advertência, talvez até um sopro de renovação.

Mas Humberto de Campos não é apenas o nome de um poeta. É também uma cidade costeira, de mar aberto e dunas que se movem com o vento, localizada a pouco mais de 150 quilômetros de São Luís. Com cerca de 26 mil habitantes, o município guarda uma paisagem de mangues, praias e rios que se confundem com a memória de seus moradores. Ali, o cotidiano é marcado pela pesca, pela simplicidade das feiras e pelo ritmo lento das marés, um contraste com a urgência do futebol, que exige resultados imediatos e vitórias rápidas.

Humberto de Campos

Em A Mulher Dormida, Humberto desenhou a imagem da estagnação, do corpo imóvel diante da vida que passa. O clube, atolado em gestões que não despertam confiança, lembra essa mulher adormecida, incapaz de abrir os olhos para o novo dia. Mas Humberto também escreveu O Amor Volta, lembrando que a paixão, mesmo ferida, pode renascer; que o vínculo, mesmo esgarçado, pode ser reconstruído. É nesse ponto que repousa a esperança da Bolívia Querida: acordar do torpor, reinventar-se, devolver à torcida o orgulho que se perdeu nas madrugadas de derrotas e nas tardes de apatia.

O futebol, como a literatura, é mais do que espetáculo: é expressão da cultura popular, é voz coletiva, é memória viva. Humberto de Campos, a cidade, com suas praias e mangues, lembra que o Maranhão é feito de resistência e beleza. Humberto de Campos, o escritor, lembra que é preciso romper barreiras para dar voz ao povo. O Sampaio precisa fazer o mesmo: abandonar a apatia, abrir-se ao povo, recuperar sua identidade. Só assim deixará de ser figurante e voltará a protagonizar sua própria narrativa.

Foto: Redes Sociais

Viajar para Humberto de Campos é, portanto, mais do que  uma pré-temporada: é um chamado à memória, um convite à reinvenção. Que o clube, ao pisar naquela terra, se lembre do escritor que ousou desafiar o tempo e que, como ele, encontre coragem para virar a página. Porque, no fundo, o futebol é também literatura: cada jogo é um capítulo, cada gol é uma metáfora, cada derrota é uma vírgula que prepara o renascimento da frase seguinte.

*Crônica literária jornalística de Jorge Antonio Carvalho, oficial do blogue.