terça-feira, 28 de março de 2017

Cristão não adoece?


Foto ilustração - Gazeta do Povo
Venho lamentar e denunciar, por meio desta rede social, os ataques contra o cantor Arlindo Cruz, que teve um AVC e passou por cirurgia nesta quinta-feira, 17 de março de 2017.
Ao buscar informações sobre o estado de saúde do irmão de fé Arlindo Cruz, e fui até a barra de comentário do G1 para entender mais detalhes e deparei-me com palavras de caráter violento contra nós, povo de religiosidades de matriz africana e afro-brasileira.
Em caráter de anonimato, certos cristãos estão associando o estado de saúde de Arlindo Cruz às práticas do cantor dentro da Macumba (RJ) de forma negativa.
Torno público que não concordo com esse pensamento violento cristão de associar a negatividade do plano físico e espiritual a nós povos brasileiros que praticamos nossa fé em nossos ancestrais e encantados indígenas.
Sangra no céu e na terra o ódio de fundamentalistas cristãos que querem nos demonizar a cada dia. Nosso cotidiano não é fácil num país da falsa democracia racial e religiosa. Quando que o Brasil vai parar de perseguir o povo de Candomblé e Umbanda e religiosidades afro-brasileiras? Espero que comece hoje e agora, não podemos apenas colocar isso para um projeto de nação futura.
Quando Arlindo Cruz é atacado por ser de afro-religioso tod@s nós somos atacad@s!
Há um comentário que diz: “Espero que ele saia dessa, e se converta à Verdade da Palavra de DEUS,,p/ assim ter a Vida Eterna nos Céus e nao em outro canto!! Espero q ele tenha outra chance de fôlego de vida, p/ se arrepender das men.tiras da ma.cumba e um.banda,espi.ri.tismo em geral em q vivia,, chances q teve antes do AVC e as desper.diçou, e se converta agora ao Senhor Jesus Cristo!” (Solrac).
Outro comentário sobre a musica de Arlindo foi: “A principal determinação dos médicos foi para que o paciente só cante suas músicas usando um potente protetor de ouvidos, se não obedecer e continuar escutando a própria música o cérebro não suportará tanta agressão.” (Antonio Amaral).
Outro comentário que expressa nitidamente a violência contra o candomblé também está nas palavras de Fernando: “Cadê os demônios disfarçados de orixás que não lhe protegem?”.
Outro comentário vai no sentido de “Que Deus tenha misericórdia do Arlindo Cruz, que ele tenha sua saúde restabelecia, e que o mesmo aproveite a oportunidade de conhecer o único, verdadeiro e salvador senhor Jesus Cristo. E um grande artista. (Rob Navarro)
 Quando qualquer praticante de matriz africana é violentado de múltiplas formas pelos novos pentecostais ou qualquer outro segmento, nós que somos filh@s das realezas ancestrais de africanas e indígenas somos violentad@s também, mas reagimos e resistimos tocando nossas ngomas (atabaques) pedindo aos nossos ancestrais que a resistência deles nos tome a cada dia para que possamos combater a violência que está instalada em nosso país.
Ao longo de minha vida tenho visto ações de violência contra pessoas de Candomblé que, quando adoecem, certos cristã@s tendem a afirmar que o sacerdote@ enferm@ está sofrendo pelo mal que fazem. Fico a pensar que evangélico ou cristão, como sejam chamados não adocem e nem morrem. Estariam as doenças e a morte reservada somente para o povo de Candomblé?
Ouço muitos discursos infundados, que dizem: “Todo pai de santo ou mãe de santo morre de doença”. Eu preciso saber se as doenças são hereditárias a nós! Sabe de uma coisa? A hierarquização das raças, como bem afirma meu professor Kabengele Munanga, é o grande problema da “Humanidade”, colocar minha cultura como civilizada e “evoluída” e dizer que a cultura do outro é primitiva é ridículo.
Peço licença aos meus mais velhos e minhas mais velhas, a nossa sacerdotisa Mam’etu Kafurengá, para dizer que a (nossa) Comunidade Terreiro Caxuté, situada na Costa do Dendê Bahia repudia toda e qualquer ação que venha violentar os povos praticantes de espiritualidades afro-brasileiras e de matriz africana. Meu nome é Táta Luangomina e sou contra a ação desrespeitosa e violenta contra toda e qualquer manifestação religiosa. Convido a outros religiosos e a sociedade brasileira e internacional a somarmos forças em prol do combate a perseguição e violência religiosa no mundo.
Fé não se impõe, a fé é um ato cultural que é aprendido e cada povo e sociedade busca manifestá-la de suas variadas formas. Nasci e cresci dentro do terreiro e pretendo até minha velhice viver sempre no Candomblé por AMOR!
TATA LUANGOMINA
Taata Bakisi da Comunidade Terreiro Caxuté
Gestor da Escola Caxuté
Bacharel em Humanidades pela UNILAB
Mestrando em Ciências Sociais pela UFRB

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