Por Roberto César Cunha* e Carlos José Espíndola*
A
segunda revolução industrial no século XIX, via a emersão da eletricidade, da
química e do motor a combustão como novas trajetórias tecnológicas, direcionava
o foco dos sistemas produtivos para a combinação do aumento da produção e da produtividade.
Na agropecuária soma-se a revolução verde que foi responsável pela multiplicação
de alimentos, “em proporções talvez equivalente ao do milagre da multiplicação
dos peixes” (BUAINAIN, 2014).
Entretanto, o progresso nos diferentes sistemas industriais e agroindustriais
se fez em parte com o enorme esgotamento dos recursos naturais, que tiveram
efeito sobre o meio ambiente e a sociedade. Nesse processo houve um desbalanceamento
entre as três mais importantes esferas: econômica; social e ambiental - com o surgimento
de doenças, alterações na qualidade da água, nas mudanças no clima regional,
entre muitos outros. Hoje as políticas de desenvolvimento econômico devem levar
em consideração a questão ambiental. Assim sendo, o capital natural é uma
condição sine qua non nas agendas
econômicas de diferentes países.
A inserção do meio ambiente na
economia tem sua origem nos anos de 1970 devido à três fatores básicos: aumento
da poluição em países desenvolvidos, principalmente, nos Estados Unidos da
América e Japão; associação ao aumento no valor do petróleo entre os anos
1973 a 1979, o que instigou um debate sobre a viabilidade permanente dos
recursos naturais não renováveis; e o relatório denominado “Os Limites do
Crescimento”, que enfatizava se o crescimento da população e da economia se mantivessem,
o meio ecológico não teria condições de continuar a suprir tamanha demanda de
produção e consumo.
Esses
três fatos contribuíram para que o sistema econômico começasse a levar em
consideração a relação econômica com natureza. Com isso, surgiram conceitos
como: economia ecológica e economia ambiental. Muitos anos mais tarde, destacou-se
também, a economia verde. No entanto, alguns questionamentos permeiam estes
conceitos: o que é economia ecológica, ambiental e verde? Quais as suas principais
características? Existem diferenças entre elas? Quais são as diferenças? Há semelhanças?
Quais? Que contribuição cada um destes conceitos pode trazer para o meio
ambiente?
Dessa forma, em condensação, economia ecológica: tem suas
motivações advindas da década de 1960, que por sua vez, foi a época em que a
problemática ambiental começou a ganhar notoriedade no mundo. Compreende que a
economia é apenas um subsistema dentro de outro sistema maior, que é a natureza,
em palavras mais claras, determinismo ambiental com características indutivista.
Uma linhagem teórica malthusiana, com perspectiva naturalista, santuarista e
conservacionista. O progresso técnico é o responsável pelo desequilíbrio
ambiental, especialmente, a grande indústria e a maquinaria, uma vez que, são
os motores da degradação. Com isso, o aumento da produtividade geral dos fatores
provoca desastres ambientais. Como saída, somente pelo decrescimento econômico
e economia estacionária.
A Economia ambiental, surgida nos anos de 1970, se
caracteriza, de modo geral, apenas pela ótica monetária. Vendo a economia um
sistema superior, ou seja, possui forte inclinação a um determinismo econômico,
com método dedutivo arcabouçado por modelagem matemática com objetivo de
atribuir valores monetários aos recursos naturais. É embasada em teorias de
economistas neoclássicos, tendo prisma naturalista, porém, preservacionista. O
desenvolvimento tecnológico é um agente passivo na degradação da natureza,
contudo, só é possível ter crescimento econômico e economia dinâmica através a
valoração e preservação dos ativos ambientais.

A partir dos anos 1990, o conceito de economia verde foi
lançado e propõe que o crescimento de emprego e renda deve ser impulsionado por: investimentos públicos e privados que reduzam as emissões de carbono e a
poluição; uso de mecanismos que aumentem
a eficiência energética e que impeçam a
perda da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos. Para isso realizar-se,
depende de três dimensões: (1) diminuição do uso de energia advindo de
combustíveis fósseis e aumento do uso de energia provindo de fontes renováveis;
(2) promoção do uso de produtos e serviços que provém da biodiversidade, dando
enfoque para que sejam criadas escalas de valor direcionados aos produtos
florestais e serviços ecossistêmicos; (3) incitação de técnicas e tecnologias
capazes de diminuir as poluições e resíduos provenientes do processo produtivo,
sobretudo, inovações tecnológicas de caráter comunitários para inclusão de
populações tradicionais. Porém, tem especificidade do multiculturalismo, do pós-modernismo,
desenvolvimento social local e da economia solidária. Menos mitigação e mais
adaptação às condições sociais.
Como visto, esses três conceitos, são passíveis de
críticas, entre elas: mantém a natureza como base da sociedade e assim
apresenta um determinismo ambiental; estabelecem a superioridade da sociedade, o que isso reduz ao
reducionismo ambiental; e/ou uma visão paroquial, escala “glocal”, ou
seja, sem noção de conjunto e perda da escala nacional.
Diante disso, uma abordagem nova na qual, de forma
propedêutica, chama-se de "Geoeconomia Verde", se forja em aproximações
sucessivas por meio de mais de trinta anos de estudos geoeconômicos. E três
fatores, dentre outros, são fundamentais para atender as transformações
econômicas, sociais, geopolíticas e ambientais do mundo na alvorada do século
XXI: o desenvolvimento tecnológico - que por sua natureza e ritmo gera; o resgate central da Geografia como necessidade para entender: as relações (sociais e institucionais) multifacetadas dos sistemas
produtivos.
Desta forma, o desenvolvimento tecnológico, com seus
paradigmas e trajetórias, uma vez que, trazem uma relação de incerteza, leva,
sobretudo, o conhecimento impreterível dos territórios. E em virtude disso, os
sistemas produtivos se forjam com produtividades altíssimas, porém não
similares. E esses três fatores permitem um outro não menos importante:
informacionalidade das coisas / comunicabilidade das coisas.
Contudo, a perspectiva maior nessa abordagem é entender as
peculiaridades do ser humano a partir de suas atividades produtivas e do seu
modo de fruição. Assim, sem a fé filosófica no poder que os conceitos
têm de criar e destruir o mundo, ao aniquilar conceitos, aniquila-se a “cisão
da vida”, acredita-se que só é possível ser conquistada uma geoeconomia verde
através do mundo real, pelo emprego de meios reais. Ela não será um ato do
pensamento e sim um fato histórico, condicionado por condições históricas,
pelas condições da indústria, da agricultura, do comércio e serviços.
*Roberto César Cunha - Geógrafo, doutorando em Geografia
*Carlos José Espíndola - Geógrafo, doutor em Geografia
FONTE: Geógrafo Roberto César Cunha