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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Como se manter informado sobre a pandemia sem sofrer 'overdose' de notícias

Imagem: Getty Images
Notificações de "notícias urgentes" saltando na tela do telefone. Na TV, no lugar do futebol, debates ou especiais para discutir os impactos da pandemia. Os grupos de WhatsApp inundados de artigos sobre covid-19 que aquele seu parente "tinha que compartilhar".

Como nos afeta? 

Psicólogos apontam a ocorrência de dois fenômenos atualmente. O primeiro seria um sentimento de cansaço em relação às notícias relacionadas à pandemia, já que muitos de nós estamos sentindo na pele os efeitos causados por ela, direta ou indiretamente. 

Apesar da avalanche de informação que sai diariamente sobre a doença, há ainda uma série de perguntas importantes sem resposta, como qual será de fato a duração das quarentenas e como será nossa vida quando tudo isto acabar. 

Segundo John-Paul Davies, psicoterapeuta e porta-voz do Conselho Britânico de Psicoterapia, a situação atual tem tido impacto negativo mesmo sobre aqueles que "geralmente dizem que estão bem". "

"Eu diria para as pessoas que é importante que elas tenham empatia também com elas mesmas, para entender seus conflitos e que não há problema em se sentir cansado de tudo ou frustrado de vez em quando", ele diz

Imagem: John-Paul Davies

O segundo fenômeno é que o ciclo intenso e quase ininterrupto de notícias pode estar exacerbando a ansiedade ou a depressão daqueles que já têm histórico de distúrbios mentais e problemas emocionais. 

"A ansiedade olha o que é possível de acontecer, foca nisso e o amplifica, em vez de focar no provável", acrescenta. 

Isso acontece, por exemplo, quando alguém se depara com uma notícia sobre a queda de determinados indicadores econômicos e se perde nos seus pensamentos imaginando o pior cenário possível para si e suas finanças pessoais. 

"Elas dizem: 'Bom, meu emprego está em risco... Se eu perder o emprego não terei dinheiro para me sustentar e vou acabar perdendo minha casa'", exemplifica o psicoterapeuta. 

Pessoas que sofrem de ansiedade também podem ser mais suscetíveis a sentir a dor daqueles que adoeceram ou que perderam entes queridos. "Nossa imaginação e nossa memória começam a construir cenários hipotéticos na nossa cabeça e ficamos pensando no que as pessoas sentiram, no quão horrível deve ter sido, todo tipo de pensamento aflitivo." 

Desligar-se das notícias, entretanto, não é algo fácil para essas pessoas, porque "a ansiedade nos impele a continuar checando as informações, como um mecanismo para tentar aliviar a própria ansiedade." 

O oposto vale para quem tem depressão. Davies afirma que algumas pessoas simplesmente "desligam e se tornam apáticas" depois de serem expostas a muita informação sobre coronavírus - e acabam recorrendo a fontes alternativas e perigosas de estímulo, como álcool e drogas.

Imagem: Getty Images
Quando não é possível desligar 

Há ainda uma minoria considerável que se sente esgotada diante do ciclo de notícias por motivos profissionais. 

Jornalistas, gestores públicos, profissionais da saúde e cientistas estão entre os grupos que muitas vezes têm que acompanhar de perto o noticiário e a evolução dos números em uma escala sem precedentes. 

Para muitos, isto acontece enquanto trabalham de casa e tentam equilibrar limites — que agora nem sempre estão claros — entre o trabalho e a vida pessoal. 

"Estou em casa com um filho pequeno, um adolescente e um cachorro filhote... Está sendo difícil dormir por causa da avalanche de notícias, da qual não consigo escapar porque trabalho com... como jornalista", afirma Lorraine Allen Derosa, que atua como freelancer na Espanha e tem coberto a pandemia no país para meios de comunicação nos Estados Unidos. 

Por causa da diferença de fuso, seus horários de trabalho agora incluem um turno da noite. "Acaba sendo o único período em que consigo trabalhar, porque tenho uma folga das crianças", afirma. 

O psicoterapeuta John-Paul Davies afirma que uma parte de seus pacientes (com os quais agora faz sessões virtuais) estão entre aqueles "que precisam estar por dentro de todos os últimos acontecimentos" ou que têm contato próximo com os mais afetados pelos efeitos negativos da pandemia. 

"Ao ouvir as histórias você acaba estando exposto, sentido-se de alguma forma afetado por elas, especialmente se você se importa com as outras pessoas - e para muitos jornalistas esta é a razão que os mantém trabalhando, para contar essas histórias."

Encontrar o equilíbrio 

Como equilibrar o cansaço diante do noticiário e a ansiedade com a necessidade de se manter informado sobre as regras locais de isolamento social e as recomendações de saúde essenciais? 

Davies pontua que, para a maioria de nós, olhar as manchetes uma vez por dia é um objetivo realista — seja na internet ou pela televisão, acompanhando um noticiário ou um anúncio oficial do governo. 

Esse ritmo poderia ser reduzido a uma vez por semana entre aqueles com nível elevado de ansiedade. Ele também diz que é importante selecionar "uma fonte confiável de informação", com "foco nos fatos em vez de conjecturas". 

"Nem todo jornalismo é bom jornalismo. Mas isso não significa que o jornalismo seja ruim", ressalta Ulrik Haagerup, do The Constructive Institute. 

"Você deveria dar preferência aos meios de comunicação que se dedicam a veicular informações de interesse público. Seja crítico em relação a quem você está pedindo para filtrar o mundo para você, porque isso é importante." 

A terapeuta Liz Martin, baseada em Londres, que tem trabalho com detentos que não podem receber visitas neste momento e com pacientes que estão tentando controlar a ansiedade durante a pandemia de covid-19, aconselha àqueles que se sentem estressados acompanhando o noticiário que conversem com amigos que não se sintam tão mal durante o processo de "digerir" as notícias - - contato que eles as acompanhem por meio de fontes jornalísticas confiáveis. 

"As pessoas são diferentes, então talvez um amigo possa atualizá-lo sobre o que for relevante", ela diz. 

Os especialistas admitem que, para aqueles cuja profissão significa lidar de alguma forma com as informações sobre a pandemia, reduzir o consumo de notícias é uma tarefa mais difícil. 

Davies destaca, contudo, que ainda assim é importante tentar fazer um esforço para colocar limites sobre o que se lê ou assiste e encontrar tempo para descansar. 

Liz Martin recomenda ainda que as pessoas façam com alguma frequência uma "ronda" entre os colegas em situação semelhante, para verificar como eles estão - "Um pode servir de apoio para o outro", ela completa. 

Parul Ghosh diz que conseguiu administrar a "fadiga de corona" ao passar a acompanhar apenas alertas de notícias. É o companheiro quem a atualiza sobre os detalhes dos fatos importantes do dia. 

"Me sinto mais focada e produtiva", diz ela, que agora tem mais tempo para se dedicar a outras atividades e aos seus hobbies. "Estou lendo bastante, tentando normalizar as coisas na minha cabeça um pouco.

" Além de viver o presente, acrescenta Davies, também é importante encontrar motivações para pensar no futuro. "Perceber que tudo isso eventualmente vai acabar - apesar de não parecer em alguns momentos."

Veja matéria completa aqui

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Cansado das fake news? A culpa pode ser do seu grupo de família no WhatsApp.


Cansado de ler notícias falsas na internet? A culpa pode ser sua. Ou melhor, do grupo de WhatsApp da sua família. Um estudo divulgado nesta semana pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo aponta que grande parte dos boatos que circulam no aplicativo são compartilhados através de grupos de família.
Os pesquisadores analisaram mais de 2.500 pessoas com o objetivo de encontrar a origem de falsas notícias que circularam pelo app utilizando o assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco, e de seu motorista, que aconteceu há pouco mais de um mês.
Os resultados mostram que, ao todo, 1.145 pessoas confirmaram que receberam informações de que a vereadora era ex-mulher do traficante Marcinho VP e havia engravidado aos 16 anos, enquanto outras receberam uma imagem de Marielle sentada no colo de uma pessoa identificada como o criminoso.
A primeira notícia foi recebida por mais de metade das pessoas (51%) por meio de um grupo de família, enquanto apenas 9% tiveram acesso ao boato em um grupo de colegas do trabalho, mesmo percentual dos que receberam por uma mensagem direta.

Mais próximos

Pablo Ortellado, um dos autores do estudo e professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, ressalta que não é possível determinar com certeza o como funciona a distribuição de conteúdo nos grupos de WhatsApp.
“Pode ser apenas que existam mais grupos de família do que grupos de amigos ou de colegas de trabalho e os boatos tenham circulado igualmente em todos eles, mas, como há mais grupos de famílias, nosso estudo tenha apenas captado essa distribuição dos grupos.
Ele aponta, no entanto, que caso a hipótese se prove verdadeira, isso pode acontecer porque as pessoas se sentem mais seguras nesses ambientes para compartilhar notícias, mesmo sem investigar sua procedência. “Pode ser que grupos de família sejam ambientes mais ‘íntimos’ que permitam compartilhar seguramente conteúdos mais especulativos sem que quem compartilhe seja alvo de julgamento”, declara, em entrevista à BBC.

Mais devagar

Por se popularizar em grupos relativamente pequenos, a difusão de uma notícia falsa em um grupo do WhatsApp leva algum tempo, ao contrário do que acontece nas redes sociais. “Foram necessários três ou quatro dias para o boato estar amplamente difundido e, no primeiro dia, o alcance foi bem pequeno. É bem diferente da dinâmica que vemos no Facebook onde a difusão se dá por uma espécie de explosão inicial e está plenamente difundido em pouco mais de 48 horas”, explica Ortega.

Sem confirmação

O estudo descobriu também que a maior disseminação dos boatos aconteceu através de um texto, e não de fotos e vídeos que, em teoria, teriam mais “chance” de serem reais.
“Isso está de acordo com os estudos sobre viés de confirmação, isto é, nossa pouca capacidade de receber criticamente informações que referendam ou confirmam nossas crenças. Menos importante do que dar evidências que amparam o boato é fazer com que ele esteja de acordo com as nossas crenças: no caso, o preconceito de que pessoas da favela tem vínculos com o tráfico”, detalha o professor.

WhatsApp é perfeito para os boatos

O estudo brasileiro foi desenvolvido com base no de um pesquisador israelense, Temer Simon, especialista em comunicação em situações de crise do Departamento de Gestão de Desastres e Prevenção de Danos da Universidade de Tel Aviv. Ele descobriu que o WhatsApp é o local perfeito para começar da divulgar uma notícia falsa. “Você recebe informações no WhatsApp de pessoas em que costuma confiar mais”, opina.

O que fazer?

Ficou em dúvida sobre uma notícia? A primeira coisa a fazer é procurar a fonte. Pesquise se outras páginas divulgaram a informação e sua data. Antes de compartilhar com seus amigos, tenha certeza de que a notícia é verdadeira.

Fonte: Yahoo