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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Exoneração de Heraldo Moreira: quando a crítica vira censura


Por Jorge Antonio Carvalho*

A exoneração do jornalista Heraldo Moreira da Rádio Timbira, veículo oficial do Governo do Estado do Maranhão, escancara um episódio que ultrapassa os limites da razoabilidade democrática. O motivo? Críticas contundentes à diretoria do Sampaio Corrêa, clube que atravessa uma crise institucional e esportiva já denunciada em diversas matérias do Conversa de Feira.

Segundo relatos, a diretoria do Sampaio levou ao secretário de Comunicação, Sérgio Macedo, a acusação de que Heraldo estaria divulgando “fake news”. A denúncia foi suficiente para que o governo decidisse pela exoneração do comunicador, mesmo diante do histórico de análises fundamentadas e provas apresentadas pelo jornalista em suas falas.

A influência do futebol no poder

O episódio ganha contornos ainda mais graves quando se observa a relação entre o clube e o governo estadual. O vice-presidente do Sampaio, Perez Paz, publicou em seu Instagram um vídeo afirmando:

“Novamente o @sampaiocorrea foi alvo de Fake News do comunicador Heraldo Moreira. Dessa vez ele quis culpar o clube de perseguição contra a imprensa em razão de sua exoneração da @radiotimbira – o que não é verdadeiro. Não tentamos silenciar ninguém. Apenas exercemos o direito de denunciar as fake news que estavam sendo divulgadas pelo comunicador. Após a apuração, o Secretário de Comunicação tomou a decisão com a finalidade de manter o padrão editorial comprometido com a verdade e com a ética.”

A fala soa como justificativa oficial de uma decisão política que, na prática, representa um silenciamento de vozes críticas. Mais do que isso: revela o quanto a atual direção do Sampaio Corrêa tenta esconder a real situação do clube, usando sua influência para transformar críticas legítimas em acusações convenientes de “fake news”.

O histórico de denúncias

O Conversa de Feira já vinha alertando para os problemas estruturais e administrativos do Sampaio Corrêa. 

Em “Sampaio Corrêa e a urgência de uma virada”, mostramos como a má gestão ameaça o futuro do clube.

Em “Sampaio Corrêa em xeque: a SAF que nunca veio”, denunciamos a ausência de transparência e a falta de soluções reais para a crise.

Essas análises não se tratam de invenções, mas de fatos documentados e debatidos publicamente. Heraldo Moreira, ao ecoar essas críticas, cumpria o papel essencial do jornalismo: questionar, investigar e expor.

Justiça em movimento

O caso não ficará apenas no campo da opinião pública. O Movimento “Sampaio é do Povo” já ingressou com ações em diversas instâncias jurídicas, buscando esclarecer os fatos e garantir que a verdade prevaleça. A expectativa é que a justiça confirme aquilo que Heraldo Moreira sempre defendeu com provas: que suas denúncias não eram fake news, mas sim retratos fiéis da crise que o clube atravessa.

Essa mobilização mostra que a sociedade não aceitará passivamente o silenciamento de vozes críticas e que a tentativa de esconder a realidade do Sampaio será desmascarada nos tribunais.

O que está em jogo

A exoneração de Heraldo Moreira não é apenas um ato administrativo. É um ataque à liberdade de imprensa e um sinal preocupante da influência de grupos privados sobre decisões governamentais. Quando um jornalista é punido por exercer seu ofício com rigor e provas, abre-se um precedente perigoso: o de que críticas fundamentadas podem ser sufocadas sob o rótulo conveniente de “fake news”.

E mais: fica evidente que a atual direção do Sampaio Corrêa prefere calar quem denuncia a enfrentar a crise que consome o clube. O silêncio imposto é a prova de que a prioridade não é resolver os problemas, mas maquiar a realidade.

Indignação necessária

Este caso exige indignação. Não apenas pela injustiça contra um profissional da comunicação, mas pelo alerta que traz à sociedade maranhense: quem controla a narrativa, controla o poder. Se o governo se curva à pressão de dirigentes esportivos, o que mais pode ser silenciado amanhã?

O Conversa de Feira reafirma seu compromisso com a verdade, com a crítica responsável e com a defesa da liberdade de expressão. Porque calar jornalistas é calar a própria democracia e esconder a crise do Sampaio não vai fazê-la desaparecer.

*Jorge Antonio Carvalho - Oficial do Blog Conversa de Feira

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

ARTIGO: Quilombos Urbanos na Ilha do Maranhão


Gerson Pinheiro de Souza*

Uma questão que remonta ao movimento negro pré-Constituição de 88 e ganha fôlego com a conquista do Estatuto da Igualdade Racial e demais políticas afirmativas destinadas à população negra continua presente junto aos movimentos sociais organizados dos bairros de maior concentração negra da grande São Luís: a presença dos quilombos urbanos, suas gênesis, motivações, e atualmente a necessidade de auto reconhecimento, auto declaração e reconhecimento pelo Estado Brasileiro.

É perceptível que esse fenômeno, no Maranhão por exemplo, tem origem diversa da conceituação clássica que reconhece quilombos urbanos enquanto espaços nos quais residiam os negros livres ou escravos de ganho, de onde se dirigiam para o centro das cidades para a realização cotidiana de serviços e que com o crescimento das cidades foram anexados às suas zonas urbanas. Ora, parte significativa dos bairros negros da Grande São Luís surgiu ou teve seu povoamento adensado entre 1960 e 1991, período no qual o estado foi fortemente marcado pela desterritorialização de comunidades rurais, em especial das Comunidades Rurais Quilombolas (CRQs), consequência do advento dos grandes projetos que prometiam colocar o estado na rota do desenvolvimento capitalista.

Como consequência da lei de terras do então governador José Sarney (Lei n° 2979/1969) somou-se à área já ocupada pelos “coronéis” regionais grandes porções de terra, por ação dos novos latifundiários. “Chicotes e bacamartes deram as mãos a motosserras e modernos fuzis” na tarefa de, desrespeitando a presença de quilombos e terras indígenas, entregar a Pré-Amazônia Maranhense para os grandes empreendimentos e construir o “Maranhão Novo”. Enquanto isso, grandes outdoors foram colocados na entrada da Ilha do Maranhão, na qual fica a capital, prometendo que a partir de grandes plantas industriais, capitaneadas pelas empresas Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e Alumínios do Maranhão (ALUMAR) ter-se-ia pleno emprego, água potável, educação, saúde e muito mais.

O resultado se expressou no esvaziamento das CRQs e no inchaço populacional da capital. Como já referido, entre 1960 e 1991 (segundo o IBGE) a população residente saltou de 158.292 para 696.353 habitantes. O período se caracterizou pelas ocupações periféricas e desordenadas dos municípios da Ilha do Maranhão.

Após a frustração por não encontrar o prometido emprego e impedido de retornar às CRQs, então já ocupadas pelo latifúndio, longe de suas raízes e sujeitas a toda sorte de desestruturações culturais, religiosas e familiares restou a essas populações ocuparem as áreas socialmente periféricas e insalubres dos manguezais da ilha, buscando principalmente áreas que fossem relativamente próximas de equipamentos públicos e espaços habitacionais que lhes permitissem complementar o sustento retirado dos mangues com a comercialização de produtos oriundos da coleta, em especial frutos do mar, e a prestação de serviços.

Os bairros resultantes dessas ocupações ou por elas adensados, a despeito de terem se tornado espaços urbanos consolidados em consequência da resistência e intensa luta de suas populações por equipamentos públicos e reconhecimento de seus direitos, continuam a figurar entre os mais carentes da zona urbana a exemplo da Região da Liberdade, Polo Coroadinho, Bairro de Fátima, Anjo da Guarda, Vila Palmeira/Santa Cruz dentre outros. Esses bairros guardam características que os relacionam culturalmente às CRQs de origem; mesmo décadas depois é possível identificar colônias completas de pessoas oriundas de territórios quilombolas da Baixada, Litoral Ocidental e outras regiões de forte presença negra.

O fato de que essas populações foram arrancadas dos territórios quilombolas tradicionais, e levados a optar pela fixação de moradia nos mangues e apicuns das margens dos rios da Ilha do Maranhão, nos motiva a propor a assertiva de que se constituem verdadeiros “Quilombos Urbanos Transplantados”. Merecendo por parte do Estado Brasileiro reconhecimento jurídico e politicas afirmativas de forma similar às Comunidades Rurais Quilombolas.

*Geógrafo / Secretário de Igualdade Racial do Estado do Maranhão.