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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Projetos voluntários ajudam na construção de casas em comunidades de baixa renda

Voluntários do TETO em ação na comunidade
 Vila Esperança, na Bahia.
(Foto: Reprodução/Facebook)
A ideia de formar mutirões e ajudar na construção de moradias para pessoas que necessitam de ajuda para viver com mais dignidade não é nova, mas nos últimos anos a prática vem ganhando força com a iniciativa de ONGs que se engajaram nessa prática, inclusive aqui no Brasil. Um exemplo é a organização latinoamericana Um Teto Para Meu País, mais conhecida como TETO, que busca superar a situação de extrema pobreza, vivida por muitas comunidades, por meio da ação conjunta entre moradores e jovens voluntários.

De acordo com o último relatório publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), no qual foi feito um balanço sobre as metas para o milênio, o número de pessoas que ainda vivem na pobreza extrema, com menos de 1,25 dólares por dia, tem diminuído consideravelmente ao longo do tempo, porém, ainda existem cerca de 800 milhões de indivíduos pelo mundo que enfrentam essa situação.
O grupo TETO foi fundado em 1997, no Chile, com o objetivo de amenizar este estado de dificuldade. Uma das principais propostas de trabalho é focar na construção de casas de emergência para os assentamentos mais precários e excluídos dos países da América Latina. Em longo prazo, eles também ajudam a projetar metas de desenvolvimento social para estas comunidades. Hoje, a organização faz trabalhos em 15 nações diferentes: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, Colômbia, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai, Panamá, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.
Voluntários do TETO em ação na comunidade
 Vila Esperança, na Bahia.
 (Foto: Reprodução/Facebook)
Eles trabalham em conjunto com voluntários e as pessoas das comunidades que eles atendem. Essas comunidades são selecionadas por meio de uma pesquisa feita pela equipe da ONG, que avalia diversos locais em condições de pobreza, onde estão as famílias mais vulneráveis.
Quando eles visitam o local escolhido, é feito um levantamento socioeconômico. Essas informações vão ajudar a planejar os projetos comunitários de maior emergência, como a construção de moradias. Segundo a arquiteta curitibana Bruna Gregorini, que é uma das voluntárias da ONG, o diagnóstico ajuda a detectar as principais demandas para melhorar a qualidade de vida nestes ambientes.
As casas são pré-fabricadas e custam pouco mais de R$ 3 mil cada uma. A quantia é arrecadada com colaborações de pessoas físicas e jurídicas, que podem ajudar com qualquer valor. Para ter mais resultado com as doações, o TETO organiza campanhas de coleta, com ações de recolhimento feitas pelos voluntários. Eles também postam vídeos destes eventos no YouTube, que são lincados nas redes sociais, aumentando a visibilidade para a arrecadação.
A arquiteta Bruna (segunda à direita) e outros
voluntários fazendo umlevantamento socioeconômico.
Junto está a Dona Irene, que recebeu a ajuda
do TETO, no Paraná.
(Foto: Divulgação)
Este projeto é considerado uma ação de curto prazo. Durante o período, a equipe permanente de voluntários do TETO trabalha com os moradores pela mobilização e organização comunitária. Em longo prazo, acontecem diversos diálogos com líderes comunitários para garantir que as primeiras ações sejam duráveis, apenas um ponto de partida para que a comunidade comece a se desenvolver. Segundo Bruna, o objetivo final pretendido pela ONG é que a população que está recebendo o apoio consiga se tornar autônoma.
O TETO costuma funcionar como um guia para a comunidade. Além de solucionar os problemas de moradia, nós ajudamos eles a detectarem outros problemas de cunho social e político e mostramos o caminho do que precisa ser feito para resolvê-los, com os procedimentos que devem ser adotados junto das autoridades. Uma vez que eles consigam tomar a iniciativa de conquistar seus direitos para uma vida mais justa, o nosso trabalho está concluído, porém, vale ressaltar, que estaremos sempre prontos para retornar e dar mais suporte para qualquer outro obstáculo encontrado.
Bruna se interessou em fazer parte da ONG em 2011. Na época, ela fazia os trabalhos de construção, em ações mais pontuais. Ela se identificou muito com o trabalho por conta da sua profissão. Mas depois da sua primeira ação, ela diz que a experiência ganhou um significado ainda maior. “Foi transformadora para mim. Ter o contato com uma realidade tão diferente da minha e que ao mesmo tempo está ali, tão próxima, basta querer enxergá-la”. Poder participar destas mudanças deu um novo propósito para a vida da arquiteta, ela tinha muita vontade de participar de algum projeto comunitário e a possibilidade de fazer parte do TETO superou a sua expectativa. Hoje é voluntária fixa da organização e, com um grupo de amigos, conseguiu expandir as ações para o estado onde vive, no Paraná.
Equipe do “Habitat para a Humanidade Brasil”
durante q ação realizada em uma comunidade de Recife.
(Foto: Reprodução/Facebook)
Outra ONG que tem uma proposta parecida com a do TETO é a Habitat para a Humanidade Brasil (HPH), que também tem como causa a viabilização da moradia como um direito humano fundamental. Ela faz parte da rede internacional Habitat for Humanity (HFH), fundada em 1976 e presente em 70 países. A HPH, entidade nacional, já desenvolveu projetos em 11 estados brasileiros ajudando diversas comunidades a se desenvolverem.
Ambas as organizações apoiam o desenvolvimento de comunidades por meio de ações de construção, reforma e melhoria de unidades habitacionais. Além de ajudarem na regularização urbanística e fundiária de assentamentos. O objetivo dessas ações é para que famílias e comunidades em situação de vulnerabilidade tenham um lugar seguro para viver e se desenvolver.
Como faço para participar?
Todas as informações sobre doações e inscrições para os voluntariados estão descritas no site do TETO. Com apenas alguns cliques em diferentes abas você escolhe de que forma deseja contribuir, e em qual estado você vai atuar.
Já na HPH, as opções de voluntariado podem ser acessadas clicando aqui.
Pegada ambiental
Outras iniciativas não possuem o mesmo impacto que o TETO e a HPH, porém, a partir de ações menores, também têm ajudado populações mais carentes no seu desenvolvimento. O Low Construtores Descalzos, por exemplo, é formado por um grupo de amigos, que se uniram em uma espécie de caravana, para atender comunidades mais isoladas.
Caravana do “Low Construtores Descalzos”.
(Foto: Divulgação/Low Construtores Descalzos)
A organização atua aqui no Brasil e é formada por arquitetos, historiadores, jornalistas e educadores de diferentes lugares mundo, entre eles tem gente do México, Portugal e da Ucrânia. Além de planejar ambientes, eles promovem oficinas e palestras sobre formas de construção sustentáveis e educação ambiental.
A equipe está desde 2012 na estrada. Neste tempo, eles já trabalharam com povos indígenas da Amazônia e no sul da Bahia, fazendo parte da construção de uma espécie de maternidade, na comunidade de Piracanga, que foi edificada pelos próprios moradores do local. O propósito de seu trabalho é contribuir para um mundo mais justo, sustentável e diversificado.
Projeto do “Low Construtores Descalzos”
sendo construído. (Foto: Divulgação/ “Low
Construtores Descalzos”)
O Low Construtores Descalzos foca seus conhecimentos em três diferentes frentes: educação, arquitetura e bioconstrução.
Na primeira, eles saem Brasil adentro oferecendo oficinas e palestras sobre novas formas sustentáveis de construção, com o objetivo de disseminar essas ideias.
A segunda frente é voltada para a construção de projetos arquitetônicos criados por eles mesmos. O grupo defende a ideia da arquitetura orgânica, uma linha de pensamento desenvolvida por Frank Lloyd Wright, que acreditava que uma casa deve nascer para atender as necessidades das pessoas, e que esta construção influenciaria profundamente seus moradores.
E, por fim, a terceira frente é a bioconstrução, que envolve o uso de materiais naturais, como barro, madeira, palha, areia ou o bambu – geralmente o que é mais abundante em cada região. Eles também usam métodos de reaproveitamento e cuidado das águas negras (sanitárias) e cinzas (chuveiros e torneiras), filtros biológicos, banheiros secos, iluminação natural e por aí vai.
Projeto envolvendo o uso de materiais naturais.
(Foto: Divulgação/Low Construtores Descalzos)
Para realizar seus projetos, o Low Construtores busca modos econômicos mais flexíveis, alguns deles são pagos com a troca de meios para poderem se manter na comunidade o tempo que estiverem construindo, outras vezes eles apenas pedem a quantia que a pessoa acha que pode contribuir.
Para ficar por dentro dessas novas ideias acompanhe a trajetória dos Low Construtores por aqui. Com informações sobre suas oficinas e relatos sobre os últimos projetos desenvolvidos.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Enquanto a esquerda fortalece o patrimônio nacional, a direita promoveu o maior saque com a venda da Vale.

O nosso blog coloca a disposição dos seus leitores, artigo de Marcio Zonta da revista Brasil de Fato. As fotos são ilustrativas, exceto a foto do mapa. Veja na íntegra abaixo:

A mineradora Vale prepara outro Programa Grande Carajás. A empresa vai explorar a partir dos próximos anos uma jazida de minério de ferro considerada a maior do mundo na Serra Sul de Carajás, no Pará.

O projeto conhecido como S11D, já em fase de implantação, será o maior investimento de uma empresa privada no setor mineiro no Brasil. São 40 bilhões de reais destinados à nova mina, usina e logística, que envolve a expansão da Estrada de Ferro de Carajás – EFC e a ampliação do Porto de Itaqui, em São Luis (MA).

Em 2016, o Projeto Ferro Carajás S11D terá uma estimativa de extração de 90 milhões de toneladas métricas de minério de ferro. A quantidade preenche 225 navios conhecidos como Valemaz, o maior mineraleiro do mundo.

Assim, a Vale passará a explorar na Serra de Carajás, com o Projeto de Ferro Serra Norte, efetivado desde 1985 e o S11D, 230 milhões de toneladas métricas de minério anualmente. A produção atual é de 109 milhões de toneladas por ano.

Embora a mineradora trate o S11D como uma novidade e parte da imprensa nacional frise o empreendimento como a redescoberta de Carajás, a exploração da Serra Sul estaria há muito tempo nos planos da Vale.

É o que denota um mapa (veja abaixo), ao qual a reportagem do Brasil de Fato teve acesso, elaborado pela então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) – antiga estatal – em 1984, onde o plano de extração do corpo mineral da parte sul da Floresta Nacional de Carajás já está presente.

Para especialistas no assunto, o mapa evidencia ainda com mais clareza a escandalosa privatização fraudulenta da Vale, e aponta para um dos maiores saques de minério do mundo.

"A Vale sempre falou nesse projeto, a empresa sabia de sua capacidade antes mesmo da privatização", ressalta Frederico Drummond Martins, analista ambiental, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, responsável pela Floresta Nacional de Carajás.

O novo velho projeto

No Relatório de Impacto Ambiental do Projeto Ferro Carajás S11D, a Vale menciona que os trabalhos de pesquisa realizada na jazida mineral da Serra Sul tiveram início no final dos anos de 1960. Porém, o documento cita que foram entre os anos de 2003 e 2007, que se aprofundaram os estudos no bloco D, do corpo S11.

Segundo a notificação, somente em 2008 o resultado da análise das amostras indicou uma reserva de minério lavrável de um montante de 3,4 bilhões de toneladas de minério no local.

Porém, para Frederico, muito antes disso a mineradora teria conhecimento da quantidade de minério na região a ser futuramente explorada. "Não só a empresa, mas o governo brasileiro também sabia. Na época da privatização a Vale já possuía decreto de lavra para a Serra Sul", denuncia.

As obras para o ramal ferroviário estendido da EFC até a jazida da Serra Sul, conseguido há pouco pela Vale, numa licença junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), é apontado no mapa de 1984, e citado na legenda do gráfico como "Ramal Ferroviário Projetado".
Dessa forma, o mapa aponta que existia uma pré-concepção de exploração da S11D, ressaltando ainda mais a espoliação que significou a privatização da Vale.

Patrimônio público

Em 1997, a mineradora foi incluída no Plano Nacional de Desestatização (PND), uma política implantada pelo presidente em exercício Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que visava privatizar 70% do patrimônio nacional para pagamento da dívida brasileira.

A mineradora foi vendida por R$ 3,3 bilhões de reais. O valor estimado na época do leilão era de R$ 92 bilhões de reais, ou seja, valor 28 vezes maior do que o que foi pago pela empresa.

Porém, o critério de avaliação do valor da mineradora escolhido pelos bancos, entre eles o Bradesco, considerou apenas o fluxo de caixa existente no momento da aquisição, sem levar em consideração o potencial das jazidas processadas da Serra Norte e o imenso poderio da reserva mineral da Serra Sul, estimado em 10 bilhões de toneladas de minério.

"Esse projeto de novo não tem nada, inclusive quando compraram o subsolo da Serra de Carajás na privatização eles já tinham conhecimento desse tanto de minério, o mapa é claro e mostra isso. É o maior saque de minérios do mundo!", indigna-se Raimundo Gomes Cruz, sociólogo do Centro de Educação, Pesquisa e Apoio Sindical (CEPASP) no Pará.

Por que agora?

Estudos geológicos apontam que a Serra Sul tem potencial maior do que a vizinha Serra Norte, onde já está localizada a maior mina de ferro do mundo.

A exploração do S11D será apenas uma parte das 45 formações de minério de ferro que compõem a cordilheira Serra Sul. Ainda mais outros corpos, A, B e C futuramente serão explorados pela mineradora.

O projeto S11D constante nesse mapa histórico da antiga estatal CVRD, sairia num momento estratégico do papel para se tornar realidade.

Conforme explica o professor de economia da Universidade Federal Fluminense, Rodrigo Santos, o mercado de minério de ferro é extremamente concentrado, de modo que mais de 2/3 da oferta global da matéria prima depende da Vale, e das mineradoras anglo-australianas BHP Biliton e da Rio Tinto.

"A Vale, nesse caso, vem apostando no S11D como seu principal projeto, porque esse tem potencial para ampliar suas vantagens como líder nesse mercado", avalia Rodrigo.

Ademais, em tempos de espionagem dos Estados Unidos e Canadá ao Ministério de Minas e Energia (MME), o S11D, seria inclusive uma das preocupações dos concorrentes, pois demarcaria ainda mais a liderança do mercado global da Vale frente a Rio Tinto e BHP Billinton, respectivamente segunda e terceira no ranking mundial de extração mineral.

"Considerando essa estrutura oligopólica e as características dos mercados de bens minerais, o controle e substituição de reservas de classe mundial, como Carajás, constitui uma das principais estratégias de competição", explica Santos.

Segurança Nacional?

A região de Marabá, da qual a Serra de Carajás fazia parte na década de 1980, era submetida ao Grupo Executivo das Terras do Araguaia – Tocantins (Getat), criado em 1980 pelo regime militar com a finalidade de executar as medidas necessárias à regularização fundiária no sudeste do Pará, norte de Tocantins e oeste do Maranhão.

O órgão era vinculado à Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. O mapa elaborado pela Vale em 1984, continha informações territoriais do Getat.

Flavio Moura, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e historiador da região, relata que o Getat era uma saída militar para controlar o conflito pela posse de terra na região, além de garantir a estratégia ditatorial da época de implantação dos grandes projetos na Amazônia. "O Estado militarizado foi o testa de ferro do capital nessa parte do país", diz.

Ao observar o mapa, Moura não tem dúvida: "Esse material nos dá a imensidão do controle dos recursos naturais da região, por isso vemos por que a Guerrilha do Araguaia foi exterminada e qualquer forma de movimentos sociais é combatida pela aliança militar-empresarial, como foi o Massacre de Eldorado dos Carajás", define.

A reportagem do Brasil de Fato submeteu o mapa, também, a um topógrafo aposentado do Exército de Marabá. Humberto Martins Fonseca relembra que a região de Carajás sempre foi alvo de maior proteção e intervenção militar.

"A ideia que passavam para gente era que tinha muita riqueza no subsolo de Marabá, por isso teríamos que defender esse patrimônio".

Passados 30 anos do programa de exploração de minério no Pará, Fonseca reflete. "Hoje vemos no que deu, na verdade não estávamos protegendo as riquezas de ninguém, somente de nós mesmos, porque estamos entregando tudo e ficando sem nada", lamenta.

Fonte: Amazônia 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Os atletas de Jah

O campeão olímpico Michael Phelps
 dá um pega num bong
Não tem os atletas de Cristo? Pois então, tem os atletas de Jah também, mas estes você não fica sabendo. Os atletas de Jah, como o nome já diz, são esportistas que usam maconha de forma recreativa, o que agora é permitido fora das competições. Em maio deste ano, a WADA, entidade que trata do uso de drogas nas Olimpíadas, flexibilizou o uso de maconha entre os atletas: a quantidade tolerada de maconha no organismo passou de 15 nanogramas por mililitro para 150 ng/ml. Isto significa que encontrar traços de maconha no organismo dos competidores deixou de ser considerado doping. O atleta só corre o risco de perder a medalha se for comprovado que fumou a erva para competir, e não antes ou depois. Ou seja, fora de competição, a maconha não é proibida.
A notícia é uma boa nova para atletas como o canadense Ross Rebagliati, medalha de ouro em snowboarding nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1998 em Nagano, no Japão. Flagrado com maconha no sangue no anti-doping, Rebagliati por pouco não perdeu a sua medalha. Mas, após confessar ter fumado baseado e pedir desculpas, o atleta manteve a vitória. Hoje, aos 42 anos, o canadense resolveu se dedicar ao plantio de maconha para uso medicinal e irá abrir sua própria loja no próximo mês, com o sugestivo nome de Ross Gold. Quando o nadador Michael Phelps foi flagrado fumando maconha, Rebagliati saiu em defesa do colega dizendo: “Ei, isso tem zero caloria, é totalmente diet!”
O ouro de Ross
Assim como Phelps ou Rebagliati, muitos outros atletas foram relacionados ao uso recreativo de maconha. Cientificamente, é uma tolice associá-la ao doping, porque reduz a coordenação motora e os reflexos; prejudica a concentração e a noção de tempo; e reduz a capacidade máxima de exercício, resultando em aumento da fadiga. Quer dizer, não melhora em nada o desempenho, embora, com a legalização nos EUA, comecem a aparecer depoimentos de atletas amadores sobre as vantagens de usar maconha antes de praticar exercícios ao ar livre, como andar, escalar ou nadar. Em termos competitivos, porém, a maconha seria um doping ao contrário.
No Brasil, nomes como Giba e Estefânia, do vôlei, foram flagrados com traços de maconha no anti-doping. No futebol, Jardel, Renato Silva e André Neles. E o que dizer deste vídeo de Ronaldo Fenômeno?
Nos últimos tempos, vários lutadores do UFC têm testado positivo para maconha no anti-doping. Em fevereiro do ano passado, o norte-americano Nick Diaz foi suspenso dos ringues por um ano ao ser flagrado com a erva no organismo pela segunda vez, mas parece não se importar com as críticas. Tanto é que, logo após a suspensão, postou uma foto nas redes sociais com um envelope contendo maconha e seu nome escrito. O lutador afirma, com razão, que em seu Estado natal, a Califórnia, o uso medicinal da maconha é permitido. Mas qual é exatamente a “doença” de Nick? Talvez stress.
A erva medicinal de Nick Diaz
Outro lutador flagrado com maconha no antidoping, o também norte-americano Matt Riddle, acabou demitido do UFC mesmo depois de quatro vitórias consecutivas. Mas o meio do UFC não é exatamente maconhofóbico. Ao contrário, vários lutadores opinam que a maconha deveria ser liberada. O executivo do UFC Marc Ratner defende que os atletas usuários de maconha deveriam ter um tratamento diferente dos flagrados por uso de esteróides. Claro. “A maconha vai se tornar cada vez mais e mais problema dos lutadores e seus metabolismos”, defende.
Para mim, a maior vantagem de saber que atletas de sucesso fumam maconha é pôr fim à hipocrisia geral em relação à erva. Em geral, o fumante de maconha é associado à preguiça, à vagabundagem, à indolência. Mas se até campeões olímpicos usam e isso não os prejudica, cada vez faz menos sentido a proibição.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Atenção: Justiça reconhece fraude na privatização da Vale

Se você tivesse um cacho de bananas que valesse R$9,00, você o colocaria à venda por R$0,30? Óbvio que não. Mas foi isso que o governo federal fez na venda de 41% das ações da Companhia Vale do Rio Doce para investidores do setor privado, em 1997. Eles pagaram 3,3 bilhões de reais por uma empresa que vale quase 100 bilhões de reais. Quase dez anos depois, a privatização da maior exportadora e produtora de ferro do mundo pode ser revertida.

Em 16 de dezembro do ano passado, a juíza Selene Maria de Almeida, do Tribunal Regional Federal (TRF) de Brasília, anulou a decisão judicial anterior e reabriu o caso, possibilitando a revisão do processo. “A verdade histórica é que as privatizações ocorreram, em regra, a preços baixos e os compradores foram financiados com dinheiro público”, afirma Selene. Sua posição foi referendada pelos juízes Vallisney de Souza Oliveira e Marcelo Albernaz, que compõem com ela a 5ª turma do TRF.

Fileiras de riquezas 
Entre os réus estão a União, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Eles são acusados de sub-valorizar a companhia na época de sua venda. Segundo as denúncias, em maio de 1995 a Vale informou à Securities and Exchange Comission, entidade que fiscaliza o mercado acionário dos Estados Unidos, que suas reversas de minério de ferro em Minas Gerais eram de 7.918 bilhões de toneladas. No edital de privatização, apenas dois anos depois, a companhia disse ter somente 1,4 bilhão de toneladas. O mesmo ocorre com as minas de ferro no Pará, que em 1995 somavam 4,97 bilhões de toneladas e foram apresentadas no edital como sendo apenas 1,8 bilhão de toneladas.

Outro ponto polêmico é o envolvimento da corretora Merril Lynch, contratada para avaliar o patrimônio da empresa e calcular o preço de venda. Acusada de repassar informações estratégicas aos compradores meses antes do leilão, ela também participou indiretamente da concorrência através do grupo Anglo American. De acordo com o TRF, isso comprometeu a imparcialidade da venda.

A mesma Merrill Lynch, na privatização da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF) da Argentina, reduziu as reservas declaradas de petróleo de 2,2 bilhões de barris para 1,7 bilhão.

Depois da venda da Vale, muitas ações populares foram abertas para questionar o processo. Reunidas em Belém do Pará, local onde a empresa está situada, as ações foram julgadas por Francisco de Assis Castro Júnior em 2002. “O juiz extinguiu todas as ações sem apreciação do mérito. Sem olhar para tudo aquilo que nós tínhamos dito e alegado. Disse que o fato já estava consumado e que agora analisar todos aqueles argumentos poderiam significar um prejuízo à nação”, afirma a deputada federal Dra. Clair da Flora Martins (PT-PR).

Vendida por fileiras de banana
O Ministério Público entrou com um recurso junto ao TRF de Brasília, que foi julgado no ano passado. A sentença determinou a realização de uma perícia para reavaliar a venda da Vale. No próximo passo do processo, as ações voltam para o Pará e serão novamente julgadas. Novas provas poderão ser apresentadas e os réus terão que se defender.

Para dar visibilidade à decisão judicial, será criada na Câmara dos Deputados a Frente Parlamentar em Defesa do Patrimônio Público. A primeira ação é mobilizar a sociedade para discutir a privatização da Vale. “Já temos comitês populares em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Pará, Espírito Santo, Minas Gerais e Mato Grosso”, relata a deputada, uma das articuladoras da frente.

“Precisamos construir um processo de compreensão em cima da anulação da venda da Vale, conhecer os marcos gerais dessas idéias a partir do que se tem, que é uma ação judicial, e compreendê-la dentro de um aspecto mais geral, que é o tema da soberania nacional”, acredita Charles Trocate, integrante da direção nacional do MST. Ele participa do Comitê Popular do Pará, região que tem forte presença da Vale.

Entre os marcos da privatização, que serão estudados e debatidos nos próximos meses nos comitês, está o Plano Nacional de Desestatização, de julho de 1995. A venda do patrimônio da Vale fez parte de uma estratégia econômica para diminuir o déficit público e ampliar o investimento em saúde, educação e outras áreas sociais. Cerca de 70% do patrimônio estatal foi comercializado por 60 milhões de reais, segundo o governo. “Vendendo a Vale, nosso povo vai ser mais feliz, vai haver mais comida no prato do trabalhador”, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em 1996. A dívida interna, entretanto, não diminuiu: entre 1995 e 2002 ela cresceu de 108 bilhões de reais para 654 bilhões de reais.

Na época, a União declarou que a companhia não custava um centavo ao Tesouro Nacional, mas também não rendia nada. “A empresa é medíocre no contexto internacional. É uma péssima aplicação financeira. Sua privatização é um teste de firmeza e determinação do governo na modernização do Estado”, afirmou o deputado Roberto Campos (PPB-SP) em 1997. No entanto, segundo os dados do processo, o governo investiu 2,71 bilhões de reais durante toda a história da Vale e retirou 3,8 bilhões de reais, o que comprova o lucro.

“O governo que concordou com essa iniciativa não tinha compromisso com os interesses nacionais”, diz a deputada Dra. Clair.

 Poder de Estado

A Vale se tornou uma poderosa força privada. Hoje ela é a companhia que mais contribui para o superávit da balança comercial brasileira, com 54 empresas próprias nas áreas de indústria, transporte e agricultura.

“Aqui na região de Eldorado dos Carajás (PA), a Vale seqüestra todo mundo: governos municipais e governo estadual. Como o seu Produto Interno Bruto é quatro vezes o PIB do estado Pará, ela se tornou o estado econômico que colonizou o estado da política. Tudo está em função dos seus interesses”, coloca Charles Trocate.

O integrante do MST vivência diariamente as atividades da empresa no Pará e a acusa de gerar bolsões de pobreza, causados pelo desemprego em massa, desrespeitar o meio-ambiente e expulsar sem-terra e indígenas de suas áreas originais.

“Antes da privatização, a Vale já construía suas contradições. Nós temos clareza de que a luta agora é muito mais ampla. Nesse processo de reestatização vamos tentar deixar mais claro quais são as mudanças que a empresa precisa fazer para ter uma convivência mais sadia com a sociedade na região”, diz Trocate. 

De acordo com um levantamento do Instituto Ipsos Public Affairs, realizado em junho de 2006, a perspectiva é boa: mais de 60% dos brasileiros defendem a nacionalização dos recursos naturais e 74% querem o controle das multinacionais.

Patrimônio da Vale 1996

- maior produtora de alumínio e ouro da América Latina;
- maior frota de navios graneleiros do mundo
- 1.800 quilômetros de ferrovias brasileiras
- 41 bilhões de toneladas de minério de ferro
- 994 milhões de toneladas de minério de cobre
- 678 milhões de toneladas de bauxita
- 67 milhões de toneladas de caulim
- 72 milhões de toneladas de manganês
- 70 milhões de toneladas de níquel
- 122 milhões de toneladas de potássio
- 9 milhões de toneladas de zinco
- 1,8 milhão de toneladas de urânio
- 1 milhão de toneladas de titânio
- 510 mil toneladas de tungstênio
- 60 mil toneladas de nióbio
- 563 toneladas de ouro.
- 580 mil hectares de florestas replantadas, com matéria-prima para a produção de 400 mil toneladas/ano de celulose

Quanto vale hoje

- 33 mil empregados próprios
- participação de 11% do mercado transoceânico de manganês e ferro liga
- suas reservas de minério de ferro são suficientes para manter os níveis atuais de produção pelos próximos 30 anos
- possui 11% das reservas mundiais estimadas de bauxita
- é o mais importante investidor do setor de logística no Brasil, sendo responsável por 16% da movimentação de cargas do Brasil, 65% da movimentação portuária de granéis sólidos e cerca de 39% da movimentação do comércio exterior nacional
- possui a maior malha ferroviária do país
- maior consumidora de energia elétrica do país
- possui atividades na América, Europa, África, Ásia e Oceania
- concessões, por tempo ilimitado, para realizar pesquisas e explorar o subsolo em 23 milhões de hectares do território brasileiro (área correspondente aos territórios dos estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Descoberto mais um pé de maracujá com formato de pênis

Menos de 10 meses depois da morte do curioso pé de maracujá que deu frutos em formato de pênis, no município de São José de Ribamar, outro maracujazeiro com os frutos com forma do órgão sexual masculino foi descoberto no Maranhão, dessa vez na capital São Luís.

O novo "pirocujá" nasceu na frente da casa do cantor Roberto Brandão, no bairro do Calhau e passou a chamar a atenção dos proprietários e de quem passa pela residência.

O dono do pé de maracujá explica que os frutos começaram a brotar há menos de um ano e que o maracujazeiro é fruto da plantação de sementes que o cunhado dele comprou no interior do Estado e lhe deu de presente. O caso, porém, só veio a público nesta quarta-feira (5), quando Roberto Brandão postou uma foto dos frutos na internet, despertando a curiosidade e provocando comentários de internautas.

Brandão conta que esta é a terceira vez que o pé de maracujá dá frutos com o formato de pênis. Os primeiros teriam brotados no começo desse ano, mas ele deu para alguns amigos que pediram de presente. Com os que deram agora, o cantor diz que pretende comer com a família.

O primeiro "pirocujá"

O primeiro pé de maracujá com frutos em formato de pênis nasceu no quintal da dona de casa, Maria Rodrigues de Aguiar Farias, de 53 anos, e foi descoberto em janeiro de 2011. 


Maria Rodrigues de Aguiar era a dona do primeiro pé de maracujá que deu frutos com formato de pênis. Caso aconteceu em 2011 (Honório Moreira/O Imp/D.A Press)
O maracujazeiro de apenas dois anos, atraiu curiosos de várias partes do Maranhão e do Brasil à cidade de São José de Ribamar.

Na época, técnicos da Agência Estadual de Defesa Agropecuária (Aged) também estiveram no local para conferir a excentricidade do maracujá e avaliar as possíveis circunstâncias que teriam provocado o fenômeno. Após a visita, constatou-se que o maracujazeiro pertence à espécie Passiflora quadrangullaris, mais conhecida como maracujá-melão e que, possivelmente, teria sofrido uma alteração genética, cujos fatores determinantes são desconhecidos.

O maracujazeiro deu fruto durante todo o tempo em que estava vivo, mas em setembro de 2012, o pé apodreceu, segundo a proprietária, por causa de cupim e não demorou muito para secar e morrer. No lugar onde o pé de maracujá nasceu, Maria Rodrigues plantou um pé de macaxeira e de vinagreira
.

Fonte: Ribamar Online

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Filtro de barro brasileiro é o mais eficiente do mundo

Nós, brasileiros, temos provavelmente o melhor sistema de filtragem de água nas mãos. Nada de purificadores, torneira de cozinha com filtros, nem galões com água mineral. O melhor mesmo para limpar a água das impurezas é o bom e velho filtro de barro.
Segundo pesquisas norte-americanas, os filtros tradicionais de barro com câmara de filtragem de cerâmica são muito eficientes na retenção de cloro, pesticidas, ferro, alumínio, chumbo (95% de retenção) e ainda retém 99% de Criptosporidiose (parasita causador de doenças).
Os estudos relacionados ao tema, que foram publicadas no livro The Drinking Water Book, também indicam que esses sistemas de filtro de barro do Brasil, considerados mais eficientes, são baseados na filtragem por gravidade, em que a água lentamente passa pelo filtro e goteja num reservatório inferior.
Considerado um sistema ‘mais calmo’, ele garante que micro-organismos e sedimentos não passem pelo filtro devido a uma grande pressão exercida pelo fluxo de água.
O processo lento é o que o diferencia dos filtros de forte pressão, que recebem água da torneira ou da tubulação, os quais são prejudicados exatamente pela força da água, o que pode fazer com que micro-organismos, sedimentos ou mesmo elementos químicos, como ferro e chumbo, cheguem ao copo do consumidor.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Anatomia do prazer: clitóris e orgasmos

Texto de Érika Pellegrino.*
Anatomia é um conhecimento básico, que aprendemos de maneira mais intensiva no primeiro ano da faculdade de medicina, apesar de retornarmos ao tema o tempo todo durante o curso. Era a matéria que eu mais odiava, muito técnica, milhares de nomezinhos de origem grega ou latina pra criar todo um novo vocabulário e entendimento sobre o corpo que eu sabia que ia usar muito pouco na minha carreira de psiquiatra. Digo isso para me desculpar de antemão por alguma imprecisão ou dificuldade de passar o conhecimento. Não sou uma especialista e também não espero que esta pequena contribuição seja capaz de esclarecer toda a questão da anatomia feminina, já que com livros cheios de descrições e desenho, professores do lado, mesas com cadáveres e peças anatômicas dissecadas já era difícil entender o que ficava onde e para que.
Bom, então para que me proponho a escrever um texto que talvez seja de difícil compreensão sobre um assunto que nem gosto? Porque conhecimento é valioso, e o conhecimento sobre os nossos corpos é essencial –- nos dá poder sobre quem somos, como funcionamos, porque as coisas acontecem de determinada forma. Só assim dá pra questionar e não aceitar o que é colocado como verdade e realmente se apoderar do corpo com propriedade.
Começando do começo
Durante o desenvolvimento embrionário, até por volta de 7 semanas, todo mundo é igual, não dá pra “saber o sexo” (anatômico) ainda. Conforme a presença e expressão de certos genes e hormônios, a maioria dos embriões vai ter o tecido da região genital diferenciado em feminino ou masculino. Uma outra parte apresentará alguma alteração nessa diferenciação pelos mais diversos motivos, e a medicina vai chamar isso de intersexo; nesses casos não dá pra dizer, só olhando externamente, se o sexo anatômico é masculino ou feminino. Isso tem uma série de implicações que não vai dar tempo de discutir aqui, quem sabe em outro post.
Mas o que nos importa para o assunto de hoje é: o que a sociedade e a medicina vai chamar de meninos e meninas na verdade têm órgãos correspondentes, derivados de um desenvolvimento divergente (porém análogo) de um tecido que era comum. Vocês já repararam que na parte de baixo do pênis tem um prega (chamada rafe), assim como no meio dos testículos? Pois é, porque aquilo era separado e se uniu, e uma marca é deixada “no meio do caminho”. A mesmíssima estrutura vai formar a bolsa escrotal no masculino e os grandes lábios no feminino; o corpo do pênis no masculino e os pequenos lábios no feminino; a glande do pênis no masculino e o clitóris no feminino.
Ou seja, não existe isso de que meninos têm pênis e meninas não.
Não somos barbies, quando olhamos para nossa genitália não vemos um pedaço liso de pele, uma grande ausência do precioso falo. Vemos os nossos órgãos genitais femininos, no caso das mulheres cissexuais, a vulva, que é a parte externa da genitália, composta pelos grandes e pequenos lábios, abertura da vagina e da uretra e o clitóris, que é coberto por uma pelinha (prepúcio). E ainda lá para dentro temos a vagina. Tudo formado pelo mesmo tecido, que se arranjou de formas diferentes no período embrionário. Ou seja, se é verdade que não temos pênis, é verdade também que os homens cissexuais não têm vulva ou vagina. Mas não estamos falando por aí em “inveja da vulva”, estamos? Isso porque essa frase de efeito, usada em tom de mais pura realidade objetiva que só as ciências biológicas conseguem dar, não é mais do que uma retrato da autoridade, de quem manda, de quem e do que deve ser invejado. Não tem nada a ver com anatomia, tem a ver com machismo.
anatomia2
Conhecimento é poder
Mas acontece que os meninos cissexuais acabam nascendo com a sua genitália balançando lá no meio das pernas, externalizada, que ele precisa lavar, tocar, mexer até pra fazer xixi. Nossa civilização coloca símbolos fálicos para todo lado e eles se sentem orgulhosos do que têm, usam como símbolo de poder. E, no nosso mundo, poder é demonstrado de forma agressiva. “Pega no meu pau!”, dizem os meninos cissexuais na escola (ou os adultos com mentalidade de pré-adolescentes), fazendo algum gesto obceno. Se alguém duvida de sua masculinidade, estão prontos para ameaçar abaixar as calças e mostrarem o que têm ali. As meninas cissexuais não fazem isso, não só porque seriam execradas, mas porque não faz sentido. Não têm o que mostrar ali, não têm do que se orgulhar, segundo essa lógica cultural. E além do mais, ninguém questiona a “feminilidade” delas como algo ofensivo, elas já são meninas, se disserem que elas têm culhões, isso é um elogio (e não necessariamente porque o masculino é valorizado, mas também porque o que é valorizado vira automaticamente masculino).
Então, no fim das contas, paras meninas não é tão simples. As coisas não são tão proeminentes e sempre ouvimos que é feio ou errado. Não é fácil enxergar tudo, demoramos para desenvolver intimidade, para explorar mais, parece que não deveríamos estar mexendo ali. E aí fica mais difícil descobrir onde está o prazer, experimentar de que jeito é gostoso.
Poxa, sou virgem, né? E se eu ficar mexendo não posso “perder” a virgindade?
Bom, o hímen é uma pele fininha que fica na entrada da vagina, é flexível e tem uma abertura no meio. É por ali que sai a menstruação e outras secreções vaginais. Também é por onde entra o dedo ou o absorvente interno. Em alguns casos, o orifício pode ser muito pequeno e causar algum desconforto ou dificuldade para introduzir algo pela entrada da vagina, mas geralmente ele se alarga com a prática. Em outros, ele pode ser totalmente fechado, e aí na época de menstruar o sangue não tem por onde sair e geralmente precisa fazer uma pequena cirurgia para abrir.
O hímen tem poucas terminações nervosas e pode ser rompido em algum ponto quase sem percebermos, ou causando um leve desconforto, e ele fica lá, para sempre; não desaparece quando transamos pela primeira vez. Repito, ele é um resquício embrionário, um pedaço de pele. Não é lacre de segurança, nem certificado de garantia. O rompimento do hímen é comum na maioria das mulheres e pode acontecer, por exemplo, durante a penetração (de um pênis, dos dedos seus ou d@ parceir@, de um brinquedo), na primeira, segunda ou milésima vez.
Virgindade é uma construção social e não uma instância anatômica, e “perdê-la” tem a mesma definição pra meninos e meninas: é a primeira vez que fazemos sexo (e aí acho que você pode considerar o que quiser, a virgindade é sua, e sexo é uma coisa muito, mas muito ampla). Não dizemos que os meninos deixam de ser virgens quando se masturbam, não é? Então como é que podemos perder a virgindade sozinhas???
Então vamos!
Toda a região da vulva é bastante sensível à estimulação sexual, assim como a parte mais externa da vagina (mais para o fundo ela fica menos sensível), o períneo (região entre a vagina e o ânus) e o ânus. Conhecendo as áreas do nosso corpo que podem nos proporcionar prazer e treinando elas para isso vai fazer tudo ficar muito melhor. Nós temos um circuito nervoso prontinho só para ter orgasmo.
No caso do pênis, o circuito do orgasmo é o mesmo da ejaculação, então é difícil gozar sem ejacular (tanto que frequentemente usam-se essas palavras como sinônimos). Num outro momento, podemos explicar como funciona para os homens e para algumas mulheres transexuais, mas o fato é que a nossa linda anatomia nos permite simplesmente ter prazer sem absolutamente nenhuma função reprodutiva direta nisso. E apesar do patriarcado tentar voltar isso contra nós, e algumas culturas condenarem o prazer feminino porque atribui como unica finalidade sexual a reprodução, nós achamos que isso é muito ultrapassado e também não queremos transar com essas pessoas. Queremos sexo com pessoas que nos deem orgasmos!
Mas então por que até 70% das mulheres não conseguem ter orgasmos?
OK, temos um circuito nervoso prontinho para nos dar orgasmos. E também temos circuitos de linguagem no cérebro iguais aos das pessoas da China, e não sabemos escrever ideogramas. Porque o nosso cérebro aprende o que a gente treina, e se a gente não treinar ter orgasmos, vai ser bem mais difícil. E a gente não treina porque não conhece o próprio corpo. Como eu disse, os meninos cissexuais conhecem, vão lá desde cedo, uma, duas, dez mil vezes, treinam frequentemente imaginando pessoas que os excitam e vendo revistas ou filmes que são vendidos a rodo para eles (mas quase não existem direcionados ao público feminino) e aí fica todo mundo falando: fato biológico, homens são mais visuais, se excitam rapidamente e chegam mais rapidamente ao orgasmo. Aham. Mulheres são mais “sensação”, gostam mais do toque, mas será coincidência que as únicas experiências que ela teve foram com @ parceir@? Uma olhada no espelho, masturbação de vez em quando, com um certo sentimento de vergonha, debaixo das cobertas?
O que é preciso para ter orgasmos é ter orgasmos
É preciso ensinar o seu circuito nervoso, que leva os estímulos ao cérebro, que dependendo da forma que você é estimulada, fica bom assim, você goza. Repetição, repetição, repetição = comportamento aprendido. Claro que diversos fatores emocionais podem atrapalhar, mas podem ajudar também. Descubra do que você gosta. Filmes, contos eróticos, fotos? Treine sozinha, nada é ridículo, é só você e seu corpo.
Tradução: Eu nem sabia que havia uma palavra para o resultado inevitável do movimento de me esfregar na minha cadeira… o espasmo implosivo tão atordoadamente completo e perfeito que por alguns breves momentos eu não poderia questionar sua inerente validade moral. – Do quadrinho Fun Home, de Alison Bechdel
E claro, falamos de algumas questões anatômicas importantes, mas não tocamos no ponto principal aqui. A parte mais sensível (com mais terminações nervosas) do corpo do homem cissexual é a glande (a cabeça) do pênis. E o que é que eu tinha falado que tem a mesma origem embrionária na genitália feminina?
Sim, o clitóris!
Fato, o clitóris tem a única função de proporcionar prazer, mais nada. Não protege lugar nenhum, não recebe o pênis para funções reprodutivas, nada. Só serve para isso, então dê a ele a devida atenção! O circuito nervoso do orgasmo sai do feixe nervoso do clitóris — ou seja, é ele que nos faz gozar. Claro que o orgasmo é cerebral e estímulo em outras áreas pode proporcionar prazer, mas por que não facilitar? Ele está lá para isso e tem duas vezes mais terminações nervosas que o pênis. Peraí, vou repetir: duas vezes! Lá, logo acima da uretra, uma bolinha menor que uma ervilha. Tem uma pele cobrindo, mas quando você estiver excitada ela aumenta de tamanho e fica bem mais fácil de achar.
O clitóris na verdade é um órgão maior e mais comprido, pois continua internamente e enche de sangue durante a excitação sexual. Alguns estudiosos acreditam que o estímulo dessa parte interna durante a penetração poderia corresponder ao tal ponto G — que, desculpe informar, não tem um local anatômico definido, mas divirta-se procurando! O clitóris pode ser estimulado durante uma relação sexual com a mão, com vibradores específicos ou anéis vibratórios penianos, pela fricção com a pelve d@ parceir@, com a língua, os dedos…
O vídeo “Clitóris, prazer proibido” é genial, e pode mudar a sua vida, então assista (é sério, assista).

Enfim, conheça o seu corpo, se goste, goze sozinha para depois ensinar a alguém como te fazer sentir isso. Isso vale tod@s. Sei que esse texto foi majoritariamente direcionado a mulheres cissexuais, mas independente da sua anatomia genital (e se ela é compatível ou não com o seu gênero), pense na questão da necessidade de treino para conseguir ter orgasmos. Claro que pode ser ainda mais difícil, mas lembre-se que mesmo que você vá passar por uma cirurgia de transgenerização, ou tomar hormônios, você vai usar a mesma estrutura nervosa e vascular para ter orgasmos. Se você não treinar antes desses procedimentos, depois pode ser mais difícil saber como deveria ser e mesmo avaliar o sucesso ou o que dá para melhorar.
*Érika Pellegrino é médica, está fazendo psiquiatria e acha o máximo ser paga pra ouvir inúmeras historias interessantes todos os dias.