domingo, 22 de março de 2026

A mídia repete o roteiro de 2016: delações seletivas e ataques coordenados contra Lula.



Por Jorge Antonio Carvalho*

A história política recente do Brasil mostra como a mídia hegemônica, em especial a Rede Globo, atua como força política decisiva. Mais do que informar, ela constrói narrativas que moldam percepções e influenciam processos eleitorais. O que se observa hoje é a repetição de um roteiro já conhecido: ataques sistemáticos ao governo Lula, em consórcio com setores da oposição, empresariado, agronegócio, militares e parte do Judiciário. Essa engrenagem não é nova, mas ganha força em momentos de disputa acirrada, quando o objetivo é fragilizar governos populares e abrir espaço para projetos conservadores.

O caso Vorcaro e o Banco Master exemplifica essa estratégia midiática. A Globo transformou delações em espetáculo, criando organogramas e associações que sugerem envolvimento de ministros e do próprio presidente. Essa prática, longe de ser imparcial, busca desgastar a imagem do governo e preparar terreno para a disputa eleitoral. A narrativa construída não se limita a informar, mas a induzir conclusões que favorecem determinados grupos políticos. É uma forma de manipulação que já se mostrou eficaz em outros momentos da história nacional.

Como aponta Alysson Mascaro, o ataque da Globo era totalmente previsível, pois repete o padrão histórico de criminalização de governos populares (Brasil247, 2026). A ausência de uma política de democratização da mídia no Brasil permite que conglomerados privados concentrem poder comunicacional e definam os rumos do debate público. Essa concentração cria um desequilíbrio estrutural, onde interesses econômicos e políticos se sobrepõem ao direito da sociedade de ter acesso a informações plurais e equilibradas.

Repetição de 2015/2016

O paralelo com o impeachment de Dilma Rousseff é inevitável. Naquele período, delações e acusações frágeis foram amplificadas pela mídia, criando um ambiente de instabilidade que culminou na derrubada da presidenta. Hoje, o mesmo roteiro é reencenado contra Lula, com novos personagens, mas a mesma lógica. A estratégia é clara: desgastar a credibilidade do governo, criar uma atmosfera de crise permanente e legitimar a intervenção de setores conservadores. Como já se disse, “voltamos a 2015-2016” (Brasil247, 2026).

A farsa atual

Nos organogramas exibidos pela Globo, nomes da direita e da própria emissora não aparecem. A narrativa é seletiva, direcionada exclusivamente contra o PT e aliados. Trata-se de uma farsa construída para fragilizar o governo e legitimar a ofensiva da oposição. Essa seletividade demonstra que não se trata de jornalismo investigativo, mas de uma operação política travestida de notícia. A manipulação é evidente quando se observa a ausência de figuras ligadas ao bolsonarismo, mesmo diante de indícios que poderiam ser explorados.

A ofensiva não se limita à mídia. Empresariado, agronegócio, militares, setores da Polícia Federal e até do STF compõem uma engrenagem que atua em conjunto. O objetivo é claro: enfraquecer Lula e abrir caminho para a volta da família Bolsonaro ao poder federal. Essa articulação revela que não estamos diante de ataques isolados, mas de uma conspiração ampliada, onde diferentes setores se unem em torno de um projeto político conservador. A mídia cumpre o papel de catalisador, mas a força da ofensiva vem da soma de interesses diversos.

Disputa presidencial acirrada

Essa ofensiva midiática e institucional se conecta diretamente à candidatura de Flávio Bolsonaro. A mídia e as big techs desempenham papel central na amplificação da extrema-direita, criando um ambiente de disputa eleitoral cada vez mais polarizado e perigoso para a democracia (Vermelho, 2026). A disputa presidencial de 2026 se desenha como uma batalha intensa, onde o controle da narrativa pública será decisivo. Nesse cenário, a manipulação midiática não é apenas um detalhe, mas um fator determinante para o futuro político do país.

O Brasil vive novamente o desafio de enfrentar a “elite do atraso” e sua máquina midiática. A esquerda precisa reagir politicamente e institucionalmente para evitar a repetição do golpe de 2016. Sem enfrentar a concentração de poder na mídia, qualquer governo popular estará sempre sob ameaça. A lição que fica é que não basta vencer eleições; é preciso construir mecanismos de defesa contra a manipulação sistemática que ameaça a democracia brasileira.

*Jorge Antonio Carvalho - Oficial do Blog Conversa de Feira

sábado, 21 de março de 2026

ETANOL NO BRASIL: Soberania Energética ou Purificação da Gasolina?




Por Roberto César Cunha*

A inserção do etanol na matriz energética brasileira também deve ser compreendida à luz da geopolítica do petróleo. A gasolina insere o país em uma dinâmica global marcada por instabilidade, conflitos e disputas estratégicas pelo controle de recursos energéticos. As oscilações de preço, frequentemente associadas a tensões internacionais e a decisões de grandes produtores, evidenciam que a dependência desse combustível implica, em última instância, uma forma de vulnerabilidade externa. Nesse contexto, a construção de alternativas energéticas de base nacional, como o etanol, não se limita a uma questão econômica ou ambiental, mas se inscreve no campo mais amplo da soberania. Reduzir a dependência da lógica geopolítica do petróleo, portanto, torna-se uma condição estratégica para países que buscam maior autonomia energética. É nesse horizonte que se insere a experiência brasileira.

Assim sendo, a constituição do mercado de etanol no Brasil não pode ser compreendida a partir das categorias tradicionais de oferta e demanda. Trata-se, antes, de uma construção institucional deliberada, cuja origem remonta ao Programa Nacional do Álcool (Proálcool), implementado na década de 1970 como resposta à crise internacional do petróleo. Desde então, o Estado brasileiro desempenhou papel decisivo na criação de uma demanda estrutural para o etanol, inicialmente por meio de incentivos diretos à produção e, posteriormente, pela imposição de mecanismos regulatórios que garantem sua inserção contínua no mercado de combustíveis.

O principal desses mecanismos é a obrigatoriedade de mistura do etanol anidro à gasolina, atualmente fixada em torno de 27%. Tal dispositivo não apenas assegura uma demanda cativa para o setor sucroenergético, como também reduz a exposição do país às oscilações do mercado internacional de petróleo. Trata-se, portanto, de uma forma de planejamento energético indireto, no qual o consumo é parcialmente determinado por decreto, estabilizando expectativas e garantindo previsibilidade aos agentes econômicos envolvidos.

Essa especificidade distingue o Brasil de outras economias centrais. Nos Estados Unidos, por exemplo, a mistura padrão gira em torno de 10% (E10), com avanços pontuais para E15, enquanto na União Europeia prevalecem percentuais entre 5% e 10%. Mais relevante do que a diferença quantitativa é a combinação singular brasileira: segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), o Brasil produz anualmente mais de 30 bilhões de litros de etanol, consolidando-se como o principal produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar. No consumo interno, o etanol hidratado apresenta participação significativa no abastecimento de veículos leves, especialmente nas regiões Centro-Sul. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam que a frota flex fuel representa a ampla maioria dos veículos leves em circulação no país, evidenciando a consolidação de um mercado de massa efetivamente adaptado ao uso do etanol.

Entretanto, essa potencialidade não se converte automaticamente em autonomia. Ao longo das últimas décadas, a política energética brasileira tem oscilado entre momentos de afirmação de um projeto nacional e períodos de subordinação às dinâmicas internacionais de preços. Nesse contexto, o etanol, embora estruturalmente presente, tem sido progressivamente reposicionado como variável de ajuste do mercado de combustíveis, especialmente no que se refere à formação de preços da gasolina.

Além disso, a relação de preços entre etanol e gasolina, frequentemente orientada pela equivalência energética em torno de 70%, reforça a subordinação do etanol à lógica da gasolina. Quando essa relação se deteriora, o consumo de etanol recua, evidenciando que, mesmo em um mercado amplamente estruturado, a decisão do consumidor permanece condicionada por uma referência externa ao próprio setor sucroenergético.

A elevação recente da mistura obrigatória, de 25% para 27%, ilustra essa ambiguidade. Se, por um lado, reforça a presença do etanol na matriz energética, por outro, não altera substancialmente a centralidade da gasolina como referência de preço e organização do mercado. O etanol, nesse arranjo, deixa de ser vetor de transformação estrutural e passa a desempenhar função reguladora marginal, contribuindo para suavizar variações de preço, mas sem romper com a lógica de dependência.

Autonomia ou subordinação: o impasse estratégico do etanol no Brasil

É nesse ponto que o debate precisa avançar. O Brasil não enfrenta um problema de escassez de etanol, tampouco de viabilidade tecnológica ou de aceitação social. Ao contrário, trata-se do maior mercado de consumo de etanol veicular do mundo, sustentado por uma base produtiva robusta e por uma frota amplamente adaptada ao uso de combustível renovável. A questão, portanto, não é de possibilidade, mas de orientação estratégica.

Historicamente, a mistura obrigatória foi fundamental. Ela criou mercado, reduziu incertezas e estruturou toda uma cadeia produtiva. Nesse sentido, o mecanismo dos 27% continua sendo válido como instrumento de estabilidade. No entanto, sua função original, garantir a existência do mercado, já foi cumprida. O etanol deixou de ser um setor nascente e passou a constituir um dos pilares da matriz energética nacional.

Diante desse novo patamar, a manutenção da mistura obrigatória como principal eixo da política pode revelar uma limitação estratégica. Isso porque ela mantém o etanol estruturalmente subordinado à gasolina, operando dentro de um mercado cuja lógica de preços continua sendo definida, em grande medida, por referenciais externos. Em outras palavras, o instrumento que antes criou autonomia relativa pode hoje estar contribuindo para sua contenção.

Se o objetivo for avançar para uma efetiva soberania energética, os passos necessários são de outra natureza e escala:

  • Recentralizar o etanol hidratado como combustível principal, e não complementar, incentivando sua competitividade direta na bomba;


  • Desvincular parcialmente a formação de preços do etanol da gasolina, reduzindo o papel desta como referência dominante;


  • Reorientar a política tributária e de distribuição, favorecendo o consumo direto de etanol em larga escala;


  • Expandir a infraestrutura logística e de abastecimento, consolidando o etanol como opção preferencial em todo o território;


  • Articular política energética e agrícola, garantindo estabilidade produtiva e evitando ciclos de escassez e volatilidade.


  • Integrar o etanol a uma política nacional de mobilidade, com ênfase nas frotas urbanas sobre pneus, especialmente ônibus e veículos públicos, ao mesmo tempo em que se amplia a eletrificação dos sistemas de transporte de massa sobre trilhos, como metrôs e trens urbanos.

Essas medidas implicariam uma mudança qualitativa: o etanol deixaria de ser um aditivo estratégico da gasolina para se tornar o eixo organizador de uma matriz energética de base nacional.

Diante desse cenário, impõe-se uma reavaliação crítica do próprio instrumento que historicamente estruturou o mercado. A mistura obrigatória cumpriu papel decisivo na fase de consolidação do etanol, garantindo demanda, reduzindo incertezas e viabilizando a expansão produtiva. No entanto, no estágio atual, marcado por elevada capacidade instalada, ampla difusão da tecnologia flex fuel e pela constituição do maior mercado de consumo de etanol veicular do mundo, sua centralidade como eixo da política energética torna-se questionável.

Isso porque, ao manter o etanol estruturalmente vinculado à gasolina, o modelo vigente limita sua capacidade de se afirmar como base autônoma da matriz energética. O instrumento que outrora promoveu a construção do mercado passa, assim, a operar como mecanismo de contenção de seu potencial de expansão.

A questão que se coloca, portanto, não é mais a de como garantir mercado para o etanol, mas de como permitir que ele ultrapasse os limites impostos por uma política ainda ancorada na centralidade da gasolina. Em um contexto no qual o país já dispõe de escala produtiva, infraestrutura e base consumidora consolidadas, a persistência desse arranjo pode representar não uma proteção, mas um entrave.

Em termos estratégicos, a escolha é inequívoca: ou o etanol é elevado à condição de eixo estruturante de uma matriz energética nacional, ou continuará desempenhando função subordinada, operando como variável de ajuste de um mercado cuja lógica permanece externa ao país. Se a opção for mantê-lo nesse lugar, resta reconhecer, ainda que com certa ironia, que sua função principal não será a de liderar uma transição energética soberana, mas a de purificar a gasolina, seja no sentido estritamente químico, seja no discurso mais amplo da sustentabilidade.


*
Roberto César Cunha - Roberto César Cunha é geógrafo (UFMA), mestre e doutor em Geografia Econômica pela UFSC, onde também desenvolveu pesquisa de pós-doutorado. É pesquisador científico e professor universitário com cerca de 20 anos de dedicação intelectual às temáticas do Agronegócio, Geografia Econômica e Desenvolvimento econômico do Brasil e suas regiões. É autor de mais de 50 trabalhos científicos publicados, entre artigos nacionais, internacionais e capítulos de livros sobre esses assuntos. Autor de O Ouro do Cerrado – Origem e Desenvolvimento da soja no Maranhão.


quinta-feira, 12 de março de 2026

Fiscalização contra abusos: Governo Lula reage à alta dos combustíveis

Foto: Agencia Brasil

A escalada dos preços dos combustíveis voltou a atingir em cheio o bolso dos brasileiros. Distribuidoras e postos têm praticado aumentos sem respaldo oficial da Petrobras, antecipando reajustes com base no chamado “custo de reposição futuro”. Na prática, produtos adquiridos a preços antigos são vendidos mais caros, em um movimento especulativo que penaliza trabalhadores, indústrias e famílias.

A Vibra Distribuidora foi apontada como uma das protagonistas dessa prática, que gera lucros imediatos às empresas e prejuízos à sociedade. Especialistas defendem fiscalização rigorosa e responsabilização judicial para quem manipula preços e retém estoques de forma abusiva.

Diante desse cenário, o governo Lula anunciou um pacote de medidas emergenciais para conter a alta dos combustíveis. Entre as ações estão a redução a zero das alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel, representando economia de R$ 0,32 por litro, e uma subvenção adicional de R$ 0,32 por litro a produtores e importadores, com repasse obrigatório ao consumidor. Além disso, foi criado um imposto de exportação sobre petróleo, com o objetivo de estimular o refino interno e garantir abastecimento doméstico.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) terá papel central nesse processo, com poderes ampliados para coibir aumentos abusivos e fiscalizar a transparência nos postos. O governo também determinou que os estabelecimentos informem de forma clara ao consumidor as reduções de tributos e os preços praticados.

Apesar das medidas, especialistas alertam que o sucesso dependerá da efetividade da fiscalização e da cooperação dos estados, que podem contribuir reduzindo o ICMS. Sem ação firme, há risco de que distribuidoras mantenham margens abusivas e resistam ao repasse integral dos benefícios.

Em meio à guerra no Oriente Médio, que mantém o barril de petróleo acima de US$ 100, o desafio do governo é equilibrar pressões externas com a necessidade de proteger o povo brasileiro. Enquanto isso, a especulação continua sendo um inimigo interno que precisa ser combatido com rigor.

Fontes: Conversa de FeiraBrasil 247

Fiscalização já: o povo não pode pagar pela especulação

Foto: Redes Sociais
Por Jorge Antonio Carvalho*

O Brasil vive mais uma vez a contradição de ver os preços dos combustíveis dispararem sem que haja qualquer reajuste oficial da Petrobras. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) já pediu ao Cade que investigue distribuidoras e postos em diversos estados, pois os aumentos ocorreram de forma antecipada e sem respaldo da estatal. Entre as empresas, a Vibra Distribuidora aparece como carro-chefe desse movimento especulativo, reforçando a percepção de oportunismo que penaliza diretamente o consumidor brasileiro.

O padrão é conhecido: quando há aumento oficial, o repasse é imediato; quando há redução, vira novela. Agora, o que se vê é ainda mais grave: distribuidoras e postos elevando preços antes mesmo de qualquer anúncio da Petrobras, como destacou a análise da CNN Brasil. Ou seja, combustíveis comprados a preços antigos passaram a ser vendidos mais caros, porque o mercado precifica pelo “custo de reposição” futuro. Essa lógica oportunista, liderada por grandes distribuidoras como a Vibra, revela ganância e falta de compromisso social.

As consequências são profundas. Trabalhadores que dependem do transporte, indústrias que precisam de combustível para produzir e famílias que já enfrentam dificuldades veem seus custos aumentarem sem justificativa real. Em ano eleitoral, esse tipo de prática especulativa desestabiliza o país e cria um ambiente de insegurança que pode ser explorado politicamente por quem aposta contra o bem-estar da população. O combustível caro não é apenas um problema econômico, mas um fator de instabilidade nacional.

Não se trata apenas de economia, mas de responsabilidade social. Distribuidoras e donos de postos não podem agir como se o interesse privado estivesse acima da vida cotidiana de milhões de brasileiros. O governo, por sua vez, precisa ir além de ofícios e investigações: é necessário fiscalizar com rigor, aplicar sanções e levar à justiça quem especula contra o país. A Libra e outras distribuidoras devem ser responsabilizadas por repasses abusivos e pela manipulação de preços que afetam diretamente o povo.

O Brasil merece respeito. O povo não pode ser refém de crises internacionais transformadas em desculpa para aumentos abusivos. Se há tensões no Golfo Pérsico, é evidente que isso afeta o mercado global, mas não justifica repasses imediatos e desproporcionais sem respaldo oficial. É hora de colocar fim a esse ciclo de especulação e garantir que o preço do combustível reflita a realidade, e não a ganância de poucos. O país precisa de estabilidade, e isso só virá com fiscalização firme e punição exemplar.

*Jorge Antonio Carvalho - Oficial do Blogue Conversa de Feira