Mostrando postagens com marcador Preconceito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Preconceito. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

‘Nikolas Ferreira fez um post sobre mim. Agora não posso mais sair de casa’

Emy participou de atividade na escola vestida de Barbie,
com uma peruca rosa, saia e bota de cano alto (Foto: Divulgação)

Emy Mateus Santos, 25 anos, professora de teatro na rede municipal de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, nunca imaginou que uma atividade pedagógica — fantasiar-se para receber alunos no primeiro dia de um ano letivo — a colocaria no alvo de uma onda de ódio.

Formada em teatro e dança, Emy, que se identifica como travesti, foi integrada à rede de educação pública em fevereiro de 2024, após ser aprovada em concurso público. No início de 2025, foi transferida para a Escola Municipal Irmã Irma Zorzi.

Depois de uma semana de planejamento pedagógico, a coordenação da escola propôs que Emy e outras professoras se fantasiassem para receber os alunos para o primeiro dia de aula de 2025. O propósito era simples: acolher crianças de 6 e 7 anos de forma criativa.

A atividade, inclusive, teve o aval da Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande, que afirmou em nota enviada ao portal G1 que “o uso de fantasias e caracterizações é um recurso pedagógico adotado por professores” de estudantes que estão matriculados no ensino básico na capital do Mato Grosso do Sul. O Intercept entrou em contato com a secretaria pedindo mais informações sobre o caso, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Emy, então, foi vestida de Barbie, com uma peruca rosa, uma saia e uma bota de cano alto. Outras professoras e até a coordenadora da escola escolheram as suas próprias fantasias, baseadas em personagens infantis. “Tinha gente de fada, de princesa, de cozinheira”, diz.

Segundo Emy, sua fantasia inspirou reações animadas e lúdicas das crianças. Por isso, na noite de segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025, ela publicou um vídeo em suas redes sociais mostrando a rotina do dia, desde a preparação da fantasia até interações com os alunos.

Mas a cena, que pretendia celebrar a conexão com as crianças, foi deturpada em pouquíssimas horas. No dia seguinte, uma parte do vídeo, editada para remover o contexto pedagógico, viralizou em grupos conservadores da cidade.

Até que, na quarta-feira, 12, entrou em cena o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais.

Com apenas um story publicado em sua conta no Instagram, Nikolas usou o registro da atividade escolar compartilhado por Emy e escreveu a seguinte legenda.. “Porque [sic] nunca em asilos? Ou para doentes? Ou sem teto? Porque é sempre para crianças?”, escreveu.

Postagem de Nikolas Ferreira amplificou onda de ódio e
transfobia contra Emy(Foto: Reprodução)



A postagem foi o estopim para o caso, que até então estava restrito a Campo Grande, se espalhar pelo país. Além da viralização nas redes sociais, veículos como R7 e Metrópoles repercutiram o vídeo de Emy – mas sem explicar que o episódio não era um ato isolado, que outras professores também se fantasiaram e que a iniciativa havia sido validada pela própria Secretaria Municipal de Educação.

Com a repercussão, Emy virou alvo de uma enxurrada de ameaças. Parlamentares de extrema direita de Campo Grande, como o vereador André Salineiro e o deputado estadual João Henrique Catan, ambos do PL, atacaram a professora até mesmo nos plenários da Câmara Municipal e da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, referindo-se a Emy no masculino e acusando-a de “violar a inocência infantil”.

Além disso, pais de alguns dos estudantes foram à escola exigir explicações, e Emy precisou se afastar da escola por segurança. “Não posso mais sair de casa sem medo”, desabafa. Apesar de a professora ter registrado boletim de ocorrência na polícia e de a Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande ter defendido publicamente o uso de fantasias como recurso pedagógico, a narrativa transfóbica se sobrepôs e reforçou a vulnerabilidade de profissionais trans em ambientes educacionais.

Em entrevista ao Intercept Brasil, Emy ainda contou que, antes mesmo da polêmica, já havia enfrentado transfobia institucional na escola onde trabalhou no ano anterior: foi orientada usar um banheiro isolado, teve seu nome social desrespeitado e presenciou colegas usando a Bíblia para condenar sua identidade.

Leia a entrevista completa no link abaixo:


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Jesus Luz leva filha ao Candomblé e sofre intolerância religiosa

Jesus com a filha em um terreiro de Candomblé(Foto: Instagram/Ilustração) 

Jesus Luz, 38 anos, sofreu um episódio de intolerância religiosa ao fazer um registro da visita da filha a um terreiro de Candomblé. O caso aconteceu quando o modelo celebrou a liberdade de a menina poder frequentar tanto o terreiro quanto a igreja com a mãe. “Esse amor foi tudo que desejei para ela. Ela vai crescer com grande espiritualidade e com respeito e amor por todos independente de religião. Estou plantando a semente do bem nela nesse mundo tão preconceituoso e enfraquecido mentalmente. Desejo muito amor. Muito Àsé. Que os Òrisàs abençoem vocês”, comemorou.

Nos comentários, muitos seguidores o elogiaram e outros atacaram Luz. “Sou mais seguir a bíblia do que atores que se mostram afastados de Deus. Que é o Deus da bíblia, e não o Deus que inventaram para si. Mude enquanto é tempo. A Bíblia precisa do Espírito Santo para que possa ser entendida. Tem de fazer uma boa Teologia Cristocêntrica”, escreveu um seguidor. “Tá repreendido. Bíblia condena…. Acorda pra vida quanto é tempo”, comentou outro. O modelo ainda não falou sobre o ocorrido.

Fonte: Veja Gente


segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Seleções querem usar braçadeiras LGBTQIA+, mas temem punições da Fifa

Foto: O Globo

As braçadeiras de apoio à causa LGBTQIA+, chamadas One Love (um amor) são, agora, um dos temas latentes de discussão nesta Copa do Mundo. O protesto, já que o Catar é considerado um país que não respeita os direitos humanos, desafia as orientações da Fifa, que até criou uma braçadeira própria.

Países como Inglaterra, Holanda e País de Gales, no entanto, devem seguir com o protesto. A Alemanha, recentemente, disse que estava pronta para pagar multa, caso necessário. O goleiro Neuer até acrescentou que não temia qualquer sanção, já que a federação do país apoia a medida.

De acordo com a mídia internacional, ainda não se sabe quais serão as medidas adotadas pela Fifa caso as braçadeiras realmente sejam utilizadas pelos jogadores. Um insider, inclusive, disse que há dúvida se Gareth Bale e Harry Kane receberão cartão amarelo caso entrem em campo. Além deles, a Holanda também faz parte do movimento e joga amanhã — cada time está envolvido em um jogo do dia: Inglaterra (10h), Holanda (13h) e País de Gales (16h).

Segundo o New York Times, a Fifa tenta convencer as seleções europeias a não seguirem com o protesto, mas nenhum dos países aceitou a medida. A federação inglesa, por exemplo, continua dando suporte para que Harry Kane estreie a sua braçadeira amanhã contra o Irã, no primeiro jogo do dia.

Oficialmente, a Fifa ainda não se posicionou sobre o que acontecerá ou qual multa pode ser imposta aos jogadores. A definição deve vir, de fato, quando a Inglaterra entrar em campo ou após a partida, a depender da repercussão.

As informações são do Yahoo.

Fonte: O Rebate

quinta-feira, 6 de maio de 2021

"Vereador do bem" ofende Paulo Gustavo em discurso sobre Dia das Mães

Donaldo Seling, "vereador do bem," destila 
ódio e preconceito(Foto: Facebook)

O vereador Donaldo Seling (Cidadania) da cidade paranaense de Maripá (a cerca de 500 km de Curitiba), fez referência ao ator Paulo Gustavo em um discurso em que atacou casais LGBT que têm filhos. O fato ocorreu durante sessão ordinária da Câmara Municipal, nesta segunda (3).

"Aí você vê uma notícia: o ator Gustavo -Gustavo é homem, né?- internado com Covid, e seu marido torcendo pela melhora dele. Nós estamos tendo um desentendimento, na minha opinião. Essa coisa moderna não serve para mim", disse Seling.

"Nós não podemos perder o que há no coração de uma mãe, o que a há de mais bonito numa família unida. Pai e mãe, não marido com marido, ou 'marida', não sei como se fala essa porcaria, de tanto que odeio isso", continuou.

O ataque aconteceu um dia antes da morte de Paulo Gustavo por complicações da Covid-19, que comoveu o Brasil e rendeu homenagens de colegas de profissão do ator, personalidades internacionais, fãs, e até do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que coleciona frases e posições agressivas contra homossexuais.

O vereador começou o ataque logo depois de ler uma mensagem de outra vereadora que dizia: "Parabéns às mães e aos pais que são mães", em referência ao Dia das Mães, comemorado no próximo domingo (9). Paulo Gustavo e Thales Bretas, seu marido, são pais de dois filhos, Romeu e Gael, de um ano.

"Tem o marido e o outro é marido também, nós não podemos pregar esse tipo de coisa. Tem que saber quem que seria a mulher dos dois, para poder agradecê-lo parabenizá-lo no Dia dos Pais", disse Seling. "Eu sou da época que homem é homem, mulher é mulher. Feliz Dia das Mães que são mães", finalizou.

A reportagem tentou contato com o vereador por meio dos telefones que constam na página da Câmara de Maripá e no registro de candidatura do TSE, mas não foi atendido. A localidade tem 5.582 pessoas, segundo estimativa do IBGE, e Seling recebeu 193 votos na última eleição municipal, em 2020 e ´faz parte da igreja Igreja Batista Independente de Maripá.

Fonte: Yahoo

domingo, 2 de maio de 2021

Corpo de ativista LGBT ligado ao MST é encontrado carbonizado no Paraná

 (Foto: Rafael Stedile/Divulgação)

O corpo de Lindolfo Kosmaski, ativista LGBT e que atuava junto ao Movimento dos  Trabalhadores Sem Terra (MST), foi encontrado carbonizado na noite do último sábado (1), no município de São João do Triunfo, no Paraná. O movimento acredita que o homicídio tenha sido motivado por homofobia. 

Lindolfo tinha 25 anos e foi candidato a vereador de São João do Triunfo em 2020, pelo PT. Ativo nas atividades do movimento, principalmente do Coletivo LGBT Sem Terra e das Jornadas da Agroecologia, o militante frequentava o assentamento Contestado, na Lapa, também no Paraná. Lá, participou da turma em Licenciatura em Educação no Campo na Escola Latino Americana de Agroecologia (ELAA).

Atualmente, o militante era professor da rede estadual do Paraná. Também estava cursando o mestrado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), no programa Educação em Ciências e em Matemática.

Em nota, o movimento lamentou a morte de Lindolfo. “Neste momento de dor, o MST estende toda solidariedade à família, amigos e exige que os órgãos competentes possam acelerar as investigações e encontrar os culpados desse crime hediondo.”

Ainda no documento, o movimento afirma que o ativista “era um jovem humilde, solidário e cheio de sonhos”. Afirma ainda que exigirá justiça e punição aos assassinos do jovem. “O MST destaca o seu compromisso de lutar por uma sociedade sem LGBTfobia e na construção de um mundo onde a vida e todas as formas de ser e amar sejam garantidas plenamente. O Sangue LGBT também é sangue Sem Terra.”

FONTE: Brasil 247 

domingo, 28 de junho de 2020

Revolta de Stonewall: tudo sobre o levante que deu início ao movimento LGBT+

Fachada do bar Stonewall Inn em 2008 (Foto: Johannes Jordan/Wikimedia Commons)
Há 50 anos, os frequentadores do bar Stonewall Inn, nos EUA, resolveram dar um basta nas frequentes batidas policiais que aconteciam no local, e acabaram virando um marco de resistência

Em um vídeo que viralizou na internet, em 2018, o apresentador Ratinho faz uma crítica ao que ele considera anacronismo nas novelas da TV Globo. “A Globo colocou viado até em filme de cangaceiro, gente? Naquele tempo não tinha viado não. Você acha que tinha viado naquele tempo?”, questiona ele, referindo-se à minissérie de época Entre Irmãs, ambientada no cangaço nordestino. A resposta é: sim.

O fato de não aparecerem nos livros de história ou de não serem representados com frequência na dramaturgia não significa que gays, lésbicas, travestis, pessoas trans e intersexuais sejam uma invenção da Globo. O desconhecimento do apresentador só ilustra um dos pontos mais dramáticos da cultura LGBT+: a marginalização.

Em 1969, no entanto, isso começou a mudar. Apesar de já existirem movimentações nesse sentido, a Revolta de Stonewall se tornou o marco mais representativo das lutas pelos direitos LGBT+. Naquele ano, há cinco décadas, os frequentadores do bar Stonewall Inn, em Nova York, decidiram se rebelar contra a opressão policial que frequentemente assolava o público do lugar. 

Naquele tempo, não ser heterossexual era crime nos Estados Unidos. Nas ruas de Nova York, quem não vestisse pelo menos três peças de roupa “apropriadas ao seu gênero” poderia ser preso. E meias não contavam. Não à toa, muitas drag queens aboliram o uso de saltos altos para poder correr melhor da polícia quando necessário. Devido à “conduta indecente”, a State Liquor Authority (SLA) também proibia a venda de álcool para estabelecimentos considerados gays.

Leia também:



Quem viu nisso uma oportunidade de negócio foi a máfia italiana. Em 1966, Tony Lauria, conhecido como Fat Tony, comprou o então restaurante localizado no bairro de Greenwich Village e o transformou no bar Stonewall Inn. O poderoso chefão pagava até 1200 dólares por mês para evitar a fiscalização e vendia bebidas aguadas a um preço exorbitante.

O bar não era um paraíso. Mas era o paraíso possível para muitas pessoas. “Era um lugar seguro para nós”, afirmou ao The New York Times Mark Segal, um frequentador daquela época. “Quando as pessoas entravam no Stonewall, elas podiam andar de mãos dadas, se beijar e, o mais importante, era possível dançar." 

Se antes, viver em guetos era uma forma de proteção, depois do dia 28 de junho de 1969, mostrar-se passou a ser a forma mais eficaz de se defender. Diferente de outros dias em que apareciam mais cedo, quando o bar estava menos cheio, naquele dia, os policiais surgiram num horário de maior movimento — desrespeitando o acordo com os mafiosos. Segundo os frequentadores, a polícia entrou ameaçando prender os empregados por vender bebidas ilegais e prendendo vários clientes por conta das vestimentas “inapropriadas”. O público (incluindo o do lado de fora do bar) reagiu violentamente, fazendo provocações e atirando qualquer objeto que estivesse à mão. 

Fachada do bar Stonewall Inn em 1969
(Foto: Diana Davies/ New York Public Library/Wikimedia Commons)


"A dor, a raiva, a frustração, a humilhação, a constante insistência, a constante agitação que causaram em nossas vidas: agora era a hora de se livrar disso tudo", disse o frequentador Martin Boyce ao The New York Times. "Não precisava machucar um policial, não precisava machucar ninguém, só precisava gritar.” Nenhuma morte foi registrada, e ninguém sabe o número de feridos durante o ato.

A revolta não foi um caso isolado. A revolução sexual promovida pelo movimento hippie encontrou seu ápice justamente em 1969, quando, em agosto daquele ano, o festival de Woodstock reuniu um público cada vez mais descontente com os excessos do Estado e a violenta Guerra do Vietnã. Além disso, em 1968, o pastor Martin Luther King Jr., um dos maiores nomes na luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos, foi assassinado. Os Estados Unidos eram um barril de pólvora.

Em 1970, dez mil pessoas se reuniram para comemorar um ano da revolta, dando início às modernas paradas LGBT+ que acontecem em vários lugares do planeta, com destaque para a de São Paulo, que é considerada a maior do mundo e, em 2019, reuniu três milhões de pessoas. “As paradas do orgulho LGBT, que nós temos no Brasil hoje, me parecem que são a grande expressão daquilo que Stonewall pretendia do ponto de vista de liberação homossexual”, explicou o escritor João Silvério Trevisan, em depoimento ao programa Fantástico, da Globo. “As paradas LGBT são grande demonstração de amor.”

Fachada do bar Stonewall Inn em 1969
 (Foto: Diana Davies/ New York Public Library/Wikimedia Commons)

Entre os vários participantes da revolta, dois nomes vêm recebendo um reconhecimento tardio: Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera. Lendas e boatos cercam a participação das duas no dia da revolta: alguns dizem que elas teriam sido as primeiras a jogar pedras nos policiais, outros afirmam que elas sequer estavam no bar. Em um ensaio escrito para a revista Them, a poeta e ativista trans Chrysanthemum Tran escreveu que a discussão é irrelevante, visto que o ativismo (tanto trans quanto o racial) delas não começou, nem terminou, naquele dia. A revolta foi um levante coletivo. E ambas tiveram um papel chave nisso.

Em maio de 2019, a prefeitura de Nova York anunciou a construção de um monumento em comemoração aos 50 anos do conflito. Trata-se do primeiro monumento público permanente em homenagem a mulheres trans no mundo. “As comunidades transgênera e não-binária estão se recuperando de ataques violentos e discriminatórios em todo o país. Aqui, em Nova York, estamos mandando uma mensagem clara: nós as vemos por quem vocês são, nós celebramos com vocês e vamos protegê-las”, afirmou o prefeito Bill de Blasio, durante o anúncio. “Esse monumento a Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera vai honrar seus papéis pioneiros na luta pelos direitos humanos em nossa cidade e por todo mundo.”

O próprio bar Stonewall Inn — que funciona até hoje no mesmo lugar, mas sem as bebidas adulteradas — foi tombado como patrimônio nacional. Além dos shows de drag queens, música pop em alto volume e aparições ocasionais de estrelas como Madonna e Taylor Swift, quem entra pela portinha estreita, encontra nos dois andares do lugar, a mesma atmosfera diversa dos anos 1960. Mas, desta vez, com uma infinidade de turistas que veem na dança, na música e na diversão uma forma de homenagear todos aqueles que lutaram antes deles.

sábado, 11 de abril de 2020

Fotógrafo gay tenta ajudar vítimas de Covid-19, mas tem plasma recusado

André Ligeiro (Foto: Reprodução / Instagram)
Paulo Sampaio*, em seu blog
Infectado pelo covid-19, o fotógrafo André Ligeiro, 32 anos, começou a sentir os primeiros sintomas no dia 13 de março. Fez teste no dia 15, comprovou que estava com o vírus, passou cerca de duas semanas convalescendo até que, o fim do mês, já não sentia mais nada. “Tive muita sorte porque os sintomas foram leves, dor no corpo, coriza, fraqueza, mas sem febre.”
Plenamente recuperado, Ligeiro tomou conhecimento de que pessoas do sexo masculino que já têm o anticorpo para coronavírus e fazem parte de uma determinada faixa etária (a dele) poderiam doar o plasma para colaborar com um novo tipo de tratamento que têm dado esperança de sobrevida a pacientes em estado crítico (o mais grave).
De acordo com a notícia, veiculada em um programa de TV, os dois hospitais que ofereciam esse procedimento eram o Sírio-Libanês e o Einsten, ambos em São Paulo. A fim de obter informações complementares, Ligeiro ligou no dia seguinte para o Sírio, que fica mais perto de sua casa.

Cadastro básico

“A pessoa que me atendeu fez o meu cadastro e disse que eu seria procurado ainda naquele dia. Pouco depois, recebi a ligação de uma médica que me perguntou se eu tomava algum remédio controlado, se era hipertenso, se tinha problema no coração, enfim, se eu preenchia todos os pré-requisitos exigidos de um doador de sangue.”
Na ligação, a médica marcou para dali a três dias uma visita de Ligeiro ao hospital. Informou que o submeteriam a um teste sorológico, para saber se ele era portador de alguma doença que o impedisse de ser doador. “Se estivesse tudo ok, eu precisaria comparecer ao banco de sangue do hospital a cada sete dias, durante quatro semanas, para eles retirarem o plasma.”
No procedimento, o sangue sai do braço, passa por uma máquina que retira o plasma, e volta para o doador.

Só uma pergunta

Ciente do desconforto, mas disposto a ajudar, Ligeiro topou se submeter ao processo. Mas faltava fazerem uma pergunta:
— Qual a sua orientação sexual?
— Eu estou casado há três anos com um homem.

Banido da lista

Aparentemente, trata-se da questão que mais pesa em toda investigação. Graças a ela, não realizaram nem o teste sorológico em Ligeiro. Banido da lista de doadores, ele recebeu a informação de que faz parte da população em que se verifica a maior incidência do vírus HIV, causador da Aids. O fato de ser um homem que faz sexo com homem (HSH), aumentaria o risco de transmissão do vírus ao receptor.
A recusa não é uma conduta exclusiva do Sírio-Libanês. De acordo com a Portaria GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017, do Ministério da Saúde, homens que tiveram relações sexuais com outros homens nos 12 meses que precedem a doação não podem participar do processo. Uma resolução da Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) endossa a portaria.

Segurança transfusional

Apesar do baixo estoque nos bancos de sangue, o ministério decidiu manter o impedimento aos HSH na pandemia. Diz que é uma questão de “segurança transfusional”.
De acordo com o ministério, não se trata de discriminação pela orientação sexual. Informam que o Brasil segue uma recomendação da OMS (organização Mundial da Saúde), e a decisão se baseia em pesquisas epidemiológicas feitas aqui.

Janela imunológica

A coluna indagou à assessoria do ministério se o teste do HIV não seria suficiente para verificar se o doador tem o vírus. Não obteve resposta até a publicação do post. De qualquer forma, especialistas informam que o período de contágio, chamado de “janela imunológica”, compreende apenas três meses.
Até o surto de covid-19, os Estados Unidos também seguiam a orientação da OMS. Em uma decisão emergencial, porém, a FDA (Foods and Drugs Adminisrtration) baixou o prazo de 12 para três meses. O órgão diz que vai manter a decisão depois da pandemia.
Indignado, Ligeiro faz uma solicitação: “Avisa a OMS e ao ministério da Saúde que há inúmeros homens heterossexuais, casados com mulher inclusive, que fazem sexo anal com outros homens.”
*Paulo Sampaio - Colunista da UOL..




FONTE: Pragmatismo Político

quinta-feira, 14 de março de 2019

Atiradores de Suzano viram heróis em fórum brasileiro de extremistas


Os atiradores Luiz Henrique de Castro, de 25 anos e Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos ganharam status de heróis nos fóruns brasileiros disseminadores de ódio. Os chamados ‘Chans’.

Nesta quarta-feira (13), os dois mataram 7 pessoas na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP). Um comerciante que trabalhava perto do local e era tio de um dos atiradores também foi assassinado. Luiz e Guilherme eram ex-alunos da escola.
Reportagem do portal R7 informou que Luiz Henrique e Guilherme integravam o Dogolachan, fórum que só é acessível na darknet. A matéria revela que os jovens recorreram ao fórum para pedir dicas de como executar o atentado na escola.
No dia 7 de março, um dos atiradores teria publicado um agradecimento ao administrador do fórum, conhecido como DPR. “Muito obrigado pelos conselhos e orientações, DPR. Esperamos do fundo dos nossos corações não cometer esse ato em vão”, diz trecho da mensagem.

Luiz Henrique era conhecido no fórum como “luhkrcher666” e Guilherme como “1guY-55chaN”. Todas as conversas entre os atiradores foram deletadas previamente ao atentado.
O fórum 55chan também celebrou o massacre em Suzano (SP). Assim como o Dogolachan, o espaço costuma criar conteúdo de ódio contra mulheres, negros, pobres e homossexuais.
Alguns membros dos chans chegaram a lamentar o fato de Luiz Henrique e Guilherme não terem conseguido assassinar mais pessoas que o autor do Massacre de Realengo, em 2011. Na época, Wellington Menezes de Oliveira matou 12 crianças e depois cometeu suicídio.

Operação da Polícia Federal

Em maio de 2018, a Operação Bravata da Polícia Federal tentou desmantelar o Dogolachan. Na ocasião, os policiais prenderam Marcelo Valle Silveira Mello, apontado como fundador do Chan (relembre aqui).
Em dezembro de 2018, Marcelo foi condenado a 41 anos de prisão. O analista de sistemas pregava há vários anos a morte de mulheres, negros, gays e comunistas. Além disso, o extremista defendia abertamente a pedofilia e chegou a gerenciar páginas que traziam manuais sobre como “aplicar estupros corretivos em lésbicas” e violentar menores de idade.
Na ocasião, a professora universitária e militante feminista Lola Aranovich, uma das principais vítimas de Marcelo, comemorou a decisão: “Vitória e grande alívio! Marcelo Valle Silveira Mello, líder de quadrilha neonazista e misógina que me atacou durante 7 anos, foi condenado a 41 anos de prisão! Estou muito feliz”.
A prisão de Marcelo só foi possível porque Lola Aranovich passou quase uma década denunciando todas as ações de ódio e ameaças cometidas pelos membros dos fóruns contra ela.
Foi do Dogolachan que partiram algumas das ameaças de morte que motivaram o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL) a desistir do mandato de parlamentar e sair do Brasil. Membros do Chan são denunciados no Pragmatismo Político desde 2012.

1 ano e meio

Um policial que investiga o atentado afirmou no início da noite desta quarta-feira que o atentado contra a escola em Suzano foi planejado durante 1 ano e meio. Segundo o policial, os atiradores conversaram sobre o ataque por meio de mensagens de texto. O teor das conversas não foi informado.
Uma das linhas de investigação da Polícia Civil é a de que o tio de Guilherme tenha descoberto o plano da dupla e, por isso, os criminosos teriam feito uma “queima de arquivo”.
O carro usado pela dupla, um Onyx branco, foi alugado por Luiz Henrique, segundo nota da Localiza, em 21 de fevereiro, com devolução para o dia 15 deste mês. A polícia apreendeu dois cadernos escolares encontrados no carro, nos quais há desenhos. O material será analisado por investigadores.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Escola afasta professora por aula sobre religião de matriz africana



Maria Firmino registrou B.O, há suspeita de
proselitismo 

A Escola de Educação Infantil e Fundamental Tarcila Cruz de Alencar, de Juazeiro do Norte (CE) [mapa abaixo], afastou a professora de história Maria Firmino (foto), 42, dos alunos após ela ter dado aula sobre religiões de matriz africana. 

Designada para serviços burocráticos, Firmino, que segue uma dessas religiões, acusa a direção da escola, servidores, pais e alunos de intolerância religiosa.



De acordo com B.O. da professora na polícia, no dia em que ela deu a aula, em 20 de abril de 2018, três estudantes manifestaram descontentamento, com suposta simulação de mal-estar.

Depois, na rua, parentes de alunos gritaram para a professora ‘sai Satanás’, ‘vou pegar essa feiticeira’ e ‘ninguém pode mais do que Deus’.

Trata-se de bordões típicos de evangélicos neopentecostais.

Mãe de uma ex-aula teria dito que a religião da professora é 'demoníaca', conforme está relatado o B.O.

A Secretaria da Educação de Juazeiro diz não ter sido informada de nada, mas a professora afirma que a titular da pasta, Maria Loreto, teve uma reunião com a direção da escola para tratar do assunto.

Se a professora se valeu da obrigatoriedade de falar sobre "patrimônio material, imaterial e natural de matriz africana”, de acordo com o currículo escolar, para proselitismo de sua religião, ela deveria ter sido advertida pela direção da escola para que respeitasse a laicidade de Estado.

Mas, se fosse uma professora evangélica ou católica fazendo pregação, provavelmente nada teria acontecido com ela.


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Mulher de minissaia pode ser culpada por assédio, diz Defensor Público


Defensor Público Geral de Pernambuco, Manoel Jerônimo afirmou que a vestimenta de uma mulher é parte de um simbolismo que “diz muito para fins de processo, para fins de condenação ou absolvição no campo criminal”. A declaração foi feita em 11 de janeiro, em uma entrevista à Rádio Recife, quando o defensor comentava sobre casos de assédio e estupro.
Na entrevista, Jerônimo – que também é vice-presidente do Colégio Nacional de Defensores Gerais – declarou que “um local de muita movimentação, uma mulher estar de minissaia, a mulher fica sujeita a uma pessoa interpretar que ela está seduzindo ou por ventura dando oportunidade para uma paquera, um namoro e quem sabe até algo mais sério”.
De acordo com o defensor, seria importante então que a mulher demonstrasse “de forma simbólica, que não está ali para nenhum tipo de paquera e as vestes demonstram muito isso”.

Repúdio

Após a entrevista, a Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares manifestou-se, em nota, repudiando as declarações do Defensor. “Diferentemente do que afirma o Defensor Público ao declarar que as vestes servem como ‘simbolismo’ da vontade da mulher – anulando a autonomia e capacidade das mulheres falarem –, é fundamental que se ensine aos meninos e homens que não há outra forma para se saber sobre a vontade da mulher além da afirmação positiva, consciente e sóbria sobre seus desejos e suas vontades. Não é não e a ausência de sim também é não”, diz a nota.
No documento, os advogados criticam a culpabilização da vítima, considerando que “é apenas mais uma das várias ferramentas de manutenção do sistema do patriarcado, o qual exerce controle territorial sobre os corpos das mulheres (…)”.
O liberalismo penal reforçado pelo Defensor Público Geral de Pernambuco se funda em vieses claramente patriarcais e opressores e revela o quão entranhada nas instituições públicas a cultura do estupro ainda está”, afirma a nota.
Leia a nota na íntegra:
NOTA DE REPÚDIO CONTRA AS DECLARAÇÕES DE MANOEL JERÔNIMO, DEFENSOR PÚBLICO GERAL, EM ENTREVISTA CONCEDIDA À RADIO RECIFE EM 11 DE JANEIRO DE 2018
Em 11 de janeiro de 2018, o Defensor Público Geral Manoel Jerônimo, em entrevista concedida à Rádio Recife, ao comentar sobre os casos de assédio e de estupro contra as mulheres, afirmou que “um local de muita movimentação, uma mulher estar de minissaia, a mulher fica sujeita a uma pessoa interpretar que ela está seduzindo ou por ventura dando oportunidade para uma paquera, um namoro e quem sabe até algo mais sério. Então é importante que ela demonstre, de forma simbólica, que não está ali para nenhum tipo de paquera e as vestes demonstram muito isso. […] O simbolismo do vestir diz muito para fins de processo, para fins de condenação ou absolvição no campo criminal”.
Com essas palavras, o Chefe da Defensoria Pública do Estado considera que, em caso de crime sexual, a vestimenta que a mulher utilizava no momento da agressão deve ser levada em consideração pelo juiz para fins de diminuição da pena e até para fins de absolvição do agressor, em um claro movimento de culpabilização da própria vítima pela violência sofrida.
As declarações do Defensor, embora chocantes, não são isoladas no Brasil. Em um país que no ano de 2017 contou com cerca de 135 estupros diários, dos quais 10 deles são casos de estupros coletivos (dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Ministério da Saúde), vários juristas ainda defendem o judiciário enquanto instrumento de controle sexual/patrimonial do corpo e da vida das mulheres. Esquecem-se, no entanto, que muito mais importante do que regular as vestes das meninas, adolescentes, jovens, adultas e idosas estupradas, é educar os homens a respeitarem a liberdade sexual e a dignidade de todas as mulheres e a entenderem que ROUPAS NÃO FALAM.
Diferentemente do que afirma o Defensor Público ao declarar que as vestes servem como “simbolismo” da vontade da mulher – anulando a autonomia e capacidade das mulheres falarem –, é fundamental que se ensine aos meninos e homens que não há outra forma para se saber sobre a vontade da mulher além da afirmação positiva, consciente e sóbria sobre seus desejos e suas vontades. Não é não e a ausência de sim também é não.
A culpabilização da vítima é apenas mais uma das várias ferramentas de manutenção do sistema do patriarcado, o qual exerce controle territorial sobre os corpos das mulheres, tudo com a finalidade de decepar desde cedo a autonomia da mulher, mantendo-a longe dos espaços públicos e, portanto, dos espaços de tomada de decisões políticas, econômicas e sociais as quais regem suas próprias vidas.
É preciso, portanto, denunciar as violências contidas nos discursos produzidos no campo penal, inclusive aqueles discursos pretensamente voltados para a defesa das garantias. O processo de construção do discurso jurídico, por parte de doutrinadores e de atores que operam na prática o sistema de justiça criminal (sujeitos masculinos), não se dá de forma neutra. O liberalismo penal reforçado pelo Defensor Público Geral de Pernambuco se funda em vieses claramente patriarcais e opressores e revela o quão entranhada nas instituições públicas a cultura do estupro ainda está.
Apesar das forças machistas, misóginas e violentas que rondam o mundo do Direito e as vidas de todas as mulheres, permaneceremos a nadar de mãos dadas em direção a um mundo em que as mulheres possam usar a roupa que quiserem, andar a hora que quiserem na rua, com ou sem acompanhante, sem medo de serem agredidas, violadas e estupradas por homens que sairão livres das acusações em razão das ideias defendidas pelo Defensor Público e por tantas outras pessoas na sociedade.
A culpa nunca é da vítima.
Juntas somos mais fortes.
(Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares – RENAP-PE)

Outro lado

Ao responder a matéria do Justificando, o Defensor Público Geral Manoel Jerônimo afirmou que:
Em resposta a matéria publicada neste site, intitulada “Defensor Público diz que mulher de minissaia está dando oportunidade para assédio”, esclareço os seguintes pontos:
1) Em respeito a todas as mulheres peço desculpas por algumas afirmações, mesmo que colocadas fora de contexto, feitas por mim, em entrevista concedida a Rádio Recife no dia 11/01/2018. Em nenhum momento meu objetivo foi direcionar a mulher a culpabilidade por qualquer crime que ela venha a ser vítima.
2) Em toda minha carreira, seja como advogado ou servidor público, sempre promovi ações afirmativas em favor das mulheres. Aqui em Pernambuco, a frente da Defensoria Pública, temos uma gestão de maioria feminina, inclusive com sua expressiva maioria ocupando cargos de confiança e direção (70% a 30%).
3) É do conhecimento público a pauta de conduta cidadã que tenho observado no exercício do cargo de Defensor Público-Geral do Estado de Pernambuco, como servidor público, respeitando os princípios do Estado Democrático de Direito. Afirmo que, em minha convicção, a mulher detém pura e total liberdade para ser e vestir o que quiser e quando quiser – tudo de acordo com a sua forma de se identificar.
4) Do ponto de vista da gestão e combate a violência contra a mulher, criamos um núcleo específico para tratar do tema, lutando por políticas públicas em favor das mulheres, inclusive das segregadas de liberdade, o que nos garantiu a indicação ao prêmio INNOVARE, onde concorremos ano passado.
5) Por fim, mais uma vez, peço desculpas pelas declarações feitas e reafirmo que não tive em momento algum a pretensão de expressar qualquer forma de preconceito contra as mulheres.
Manoel Jerônimo
Defensor Público-Geral do Estado”.

E se a professora do seu filho fosse uma travesti?

Texto de Ana Flor Fernandes Rodrigues para as Blogueiras Feministas.
O título desse texto surgiu de questionamentos e inquietações que tenho feito cotidianamente desde que iniciei o curso de pedagogia na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Não obstante, do medo que parece existir quando LGBTs, neste caso específico travestis, adentram o campo minado da educação e miram na probabilidade de construir processos de ensino e aprendizagem junto aos filhos de outros.
Antes de tudo, gostaria de destacar que esse é um escrito cheio de sensações. É impossível falar dos filhos, de crianças, sem lembrar como para muitas de nós os muros das escolas se mostraram ambientes violentos. Foi no espaço escolar que aprendemos, muitas vezes, a criar mecanismos de proteção e sobrevivência. Quem diria que, algum dia, estaríamos nela novamente, mas dessa vez enquanto professoras dos filhos daqueles que de lá tentaram nos expulsar?
Pensar travestis sendo professoras é compreender que nós podemos seguir roteiros diferentes dos quais fomos submetidas. Não quero dizer com isso que existe uma regra ou um manual, mas que existem possibilidades de criar novas narrativas que abarquem o chão das escolas e os filhos de vocês. É proporcionar uma didática que se faça inclusiva, trabalhando as diferenças e o diálogo.
Tenho pontuado nos textos que escrevo que é necessário nos dar oportunidades para que uma mudança aconteça. Se não essa mudança, uma tentativa da mesma. Nós faremos, de alguma forma, parte da arquitetura da vida dos seus filhos, mesmo que esse não seja um desejo da grande maioria. Afinal, não se pode escrever qualquer linha sem esquecer como o Brasil é um país líder em transfobia.
O saber docente nos permite desfrutar de muitas coisas. Duas delas é aprender e diversificar o ensino. Com vocês, conosco, com os nossos filhos e os filhos dos seus filhos. Travestis, cada vez mais, mesmo que timidamente, estão escolhendo o tablado da educação como artificio de um novo hoje e um outro amanhã. Isso, quem sabe, significa que estamos percebendo que essa é uma “ferramenta” que pode nos fornecer subsídios.
As problemáticas que ligeiramente tento flexionar nesse curto texto em breve serão outras, espero. Assim como também espero muitas travestis gestoras, secretárias de educação, acadêmicas que debatem currículo e, por fim, professoras. Outrora, cogito que talvez os filhos de vocês, caso construam saberes junto ás professoras que são travestis, possam se edificar sujeitos que não mais nos coloquem às margens de uma sociedade transfóbica, mas que contribuam para um ensino democrático.
Também escrevo por acreditar que um dia, no jardim das delicias e dos prazeres, o fato de uma travesti professora não se fará um tabu ou um processo judicial; ou que os filhos de vocês precisem trocar de escola por muito mais vontade dos pais e familiares do que deles próprios.
Assim sendo, sinalizo mais uma vez que hoje, mais do que nunca, temos a oportunidade de estruturar novas perspectivas. Logo, nos convido para uma simples ou profunda reflexão a depender de quem ler e como ler: e se a professora do seu filho fosse uma travesti?
Autora
Ana Flor Fernandes Rodrigues, 21 anos. Graduanda em Pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Estagiária em Assistência Pedagógica na Organização Galera da Redação. Estuda e Pesquisa em temas relativos à gênero e sexualidade. Modéstia parte, uma travesti muito bonita! Militante por direitos para travestis e pessoas trans.
Créditos da imagem: Ana Flor Fernandes Rodrigues, foto pessoal.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A mulher que fugiu para salvar dois bebês intersexuais de seus próprios pais


Há cinco anos, uma parteira no Quênia ajudou uma criança que tinha órgãos genitais masculinos e femininos a nascer.

O pai ordenou que ela matasse o bebê, mas, em vez disso, ela escondeu e criou a criança como se fosse dela. Dois anos depois, a mesma coisa aconteceu - e ela se viu obrigada a fugir para salvar a vida das crianças.

Como uma parteira tradicional no oeste do país africano, Zainab estava acostumada a realizar partos e trabalhou em dezenas de nascimentos. Mas nenhum como aquele de 2012.

Foi um parto difícil, mas nada com que ela não soubesse lidar. O cordão umbilical estava enrolado na cabeça da criança e ela precisou agir rapidamente, usando uma colher de madeira para desenrolá-lo.


Depois de liberar as vias respiratórias e limpar o bebê, ela cortou o cordão umbilical e viu algo que nunca tinha visto antes.

"Quando olhei para saber se era menino ou menina, eu vi uma protusão - esse bebê tinha órgãos masculinos e femininos", disse.

Em vez de dizer o que estava acostumada em momentos como aquele - "É um menino", ou "É uma menina" -, Zainab apenas entregou a criança à mãe e disse: "Aqui está seu bebê".

Quando a mãe, exausta, viu que o sexo do bebê não estava definido, ficou impressionada. O marido chegou e não teve dúvidas do que deveria ser feito.

"Ele me disse: 'Não podemos levar esse bebê para casa. Queremos que ele seja morto'. Eu disse que a criança era uma criatura de Deus e que não poderia ser morta. Mas ele insistiu. Então respondi: 'deixe o bebê comigo, eu o matarei para você'. Mas eu não o matei, eu fiquei com ele", conta Zainab.


O pai voltou a procurar Zainab várias vezes para garantir que ela tinha cumprido a promessa. Ela escondia a criança e dizia que havia matado o bebê. Mas isso não funcionou por muito tempo.

"Um ano depois, os pais ouviram dizer que o bebê estava vivo e vieram me ver. Disseram que eu jamais poderia revelar que o bebê era deles. Eu concordei e desde então crio a criança como se fosse minha."
Crenças tradicionais

Foi uma decisão rara - e arriscada.

Na comunidade de Zainab, assim como em outras no Quênia, um bebê intersexual é visto como mau presságio, que traz maldição para a família e os vizinhos. Ao adotar a criança, Zainab estava desrespeitando as crenças tradicionais e corria risco de ser responsabilizada por qualquer infortúnio.

Isso foi em 2012. Dois anos depois, Zainab ficou impressionada ao se deparar, durante mais um parto, com um segundo bebê intersexual.

Apesar de não haver estatísticas confiáveis sobre quantos quenianos são intersexuais (ou seja, nascem com os dois órgãos sexuais), os médicos acreditam que a incidência seja a mesma de outros países - aproximadamente 1,7% da população.

"Dessa vez, os pais não me pediram para matar a criança. A mãe estava sozinha e simplesmente fugiu, e me deixou com o bebê."

Mais uma vez, Zainab levou a criança para casa e a criou como parte da família. Mas o marido dela, um pescador no lago Victoria, não gostou da ideia.


"Quando íamos ao lago pescar e a pescaria era ruim, ele colocava a culpa nas crianças. Ele disse que elas tinham lançado uma praga sobre nós e sugeriu que eu entregasse as crianças para que ele pudesse afogá-las no lago. Eu disse que jamais permitiria aquilo. Ele então ficou violento e começamos a brigar o tempo todo", contou.

Zainab ficou tão preocupada com o comportamento do marido que decidiu deixá-lo e levar as crianças consigo.

"Foi uma decisão difícil porque financeiramente eu tinha uma situação confortável com meu marido, já tínhamos filhos criados e até netos. Mas ninguém consegue viver em um ambiente com tantas brigas e ameaças. Eu fui forçada a fugir."

As condições de nascimento de crianças vêm mudando no Quênia. Cada vez mais, as mulheres têm trocado os vilarejos por hospitais ao dar à luz. Mas até pouco tempo o uso de parteiras era regra, e havia uma norma tácita sobre como lidar com bebês intersexuais.

"Elas costumavam matar essas crianças", diz Seline Okiki, diretora do Ten Beloved Sisters, grupo de parteiras tradicionais do oeste do Quênia.

"Se um bebê intersexual nascia, automaticamente era visto como maldição e não poderia viver. Já era comum entre as parteiras - elas matavam as crianças e diziam às mães que o bebê havia nascido morto."

FONTE: Terra