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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Facebook passa pano para o racismo




Há dois anos, uma página do Facebook de "orgulho branco" – seja lá o que isso for – ostenta um mapa-múndi com a porcentagem de pessoas brancas em cada país na linha do tempo. Nos comentários, os seguidores lamentam a "queda" no percentual da população branca no mundo. "Portugal está até bem", conforma-se um. "O número de brancos está diminuindo </3", lamenta outro. "Coincidência as regiões com maior concentração branca (com exceção de Japão e Coreia do Sul) serem desenvolvidas, e os restantes subdesenvolvidos, não é mesmo?", ironiza um terceiro.

Nada disso é considerado problemático pelo Facebook, que mantém o conteúdo no ar há dois anos.

Depois da denúncia de um leitor, encontrei pelo menos cinco páginas do tipo na rede social, que somam cerca 30 mil de seguidores. Escondidas sob a denominação do orgulho – "branco", "eurodescendente" ou "caucasiano" –, elas proliferam conteúdo supremacista, racista e xenofóbico feito sob medida para ser tolerado pelo Facebook. Não divulgaremos os nomes, os links das páginas e nem prints para evitar que o conteúdo se espalhe ainda mais.

A página mais antiga que encontrei existe desde 2013. Apesar de já ter tido alguns posts removidos pelo Facebook, continua funcionando normalmente. O objetivo dela é defender e exaltar a "raça branca", expondo o suposto "racismo reverso" das outras raças e criticando a miscigenação.

Nas páginas, posts relativizando a escravidão são comuns. Também proliferam notícias sobre crimes cometidos somente por pessoas negras – não preciso nem comentar o teor dos comentários que esses posts despertam. Fingindo que não são brasileiros e, portanto, latinos, os criadores das páginas exaltam a Polônia de hoje e os feitos da Alemanha do passado – onde provavelmente seriam vítimas da supremacia xenofóbica que pregam – e as cidades de colonização europeia do sul do país.

Nem todos os brancos são motivo de orgulho: o presidente da França, Emmanuel Macron, é muito criticado pela abertura que seu país dá para imigrantes não brancos. A França tem a terceira maior população de refugiados da Europa, atrás apenas da Turquia e da Alemanha, segundo um relatório publicado em junho pela Agência da ONU para Refugiados.

Os posts em geral são irônicos, sutis e evitam ataques diretos – uma maneira de seus donos se protegerem de eventuais derrubadas do Facebook. É nos comentários que a intolerância desenfreada acontece: chancelados pelos donos da página e por outros comentaristas, os racistas ficam à vontade para publicar o que quiserem. "Se esses imigrantes fossem pessoas boas o país deles seria um bom país", diz um comentário, no ar há dois meses. "Escondo até carteira e celular", diz outro, em uma foto com uma mulher negra segurando um cartaz.

Em seus padrões de comunidade, o Facebook define "discurso de ódio" como um "ataque direto a pessoas" de acordo com sua raça, etnia, nacionalidade, filiação religiosa, orientação sexual, casta, sexo, gênero, identidade de gênero e doença ou deficiência grave. A empresa diz que discursos degradantes (como comparar pessoas a vermes, excrementos ou criminosos) são proibidos – mas, pelo jeito, comentários xenofóbicos não são encarados desse jeito pela rede social.

Perguntei ao Facebook por que essas páginas continuam no ar. Simples: a rede social não acha que elas violaram seus termos de uso – ou que, pelo menos, não há "evidência clara" de que essas páginas incitam o ódio. "Removemos conteúdos quando temos evidências claras disso, bem como Perfis ou Páginas que publiquem tais conteúdos repetidamente", defendeu-se a rede social. "Vale ressaltar que, neste trabalho de revisão de conteúdo, buscamos encontrar um equilíbrio entre manter as pessoas seguras e dar voz a elas.” De fato, a questão é simples: para o Facebook, não há racismo em comentários racistas.

Em setembro de 2018, o Counter Extremism Project, projeto que monitora e propõe políticas para combater o extremismo online, identificou 40 páginas de lojas virtuais que vendiam roupas, músicas e acessórios com temática supremacista branca. Todas foram denunciadas – mas o Facebook só derrubou cinco delas. As que sobraram? Cresceram em audiência. "Claramente, o processo do Facebook de revisar e remover esse conteúdo – que viola seus termos de uso – é inadequado", avalia o projeto.

Em março, a empresa anunciou mudanças na forma como lida com nacionalistas e separatistas brancos. O anúncio foi feito 12 dias depois de um desses supremacistas matar 50 pessoas em uma mesquita na Nova Zelândia, em um massacre transmitido ao vivo pela rede social.

O Facebook disse que já bania expressões racistas. A diferença era que, a partir de então, o nacionalismo branco (que defende que brancos têm uma identidade que está ameaçada) e o separatismo branco (que defende que brancos sejam apartados das outras raças por conta de sua superioridade fantasiosa) passaram a ser considerados violações. Antes, o Facebook considerava que manifestações nacionalistas e separatistas eram legítimas. "Embora as pessoas ainda possam demonstrar orgulho por sua herança étnica, não toleraremos enaltecimentos ou apoio ao nacionalismo e separatismo branco", disse a rede social no anúncio das mudanças.

As páginas supremacistas já sabem que operam no limite da tolerância no Facebook. Além das contas extras que mantêm caso as principais sejam derrubadas, elas evocam, nas suas descrições, o artigo 5º, inciso quatro, da Constituição – o que garante a liberdade de expressão. Na balança do Facebook, "dar voz" a essas páginas tem sido mais importante do que proteger as vítimas – por vezes fatais, como no caso da Nova Zelândia – desse discurso intolerante. Não custa lembrar que a mesma Constituição, alguns artigos antes, assegura a todas as pessoas a dignidade e repudia o racismo – mesmo que travestido de "orgulho".


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Blumenau, os cartazes contra “negros e macumbeiros” e a Gestapo brasileira.

Por Mauro Donato*

Às vésperas da Oktoberfest, a cidade de Blumenau (SC) viu cartazes colados em postes com a seguinte mensagem: “Negro, comunista, antifa e macumbeiro, estamos de olho em você”. A imagem ameaçadora traz um encapuzado da Ku Klux Klan.

Um advogado, Marco Antonio André, teve os cartazes colados na porta de sua casa. Marco Antonio é negro e segue o Candomblé. Ele reagiu nas redes sociais: “Continuarei na minha luta por uma sociedade justa e igualitária. Farei, agora mais do que nunca, parte da Comissão da Verdade pois em Blumenau há muitas histórias que não foram contadas”, postou no Facebook.
O histórico de Blumenau não é dos melhores, mas desde 2014 os nazistas de lá andam mais atrevidos. A prática de afixar os chamados ‘lambes’ nos postes também. Naquele ano, um grupo denominado White Front colou diversos cartazes com o rosto de Adolf Hitler pela cidade.
Pelo menos dois de seus integrantes foram identificados porque não se preocuparam nem mesmo com suas postagens de apologia ao nazismo em redes sociais. Kaleb Rodrigo Frutuoso e Fabiano Antônio Schmitz foram presos.
É de Blumenau também o cidadão Wander Pugliesi. Professor de história (veja você a ironia), é ele o proprietário da famosa piscina que tem uma suástica estampada no fundo cuja imagem foi captada ao acaso em um sobrevoo e depois viralizou.
Adorador de Hitler, deu o nome de Adolf a seu filho. Faz apologia ao nazismo sem medo de ser feliz, odeia os filmes sobre o período da Segunda Guerra (considera-os mentirosos) e sua casa é praticamente um museu nazista. Objetos, livros, bandeiras, pôsteres do Fürher.
Entre as duas guerras mundiais, os imigrantes alemães vindos para cá concentraram-se no sul. Claro que nem todos eram adeptos ou simpatizantes do nazismo. Mas há que se levar em conta que o maior partido nazista fora da Alemanha pouco antes do início da Segunda Guerra ficava no Brasil.
O partido nunca foi registrado na justiça eleitoral brasileira, mas funcionou durante 10 anos, de 1928 a 1938. E Santa Catarina era o estado com o segundo maior número de nazistas. Daí compreende-se um pouco melhor a volta dessa bactéria letal. Ali é um de seus habitats.
Retornando ao ‘professor’ dono da piscina, Wander Pugliesi, ele é atuante na apologia nazista desde 1994 pelo menos. São 23 anos de dedicação a propagar a filosofia e captar adeptos. Não era de se prever que alguns frutos nasceriam?
Não é portanto de se estranhar essa Gestapo blumenauense que anda colando cartazes de cunho racista, xenófobo e higienista.
Hannah Arendt considerava os nazistas como pessoas ‘vazias de pensamento’.  Primeiramente acredito que alguém que deseje eliminar – físicamente até – ‘o outro’ não está vazio e sim cheio de ódio. E está pensando nisso noite e dia.

Bolsonaro na Oktoberfest de 2015: aí sim

Em segundo lugar, sou mais propenso a concordar com o filósofo Pablo Ortellado que considera altamente perigoso essa postura de considerar alguém como Jair Bolsonaro como intelectualmente limitado, uma aberração inofensiva, de alcance pouco expansivo.
Não apenas os índices de aceitação a candidatos como ele vêm subindo como o mundo inteiro tem dado mostras de que a extrema direita vem ganhando campo. O porque disso não caiba num espaço menor que um livro por isso não irei me alongar aqui. Mas é fato. O berço do nazismo, a Alemanha, terá que lidar a partir de agora como nada menos que 94 deputados da AfD no parlamento.
*Mauro DonatoJornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo.

FONTE: DCM

terça-feira, 12 de julho de 2016

"O fascismo perdeu a vergonha na cara"


Do Blog do Miro

“Boooora bando de desgraça.
Quero ver se segunda ninguém vai oprimir esse filho da puta”.
“A gente tira uma foto com ele e na hora fala Bolsonaro presidente.
Alguém filma a gente na hora”.

O diálogo acima foi travado nas redes sociais em meados de junho, entre usuários de um grupo do aplicativo WhatsApp. O “filho da puta” a ser “oprimido” era o deputado federal Jean Wyllys (PSol-RJ), convidado pelo curso de cinema da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) para dar uma conferência sobre audiovisual, política e diversidade no campus da instituição em Vitória da Conquista (BA), a pouco mais de 500 quilômetros de Salvador – quase a mesma distância até Alagoinhas, cidade natal do deputado.

A conferência ocorreu em 27 de junho, uma segunda-feira. O grupo virtual foi criado pouco mais de dez dias antes com o objetivo específico de organizar algum tipo de manifestação contrária à presença de Jean Wyllys na cidade. Não por acaso, o nome dado ao agrupamento foi “Fora de VCA [Vitória da Conquista] Jeanus”. Os diálogos revelam que os membros eram simpatizantes do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), contra quem Jean Wyllys desferiu uma cusparada no dia 17 de maio, após ouvir dele ofensas de cunho homofóbico. A troca de insultos entre os dois ocorreu durante a sessão da Câmara dos Deputados que decidiu pelo prosseguimento do processo de impeachment contra a presidente eleita – e agora afastada – Dilma Rousseff (PT).

A postura ultraconservadora de Bolsonaro, militar da reserva e parlamentar representante de setores abertamente reacionários, assim como sua repulsa em relação ao que circula em torno de Jean Wyllys – único homossexual assumido na Câmara Federal, defensor de temas como a união afetiva, legalização do aborto e a descriminalização do consumo de maconha, além de ser filiado a um partido de esquerda –, foram reproduzidas pelos integrantes do grupo no WhatsApp. Inclusive quando eles discutiram sobre os métodos a serem utilizados num eventual ato de hostilidade contra o deputado do PSol.

“Vamos brigar tbm?”

“Se eu fosse ia esculhambar”

“Galera o que acha de chegarmos cedo no 'debate' do deputado, pegarmos as primeiras cadeiras e quando ele começar a falar, todos nós abrirmos um guarda-chuva?”

O ato de abrir guarda-chuvas seria uma alusão, pretensamente irônica, à cusparada com que o conferencista atingiu Bolsonaro. Um outro usuário, mais pragmático, parece reconhecer o poder de argumentação de “esquerdistas” como Jean Wyllys, e recomenda aos colegas do grupo que tenham prudência se conseguirem lhe dirigir alguma pergunta. Ao fazer isso, insiste em outra tentativa de chiste, desta vez ironizando a orientação sexual do parlamentar baiano.

“Todo esquerdista argumenta bem. Por isso se rolar pergunta ao deputado Jeanus, tem que ter calma pra não mandá-lo se fuder. Até pq ele gosta. Mas pra responder a altura”.

No mesmo grupo, outro usuário posta a fotografia de um produto que acabou de adquirir: um exemplar do livro A Verdade Sufocada: a História que a Esquerda não Quer que o Brasil Conheça, de autoria do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Morto em outubro de 2015, aos 83 anos, Ustra comandou, entre 1970 e 1974, o Destacamento de Operações de Informações (DOI-Codi) de São Paulo, um dos principais órgãos de repressão a militantes de esquerda durante a ditadura militar (1964-1985). O coronel foi apontado por dezenas de perseguidos políticos e familiares de vítimas da ditadura por responsabilidade na perseguição, tortura e morte de presos políticos.

‘O fascismo perdeu a vergonha’

Segundo Jean Wyllys, um exemplar desse mesmo livro também foi enviado a seu gabinete em Brasília, junto com a recomendação de que ele, Jean, conhecesse “o lado dele”, o coronel Ustra. “Não sei se ele pessoalmente enviou”, conta o deputado. “Claro que encaminhei o livro para o lugar certo: a lata de lixo da história”.

Foi à memória de Ustra que Bolsonaro dedicou seu voto favorável ao impeachment, ressaltando que o coronel seria “o pavor de Dilma Rousseff”. Explica-se: em 1970, Dilma, então com 22 anos e militante do grupo guerrilheiro Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), foi submetida a sessões de tortura durante os 22 dias em que esteve presa no DOI-Codi paulista.

Bolsonaro qualificou o dia 17 de maio como um “dia de glória para o povo brasileiro”, e parabenizou o então presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – hoje afastado do cargo e respondendo a processo no Conselho de Ética da Câmara por quebra de decoro, além de envolvido em várias citações de corrupção – pela forma como “conduziu os trabalhos”. Afirmou que os que “perdiam” em 2016 eram os mesmos que “perderam” em 1964. Para justificar seu “sim” ao pedido de impeachment, citou “a família”, a “inocência das crianças em sala de aula”, a “nossa liberdade”, o “Exército de Caxias”, a “nossas Forças Armadas” e “Deus”. O mesmo voto, segundo ele, era contra “o comunismo” e o “Foro de São Paulo”.

Por outro lado, a sessão que Bolsonaro chamou de gloriosa foi classificada por Jean Wyllys como uma “farsa sexista”, da qual o deputado se disse “constrangido” por participar. Cunha, parabenizado por Bolsonaro, mereceu do parlamentar do PSol os predicados de “traidor” e “conspirador”. E seu voto, contrário ao impeachment, foi dedicado aos “direitos da população LGBT”, ao “povo negro das periferias”, aos “trabalhadores da cultura”, aos “sem teto” e aos “sem terra”.

Os integrantes do grupo “Fora de VCA Jeanus” sabiam, portanto, de que lado estavam. E não eram os únicos. “O fascismo, no Brasil, perdeu a vergonha na cara”, observa Jean Wyllys. “Está muito mais visível e foi estimulado, de certa forma, pelos partidos de direita, DEM, PSDB, Solidariedade, PPS. Esses partidos flertaram com os grupos de extrema-direita, contaram com a difamação que eles moveram nas redes sociais. E agora, como diz o ditado, crea cuervos, y te sacarán los ojos. Agora, os grupos fascistas saíram do controle. Então, nós tomamos cuidado com isso. Mas eles não me amedrontam”, prossegue o deputado.

No dia da conferência, o “filho da puta” Jean Wyllys não chegou a ser “oprimido” de fato por nenhum integrante do “bando de desgraça”. Não houve “brigas” de verdade, e as “esculhambações” se limitaram a algumas camisetas com a mensagem “Bolsonaro presidente” – que permaneceram do lado de fora do Teatro Glauber Rocha, onde Jean Wyllys falou ao público. Do lado de dentro, o espaço foi lotado por aproximadamente 300 pessoas que queriam ouvi-lo. Certamente não estavam lá apenas militantes ou simpatizantes das ideias do deputado. Mas se havia ali alguém disposto a hostilizá-lo, calou-se.

Nenhum guarda-chuva se abriu (pelo menos não ali dentro, pois lá fora neblinava), nem houve quem se dispusesse a desferir pessoalmente algum impropério contra o parlamentar durante sua fala. Houve, sim, manifestações pessoais à distância, partidas da área externa, onde o público que não conseguiu entrar – devido à lotação máxima do local – acompanhou a conferência por um telão. Houve ainda algumas tentativas frustradas de abordá-lo no momento em que deixava a universidade. Mas o “protesto” teve seu auge mesmo em comentários agressivos e homofóbicos nas redes sociais. Alguns, além de desancar o deputado do PSol, exaltavam Bolsonaro – chamado por alguns pelo epíteto com que vem sendo tratado há tempos por seus acólitos: “Bolsomito”.

O ‘mito’ está nu

Bem menos amistosos foram os ataques ocorridos dez dias antes na Universidade de Brasília (UnB), onde militantes de grupos de direita se muniram com bombas caseiras, spray de pimenta, canos de PVC e armas de choque e se insurgiram contra estudantes no Instituto Central de Ciências. Gabavam-se de serem pagadores de impostos e tentavam impedir alunos de participar de uma paralisação, chamando-os de “vagabundos”. Envolvidos em bandeiras do Brasil, vestiam camisas pretas, estampadas com o rosto do juiz Sérgio Moro, e as indefectíveis camisas amarelas da Seleção Brasileira, com a insígnia da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no peito. O grupo gritava palavras de ordem contra “gays safados”, “parasitas” e “comunistas”, e a favor de Moro (“Viva Sérgio Moro!”) e de Bolsonaro (“Bolsonaro presidente!”).

Apropriavam-se de um histórico bordão da esquerda mundial e bradavam: “Golpistas cotistas não passarão!”. Exaltavam a “democracia” brasileira, dizendo que “aqui não é ditadura de esquerda”. Talvez não soubessem que a mesma UnB foi invadida por forças policiais pelo menos três vezes, só nos primeiros quatro anos do regime militar que hoje é defendido com fervor pelo deputado que desejam ver na Presidência da República.

A ofensiva em Brasília, que também foi orquestrada a partir de grupos no WhatsApp – mensagens e áudios trocados pelos ativistas estão disponíveis na internet, graças ao trabalho do grupo Mídia Ninja – teve consequências mais graves. Segundo o Correio Braziliense, dois estudantes registraram boletins de ocorrência na 2ª Delegacia de Polícia, na Asa Norte de Brasília.

Desde o dia 21 de junho, o “mito” Bolsonaro é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) em duas ações penais, uma por incitação ao estupro e outra por injúria. A denúncia, feita pela deputada Maria do Rosário (PT-RS) e pela Procuradoria-Geral da República, baseia-se numa discussão na Câmara ocorrida em 2014, quando Bolsonaro disse a Maria do Rosário que não a estupraria porque ela “não merecia ser estuprada”.

Nos últimos dias de junho deste ano, a homenagem ao coronel Ustra ainda rendeu a Bolsonaro uma consequência a mais, além dos já costumeiros aplausos de pessoas saudosas da ditadura militar. Desta vez, ele será julgado por seus próprios pares, graças à instauração de um processo disciplinar no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. O processo, proposto pelo Partido Verde (PV), pretende apurar se Bolsonaro teria quebrado o decoro parlamentar ao evocar a memória de um personagem que, em 2008, foi reconhecido pela Justiça como tendo sido torturador durante o regime militar.

É tempo de extremismos. Em Vitória da Conquista, um internauta se declarou “hiper satisfeito” por ver que a presença de Jean Wyllys na cidade gerou “a revolta da maioria da população conquistense nas publicações dos blogs”. Nas mesmas redes sociais, outro usuário acusou o deputado de ser “cristofóbico”. Uma internauta achou que conseguiria ser engraçada: “Jean deve ta queimando a rosca pra se aquecer nesse frio”.

“O fascismo é essa estrutura de pensamento infantil, pueril, rasteira, em que a pessoa não para para pensar. A gente está vivendo um momento de burrice, de ignorância motivada”, acredita Jean Wyllys, para quem um dos problemas está, justamente, no fato de as pessoas “não pararem para pensar”.

“A homofobia não é um dado da natureza. Ela tem a ver com falsas certezas. E essas falsas certezas são adquiridas. Essas pessoas praticam a homofobia não porque elas são más por natureza, mas porque elas aprenderam a ser homofóbicas”, defende o parlamentar.

Em meio ao clima de radicalismo e intolerância motivado pela instabilidade política e institucional, e inflada cotidianamente na mídia, há que se concordar numa coisa com aqueles que, por motivações supostamente religiosas, acusam o deputado do PSol de ser “cristofóbico”: é recomendável que se tenha muito cuidado para não se utilizar certas palavras em vão. “Mito”, com certeza, é uma delas. É necessário bom senso para discernir os verdadeiros dos que jamais o serão.

Fonte: Blog do Miro

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Um dia na vida do Perfeito Idiota Brasileiro

Por Paulo Nogueira*
Alguns anos atrás, escrevi um relato sobre o dia do Perfeito Idiota Brasileiro, o PIB.
O Brasil mudou, e com ele o PIB, e é por isso que atualizo agora sua jornada cotidiana.
O PIB, hoje, está pronto a hostilizar petistas onde quer que os encontre. Bate panelas quando Dilma aparece na tevê. Veste camisa da CBF e vai para a Paulista pedir o impeachment. Passa adiante, nas redes sociais, tudo que seja negativo para o governo, a começar pelo material do Revoltados Online.
Ele continua a ler, logo pela manhã, o site da Veja. Nele, Reinaldo Azevedo é, como sempre, leitura indispensável. Mas agora ele não deixa de acompanhar, também, Felipe Moura Brasil. Lamentou, na Veja, a demissão de Joice Hasselmann.
Um raro exemplo de loira inteligente.
Fora da Veja, alguns outros blogs fazem parte de sua rotina. Um deles é o de Ricardo Noblat.
Mitou ao sugerir que Dilma se suicidasse.
Sempre dá um jeito de passar também pelo blog de Lauro Jardim.
Erra barbaridade, mas é o cara mais informado do Brasil.
O PIB vai para o trabalho ouvindo CBN. Merval e Jabor o fazem entender melhor o mundo. Volta para casa com a Jovem Pan. Sente falta de Scheherazade na rádio.
Ela foi vítima da censura do governo. Canalhas.
As noites são dedicadas à informação pela tevê. Seus comentaristas prediletos são Marco Antônio Villa e William Waack. “Por que caras como eles não estão governando o Brasil?”, ele se pergunta com frequência. “Têm resposta para tudo, até para os problemas do yuan chinês.”
Ao ouvir Villa no Jornal da Cultura sempre lhe ocorre um paradoxo.
O Villa tem voz fina, mas fala grosso.
Às segundas, o Roda Viva é programa obrigatório. Um amigo petralha lhe disse que Augusto Nunes é o Brad Pitt de Taquaritinga, em tom de escárnio. Mas atribuiu isso a alguma das más leituras do amigo.
Jô ele gostava de ver, mas acabou desistindo depois que ele entrevistou Dilma.
Ganhou uma fortuna para fazer aquela entrevista. Gordo miserávelpensa que me engana?
Prefere agora ver, tarde da noite, Danilo Gentili. Vibrou quando soube que Gentili oferecera bananas a um negro que o incomodava. E gostou ainda mais quando o juiz decidiu que Gentili não fora racista.
São todos uns coitadinhos, estes negros. Só querem saber de cotas e outras mordomias.
A mesma opinião ele tem de outras minorias, como os homossexuais, os índios e as mulheres. Não engole também os nordestinos.
Deviam ser gratos a nós de São Paulo por darmos a eles empregos de pedreiros, lixeiros e domésticas, mas decidiram ter as mesmas coisas que nós, aqueles retirantes.
Com Gentili PIB conheceu outro site que agora faz parte de suas preferências: o Antagonista. O que mais o agrada, fora o tom, são os textos curtos, um ou dois parágrafos no máximo. PIB detesta textos longos, de mais de cinco parágrafos.
PIB não liga muito para música. Para ele, Chico, além de chato, é um petralha. Mereceu ter sido xingado na saída de um restaurante.
Queria estar lá pra dizer certas verdades praquele comunista.
Lobão e Roger do Ultrage não. Estes escrevem as coisas que têm que ser ditas. Denunciam a ditadura lulodilmopetista. Lobão até compôs uma música contra Dilma. Ele achou a música genial, embora não tenha ouvido. Quer dizer, não ouviu até o fim. Ouviu 30 ou 35 segundos, e não conseguiu ir adiante. Mesmo assim, foi o suficiente para ver que é uma obra prima que será ouvida daqui a cem anos.
O cara foi brilhante em financiar seu disco com uma vaquinha virtual.
PIB contribuiu com zero, mas ficou impressionado com a iniciativa de Lobão.
Ele acha o Brasil o pior país do mundo. O mais corrupto.
Ainda bem que surgiu o Moro pra salvar a gente.
Ele torce para que Moro seja candidato à presidência em 2018. Se não for, Bolsonaro é um ótimo nome. Aécio não: é frouxo, um petista disfarçado. Esperava que Joaquim Barbosa se candidatasse em 2014. Comprou até máscaras de JB no Carnaval daquele ano. Mas nada.
Teve uma surpresa quando ouviu Moro pela primeira vez. Lembrou-se imediatamente de Villa.
Fala fino, mas tem voz grossa.
Admira também Eduardo Cunha, mas o governo inventou coisas contra ele. Lera, em algum lugar, que Dilma comprara dos suíços um falso dossiê para incriminar Cunha.
Os caras não se detêm por nada, filhos da puta.
PIB pensa em mudar do Brasil. Está pesquisando apartamentos em Miami.
Que adianta você ter carro se todo mundo tem? Viajar de avião se todo mundo viaja? Fazer compras num shopping se todo mundo faz? Assinar Netflix se todo mundo assina?
Mais recentemente, irritou-se em particular com as bicicletas em São Paulo.
Vontade de fazer um strike com ciclistas …
Ele já se imaginou mais de uma vez fazendo isso: atropelando ciclistas em série, como se ele fossem peças de boliche.
Na hora de dormir, PIB volta a pensar em deixar o Brasil enquanto espera seu Frontal fazer efeito.
Uma única coisa o faria desistir do sonho: São Paulo se separar do resto do Brasil.
Chega de sustentar os preguiçosos.
E então ele dorme o sonho profundo dos perfeitos idiotas.
Paulo Nogueira
*Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"Brasil sempre foi a terra da ignorância e da burrice"


Do blog Tudo Em Cima,

Sabe, eu não entendo por que tanta gente está surpresa com o crescimento da mentalidade nazi-fascista entre a população do Brasil.


Gente, vocês não conhecem o próprio país em que vivem? Aqui é uma terra onde a ignorância transborda e a burrice prevalece, inclusive - e principalmente - entre aqueles que tem diploma do ensino superior e até doutorado.



E eu me incluo nisso também. Nunca li um livro do Machado de Assis, por exemplo. No mar de estupidez e boçalidade que é a sociedade brasileira, especialmente a elite e a classe média, eu estou só com a cabecinha pra fora. Agora, imagina o resto...



Conheço gente com carteirinha do PT assinada que fala coisas que envergonhariam até o Bolsonaro. Duvida? Entra em assuntos como homossexualismo, drogas, pena de morte, sexo, religião... Já ouvi coisas que me deixaram de cabelo em pé de gente que se declara comunista.



Óbvio que não é a maioria entre nós que age assim, mas só estou querendo dizer que se entre nós, da esquerda, está cheio de gente assim, imagina então no resto da população, que está à um passo de relinchar, enquanto faz compras em Miami?



Vocês não conhecem o Brasil? O Brasil é isso, gente. Sempre foi.




Agora eles apenas perderam a vergonha, porque o efeito manada está cada vez mais forte e formou uma onda que leva todos - sempre grudados na tela da Globo...


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Izaías Almada: 14 destinos para o pessoal do “Brasil é uma merda”; será um alívio, se não regressar

O DIREITO DE IR E… VIR
por Izaías Almada, especial para o Viomundo
Há poucas semanas uma dessas celebridades que fazem novelas na Rede Globo, de quem não me lembro o nome, deitou falação contra o fato de ter que pagar um imposto na alfândega sobre um computador trazido dos Estados Unidos (pronunciado, talvez, com a boca cheia de empáfia). Foi defendida por um colega, outra celebridade, essa já com alguma idade (por isso me lembro do nome), o ator Miguel Falabella, que teria dito qualquer coisa sobre o fato de que nós brasileiros devemos apoiar o contrabando sim, pois todo mundo anda roubando no governo, logo… São falas e atitudes de um Brasil incivilizado que, aqui entre nós, já encheu o saco.
Por qual razão muitos desses “reclamões” não vão embora do país? O que é que estão esperando? Tenho várias dicas de países que os receberiam de braços abertos.
Mas antes gostaria de fazer referência e comentar um pouco sobre outros dois fatos que têm a ver com essa mesma questão. O primeiro deles diz respeito à Sra. Marcelo Odebrecht e sua ironia por ter que receber em casa há algum tempo atrás uma sindicalista e pensou em oferecer a ela uma marmitex. Fiquei pensando: caramba, essa gente ganha rios de dinheiro com as mais variadas maracutaias dentro e fora do Brasil, poderiam aprender a tratar melhor seus semelhantes, mas a viseira cultural e ideológica é tão grande, sem falar do preconceito de classe, que não conseguem. O dinheiro por vezes é muito, mas a sensibilidade é mínima. Não adianta.
O segundo caso tomou algumas poucas páginas da mídia, mas ainda assim foi lembrado: até hoje os policiais ingleses que mataram o cidadão brasileiro Jean Charles em Londres “por engano” ainda não foram julgados. A Inglaterra, com certeza, entra no imaginário de muitos brasileiros, alguns até advogados, como sendo um daqueles países do “primeiro mundo” que praticam a justiça com seriedade. Sim, desde que o réu não seja latino, afrodescendente e pobre. Aliás, está aí um bom país para os brasileiros que acham o Brasil uma merda, procurarem. Em São Paulo, por exemplo, o táxi até o aeroporto de Guarulhos é baratinho em relação a muitos outros problemas do Brasil.
Mas vamos à lista para esse pessoal do “Brasil é uma merda”, lembrando que os outros membros dos BRICS não devem ser lá muito boas opções para visitarem, por suposto, Rússia, Índia, China e África do Sul. Ainda assim, sobram muitos, muitos…
1 – Alemanha: país que imortalizou os campos de concentração e acaba de deixar a Grécia de joelhos, por sinal o berço da democracia há 2500 anos, o que não deixa de ser até certo ponto uma atitude emblemática nos dias que correm. A maioria da população é branca de olhos azuis e fala alemão, que é difícil para turistas, mas também o inglês.
2 – Bielorrússia: recomendo tirar informações no Google.
3 – Canadá: belíssimo país que tem por costume aceitar estrangeiros para estudar e trabalhar. No inverno, a barra é pesada e são seis ou sete meses de frio intenso, com ursos a caminhar pelas ruas de algumas pequenas cidades. Normalmente exigem – o governo, não os ursos – formação superior dos imigrantes, entendendo-se por isso conhecimento razoável do que se propõem a fazer e não apenas o diploma que nunca se sabe se foi comprado, comportamento de muitos dos que acham o Brasil um horror…
4 – Dinamarca: país escandinavo em cujo inverno o sol costuma aparecer durante quatro horas por dia ou pouco mais. E isso dura vários meses. Não dá para pegar uma corzinha no final de semana. A língua e a escrita são complicadas para quem pratica a lei do menor esforço.
5 – Espanha: país caliente de “lindas mujeres”, mas vivendo já há alguns anos forte crise econômica, com grande desemprego de jovens. Crise pior que a do Brasil, “esse país de merda”… Lá existem alguns partidos novos de esquerda, como o Podemos e para muitos de nossos emigrantes “talvez não seja o caso”. Na Catalunha e nos Países Bascos a língua falada é mais complicada.
6 – França: povo organizado embora um tanto chauvinista. Ainda usam muito perfume no lugar do banho e gostam de andar ao lado dos alemães nas questões européias. Discriminam um pouco os africanos, os árabes e os sulamericanos, mas isso é o de menos para os brasileiros de elite, educados e civilizados que sentem saudades da ditadura. E da feijoada, quando estão fora do país.
7 – Guatemala: país de grande tradição golpista no passado, hoje mais calmo. Mas sempre se pode aprender um pouco.
8 – Holanda: país belíssimo, com seus diques e cidades limpíssimas, seus habitantes costumam falar vários idiomas. Estiveram lado a lado com os ingleses na colonização da África do Sul, deixando naquele país grandes saudades. Esse fato histórico criou o líder Nelson Mandela que chegou a presidente depois de 27 anos na prisão. Há, contudo, liberdade controlada no uso de drogas para os golpistas mais exaltados.
9 – Indonésia: Recomenda-se muito cuidado com o que levam nas malas (geralmente são muitas para a tentativa de contrabando no retorno). Lá existe a pena de morte por fuzilamento.
10 – México: Normalmente uma bela opção, sempre e quando se tenha em mente que o país está sitiado por cartéis do narcotráfico.
11 – Portugal: Ao lado da Grécia e da Espanha, vive grande crise econômica e social, tornando difícil a absorção de mão de obra estrangeira. E será sempre bom conseguir informações com brasileiros que lá vivem há mais tempo, em particular dentistas, publicitários e o pessoal da construção civil, para sentir como os portugueses andam tratando os “brasucas”.
12 – Suíça: Se for cliente do HSBC ou tiver conta em outro banco e não declarada ao fisco no Brasil é sempre bom tomar algum cuidado, pois há sempre o risco de extradição para os EUA. É possível conseguir boas informações com os advogados de Marin.
13 – USA: no Brasil conhecido apenas como Estados Unidos, esse país lidera a lista dos sonhadores, dos revoltados on-line e dos revoltados fora de linha, na expectativa de que acabem com Lula, Dilma e o PT. Mas Miami é uma bela cidade. Trata-se de um lugar propício e de clima ameno, onde se encontram grandes fortunas levadas de Cuba, Argentina, Venezuela, Bolívia e outros países sulamericanos com tendências ao bolivarianismo.
14 – Venezuela: país do bolivarianismo. Sei que muitos torcerão o nariz, mas penso que vale a pena ver uma ditadura de perto. Ver o “ódio” que os venezuelanos têm a Chávez e Maduro. Podem contratar viagens (excursões) no Congresso em Brasília e pedir os senadores Aécio, Caiado e Aloysio Nunes como guias pela cidade de Caracas. E não se esquecerem de levar exemplares da Veja, do Estadão, da Folha e do Globo, pois há uma crise de papel higiênico no país.
Enfim, todo cidadão tem o direito de ir e vir. Alguns, entretanto, se não quiserem regressar será um alívio para o Brasil.
Fonte: Viomundo