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domingo, 12 de julho de 2020

O brincar e o direito à cidade

Foto: Iñaki Robles

As construções das cidades hegemonicamente retiram o direito da participação social no processo de definição de sua edificação e urbanização. O planejamento urbano via de regra tem a frieza da técnica revestida de asfalto e concreto e o distanciamento da realidade social, dos espaços de memória, saberes, ludicidade e de uma ambiência saudável. Como podemos dimensionar a brincadeira enquanto elemento construtor da cidade?
As cidades vão se construindo de forma atropelada e dicotômica, a partir da lógica de acumulação, concentração e circulação do capital, se essa lógica é desigual, a tendência é que a apropriação do espaço urbano também seja, por conseguinte o direito à cidade é negado.
É preciso agir na contramão, compreendendo que a luta pelo direito à cidade é parte integrante da luta contra a produção social e a apropriação privada, em outras palavras, contra a lógica, do modo de produção de capitalista, que privatiza, excluir e estratifica acessibilidade dos bens, serviços e da inteligência coletiva produzida pela humanidade que poderia gerar cidades mais democráticas.   
Nesse modelo dominante em que urbe vem sendo gestada, os espaços destinados para as crianças vão sendo abatidos. As ruas vão perdendo a sua tranquilidade, as sombras das árvores vão sendo extintas, o asfalto aumenta o barulho, a velocidade, a temperatura e os acidentes. Os espaços de integração comunitária e de trânsito humano vão sendo excluídos dos planejamentos e substituídos para espaços de automóveis.  As praças existentes, em especial, as periféricas, são abandonadas e desprovidas de mecanismos integrativos. Na sua maioria, são construídas sem a devida escuta da população, mas apenas na derivação de área versus técnica, sem o tateamento das subjetividades e necessidades da população.    
As crianças vão sendo escanteadas do direito à cidade, consequentemente do direito ao brincar. Democratizar à cidade é repensar como ela deve ser acessada a partir dos seus lugares e territórios e na inter-relação dos territórios, o que incluir a transversalidade da criança na sua relação com a cidade, na dimensão de compreender a necessidade de ambientes ecologicamente saudáveis, seguros, lúdicos, impulsionadores da imaginação, criatividade e do desenvolvimento cognitivo, psicomotor e afetivo.
A cidade é possível de ser planejada e refletida a partir dos seus lugares e territórios de forma integrada e com a efetiva participação popular, não como mero formalismo, mas como insdipensabilidade  para a materialialização de urbanizações e edificações que tenham  a coautoria e corresponsabilidade do povo  que constrói cotidianamente a paisagem cultural dos seus lugares.
Entretanto, nesse processo, o saber popular deve servir como ponto de partida para o diálogo com a ciência e a tecnologia o que dialeticamente pode conceber cidades mais saudáveis e solidárias.        
O planejamento da cidade pode ser uma construção coletiva, desafiadora, inegavelmente conflitante, mas deve ser um norte para constituição de uma memória coletiva e comunitária e uma escola para tomada de posição e de cuidado coletivo.
Incluir o brincar na discussão da cidade é reconhecer a brincadeira como instrumento indispensável para o desenvolvimento da criança. A partir do brincar a criança ensaia sua vida adulta e ao mesmo tempo se desenvolve na sua relação com outras pessoas e objetos. A interação gerada pela brincadeira proporciona a criança o desenvolvimento psicomotor, emocional, social, instiga raciocínio lógico, criatividade, imaginação, espacialidade, percepção e memória.
A defesa das cidades inteligentes, criativas, educativas, leitoras e lúdicas devem compor o argumento político e pedagógico para fazer balançar, escorregar e fluir a imaginação, num tempo em que as cidades se distanciam cada vez mais do seu povo e da sua participação e ganha tonalidades opacas e formas altas para as crianças acessarem. 
*Alexandre Lucas: Pedagogo, integrante do Coletivo Camaradas e presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais do Crato/Ceará.             

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Um registro historiográfico por Ana Maria Gonçalves

Detalhe da Capa do livro "Um defeito de cor", 2006, Editora Record.
Foto: Divulgação.
Lançado em 2006, o livro "Um Defeito de Cor" é um clássico indispensável da literatura afrofeminista brasileira
Por  Jamyle Rkain*
Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens”. Este é um dos dez provérbios africanos que introduzem cada capítulo do livro Um Defeito de Cor (Editora Record, 2006), um livro contemporâneo que já é considerado um clássico da literatura brasileira mesmo em seus primeiros anos em circulação. O volume ficcional, com quase mil páginas, é sempre lembrado em discussões sobre a literatura negra, antirracista, que trata da diáspora afroatlântica e da formação social escravista do Brasil.
No livro, a autora Ana Maria Gonçalves, mineira da cidade de Ubiá, desdobra o enredo em torno da narrativa de Kehinde, uma mulher negra africana do Reino do Daomé (hoje Benim) que tem na história de sua família uma trajetória cheia de traumas deixados pelo processo de escravidão brasileiro. A violência, a morte, as separações, a violação sexual.
É uma história individual que se confunde com a memória coletiva do período colonial brasileiro, que estende suas marcas e cicatrizes aos dias de hoje por meio das estruturas sociais construídas, que têm a desigualdade como um de seus produtos. É considerada a obra prima da autora, que ganhou o Prêmio Casa de las Américas com o livro em 2007. Na última lista de livros de autores nacionais mais vendidos em livrarias brasileiras, que apurou o mês de junho de 2020 a partir de parceria entre a empresa de pesquisa Nielsen com a plataforma editorial PublishNews, Um Defeito de Cor segue presente, agora em sua 20ª edição.
A personagem Kehinde tem raízes na biografia da mítica Luísa Mahin, heroína negra que teria ajudado a insuflar um levante contra o regime escravista na Bahia e mãe do abolicionista Luis Gama, que a definiu: “Uma negra, africana livre, da Costa da Mina”. A autora conta que o que a levou a escrever o livro foi ter encontrado casualmente, quando morou na Ilha de Itaparica (BA), um manuscrito de Mahin. O livro, portanto, traz uma narrativa que estende o que fora registrado por Luísa, escrava de ganho que sabia ler e escrever, nesse manuscrito.
Assim, a trama ficcionalizada de Ana Maria Gonçalves se confunde por várias vezes com a História. Kehinde passa a vida em deslocamento pelo continente africano e pelo Brasil, onde é levada à condição de escrava. Separada de seu filho, vendido como escravo pelo próprio pai (um branco escravagista), ela narra sua busca por ele ao longo dos anos. O tom memorialístico usado na narração do texto, contado por Kehinde em primeira pessoa, dá ao livro um caráter autobiográfico dessa mulher que é levada a uma situação epopeica ao insistir em ter o filho de volta. É também um pedido de desculpas de uma mãe que teve o menino levado sem nada poder fazer para impedir.
Kehinde passa a vida em deslocamento pelo continente africano e pelo Brasil, onde é  evada à condição de escrava. Separada de seu filho, vendido como escravo pelo próprio pai  um branco escravagista), ela narra sua busca por ele ao longo dos anos
É preciso pontuar a importância de Um Defeito de Cor nos estudos afrofeministas, pois evoca a vivência de mulheres que foram escravas/escravizadas, se tornando obra indispensável para os estudos de gênero. Isso porque é muito latente a condição da mulher e as particularidades das violências vividas por Kehinde não só por ser escravizada, mas por ser do sexo feminino. Como, por exemplo, a violência sexual que tem o corpo da mulher negra como objeto – e que é um ponto crucial do livro -, já que o estupro é um tema que acompanha a personagem no Brasil, quando ela é violada, e também no continente africano, quando viu a mãe sofrer a mesma violência.
A identidade da mãe negra da personagem “conecta-se a outras narrativas de mães negras no Brasil, as quais também são apartadas de seus filhos, mas que, diferentemente da narradora do romance, não raro deparam-se com os corpos inertes desses filhos assassinados cotidianamente por uma política genocida do Estado que tem como alvo a população negra desse país”, atesta a pesquisadora Fabiana Carneiro no livro Ominíbú: maternidade negra em Um defeito de cor (Editora Edufba, 2019).
Ao falar do livro, a autora sempre aponta a necessidade de se recorrer ao passado para compreender com afinco a história de nosso país. Ler Um Defeito de Cor é, sem dúvidas, conhecer para questionar criticamente um período condenável da construção do Brasil, que é a origem da característica estruturalmente racista que acompanha a nossa sociedade em todas as relações.
*Jamyle Rkain - Brasilibanesa. Jornalista, artes visuais, Bacharel em Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisadora de gênero, mídia e cultura. 

domingo, 21 de julho de 2019

“Não tem que ter nada para esse cara”: isso pode dar impeachment


Por Alex Solnik*, para o Jornalistas pela Democracia 
Eu sempre tentei imaginar as barbaridades que Bolsonaro diz quando ninguém escuta, já que tudo o que já disse publicamente nunca se ouviu de um presidente da República.
  Ignorando que o microfone estava aberto, ele disse a Onix Lorenzoni, a seu lado, durante coletiva com a imprensa estrangeira, sexta-feira, a respeito do governador Flávio Dino:
  “Não tem que ter nada para esse cara”.
  Tudo nessa frase é antirrepublicano.
  “Esse cara” é governador do Maranhão, eleito pelos maranhenses e, portanto, deveria ser respeitado por todos que se submetem à democracia, principalmente pelo presidente da República.
  Não foi o caso. Bolsonaro o tratou como algum subalterno seu e não o representante de milhões de brasileiros que moram no Maranhão.
Ao ordenar “não tem que ter nada para esse cara” cometeu, além da ameaça, uma falácia. O governo federal não dá nada aos estados, apenas repassa os valores dos impostos arrecadados pelo fisco estadual, obtidos pela indústria, comércio e agricultura do estado. O que muitas vezes acontece é Brasília reter esses valores, deixando os governadores à míngua.
  Suas palavras que traduzem discriminação a um dos 27 estados da federação revelam claramente ameaça à existência da União, que é uma das razões para impeachment.
 Se essa ordem que deu ao seu ministro-chefe da Casa Civil se transformar em atos de governo – a constituição pune atos e não palavras -  ficará sujeito a isso, assim que o Congresso se desvencilhar da reforma. 

*Alex Solnik

Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão" e "O domador de sonhos"

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Estou vivo!

Deputado Federal Marcio Jerry
Ontem me mataram. Uma morte planejada, cheia de detalhes sofisticados, que incluía hora, registro do local, modelo e o prefixo do jatinho no qual eu supostamente estava, com os nomes dos pilotos que me conduziam de volta à minha capital, São Luís. Em ‘nota oficial’, divulgada no Portal do Governo do Estado, a notícia sobre o meu falecimento foi ilustrada com minha foto, sorridente, de modo a não deixar dúvidas sobre a minha identidade como vítima do acidente fatal. Profissionalmente redigida, seguindo o roteiro jornalístico, a reportagem também foi complementada por imagens dos destroços, cumprindo mais um preceito da profissão que é, por formação, a minha.
É certo que não morri. E hoje, mais vivo que nunca, somando-me à lista de figuras públicas que tiveram sua morte falsamente difundida pelas chamadas fake news, é que escrevo estas linhas sobre a realidade destes novos tempos, em que a cultura das falsas informações se alastra e avança, sem controle e em uma rapidez vertiginosa. Passado o susto e desfeito os contratempos gerados por aqueles que me “assassinaram”, tenho claro que meu caso não se trata de fato isolado. No contexto desse novo mundo distópico, os crimes cibernéticos têm se mostrado uma espécie de gigante que, muitos de nós, Davis, antes do combate, estudam a melhor estratégia sobre a melhor forma de detê-lo.
Agora, vivo, como primeiro-vice-presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) e autor de requerimento para instalação de uma Subcomissão que tentará encontrar soluções legislativas sobre como enfrentar o fenômeno das fake news e os crimes cibernéticos, sinto, ironicamente, que me tornei objeto de minha própria análise. A experiência, no entanto, despertou ainda mais em mim a clareza de que estes novos tempos não fazem parte de um fenômeno transitório. São uma perfeita tempestade trazida pela tecnologia e que não se dissipará nos próximos anos. Urge, pois, que tratemos o problema como a prioridade que lhe é devida.
Mais do que repelir, repudiar e reprimir os crimes cibernéticos, é premente que se debata na sociedade, na Câmara dos Deputados e Senado, saídas para o fluxo de crueldades e mentiras, quebrando um ciclo previsto por muitos futurologistas. A consultoria de tecnologia Gartner, por exemplo, assegurou em um de seus relatórios (Previsões Tecnológicas 2018) que, em 2022, cidadãos de todo o mundo consumirão mais informações falsas do que verdadeiras.
Na nova economia de dados, e com a instalação de tecnologias como o 5G batendo à porta do Brasil, é preciso que estejamos atentos e preparados para a gestão de dados, controle de informações, amparados por um arcabouço mínimo que nos permita lidar com o assunto, em segurança. Diante deste paradigma que se impõe, as diferentes rupturas, muito além do plano pessoal, tem levado a um novo cenário político, condicionando a forma como vemos, reagimos e entendemos a realidade ao nosso redor.
Bombardeados por informações, não deciframos com a instantaneidade exigida o que é falso ou verdadeiro. Neste contexto de mentiras e de criação de novas verdades, é inadiável o debate sobre uso partidário de falsas mensagens.
As últimas eleições presidenciais estão aí para provar a força deste novo recurso e como isso pode afetar a realidade. A democracia brasileira sucumbiu às inverdades ao eleger para presidente um candidato que recorreu, sabidamente, à difusão de falsas informações para chegar ao mais alto posto da República. Isso mostra, também, como diante da tendência lançada pelo bolsonarismo, a ficção acaba se tornando, pela força da repetição, em realidade e esta, em “verdade compartilhada”. O esforço conjunto para combatê-las está nas mãos de todos nós.
*Márcio Jerry, deputado federal (PCdoB-MA)

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Renato Rabelo defende frente ampla em defesa da democracia

 Renato Rabelo durante sua fala na reunião do Observatório da Democracia

Por Iram Alfaia


“Esse é o grande perigo que nós vivemos, portanto, é necessário unir em nosso país todas as forças democráticas numa ampla frente em defesa da democracia e da nossa soberania para isolar um regime como esse”, defendeu Renato Rabelo durante a abertura nesta quarta-feira (10) da reunião do Observatório da Democracia, que apresentou o “Relatório sobre Governo Bolsonaro: 100 dias”.

Rabelo associou a situação brasileira ao crescimento da extrema direita no Ocidente. Segundo ele, a crise atual do capitalismo com a quarta revolução industrial, a desvalorização e destruição do trabalho tem levado às classes dominantes a apoiarem regimes de extrema direita.

“Boa parte da classe dominante capitalistas começa a apoiar regime de extrema direita para tentar sustentar essa fase do capitalismo”, argumentou.

O bolsonarimos, segundo sua avaliação, gira a roda da história para trás, destrói a política no seu estágio superior para retomar sua fase primária que é a violência. 

“O Brasil já vem sacrificando a democracia com o golpe parlamentar que destitui Dilma (Rousseff) e com a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva”, pontuou.

Observatório da Democracia

O encontro do Observatório, que reúne as sete fundações dos partidos de oposição, foi prestigiado por diversas entidades e parlamentares das mais diferentes agremiações. O evento ocupou três plenários das comissões da Câmara dos Deputados.

O relatório de seis páginas fez um diagnóstico dos cem dias do governo Bolsonaro com informações técnicas sobre as políticas públicas que deixaram de ser implementadas nesse período. São informações que vão subsidiar as ações políticas de parlamentares e partidos.

O presidente da Fundação Perseu Abramo, do PT, Marcio Pochmann, diz que o trabalho do Observatório valoriza a democracia no enfrentamento e resoluções de problemas que atingem o conjunto do povo brasileiro, especialmente os mais pobres.

“Isso no momento que vivemos um período mais longevo de declínio da economia nacional, sem paralelos na história, em relação ao desemprego, a subutilização da força do trabalho e o retorno problemas que já haviam sido superados como a pobreza, sobretudo o aumento das desigualdades”, disse.

O presidente da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, do Psol, Francisvaldo Mendes, classificou o governo Bolsonaro como confuso, sem programa e estratégia. “Ele é um governo que na verdade vem para jogar confusão e beneficiar o capital financeiro como falou aqui o Renato (Rabelo)”, afirmou.

O líder do PCdoB na Câmara dos Deputados, Daniel Almeida (BA), diz que é um fundamental os parlamentares e partidos contarem com a estrutura do Observatório. “Simboliza a necessidade de formação de um amplo movimento em defesa da democracia. Vai municiar a sociedade e os movimentos sociais com dados e análises para a construção de um caminho necessário ao enfrentamento aos ataques a democracia e soberania”, afirmou o líder.

Lei aqui o relatório na íntegra

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Fábio Palácio: Pátria livre, venceremos!

Um importante fato do mundo político, anunciado desde o final de 2018, mereceu da imprensa menos atenção do que deveria. Trata-se da incorporação do Partido Pátria Livre (PPL) ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Por Fábio Palácio*

Sobre essa obra de engenharia política tão delicada quanto bem-sucedida, que resultou na fusão de duas históricas correntes da esquerda patriótica brasileira, o jornalismo político quase nada falou. Quando o fez, como em O Globo (1), justificou a junção como mero recurso para driblar a cláusula de barreira (2), passando ao largo da história e das afinidades entre as duas legendas.

Nada obstante, a novidade não passou despercebida àqueles que conhecem minimamente a história das organizações de esquerda no Brasil. Estamos diante de um fato transcendente da vida político-partidária nacional, que deveria polarizar as atenções dos verdadeiros democratas: aqueles que ainda acreditam na necessidade dos partidos políticos e, mais do que isso, defendem – como condição de um sistema político saudável – a existência de partidos autênticos, estribados em ideologia e princípios programáticos, existentes para formar quadros e realizar ideias de organização social, e não para miseravelmente organizar a distribuição de favores e prebendas.

Do PCdoB, a maior e mais conhecida das duas organizações, não é preciso dizer muito. É a histórica legenda fundada em 1922 por nomes como Astrojildo Pereira, Octávio Brandão e Abílio de Nequete – seu primeiro secretário-geral. Ladeado por outros eventos de dimensão histórica, como a Semana de Arte Moderna e a Revolta do Forte de Copacabana – marco do tenentismo –, o nascimento do Partido Comunista deu-se como parte da modernização geral da sociedade brasileira, processo que incluiu o amadurecimento político da classe operária em conexão com importantes acontecimentos do cenário internacional, como a Revolução Russa de 1917. 

Em sua existência quase centenária, o PCdoB foi sempre defensor intransigente da nação, da democracia e do trabalho. A par de outras forças patrióticas, organizou a vitoriosa campanha O petróleo é nosso!, que resultou na criação da Petrobras. Foi a primeira corrente política a defender a reforma agrária e direitos trabalhistas como jornada de oito horas, férias e décimo terceiro salário. Por estas e outras, passou mais de sessenta anos na clandestinidade. Suas lideranças foram submetidas a verdadeira caçada no Estado Novo (1937-1945) e na ditadura militar (1964-1985). Foi o partido que mais perdeu quadros e militantes, perseguidos e mortos pelas forças da reação. 

Nos anos 1930, à frente da Aliança Nacional Libertadora, o partido empreendeu heroica resistência contra o fascismo e o integralismo. Por sugestão de seus parlamentares, a Constituição de 1945 estampou pioneiramente a garantia da liberdade religiosa. Na década de 1970, em defesa das liberdades democráticas, organizou a epopeica Guerrilha do Araguaia. Impulsionou também a Campanha da Anistia e foi decisivo para a derrota da ditadura militar em 1985, com a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral. Nos anos 1990, protagonizou as jornadas pelo impeachment de Collor e contra o neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso. Já neste século, contribuiu destacadamente para a eleição do ex-operário metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República, inaugurando um novo ciclo político na história do país. Não à toa, um intelectual do quilate de Ferreira Gullar, referindo-se ao Partido, sentenciou em um de seus poemas: “Quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem que falar dele / Ou estará mentindo”.

Quanto ao PPL, talvez seja necessário lembrar aos menos atentos que é a legenda sucessora do antigo Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR8. Boa parte de minha geração conhece esse grupamento político da película O que é isso, companheiro?, candidata ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 1997. A produção, baseada no livro homônimo de Fernando Gabeira, traz a história do bem-sucedido sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick, em setembro de 1969, por integrantes do MR8 e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Esse episódio heroico da luta contra a ditadura de 1964 resultou na libertação de quinze presos políticos, entre eles José Dirceu, mais tarde ministro da Casa Civil do governo Lula.

Porém, bem antes de assistir à cena em que, durante uma ação de guerrilha urbana, o então futuro ministro-chefe da Secretaria de Comunicação do governo Lula, Franklin Martins (vivido pelo ator Luiz Fernando Guimarães), anuncia em tom triunfal: “Nós somos do Movimento Revolucionário 8 de Outubro!”, a sigla já não me era desconhecida. Tomei contato com ela nos primeiros anos 1990, quando de participações nos memoráveis congressos da União Nacional dos Estudantes. Àquela altura, coerente com sua visão de unidade nacional contra o inimigo comum imperialista, o MR8 atuava como corrente no interior do PMDB, agremiação na qual se abrigara – como de resto outras forças, incluindo os comunistas – desde os tempos em que o Movimento Democrático Brasileiro aglutinava a frente de oposição ao regime militar. Mesmo permanecendo no PMDB após o fim da ditadura, o “8” atuava com independência e fisionomia própria.

Encabeçando teses (3) como Detonar os inimigos do Brasil, demonstrava com fervor sua veia patriótico-revolucionária. Força de grande capacidade combativa, quase sempre podia ser flagrada em aliança com os comunistas, seja no movimento estudantil, seja nas lutas travadas a partir de outros movimentos populares. 

Nascido de uma costela do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o MR8 reuniu em sua fundação membros da Dissidência da Guanabara (DI-GB). O nome da organização é uma homenagem ao revolucionário Ernesto “Che” Guevara, morto em combate na Bolívia em 8 de outubro de 1967. A Revolução Cubana inspirou largamente essa organização, que apostou na guerrilha como forma de resistência à ditadura e protagonizou, em plenos chamados anos de chumbo, célebres operações de resistência armada nas cidades, entre elas o sequestro – inédito em todo o mundo – de um diplomata americano por motivos políticos.

Segundo o pesquisador Ricardo Abreu de Melo (4) – também membro do Comitê Central do PCdoB –, o nacionalismo e o anti-imperialismo sempre foram marcas ideológicas do MR8. Muitos de seus dirigentes, formados na tradição marxista-leninista, o caracterizavam como uma força comunista. Isso fica claro em sua política de relações internacionais, que priorizava os países socialistas e seus partidos dirigentes, além de organizações “terceiro-mundistas” influenciadas pelos princípios da Conferência de Bandung (5), como o Partido Baath do Iraque. Essa linha política teve continuidade com o advento, em 2009, do PPL. Do ponto de vista programático, esse partido norteia-se “pelos princípios do socialismo científico” e propugna

[...] A constituição da mais ampla frente nacional, democrática e popular para completar a independência do Brasil, a ser alcançada com a crescente participação democrática e pluralista do povo brasileiro no processo político, de modo a que a riqueza nacional esteja cada vez mais a serviço do bem-estar dos trabalhadores e dos interesses do nosso desenvolvimento. (6)

Como facilmente se vê, a opção firmada por PPL e PCdoB vai muito além do cumprimento de burocráticas “cláusulas de desempenho” instituídas pelas forças do golpe de 2016 como forma de impedir a livre atuação de legendas históricas da vida política nacional. As organizações que ora se congregam empunham um projeto transformador para o Brasil: a retomada do desenvolvimento nacional soberano, com a reconquista da democracia e a ampliação dos direitos sociais e trabalhistas. Esse programa se reconhece na contramão do atual projeto de poder, capitaneado, aliás, por um partido sem fisionomia clara ou sólidos alicerces na vida do povo. Uma legenda até ontem desconhecida da maioria dos brasileiros, e cuja improvisada ascensão ao poder diz muito do projeto (ou da falta dele) que hoje se implanta em nosso país. 

É discurso corrente na grande imprensa que a cláusula de barreira veio para “fortalecer” os partidos. Quando, porém, passamos em revista os partidos barrados, vemos que ali se encontram algumas das legendas mais bem vincadas do ponto de vista programático. E é neste ponto que perguntas se impõem: Que partidos queremos? Estamos realmente interessados em forças com nitidez ideológica? Almejamos algo mais do que cartórios políticos para registro de candidaturas e distribuição de cargos? Queremos partidos para uma democracia real ou para uma democracia de fachada? Nossos organismos partidários contribuem para a estabilidade democrática ou não passam de expressão da crise orgânica de nosso sistema político?

Se queremos partidos robustos, em que a fidelidade partidária não seja mera questão de cálculo ou conveniência, é preciso reconhecer que medidas como a cláusula de barreira, baseada no número de votos obtidos para a Câmara dos Deputados – repito: apenas para a Câmara dos Deputados –, não têm contribuído para esse propósito. Isso ocorre, desde logo, porque os problemas de nossa governança não derivam da quantidade de partidos, mas de sua incapacidade de desprender-se da autoindulgência para representar os verdadeiros interesses populares. 

Isso posto, a abordagem da cláusula de barreira devia ser revista. Ainda que se admita o diagnóstico – de certo equivocado – segundo o qual temos “muitos partidos”, fica a pergunta: por que coagir à semiclandestinidade justamente aqueles que têm raízes e descortino programático – alguns deles, diga-se, nem tão pequenos assim, ainda mais quando se consideram critérios como o número de governadores, de senadores ou de deputados estaduais? Não seria a hora de pensar redutores alternativos à cláusula de barreira, capazes de combinar critérios quantitativos com outros, qualitativos, como o histórico das legendas e o fato de representarem posicionamentos ausentes do resto do espectro político refletido no parlamento? Afinal de contas, a força de um partido, ainda mais em um sistema político fortemente influenciado pelo poder econômico, não pode ser aquilatada unicamente através de números, quaisquer que sejam. Ela depende também da qualidade de sua elaboração política, de sua competência em formar quadros, de sua habilidade em consertar acordos e consensos, de sua presença nas organizações da sociedade civil e, sobretudo, de sua capacidade de encarnar os efetivos anseios do povo.

No momento mesmo em que escolhe somar forças com outros patriotas, o Partido Pátria Livre salva de nova proscrição a histórica legenda fundada em 1922. Pequeno em número, o PPL demonstra, com esse gesto, toda a magnitude de sua grandeza como organização partidária.

Quantas forças, mesmo entre as mais abnegadas do campo da esquerda, teriam tamanho desprendimento? Só um partido efetivamente revolucionário fenece para unir-se ao PCdoB e multiplicar a chama da revolução. O PPL repete assim, no plano institucional e em outras circunstâncias, aquilo que fizeram inúmeros combatentes da luta contra a ditadura, que deram a vida pela redenção democrática do Brasil. Os militantes desse partido demonstram, além de enorme generosidade, titânica coragem: a de empunhar a foice e o martelo no momento em que o fascismo galopante tenta banir esse símbolo. 

Tivéssemos um jornalismo político digno desse nome, efetivamente preocupado com a saúde de nossos partidos, essa atitude seria cantada em verso e prosa nas páginas de nossa imprensa.

Notas

(1) Cf. KRAKOVICS, F. “Sem conseguirem atingir cláusula de barreira, PCdoB vai incorporar PPL”. O Globo [online]. 27 nov. 2018. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/sem-conseguirem-atingir-clausula-de-barreira-pcdob-vai-incorporar-ppl-23263606>.

(2) Dispositivo legal que restringe o funcionamento de partidos que não alcançam determinado percentual de votos, impedindo o acesso a fundo partidário, tempo de TV e rádio e estrutura de liderança partidária no parlamento. A atual cláusula de barreira foi aprovada na reforma política de 2017 e estabelece como linha de corte inicial (crescente nas eleições seguintes) o patamar de 1,5% dos votos nacionais ou a eleição de nove deputados em nove estados. 

(3) Nos congressos estudantis, as correntes organizadas costumam apresentar-se como “teses”, documentos políticos que aglutinam não apenas os membros dessas correntes, mas todos aqueles que os subscrevem.

(4) MELO, R.A. O Foro de São Paulo: uma experiência internacionalista de partidos de esquerda latino-americanos (1990-2015). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2016.

(5) A Conferência de Bandung, ocorrida em 1955, reuniu 29 países asiáticos e africanos e inaugurou o movimento dos não alinhados, que pretendia constituir-se como nova força política global (o Terceiro Mundo) por meio da cooperação econômica e cultural entre países que desejavam afastar-se tanto da órbita americana quanto da soviética. O movimento influenciou inúmeras organizações políticas, em particular na Ásia e na África, mas também na América Latina e na Europa.
(6) PARTIDO PÁTRIA LIVRE. Estatuto do PPL. Brasil, 2009. Disponível em:


*Fábio Palácio é professor de jornalismo no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Venezuela e o mico da mídia e do MBL

Por Altamiro Borges
No seu ódio à “revolução bolivariana”, a imprensa brasileira – que parece uma sucursal rastaquera da mídia imperial dos EUA – já divulgou incontáveis mentiras sobre a Venezuela. Quase diariamente os jornalões e as emissoras de rádio e tevê destilam o seu veneno contra o país vizinho. A Folha, que apoiou os dois últimos golpes no Brasil (1964 e 2016) e respaldou o regime militar e a quadrilha de Michel Temer, até decidiu rotular o governo de Nicolás Maduro de “ditadura” – apesar das inúmeras eleições ocorridas desde a chegada de Hugo Chávez ao poder. Já o Jornal Nacional, da golpista TV Globo, é o campeão na prática do “jornalismo de guerra” contra a Venezuela. Esta obsessão doentia, porém, costuma produzir algumas cenas risíveis – como o recente caso do brasileiro Jonatan Diniz.
Ainda não se sabe ao certo se o gaúcho de 31 anos que mora em Los Angeles (EUA) é mercenário, agente da CIA, vigarista ou doente mental. Mas ele conseguiu desmoralizar ainda mais a mídia nativa e os grupelhos fascistas chocados por ela – como o Movimento Brasil Livre (MBL). Jonatan Diniz, que se diz criador de uma ONG que arrecada doações para crianças famélicas, foi preso na Venezuela sob a acusação de práticas criminosas. De imediato, a TV Globo e o restante da imprensa colonizada – que sempre trataram com naturalidade a miséria de milhões de crianças brasileiras – iniciaram uma campanha pela libertação do sujeito. Esta ação “humanitária” quase agravou ainda mais as já tensas relações diplomáticas entre os dois países.

Após passar 11 dias na cadeia e ser deportado para os EUA, o pilantra divulgou um vídeo na internet confessando que foi ao país com a intenção deliberada de ser preso para impulsionar a arrecadação financeira da sua desconhecida ONG. “Eu planejei ir para a Venezuela, chamar atenção e ser preso... Queria essa repercussão para vocês prestarem atenção, tem criança morrendo. Graças a Deus não fizeram nada de mau comigo, e o plano deu absolutamente certo”, afirma o sorridente Jonatan Diniz no vídeo. Ele ainda aproveita para ironizar o papel da imprensa como promotora de escândalos. “Porque quanto mais notícia ruim, a gente cria má vibração no planeta, cria uma realidade estúpida”.

A mídia nativa e seus jagunços de plantão, como Danilo Gentili e Rachel Sheherazade, ainda não fizeram autocrítica do mico monumental, do vexame que entra para os “anais” do jornalismo. Já os fedelhos do MBL até agora tentam se justificar para os seus seguidores fanáticos – inclusive os otários que fizeram doações à ONG de mentirinha. Em postagem nas redes sociais, o grupelho alega que foi enganado pelo “psicopata”. “O MBL vem por meio desta pedir desculpas a seus seguidores por tê-los envolvido na campanha para libertar um charlatão desonesto que envergonha o país... E lamenta pelo incansável trabalho dos ativistas que batalharam durante o Natal e o ano novo divulgando a arbitrariedade cometida pela ditadura de Maduro”. Patético!

Em tempo: Quem também caiu como gaita na pegadinha foi a advogada reprovada Janaina Paschoal, aquela que entrou em transe no processo de impeachment de Dilma Rousseff e depois foi cuidar dos banheiros públicos para ajudar o “prefake” de São Paulo. Em seu Twitter, ela atacou Nicolás Maduro e rosnou: “Onde estão os defensores dos direitos fundamentais? Ah! Esqueci! Eles não se importam quando os abusos são praticados por ditadores amigos! Tem um brasileiro sequestrado na Venezuela e ninguém fala nada”. Ela é quem devia, mais uma vez, ficar calada! Também a subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Balneário Camboriú (SC) fez papel de otária. Em nota divulgada na quinta-feira (11), ela lamentou o episódio e criticou a atitude "egoísta, vaidosa, irresponsável, desnecessária e desrespeitosa" de Jonatan Diniz.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Família Sarney, através do PIG, quer a volta de rebeliões em Pedrinhas.


Os órgãos de comunicação dos Sarneys e seus blogueiros bajuladores que fazem parte do PIG (Partido da imprensa Golpista) estão aproveitando o fato bizarro que aconteceu em Pedrinhas neste domingo, onde o condenado pela morte do jornalista Décio Sá, o Jonathan, assassinou um dos líderes da facção do bonde dos 40, durante banho de sol, para fazer culpar o governo atual por todos os problemas que ocorreram  e que possam ocorrer daqui pra frente.

Num entusiasmo delirante o grupo Sarney usa seus capachos jornalistas para tentar reverter o que o povo já sabe a verdade que quando a “guerreira” comandava o nosso estado, Pedrinhas diariamente era notícia nacional, acontecia no sistema, muitas “guerras”, mortes com cabeças rolando, incêndio, fugas, lotação quadruplicadas, todo tipo de arruaça os presos cometiam durante o governo dos Sarneys.

O que querem os Sarneyzistas e seus capachos jornalistas com esse frenesi?

Nada mais, nada menos que volte as rebeliões nos presídios, que volte o caos no sistema carcerário, para que a população fique com medo, inclusive setores dos órgãos de fiscalização  e representantes da sociedade que na época não faziam nada pra mudar a realidade, coloquem suas asinhas de fora e usam discursos moralistas para ajudar o grupo Sarney a obter pontos para eleição que está chegando.

Hoje o PIG diz que a população de presos é o dobro dos números de vagas oferecidas, não dizem que esse problema é nacional e que hoje em comparação ao governo da “guerreira” que era caótico, melhorou muito, inclusive com vários programas de ressocialização.


Cabe o governo atual, continuar a trabalhar no rumo certo que a população maranhense saberá sempre diferenciar o antes pro agora.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Manifesto do Projeto Brasil Nação


O Brasil vive uma crise sem precedentes. O desemprego atinge níveis assustadores. Endividadas, empresas cortam investimentos e vagas. A indústria definha, esmagada pelos juros reais mais altos do mundo e pelo câmbio sobreapreciado. Patrimônios construídos ao longo de décadas são desnacionalizados.

Mudanças nas regras de conteúdo local atingem a produção nacional. A indústria naval, que havia renascido, decai. Na infraestrutura e na construção civil, o quadro é de recuo. Ciência, cultura, educação e tecnologia sofrem cortes.

Programas e direitos sociais estão ameaçados. Na saúde e na Previdência, os mais pobres, os mais velhos, os mais vulneráveis são alvo de abandono.

A desigualdade volta a aumentar, após um período de ascensão dos mais pobres. A sociedade se divide e se radicaliza, abrindo espaço para o ódio e o preconceito.

No conjunto, são as ideias de nação e da solidariedade nacional que estão em jogo. Todo esse retrocesso tem apoio de uma coalizão de classes financeiro-rentista que estimula o país a incorrer em deficits em conta corrente, facilitando assim, de um lado, a apreciação cambial de longo prazo e a perda de competitividade de nossas empresas, e, de outro, a ocupação de nosso mercado interno pelas multinacionais, os financiamentos externos e o comércio desigual.

Esse ataque foi desfechado num momento em que o Brasil se projetava como nação, se unindo a países fora da órbita exclusiva de Washington. Buscava alianças com países em desenvolvimento e com seus vizinhos do continente, realizando uma política externa de autonomia e cooperação. O país construía projetos com autonomia no campo do petróleo, da defesa, das relações internacionais, realizava políticas de ascensão social, reduzia desigualdades, em que pesem os efeitos danosos da manutenção dos juros altos e do câmbio apreciado.

Para o governo, a causa da grande recessão atual é a irresponsabilidade fiscal; para nós, o que ocorre é uma armadilha de juros altos e de câmbio apreciado que inviabiliza o investimento privado. A política macroeconômica que o governo impõe à nação apenas agravou a recessão. Quanto aos juros altíssimos, alega que são “naturais”, decorrendo dos déficits fiscais, quando, na verdade, permaneceram muito altos mesmo no período em que o país atingiu suas metas de superávit primário (1999-2012).

Buscando reduzir o Estado a qualquer custo, o governo corta gastos e investimentos públicos, esvazia o BNDES, esquarteja a Petrobrás, desnacionaliza serviços públicos, oferece grandes obras públicas apenas a empresas estrangeiras, abandona a política de conteúdo nacional, enfraquece a indústria nacional e os programas de defesa do país, e liberaliza a venda de terras a estrangeiros, inclusive em áreas sensíveis ao interesse nacional.

Privatizar e desnacionalizar monopólios serve apenas para aumentar os ganhos de rentistas nacionais e estrangeiros e endividar o país.

O governo antinacional e antipopular conta com o fim da recessão para se declarar vitorioso. A recuperação econômica virá em algum momento, mas não significará a retomada do desenvolvimento, com ascensão das famílias e avanço das empresas. Ao contrário, o desmonte do país só levará à dependência colonial e ao empobrecimento dos cidadãos, minando qualquer projeto de desenvolvimento.

Para voltar a crescer de forma consistente, com inclusão e independência, temos que nos unir, reconstruir nossa nação e definir um projeto nacional. Um projeto que esteja baseado nas nossas necessidades, potencialidades e no que queremos ser no futuro. Um projeto que seja fruto de um amplo debate.

É isto que propomos neste manifesto: o resgate do Brasil, a construção nacional.

Temos todas as condições para isso. Temos milhões de cidadãos criativos, que compõem uma sociedade rica e diversificada. Temos música, poesia, ciência, cinema, literatura, arte, esporte – vitais para a construção de nossa identidade.

Temos riquezas naturais, um parque produtivo amplo e sofisticado, dimensão continental, a maior biodiversidade do mundo. Temos posição e peso estratégicos no planeta. Temos histórico de cooperação multilateral, em defesa da autodeterminação dos povos e da não intervenção.

O governo reacionário e carente de legitimidade não tem um projeto para o Brasil. Nem pode tê-lo, porque a ideia de construção nacional é inexistente no liberalismo econômico e na financeirização planetária.

Cabe a nós repensarmos o Brasil para projetar o seu futuro – hoje bloqueado, fadado à extinção do empresariado privado industrial e à miséria dos cidadãos.

Nossos pilares são: autonomia nacional, democracia, liberdade individual, desenvolvimento econômico, diminuição da desigualdade, segurança e proteção do ambiente – os pilares de um regime desenvolvimentista e social.

Para termos autonomia nacional, precisamos de uma política externa independente, que valorize um maior entendimento entre os países em desenvolvimento e um mundo multipolar.

Para termos democracia, precisamos recuperar a credibilidade e a transparência dos poderes da República. Precisamos garantir diversidade e pluralidade nos meios de comunicação. Precisamos reduzir o custo das campanhas eleitorais, e diminuir a influência do poder econômico no processo político, para evitar que as instituições sejam cooptadas pelos interesses dos mais ricos.

Para termos Justiça precisamos de um Poder Judiciário que atue nos limites da Constituição e seja eficaz no exercício de seu papel. Para termos segurança, precisamos de uma polícia capacitada, agindo de acordo com os direitos humanos.

Para termos liberdade, precisamos que cada cidadão se julgue responsável pelo interesse público.

Precisamos estimular a cultura, dimensão fundamental para o desenvolvimento humano pleno, protegendo e incentivando as manifestações que incorporem a diversidade dos brasileiros.

Para termos desenvolvimento econômico, precisamos de investimentos públicos (financiados por poupança pública) e principalmente investimentos privados. E para os termos precisamos de uma política fiscal, cambial socialmente responsáveis; precisamos juros baixos e taxa de câmbio competitiva; e precisamos ciência e tecnologia.

Para termos diminuição da desigualdade, precisamos de impostos progressivos e de um Estado de bem-estar social amplo, que garanta de forma universal educação, saúde e renda básica. E precisamos garantir às mulheres, aos negros, aos indígenas e aos LGBT direitos iguais aos dos homens brancos e ricos.

Para termos proteção do ambiente, precisamos cuidar de nossas florestas, economizar energia, desenvolver fontes renováveis e participar do esforço para evitar o aquecimento global.

Neste manifesto inaugural estamos nos limitando a definir as políticas públicas de caráter econômico. Apresentamos, assim, os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil Nação.

1 Regra fiscal que permita a atuação contracíclica do gasto público, e assegure prioridade à educação e à saúde
2 Taxa básica de juros em nível mais baixo, compatível com o praticado por economias de estatura e grau de desenvolvimento semelhantes aos do Brasil
3 Superávit na conta corrente do balanço de pagamentos que é necessário para que a taxa de câmbio seja competitiva
4 Retomada do investimento público em nível capaz de estimular a economia e garantir investimento rentável para empresários e salários que reflitam uma política de redução da desigualdade
5 Reforma tributária que torne os impostos progressivos

Esses cinco pontos são metas intermediárias, são políticas que levam ao desenvolvimento econômico com estabilidade de preços, estabilidade financeira e diminuição da desigualdade. São políticas que atendem a todas as classes exceto a dos rentistas.

A missão do Projeto Brasil Nação é pensar o Brasil, é ajudar a refundar a nação brasileira, é unir os brasileiros em torno das ideias de nação e desenvolvimento – não apenas do ponto de vista econômico, mas de forma integral: desenvolvimento político, social, cultural, ambiental; em síntese, desenvolvimento humano. Os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil são seus instrumentos – não os únicos instrumentos, mas aqueles que mostram que há uma alternativa viável e responsável para o Brasil.

Estamos hoje, os abaixo assinados, lançando o Projeto Brasil Nação e solicitando que você também seja um dos seus subscritores e defensores.

30 de março de 2017 

Subscritores originais
  • LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, economista
  • ELEONORA DE LUCENA, jornalista
  • CELSO AMORIM, embaixador
  • RADUAN NASSAR, escritor
  • CHICO BUARQUE DE HOLLANDA, músico e escritor
  • MARIO BERNARDINI, engenheiro
  • FERNANDO BUENO, empresário
  • ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE, físico
  • ROBERTO SCHWARZ, crítico literário
  • PEDRO CELESTINO, engenheiro
  • FÁBIO KONDER COMPARATO, jurista
  • KLEBER MENDONÇA FILHO, cineasta
  • LAERTE, cartunista
  • JOÃO PEDRO STEDILE, ativista social
  • WAGNER MOURA, ator e cineasta
  • VAGNER FREITAS, sindicalista
  • MARGARIDA GENEVOIS, ativista de direitos humanos
  • FERNANDO HADDAD, professor universitário
  • MARCELO RUBENS PAIVA, escritor
  • MARIA VICTORIA BENEVIDES, socióloga
  • LUIZ COSTA LIMA, crítico literário
  • CIRO GOMES, político
  • LUIZ GONZAGA DE MELLO BELLUZZO, economista
  • ALFREDO BOSI, crítico e historiador
  • ECLEA BOSI, psicóloga
  • LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, escritor
  • MANUELA CARNEIRO DA CUNHA , antropóloga
  • FERNANDO MORAIS, jornalista
  • LEDA PAULANI, economista
  • ANDRÉ SINGER, cientista político
  • PAUL SINGER, economista
  • LUIZ CARLOS BARRETO, cineasta
  • PAULO SÉRGIO PINHEIRO, sociólogo
  • MARIA RITA KEHL, psicanalista
  • ERIC NEPOMUCENO, jornalista
  • CARINA VITRAL, estudante
  • LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO, historiador
  • ROBERTO SATURNINO BRAGA, engenheiro e político
  • ROBERTO AMARAL, cientista político
  • EUGENIO ARAGÃO, subprocurador geral da república
  • ERMÍNIA MARICATO, arquiteta
  • TATA AMARAL, cineasta
  • MARCIA TIBURI, filósofa
  • NELSON BRASIL, engenheiro
  • GILBERTO BERCOVICI, advogado
  • OTAVIO VELHO, antropólogo
  • GUILHERME ESTRELLA, geólogo
  • JOSÉ GOMES TEMPORÃO, médico
  • LUIZ ALBERTO DE VIANNA MONIZ BANDEIRA, historiador
  • FREI BETTO, religioso e escritor
  • HÉLGIO TRINDADE, cientista político
  • RENATO JANINE RIBEIRO, filósofo
  • ENNIO CANDOTTI, físico
  • SAMUEL PINHEIRO GUIMARÃES, embaixador
  • FRANKLIN MARTINS, jornalista
  • MARCELO LAVENERE, advogado
  • BETE MENDES, atriz
  • JOSÉ LUIZ DEL ROIO, ativista político
  • VERA BRESSER-PEREIRA, psicanalista
  • AQUILES RIQUE REIS, músico
  • RODOLFO LUCENA, jornalista
  • MARIA IZABEL AZEVEDO NORONHA, professora
  • JOSÉ MARCIO REGO, economista
  • OLÍMPIO ALVES DOS SANTOS, engenheiro
  • GABRIEL COHN, sociólogo
  • AMÉLIA COHN, socióloga
  • ALTAMIRO BORGES, jornalista
  • REGINALDO MATTAR NASSER, sociólogo
  • JOSÉ JOFFILY, cineasta
  • ISABEL LUSTOSA, historiadora
  • ODAIR DIAS GONÇALVES, físico
  • PEDRO DUTRA FONSECA, economista
  • ALEXANDRE PADILHA, médico
  • RICARDO CARNEIRO, economista
  • JOSÉ VIEGAS FILHO, diplomata
  • PAULO HENRIQUE AMORIM, jornalista
  • PEDRO SERRANO, advogado
  • MINO CARTA, jornalista
  • LUIZ FERNANDO DE PAULA, economista
  • IRAN DO ESPÍRITO SANTOS, artista
  • HILDEGARD ANGEL, jornalista
  • PEDRO PAULO ZALUTH BASTOS, economista
  • SEBASTIÃO VELASCO E CRUZ, cientista político
  • MARCIO POCHMANN, economista
  • LUÍS AUGUSTO FISCHER, professor de literatura
  • MARIA AUXILIADORA ARANTES, psicanalista
  • ELEUTÉRIO PRADO, economista
  • HÉLIO CAMPOS MELLO, jornalista
  • ENY MOREIRA, advogada
  • NELSON MARCONI, economista
  • SÉRGIO MAMBERTI, ator
  • JOSÉ CARLOS GUEDES, psicanalista
  • JOÃO SICSÚ, economista
  • RAFAEL VALIM, advogado
  • MARCOS GALLON, curador
  • MARIA RITA LOUREIRO, socióloga
  • ANTÔNIO CORRÊA DE LACERDA, economista
  • LADISLAU DOWBOR, economista
  • CLEMENTE LÚCIO, economista
  • ARTHUR CHIORO, médico
  • TELMA MARIA GONÇALVES MENICUCCI, cientista política
  • NEY MARINHO, psicanalista
  • FELIPE LOUREIRO, historiador
  • EUGÊNIA AUGUSTA GONZAGA, procuradora
  • CARLOS GADELHA, economista
  • PEDRO GOMES, psicanalista
  • CLAUDIO ACCURSO, economista
  • EDUARDO GUIMARÃES, jornalista
  • REINALDO GUIMARÃES, médico
  • CÍCERO ARAÚJO, cientista político
  • VICENTE AMORIM, cineasta
  • EMIR SADER, sociólogo
  • SÉRGIO MENDONÇA, economista
  • FERNANDA MARINHO, psicanalista
  • FÁBIO CYPRIANO, jornalista
  • VALESKA MARTINS, advogada
  • LAURA DA VEIGA, socióloga
  • JOÃO SETTE WHITAKER FERREIRA, urbanista
  • FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA DA SILVA, historiador
  • CRISTIANO ZANIN MARTINS, advogado
  • SÉRGIO BARBOSA DE ALMEIDA, engenheiro
  • FABIANO SANTOS, cientista político
  • NABIL ARAÚJO, professor de letras
  • MARIA NILZA CAMPOS, psicanalista
  • LEOPOLDO NOSEK, psicanalista
  • WILSON AMENDOEIRA, psicanalista
  • NILCE ARAVECCHIA BOTAS, arquiteta
  • PAULO TIMM, economista
  • MARIA DA GRAÇA PINTO BULHÕES, socióloga
  • OLÍMPIO CRUZ NETO, jornalista
  • RENATO RABELO, político
  • MAURÍCIO REINERT DO NASCIMENTO, administrador
  • ADHEMAR BAHADIAN, embaixador
  • ANGELO DEL VECCHIO, sociólogo
  • MARIA THERESA DA COSTA BARROS, psicóloga
  • GENTIL CORAZZA, economista
  • LUCIANA SANTOS, deputada
  • RICARDO AMARAL, jornalista
  • BENEDITO TADEU CÉSAR, economista
  • AÍRTON DOS SANTOS, economista
  • JANDIRA FEGHALI, deputada
  • LAURINDO LEAL FILHO, jornalista
  • ALEXANDRE ABDAL, sociólogo
  • LEONARDO FRANCISCHELLI, psicanalista
  • MARIO CANIVELLO, jornalista
  • MARIO RUY ZACOUTEGUY, economista
  • ANNE GUIMARÃES, cineasta
  • ROSÂNGELA RENNÓ, artista
  • EDUARDO FAGNANI, economista
  • REBECA SCHWARTZ, psicóloga
  • MOACIR DOS ANJOS, curador
  • REGINA GLORIA NUNES DE ANDRADE, psicóloga 
  • RODRIGO VIANNA, jornalista
  • LUCAS JOSÉ DIB, cientista político
  • WILLIAM ANTONIO BORGES, administrador
  • PAULO NOGUEIRA, jornalista
  • OSWALDO DORETO CAMPANARI, médico 
  • CARMEM DA COSTA BARROS, advogada
  • EDUARDO PLASTINO, consultor
  • ANA LILA LEJARRAGA, psicóloga
  • CASSIO SILVA MOREIRA, economista
  • MARIZE MUNIZ, jornalista
  • VALTON MIRANDA, psicanalista
  • MIGUEL DO ROSÁRIO, jornalista
  • HUMBERTO BARRIONUEVO FABRETTI, advogado
  • FABIAN DOMINGUES, economista
  • KIKO NOGUEIRA, jornalista
  • FANIA IZHAKI, psicóloga
  • CARLOS HENRIQUE HORN, economista
  • BETO ALMEIDA, jornalista
  • JOSÉ FRANCISCO SIQUEIRA NETO, advogado
  • PAULO SALVADOR, jornalista
  • WALTER NIQUE, economista
  • CLAUDIA GARCIA, psicóloga
  • LUIZ CARLOS AZENHA, jornalista
  • RICARDO DATHEIN, economista
  • ETZEL RITTER VON STOCKERT, matemático
  • ALBERTO PASSOS GUIMARÃES FILHO, físico
  • BERNARDO KUCINSKI, jornalista e escritor
  • DOM PEDRO CASALDÁLIGA, religioso
  • ENIO SQUEFF, artista plástico
  • FERNANDO CARDIM DE CARVALHO, economista
  • GABRIEL PRIOLLI, jornalista
  • GILBERTO MARINGONI, professor de relações internacionais
  • HAROLDO CERAVOLO SEREZA, jornalista e editor
  • HAROLDO LIMA, político e engenheiro
  • HAROLDO SABOIA, constituinte de 88, economista
  • AFRÂNIO GARCIA, cientista social
  • IGOR FELIPPE DOS SANTOS, jornalista
  • JOSÉ EDUARDO CASSIOLATO, economista
  • JOSÉ GERALDO COUTO, jornalista e tradutor
  • LISZT VIEIRA, advogado e professor universitário
  • LÚCIA MURAT, cineasta
  • LUIZ ANTONIO CINTRA, jornalista
  • LUIZ PINGUELLI ROSA, físico, professor universitário
  • MARCELO SEMIATZH, fisioterapeuta
  • MICHEL MISSE, sociólogo
  • ROGÉRIO SOTTILI, historiador
  • TONI VENTURI, cineasta
  • VLADIMIR SACCHETTA, jornalista 
  • ADRIANO DIOGO, político
  • MARCELO AULER, jornalista
  • MARCOS COSTA LIMA, cientista político
  • RAUL PONT, historiador
  • DANILO ARAUJO FERNANDES, economista
  • DIEGO PANTASSO, cientista político
  • ENNO DAGOBERTO LIEDKE FILHO, sociólogo
  • JOÃO CARLOS COIMBRA, biólogo
  • JORGE VARASCHIN, economista
  • RUALDO MENEGAT, geólogo
  • PATRÍCIA BERTOLIN, professora universitária
  • MARISA SOARES GRASSI, procurador aposentada
  • MARIA ZOPPIROLLI, Advogada
  • MARIA DE LOURDES ROLLEMBERG MOLLO, economista
  • LUIZ ANTONIO TIMM GRASSI, engenheiro
  • LIÉGE GOUVÊIA, juíza
  • LUIZ JACOMINI, jornalista
  • LORENA HOLZMANN, socióloga
  • LUIZ ROBERTO PECOITS TARGA, economista
  • ANTONIO CARLOS DE LACERDA, economista
  • FRANCISCO WHITAKER, ativista social
  •  

Os subscritores originais foram aqueles que participaram das reuniões e os que foram diretamente convidados por esses participantes.