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segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Fentanil: como nova onda de overdoses assola EUA e mata quase 300 por dia

Mulher fumando fentanil em rua de Los Angeles,
Estados Unidos 
(GETTY IMAGE)
 
Por Nadine Yousif

Cada vez mais americanos morrem por overdose de fentanil, à medida que uma nova onda da epidemia de opioides começa a se espalhar pelas comunidades dos quatro cantos do país.

Há seis anos, Sean morreu de uma overdose acidental por fentanil em Burlington, no Estado de Vermont. Ele tinha 27 anos.

"Cada vez que ouço falar de uma perda devido ao abuso de substâncias, meu coração se parte um pouco mais", escreveu a mãe dele, Kim Blake, em um blog dedicado ao filho em 2021.

"Mais uma família despedaçada. Sempre de luto pela perda de sonhos e celebrações."

Naquele ano, os Estados Unidos testemunharam um marco sombrio: pela primeira vez, as overdoses mataram mais de 100 mil pessoas em todo o país num único ano.

Dessas mortes, mais de 66% estavam ligadas ao fentanil, um opioide sintético 50 vezes mais poderoso que a heroína.

O fentanil é um produto farmacêutico que pode ser prescrito por médicos para tratar dores intensas.

Mas a droga também é fabricada e vendida por traficantes. A maior parte do fentanil ilegal encontrado nos EUA é traficado a partir do México e usa produtos químicos provenientes da China, de acordo com o Drug Enforcement Administration (DEA), órgão federal encarregado da repressão e do controle de narcóticos

Em 2010, menos de 40 mil pessoas morreram por overdose de drogas em todo o país, e menos de 10% dessas mortes estavam ligadas ao fentanil.

Naquela época, as mortes eram causadas principalmente pelo uso de heroína ou opioides prescritos por profissionais de saúde.

A mudança de cenário é detalhada num estudo divulgado recém-publicado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA).

O trabalho examina as tendências nas mortes por overdose no país entre 2010 e 2021, utilizando dados compilados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.


Os dados mostram claramente como o fentanil redefiniu as overdoses nos Estados Unidos na última década.

"O aumento do consumo de fentanil fabricado ilicitamente deu início a uma crise sem precedentes", escreveram os autores do artigo.

Praticamente todos os cantos dos EUA — do Havaí a Rhode Island — foram tocados pelo fentanil.

O aumento das mortes relacionadas à droga foi observado pela primeira vez em 2015, revelam as estatísticas.

Desde então, o entorpecente se espalhou pelo país e a taxa de mortalidade cresceu de forma acentuada.

"Em 2018, cerca de 80% das overdoses por fentanil aconteceram a leste do rio Mississippi", disse à BBC Chelsea Shover, professora assistente da UCLA e coautora do estudo.

Mas, em 2019, "o fentanil passa a fazer parte do fornecimento de drogas no oeste dos EUA e, de repente, esta população que estava resguardada também ficou exposta, e as taxas de mortalidade começaram a subir", segundo a pesquisadora

Na pesquisa recente, os especialistas alertam para outra tendência crescente: as mortes relacionadas ao consumo de fentanil em conjunto com drogas estimulantes, como a cocaína ou a metanfetamina.

Essa tendência é observada em todos os EUA, embora de formas diferentes devido aos padrões de consumo que diferem de região para região.

Os investigadores encontraram, por exemplo, taxas de mortalidade mais elevadas relacionadas ao consumo de fentanil e cocaína em Estados do nordeste dos EUA, como Vermont e Connecticut, onde os estimulantes geralmente são de fácil acesso.

Mas em praticamente todos os cantos do país, da Virgínia à Califórnia, as mortes foram causadas principalmente pelo uso de metanfetaminas e fentanil.

Blake, que também é médica, disse que seu filho usava cocaína esporadicamente, embora o exame toxicológico tenha encontrado apenas fentanil em seu organismo.

Ela aprendeu que muitos misturam diferentes substâncias para obter uma sensação prolongada.

"Não é nenhuma surpresa para mim esse aumento tão grande nas combinações de estimulantes e opioides", observa Blake.

Quando o fentanil chegou pela primeira vez aos EUA como parte do tráfico, "muitas pessoas não o queriam", lembra Shover. Mas o opioide sintético tornou-se amplamente disponível porque é mais barato de produzir em comparação com outras drogas.

Ele também é altamente viciante — isso significa que dependentes ficam expostos ao entorpecente e muitas vezes o procuram como uma forma de evitar abstinências dolorosas relacionadas a outras substâncias.

Nos EUA, o estudo identificou que Alasca, Virgínia Ocidental, Rhode Island, Havaí e Califórnia como os Estados com as taxas mais elevadas de mortes por overdose em que há mistura de fentanil e estimulantes.

Esses locais têm taxas historicamente altas de uso de drogas, segundo Shover. Com a chegada do fentanil, esse consumo tornou-se ainda mais letal.

Pessoa em overdose é atendida por médicos nas ruas de
Vancouver, Canadá (GETTY IMAGES)

Um problema que atravessa classes sociais

A crise dos opioides tem sido tradicionalmente retratada como um "problema dos brancos", destaca Shover.

No entanto, o estudo recente revelou que os afro-americanos estão morrendo ao combinar fentanil e estimulantes a taxas mais elevadas, em todas as faixas etárias e limites geográficos.

Para Rasheeda Watts-Pearson, especialista em redução de danos baseada em Ohio, nos EUA, os dados refletem o que é visto na prática.

Ela faz um trabalho de divulgação com a A1 Stigma Free, uma organização fundada há apenas oito meses para combater um aumento notável de mortes por overdose na comunidade afro-americana de Cincinnati.

Como parte do trabalho, Watts-Pearson visita frequentemente barbearias, bares e mercearias para falar com as pessoas sobre os impactos do fentanil.

Ela considera que há falta de conscientização sobre o tema, motivada em parte pelas disparidades históricas de saúde vivenciadas por grupos raciais e étnicos.

Mesmo as campanhas de marketing feitas para conscientizar sobre a crise dos opioides não incluem a experiência dos negros americanos, critica ela.

"Se eu dirigir até a cidade de Avondale agora mesmo, há um outdoor que fala sobre a 'Crise dos Opioides', mas na mensagem aparecem duas pessoas brancas”" exemplifica Watts-Pearson.

Ela aponta que as drogas misturadas com fentanil são uma grande barreira para a comunidade. Segundo a ativista, muitas pessoas acabam consumindo o entorpecente sem saber — e desenvolvem uma dependência.

"Os legistas veem pessoas com overdose que morreram por causa de cocaína, crack e vestígios de fentanil", diz ela.

"Isso está infiltrado na comunidade negra e não há gente suficiente falando sobre o assunto."

Rasheeda Watts-Pearson (à esquerda) tem trabalhado com A1 Stigma Free
para aumentar a conscientização sobre o impacto da epidemia de fentail
na comunidade afro-americana de Cincinnati, Ohio

Uma quarta onda

O abuso de fentanil em combinação com outras drogas marca o início de uma "quarta onda" da crise nos EUA, avaliam os pesquisadores.

A primeira onda de overdoses aconteceu no final dos anos 1990, com mortes por opioides com prescrição médica. Em 2010, houve uma segunda onda de overdoses, dessa vez causadas por heroína. E em 2013, surgiu uma terceira onda, graças à proliferação de drogas ilícitas análogas ao fentanil.

Especialistas como a professora Shover alertam que as opções de tratamento para a quarta onda não acompanham a demanda.

"Nosso sistema de tratamento contra dependência geralmente se concentra em uma droga de cada vez", conta ela.

"Mas a realidade é que muitos usuários usam mais de um tipo de droga."

Para manter viva a memória de seu filho, Blake decidiu falar abertamente sobre a perda e tenta ajudar outras famílias a passar pela mesma dor.

"Todo mundo tem uma história e, para um pai que perdeu um filho, isso dura para sempre", diz ela.

Seu filho fez tratamentos contra dependência algumas vezes.

A experiência ensinou à Blake que as opções terapêuticas variam de Estado para Estado e, em muitos casos, o que está disponível não é suficiente.

"O ideal seria que as pessoas recebessem tratamento rapidamente, sempre que quisessem e a longo prazo", destaca ela.

Blake também sugere a criação de locais para a prevenção de overdose, onde as pessoas pudessem usar drogas com segurança e sob supervisão.

Esses lugares estão amplamente disponíveis no Canadá — que tem a sua própria crise de fentanil — mas existem apenas duas instalações do tipo nos EUA inteiro.

Acima de tudo, Blake apelou à compaixão e à compreensão para aqueles que lutam contra o uso de substâncias.

"A maioria das pessoas com quem converso dizem que seus filhos não queriam morrer."

sábado, 11 de julho de 2020

A verdade sobre o uso abusivo de Ritalina

Dando continuidade a divulgações de matérias sobre o uso, sua composição, seus benefícios e seus efeitos colaterais nas nossas crianças do medicamento Ritalina. Hoje divulgamos matéria importante, extraída do site da Fundação Para Um Mundo Sem Drogas no que se refere sobre os efeitos colaterais dos estimulantes prescritos. Veja abaixo:

OS EFEITOS PERVERSOS DOS ESTIMULANTES PRESCRITOS

Esta substância similar à anfetamina causa os mesmos tipos de efeitos no corpo que outras formas de rebites: perda de apetite, insônia e aumento do batimento cardíaco. O uso desta droga em grandes doses, especialmente por injetar ou cheirar, cria uma pressão ainda maior sobre o corpo. O stress no coração pode ser fatal.
Veja o caso de um adolescente dependente de Ritalina, que um dia teve um colapso enquanto andava de skate. Morreu por ataque cardíaco.
A injeção de Ritalina tem um efeito adicional horrível sobre o corpo. Embora o componente químico, metilfenidato, se dissolva complemente na água, os comprimidos têm partículas minúsculas que não se diluem. Quando injetados na corrente sanguínea, estes materiais sólidos bloqueiam os pequenos vasos sanguíneos, causando danos sérios nos pulmões e nos olhos.
Além do impacto físico, há também as condições emocionais graves causadas pelo uso desta droga até mesmo quando se toma por pouco tempo. Alucinações e comportamento psicótico não são incomuns.
Um pesquisador no Texas descobriu que o uso de Ritalina pode elevar o risco de câncer. Este estudo descobriu que após apenas três meses, cada uma das doze crianças tratadas com metilfenidato sofreu anormalidades genéticas associadas a um elevado risco de câncer.

EFEITOS A CURTO PRAZO

  • Perda de apetite
  • Aumento do ritmo cardíaco, da pressão sanguínea e da temperatura corporal
  • Dilatação das pupilas
  • Distúrbios do sono
  • Náusea
  • Comportamento bizarro, errático e às vezes violento
  • Alucinações, hiperexcitabilidade, irritabilidade
  • Pânico e psicose
  • Doses excessivas podem levar a convulsões, espasmos e à morte

EFEITOS A LONGO PRAZO

  • Danos permanentes nos vasos sanguíneos do coração e do cérebro, pressão sanguínea alta levando a ataques cardíacos, derrames cerebrais e à morte
  • Danos no fígado, rins e pulmões
  • Se for cheirada, ocorre a destruição dos tecidos nasais
  • Se for fumada, gera problemas respiratórios
  • Causa doenças infecciosas e abcessos se for injetada
  • Má nutrição, perda de peso
  • Desorientação, apatia, exaustão e confusão
  • Forte dependência psicológica
  • Psicose
  • Depressão
  • Danos no cérebro, incluindo derrames e possivelmente epilepsia

domingo, 24 de março de 2019

Saiba como é morar em Cuba e o custo de vida de lá

Esse é certamente um dos países que mais desperta a curiosidade dos estrangeiros. No entanto, apesar do acesso gratuito à educação e saúde de qualidade aos seus mais 11 milhões de habitantes serem diferenciais, o fato de o país ainda contar com poucos recursos tecnológicos e financeiros faz com que muitos apenas pensem em visitar e não morar em Cuba. Afinal, são mais de 200 baías e 280 praias a serem aproveitadas ao longo de seus 5,7 mil quilômetros de extensão.
Desde 2016,  as relações com Estados Unidos vêm se estreitando, indicando possíveis parcerias e melhorias em seus serviços. Inclusive, a embaixada norte-americana foi reaberta no país. Cuba também está investindo mais na distribuição da internet para a população. Há cerca de três anos, foram instalados os primeiros pontos de Wi-Fi públicos na cidade de Santiago de Cuba, por exemplo.
Apesar de ser pago, US$ 1 por hora ou US$ 10 por um cartão com direito a 5 horas de navegação, o acesso à internet fora dos terrenos de universidades e hotéis demonstra um avanço para quem achava que não existia distribuição nenhuma de informação no país.
Atualmente, a ilha é muito procurada por estudantes interessados em estudar espanhol e em conseguir um diploma de medicina. Muitos pesquisadores e educadores também acabam passando longas estadias no país a estudo.

Como morar em Cuba

Em Cuba, salvo raríssimos casos, não existe processo de naturalização: apenas quem nasceu no país tem a cidadania cubana. Parentes de cubanos podem solicitar o visto A-2, também conhecido como visto familiar.
No entanto, quem deseja morar no país pode pedir um visto de residência ao governo. De acordo com o site das Representações Diplomáticas de Cuba no Exterior, é preciso comparecer em uma das representações cubanas no Brasil e apresentar os seguintes documentos:
  • Resultados de exames de radiografia de tórax, sangue e teste da AIDS (os exames não podem ter sido feitos há mais de seis meses e podem ser feitos em Cuba);
  • Certificação de antecedentes criminais do Brasil;
  • Carta explicando os motivos pelo qual o estrangeiro deseja morar em Cuba;
  • Duas fotos 3×4;
  • Cópia do passaporte e passaporte original;
  • Certidão de casamento, nascimento dos filhos ou outra prova que fundamente a solicitação de acordo com as leis cubanas;
  • Comprovante de pagamento da taxa consular paga em dinheiro, cheque ou transferência bancária.Os documentos requeridos precisam estar traduzidos e devidamente legalizados pelo consulado.
Quem vai para lá apenas para conhecer ou visitar um familiar pode tirar a Tarjeta de Turista, válida por 30 dias e com opção de extensão para mais 30 dias. O visto é concedido na hora durante uma visita consular. Para essa permissão basta levar o passaporte, cópia do bilhete aéreo, formulário de pedido de visto preenchido, e pagamento da taxa de cerca de R$57. O pedido também pode ser feito por correio.
Também é possível tirar um visto especial para jornalistas (D-6) e para quem vai a negócios ou para vender produtos. No primeiro caso, uma solicitação deve ser enviada primeiro para o e-mail imprensacuba@uol.com.br antes de ir ao consulado. Para a permissão de negócios, o pedido deve ser feito ao Gabinete Econômico e Comercial da Embaixada de Cuba. Independentemente do tipo de visto, a regra do governo determina que os estrangeiros que entram no país precisam ter um seguro saúde.
 
Custo de vida
O custo de vida em Cuba é um tanto complicado de se mensurar, apesar de começarem a circular mais informações sobre valores nos últimos anos. De acordo com o Numbeo, por exemplo, viver em São Paulo custa quase duas vezes mais do que em Havana.  É preciso considerar ainda que alguns itens necessários para se viver durante o mês no país são concedidos pelo governo – como a cesta básica, a educação (da básica até a universitária) e a saúde. Também não há cobrança de impostos sobre a remuneração como acontece em outros países.
De acordo com Oficina Nacional de Estadística e Información, o salário médio nacional é de 767 CUP, cerca de US$ 30,68.
A ilha possui dois tipos de moeda: o peso cubano comum (CUP) e o peso conversível (CUC) – para evitar que outras moedas circulem no país. O CUC equivale a US$1 dólar e é a moeda utilizada pelos visitantes. Com cerca de US$60, um turista consegue se alimentar bem, usar táxi e ainda fazer passeios.
A hospedagem pode ser a maior despesa da viagem, tudo depende das escolhas do viajante. As opções vão desde hostels e casas de habitantes locais que custam a partir de US$ 10 por noite até hotéis de 5 estrelas, onde a diária pode facilmente chegar a US$ 300.
Em Cuba existe racionamento há mais de 50 anos para certos serviços e artigos, como o papel higiênico, dificilmente encontrado em banheiros públicos de museus, restaurantes e bares. Nos hotéis o item é oferecido normalmente. Para os próximos anos, espera-se que a política vá aos poucos ficando mais flexível para os habitantes locais.
E, se for para destacar os serviços mais caros do país, é preciso sempre voltar as atenções para a internet. Os pacotes para ter acesso em casa vão de US$ 65 a US$ 180, sendo que o preço médio é de US$ 98, uma bela despesa no fim do mês. Sendo assim, vale mais investir em uma ida ao cinema, onde o valor máximo do bilhete é de US$ 1.

Trabalhar em Cuba

Em Cuba, a maioria dos habitantes são funcionários do governo. Para os que vão desenvolver atividades em sucursais de agências de viagem ou de companhias aéreas é possível solicitar uma autorização de trabalho ao Ministério do Trabalho e de Segurança Social de Cuba.
Para outros casos, o estrangeiro também deve procurar o ministério para obter permissão, que deverá ser compatível com a categoria migratória do residente.
Estudar em Cuba
Cuba é considerada pela World Bank (instituição financeira internacional) como o país com a melhor educação da América Latina e Caribe. Ali o analfabetismo praticamente não existe e 70% da população possui ensino superior, com destaque para áreas como medicina, artes, esportes e agroindústria.
Isso porque seu sistema educacional é 100% subsidiado pelo governo desde 1961, quando as instituições de ensino privadas também passaram a ser públicas. São 60 opções de universidades totalmente gratuitasespalhadas pela ilha, com cursos em níveis de bacharelado, mestrado e doutorado.
Então, além dos cursos de intercâmbio para aprender o espanhol, o país é procurado por muitos estrangeiros que querem se formar em medicina. Para se ter uma ideia, Cuba é o lar de 22,5 mil estudantes internacionais. Uma parceria com o Brasil ainda ajuda alunos de baixa renda a conseguir a tão sonhada formação.
É o caso da Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), que forma estrangeiros de baixa renda e de tribos indígenas para que eles atendam às suas comunidades quando voltarem ao país de origem. Atualmente, a escola recebe alunos de 120 países e já formou mais de 27.800 mil médicos desde sua fundação, em 1998.
Para estudar nessa instituição é preciso ter no máximo 25 anos e passar por um processo seletivo. Os candidatos brasileiros podem concorrer a bolsas de estudo na instituição, sendo indicados por movimentos sociais ou partidos políticos. Depois, uma entrevista deve ser feita na Embaixada de Cuba, onde é feito um teste psicotécnico e uma redação deve ser escrita. Depois de aprovado, o aluno ganha bolsa integral para estudar, incluindo alimentação, hospedagem, e 30% do valor de um salário mínimo na cidade. Quem não fala espanhol pode ter aulas do idioma para acompanhar os estudos. É importante lembrar que no Brasil o diploma de médico adquirido no exterior deve ser revalidado.
Mesmo sendo um país com boas relações diplomáticas no Brasil, é preciso solicitar um visto para entrar como estudante em Cuba, e isso só é possível depois que a universidade o aceitar. Para conseguir essa permissão é preciso ir até a embaixada cubana e os documentos normalmente pedidos são:
  • Passaporte original com validade mínima de seis meses
  • Formulário de pedido de visto preenchido e assinado
  • Reserva da passagem aérea
  • Carta de aceitação da universidade convidando o aluno ao país

Vale a pena ir para Cuba?

Apesar do clima tropical e do idioma latino (o espanhol), Cuba é um país difícil para um estrangeiro brasileiro se adaptar. O acesso a meios de comunicação e à internet são mais limitados e têm um alto custo se comparados ao de outros países, chegando a custar uma boa parte do salário de um cubano para uma utilização limitada.
Então, se morar ali vale a pena ou não depende muito do objetivo de quem vai: se for a estudo, as bolsas oferecidas em universidades muito boas compensam. Se for a trabalho, talvez seja preciso avaliar com as empresas que possuem sucursais instaladas ali e se a permissão de trabalho é viável.
Quem pretende passar uma boa temporada no país deve abrir mão do consumo e das redes de fast-food, pois trata-se de um país cujo governo é socialista.

Curiosidades

A área de biotecnologia em Cuba é uma das mais avançadas do mundo, com mais de 600 patentes para drogas, vacinas e sistemas de diagnóstico. Tanto é que a vacina contra a hepatite B, vendida em mais de 30 países, foi criada ali.
A saúde é um aspecto que chama a atenção: a qualidade da água de Cuba é uma das melhores do mundo, muitas doenças como tétano, hepatite, coqueluche, poliomielite, sarampo e difteria foram praticamente extintas da ilha. 
A expectativa de vida no país é uma das maiores, de 78 anos.
O esporte nacional da ilha é o beisebol. Boxe, vôlei e atletismo também são populares – o número de medalhas de ouros conquistadas por atletas cubanos em Olimpíadas fala por si só.
Cuba Libre, a famosa bebida que remete ao país, é feita com Rum, outra iguaria típica produzida a partir do melaço de cana de açúcar. A cozinha cubana combina tradições indígenas, africanas e espanholas.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Flávio Dino entrega o Centro Sorrir, que fará mil atendimentos odontológicos por semana

Flávio Dino e profissionais da equipe Sorrir (Karlos Geromy)

O governador Flávio Dino inaugurou nesta quarta-feira (28) a Unidade de Especialidades Odontológicas do Maranhão (Sorrir), o maior Centro de Atenção à Saúde Bucal da Região Nordeste.
Com 17 consultórios odontológicos, equipamentos de última geração e 87 profissionais à disposição da população, o Sorrir oferece atendimento de urgência, referenciado e espontâneo, com estrutura para atender mil pacientes por semana, inclusive com serviço de diagnóstico antecipado de câncer bucal.
A população poderá iniciar os agendamentos para tratamento em todas as especialidades, já a partir da quinta-feira (1º).
Flávio Dino destacou o empenho da equipe da Secretaria de Estado da Saúde (SES) para garantir a infraestrutura moderna da unidade: “Infelizmente, com tanta desigualdade que o Brasil vive, tornou-se costumeiro o conceito segundo o qual o que é público tem que ser de qualquer jeito e que tudo que funciona direito tem que ser pago. Nós sempre lutamos para quebrar esse paradigma em todas as áreas, inclusive na saúde. Estas instalações do Sorrir, que são extraordinárias, demonstram nosso esforço”.
O governador destacou, ainda, a importância do trabalho desempenhado pelos profissionais que atuarão no local: “Quero agradecer, sobretudo, aos profissionais de odontologia que farão a grandiosidade do Sorrir, porque a nossa principal obra é garantir que cada pessoa que venha aqui tenha a sua vida transformada”.
Para garantir a excelência no atendimento, os profissionais da unidade passaram por treinamento oferecido pela SES. Os 87 auxiliares de saúde bucal, técnicos de saúde bucal, técnicos de radiologia, recepcionistas e telefonistas foram contratados por meio de processo seletivo. O Sorrir é gerenciado pelo Instituto Acqua.
O secretário de Estado da Saúde, Carlos Lula, lembrou que a Unidade de Especialidades Odontológicas foi um dos primeiros compromissos de Flávio Dino.
“O governador deixou claro que gostaria de implantar esse serviço por uma questão de dignidade das pessoas. Ele nos disse que não quer que o Maranhão continue a ter pessoas com vergonha de esboçarem um sorriso e de se relacionarem socialmente. Temos então esse desafio histórico neste que é o primeiro de muitos centros que vamos oferecer à população, nesta especialidade”, disse.
Ineditismo
A inauguração da Unidade Sorrir também contou com a presença de representantes do Ministério da Saúde. A coordenadora Nacional de Saúde Bucal do Ministério, Lívia de Sousa, elogiou a iniciativa pioneira do Governo do Estado: “Dou meus parabéns ao governador Flávio Dino por mais essa iniciativa, pioneira no país para transformar essa realidade do Maranhão, garantindo a melhoria da qualidade de vida de toda a população”, disse.
O secretário de Estado Comunicação Social e Assuntos Políticos, Márcio Jerry, explicou a importância do novo equipamento de saúde: “Mais uma grande ação do governador Flávio Dino na área da saúde, uma ação importante e fundamental, um Centro que não existia e passa a atender milhares de pessoas, se consolidando como o maior da região Nordeste para esta especialidade.”
São mil atendimentos por semana no Sorrir
(Karlos Geromy)
Metas
Além dos mil atendimentos semanais, o Sorrir garantirá ampliação da meta de acordo com a demanda, como explica o coordenador Estadual de Saúde Bucal, Alan Patrício. “Temos a meta inicial de atender quatro mil pessoas por mês, mas podemos aumentá-la de acordo com a demanda. Com as metas específicas por especialidade, estamos preparados para ofertar 200 próteses por mês à população maranhense.”
Atendimento com excelência
Waldenir Campos Santos é uma das profissionais selecionadas para atuar no Sorrir. Especialista em endodontia para tratamento de canal, ela avalia que a iniciativa do Governo é um marco importante no tratamento bucal do Estado: “Nós ainda não dispúnhamos de um Centro capaz de atender todas as especialidades, oferecendo um serviço de excelência que vem para ocupar o antigo vazio assistencial no setor, garantindo atendimento a todos os maranhenses”.
Já o presidente do Conselho Regional de Odontologia (CRO), Marcos Pinheiro, destaca a qualidade dos equipamentos oferecidos na unidade: “Fiquei surpreendido com a qualidade dos equipamentos instalados, de última geração, vejo que o governo não fez economia para garantir o bom atendimento”.
Marcos Pinheiro também avaliou positivamente a extensão do atendimento noturno: “Os pacientes que chegarem aqui poderão ter acesso a todas essas especialidades, inclusive prevenção ao câncer, no período noturno, o que representa uma conquista muito importante”.
Descentralização
Durante a inauguração do Sorrir, o governador Flávio Dino anunciou o programa de descentralização da saúde bucal maranhense, com instalação de Unidades Odontológicas no interior do Estado.
“O Sorrir em São Luís estará à disposição de todos os maranhenses, mas estamos trabalhando com a Secretaria de Saúde para expandir esse serviço e garantir que todos os maranhenses tenham acesso ao tratamento em locais mais próximos”, anunciou o governador.
“O governador determinou que encontremos todas as condições técnicas para que no futuro instalemos essas unidades descentralizadas, o que beneficiará a população, além de garantir a valorização da carreira de odontólogos”, explicou o coordenador de Saúde Bucal, Alan Patrício.
Sorrir fica na região central de São Luís (Jardel Scot)
Atendimento
O Sorrir atende de segunda a sexta feira, das 8h às 20h, ao lado da Farmácia Estadual de Medicamentos Especializados (FEME), em frente ao Terminal de Integração da Praia Grande, em São Luís.



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

"Estado Paralelo"- Destrinchando a maconha paraguaia

 (Foto de Matias Maxx)

Por Matias Maxx* da Agência Pública
A pouquíssimos quilômetros da fronteira entre o Paraguai e o Brasil, pequenas comunidades trabalham duro em gigantescas plantações escondidas para garantir a maconha fumada por milhões de brasileiros.
Enquanto turistas e negociantes cruzam a Ponte da Amizade atrás de ofertas de eletrônicos, roupas, bebidas e outros produtos, mais ao norte, na fronteira entre Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, o clima não é tão amigo. Há turistas, sacoleiros e estudantes de medicina, mas também há narcotraficantes que de lá despacham cocaína boliviana e a maconha paraguaia para todo o país.
Só nos seis primeiros meses deste ano, a Polícia Federal apreendeu mais de 126 toneladas de maconha, a maior parte oriunda do Paraguai. Trata-se do “prensado paraguaio”, que chega ao país em blocos rígidos de 1 kg e, no varejo, são fracionados em pedaços menores. É a maconha que está na boca dos brasileiros: segundo estudo do IBGE, 4,1% dos alunos do 9º ano fazem uso da erva. Oito milhões de brasileiros, 7% da população adulta, já experimentaram maconha alguma vez na vida, segundo o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo. Usuários frequentes equivalem a 3% da população adulta do país, ou 3 milhões de pessoas.
Iniciada na década de 1960 no distrito de Amambay, fronteiriço ao Brasil, a área de cultivo de cannabis no Paraguai vem se expandindo para o norte e centro do país. O governo paraguaio estima que hoje tais cultivos ocupam de 6 a 7 mil hectares. Segundo dados da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (Senad), 80% da produção de cannabis paraguaia é contrabandeada para o Brasil. Mas, diferentemente de outros países produtores, como o Marrocos e a Colômbia, onde o cultivo – não o comércio – é permitido, a maconha paraguaia é ilegal e de péssima qualidade.
Para conhecer a realidade dessas plantações, fui a campo e passei 15 dias visitando roças de maconha no país vizinho. Conversei com indivíduos e famílias que há gerações sujam a mão de terra para cultivar cannabis, para entender suas técnicas, perfil etnográfico e, sobretudo, como a proibição impacta suas vidas. Sem em nenhum momento esconder minha condição de jornalista, conversei com patrões, gerentes, roceiros e peões para entender como entraram no negócio, suas perspectivas de vida e os valores pagos pelo trabalho na roça. Surpreendeu-me a naturalidade com que falam do trabalho e o sentimento de impunidade, garantido por uma rede de policiais e autoridades corruptas.
Minha primeira parada foi a cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, com 140 mil habitantes. Lá se cruza a fronteira com a cidade brasileira de Ponta Porã (88 mil habitantes) literalmente atravessando uma rua. Por essa cidade passam as principais rotas de tráfico da maconha, assim como armas, cocaína boliviana e outros contrabandos. Atualmente o controle dessas rotas é disputado entre as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC). Em junho de 2016, o chefão Jorge Rafaat, filho de paraguaia com brasileiro de origem libanesa, foi assassinado em Pedro Juan Caballero dentro de sua Hummer blindada, alvejado por 16 tiros vindos de uma rajada de mais de 200, disparada por uma metralhadora .50 montada dentro de uma picape Hilux. A execução do crime, atribuído ao PCC, teria custado R$ 1 milhão, segundo o serviço de inteligência da Senad.
Assim como no negócio da cocaína, a maior concentração de capital gerado pelo tráfico do prensado paraguaio está nos intermediários, enquanto nas pontas (quem planta e quem vende ao consumidor) o volume de capital é pulverizado em pequenos grupos e indivíduos.
Chamam atenção as insalubres condições de trabalho e as péssimas relações trabalhistas – que replicam o que acontece também em outros ramos do agronegócio. Afinal de contas, é disso que se trata, um agronegócio extremamente lucrativo, em grande parte devido justamente à sua ilegalidade.
Folhas da Canabis  (Foto de Matias Maxx)

Patrões, propinas e pistolas

Chapéus de vaqueiro, botas, cuias de tereré adornadas com estampas imitando pele de onças e cobras, tabaco e toda sorte de quinquilharia chinesa estão à venda no camelódromo de Pedro Juan Caballero, situado numa avenida de pista dupla; do outro lado já é Brasil. Não muito longe de lá, cassinos, motéis e puteiros fazem lembrar as imagens estereotipadas de outras notáveis cidades fronteiriças dominadas pelo crime, como a mexicana Tijuana, embora aqui não existam muros ou controle alfandegário de qualquer espécie. A “fronteira seca” do Paraguai com o Brasil é de fato uma linha imaginária.
Encontro Adriano*, um brasileiro de 25 anos, fluente em português e espanhol, além do guarani, idioma nativo, falado por 80% da população paraguaia, que também batiza a moeda local. Mas o guarani de Adriano é um segredo que ele guarda bem guardado. Prefere se fazer de bobo e fingir que não entende o idioma, deixando os paraguaios à vontade para falar. Atenção e cautela são fundamentais para sobrevivência nesse negócio. Dentro de sua organização, Adriano é um gerente, um homem de confiança do “dono” da roça, que fica a maior parte do ano acampado nas roças com os trabalhadores rurais, intermediando qualquer assunto entre eles e o patrão.
Ainda em Pedro Juan, sou levado a conhecer Gérson*, o patrão de Adriano. É um cara de uns 50 anos, também brasileiro, “dono” de duas roças de maconha e nascido numa família que sempre explorou o ramo na região. Ele não é de fato o dono legítimo das terras onde é cultivada a maconha, que geralmente são áreas públicas invadidas ou um pedaço arrendado em um latifúndio. Também me apresentam um paraguaio conhecido como Roque*, um “roceiro”. Responsável por uma das roças do patrão, da semeadura à colheita, ele literalmente coloca a mão na terra, escolhe as sementes, fertilizantes e técnicas que serão usadas nos cultivos, além de dar ordens aos trabalhadores que são trazidos para o serviço braçal, principalmente na época da colheita. Roque raramente vem à cidade, tendo permanecido os seis meses anteriores à minha visita acampado na selva cuidando de uma roça de 5 hectares, naquele momento em processo de colheita.
Ajudo a carregar uma picape Hilux 4×4 com alimentos e produtos de limpeza, e pegamos a estrada. Assim como a avenida central da cidade, a estrada brasileira e a paraguaia correm lado a lado; a única diferença é que, se o asfalto do lado brasileiro é ruim, o do paraguaio é péssimo ou inexistente. Durante o caminho, mudamos de lado – e de país – diversas vezes, buscando contornar postos policiais. Em vários trechos, um pequeno barranco separa as duas estradas, um obstáculo facilmente vencido com a picape, muitas vezes sem nem sequer precisar diminuir a velocidade.
Os policiais paraguaios não causam grandes problemas, dizem meus cicerones. De fato, em uma única blitz em que fomos parados no caminho, todo mundo manteve a calma. O policial se aproximou do veículo, sem abrir a boca; o patrão, ao volante, abriu o compartimento entre os bancos da frente, sacou de um bolo de dinheiro quatro notas de 100 mil guaranis (cerca de R$ 50) e entregou ao policial, que liberou o caminho e mais nada disse. Segundo eles, a polícia brasileira não é muito diferente, com exceção do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), órgão da PF no Mato Grosso do Sul, a única que realmente assusta os traficantes. “Com eles não tem jogo: é cadeia ou caixão”, diz Gérson.
O trecho final da viagem passava por uma estrada com crateras lunares. Era época de chuvas e boa parte estava alagada ou enlameada. Vi alguns veículos atolados pelo caminho. O sonho de consumo de todo mundo é ostentar uma picape cara, uma ferramenta de trabalho em regiões rurais – e não seria diferente numa região produtora de maconha. Antes de chegar à base de operações de Gérson, atravessamos, com os vidros fumês fechados, uma pequena cidade de menos de mil habitantes. Eles não podem correr o risco de que alguém os veja.
Do punhado de brasileiros envolvidos na operação de Gérson, apenas dois iam até essa cidade em busca de suprimentos, sobretudo gasolina. Os demais não podiam correr o risco de serem vistos, frequentando apenas a “base” e as roças. A base, ou “fazenda”, ficava numa casa dentro de uma enorme propriedade rural. Uma casa simples, com um quarto cheio de beliches, um banheiro com água quente e uma TV com antena parabólica. Adriano me explica que em cinco anos no negócio é a primeira vez que tem tal conforto; normalmente ele passa meses acampado nas plantações. Outros brasileiros vivem na casa, fazem parte da operação de Gérson e se comunicam usando celulares antigos, com botões, cujo maior recurso é o “jogo da cobrinha”. Por não terem GPS, seriam supostamente mais difíceis de ter sua localização rastreada.
Adriano, Gérson e os demais brasileiros andam constantemente armados com pistolas Glock tinindo de novas. O porte e o comércio de armas são quase banais no Paraguai, dizem. “Você chega na loja e compra; se apresentar a identidade, ganha até desconto”, brinca Adriano. Vou compreendendo que estamos numa zona de exclusão, um narco-Estado paralelo, distante dos domínios das facções e agências policiais. Diferentemente da fronteira, na roça as disputas entre grupos quase inexistem, e as operações policiais costumam ser anunciadas e negociadas. Ninguém quer trazer muito barulho ou chamar atenção para a região. Segundo Gérson, políticos receberiam dinheiro para atrasar o avanço do asfaltamento das estradas que conectam às regiões produtoras, ajudando a complicar qualquer operação policial. A desculpa para o armamento constante seria defender-se de outros grupos, policiais ou ladrões, além de eventuais ataques de animais selvagens.
Nos acampamentos na selva, onde existe alguma possibilidade de ataque da onça- pintada – “jaguareté” em guarani –, peões e roceiros possuem apenas um par de espingardas .22, sempre largadas em algum canto. Eles contam que confrontos são raros, mas, na iminência de uma operação policial, algum gerente dispararia tiros de alerta ao alto para que todos pudessem fugir.
Outras vezes, a arma na cintura é sinal de status, a forma mais clara de diferenciar os patrões e traficantes brasileiros dos roceiros e trabalhadores rurais paraguaios.
Numa noite, chegou a notícia de que um carregamento de 1 tonelada que havia sido despachado pelo grupo havia “encostado” em São Paulo; Gérson colocou o carregador de 32 munições em sua pistola automática e disparou todas para o alto, numa rajada que durou menos de três segundos, num barulho de explosão que fez pular quem já estava na cama. No dia seguinte, ordenou que matassem um boi.
Roque o descarnou, jogou a picanha imediatamente na grelha, separou as costelas e demais carnes nobres no congelador e salvou os ossos e restinhos de carne para enviar aos peões na roça. A postura dos chefes dentro de casa era praticamente num clima de família, com muitas risadas, brincadeiras, fofocas – e baseados grossos, que eles chamavam de “dedo de gorila”. Na roça, agiam bem diferente: muito mais secos, contidos, tratando de cultivar uma imagem autoritária e agressiva.
Muitos cachorros, galinhas e outros animais habitavam a casa e proporcionam os momentos lúdicos do dia a dia. Todo mundo acordava bem cedo, tomava café e dividia as tarefas domésticas. Depois eu saía com Adriano para visitar as duas roças do patrão, passando de moto por 40 a 60 minutos em trilhas fechadas e cheias de barro. Cheguei a ficar quatro noites acampado numa das roças, acompanhando o processo de colheita e prensagem.
Flor da Canabis (Foto de Matias Maxx)

Negociação com a polícia

Logo no meu segundo dia de visita, informantes de Gérson ligaram avisando que homens da Senad iriam realizar uma operação numa área onde havia uma roça sua e mais outras quatro de diferentes patrões. A informação foi confirmada pelos outros grupos.
Imediatamente saímos de lá e voltamos para a fazenda, enquanto os peões desmontavam e escondiam a prensa e as sacas de 30 kg de maconha já seca.
No dia seguinte, recebemos uma visita: Cabañas*, um senhor paraguaio de uns 70 anos, com chapéu de vaqueiro e pistola no coldre, acompanhado de um de seus homens de confiança. Ele é o “chefão” da região, tem inúmeras propriedades e age como intermediário entre os donos de roça e o governo paraguaio. Sem nenhum desconforto ou dissimulação, vários dos integrantes do negócio enchiam a boca para falar que abastecem uma rede de propinas que termina em “Assunção”, eufemismo para chamar o presidente da República.
Cabañas apresenta a proposta da polícia para cancelar a operação: 10 milhões de guaranis por patrão (cerca de R$ 5.500). Não sei quantos patrões havia, mas entre as duas áreas de cultivo a que eu fui, pelo menos dez, me disseram que há centenas dessas áreas de cultivo naquela região. Gérson me explica que é sempre a mesma coisa na época de colheita: eles ameaçam invadir só para recolher mais propina do que o usual. Curioso, perguntei a ele sobre as operações midiáticas, como a que ocorreu no ano passado, na qual o então ministro da Justiça brasileiro, Alexandre de Moraes, desceu de um helicóptero com homens da Sebad e derrubou a machetazos (golpes de facão) meia dúzia de pés de maconha. “Quando é assim, é tudo negociado, a gente entrega uma roça meio caidinha pra eles, tira tudo que vale alguma coisa de lá, deixa só as plantas. Pode ver que ninguém nunca é preso nessas operações”, diz. De fato, ninguém foi preso na operação.
Os números oficiais revelam que as autoridades paraguaias não têm tanto entusiasmo em combater o narcotráfico. Segundo dados do relatório da ONU de 2016, em 2014 o Paraguai tinha 6 mil hectares de área de cultivo de maconha e erradicou 2.474 hectares. Já os números do Observatório Paraguaio de Drogas disponíveis no site do Senad divergem. Naquele ano, a erradicação teria sido de 1.966 hectares. O órgão disponibiliza os dados dos últimos quatro anos; os de 2016, o mesmo da visita de Alexandre de Moraes, são os mais baixos. Naquele ano, teriam sido apreendidas 276 toneladas de maconha e 36 plantações, destruídas, totalizando 1.298 hectares. Das 338 prisões relacionadas à droga ano passado no Paraguai, apenas duas foram por cultivo de maconha e 287 por tráfico de drogas não especificadas.

A vida nas roças

O caminho até as roças era feito por trilhas estreitas e enlameadas, a bordo de motos que atolavam dia sim, dia não. Não dá para comprar motos melhores para não chamar atenção.
A primeira roça de Gérson era tocada por “Gatito”, um paraguaio de 20 anos que comandava uma plantação pela primeira vez. Ele dividia uma área enorme com outras quatro roças, cada uma com cerca de 5 a 10 hectares e pertencentes a diferentes patrões. Durante os quatro meses de crescimento vegetativo e flora, cada uma dessas roças é cuidada por um roceiro e mais duas ou quatro pessoas de confiança, geralmente parentes. Quando chega a hora da colheita, eles recrutam mais uns dez peões, que ficam acampados durante um mês, ajudando nos diferentes processos: colheita, secagem, zaranda, despalitada, estoque e prensa. Pelo trabalho nesses serviços, os trabalhadores, a maioria paraguaios de origem indígena, recebem 70 mil guaranis ao dia (cerca de R$ 40), com exceção da prensa, serviço de maior responsabilidade, limitado a trabalhadores de confiança que recebem 10 mil guaranis por hora (R$ 5,5). Esses valores, assim como os do quilo da maconha, são fixados entre os patrões, para evitar concorrência.
Nenhum relato verbal, textual, em vídeo ou foto é capaz de transmitir o estonteante e estupefaciente odor da plantação, um cheiro forte, doce, herbal e resinoso que chega às narinas muito antes de se avistar o primeiro pé. No campo, a primeira coisa que eu vejo são lonas de plástico preto estendidas com centenas de quilos de flores fêmeas (os populares “camarões”) sendo manipulados por um par de trabalhadores. Dou uma volta pela plantação, vejo plantas tombadas apodrecendo e sementes germinando por toda parte. Adriano confirma o que eu já estava suspeitando: Gatito é um péssimo cultivador, e seu maior pecado, ser cabeça-dura. Apenas na semana anterior, resolveu colher seus cinco hectares, ignorando um período de chuvas anunciado pela meteorologia. Dadas as péssimas técnicas de secagem adotadas, toda a sua colheita apodreceu. Uma tonelada de maconha podre e fedida, aquele cheiro de amoníaco e azedo de maconha estragada. Mesmo assim, ela será vendida no Brasil.
Do meio da selva surgia uma pequena comunidade de umas 70 pessoas, espalhadas por cinco acampamentos. Para cada acampamento havia uma roça e um patrão diferente. Elas ficavam lado a lado, divididas por cercas feitas de troncos ou barreiras de mata natural.
Dezenas de hectares de mata natural são desmatadas todo ano para a produção de maconha, muitas vezes dentro de áreas de proteção ambiental, como o Parque San Rafael, no sul do país, com 78 mil hectares, e apenas quatro agentes florestais, e que é alvo de constantes operações da Senad.
Os acampamentos onde roceiros e peões dormem e realizam os processos posteriores à colheita da maconha estão ali do lado, no meio da fechada mata pantaneira. Troncos, tocos, lona, barbante e arame erguem as tendas. Cada acampamento tem seu alojamento e cozinha.
Feijão, arroz, charque, óleo, sal, açúcar, leite e um pãozinho redondo chamado “coquito” são os alimentos fornecidos pelos patrões.
A água vem de poços ou córregos, é quente, fosca ou amarronzada e geralmente bebida na forma de “tereré”, uma espécie de chimarrão no qual a erva-mate é servida com água fria e gelo. Pelo menos a erva mate disfarça o gosto e, principalmente, a cor nojenta da água. O acampamento é muito sujo, e garrafas pet de vinho barato e Fortin, uma cachaça local, estão por todo lado. Em todos os dias em que frequentei essas roças, vi apenas duas mulheres: uma bem jovem trabalhando na zaranda, processo de secagem para separar as flores das folhas através de peneiras, e outra, também jovem, cuidando de uma criança de uns 10 anos debaixo de uma tenda onde meia tonelada de maconha estava por ensacar. Nessa roça, a jornada de trabalho vai da manhã até o cair do sol, com exceção da prensa, que funciona sem parar, com iluminação provida por gerador a gasolina. Adriano me conta que já trabalhou em roças que funcionavam 24 horas durante a colheita, com fortes refletores iluminando os campos.
Vendo a criança brincar com um cachorrinho, comecei a imaginar um cenário hipotético onde, se a coisa sujasse, alguém, provavelmente Adriano, ia dar um tiro de alerta para o alto, todo mundo ia correr para dentro da mata, a criança ia correr atrás do cachorro, a mãe, atrás da criança e, no final, elas seriam as únicas detidas – elas e aquela meia tonelada. Talvez aquelas duas pessoas que foram presas plantando maconha no ano passado, segundo o site da Senad, tenham rodado assim.

A roça de Roque

Bem mais afastada da fazenda, a roça de Roque tinha um clima muito diferente, até pelas “ruas” dentro da plantação, que é como chamam os corredores entre as fileiras de pés de maconha perfeitamente alinhadas. Foi dali que saíram 700 quilos da tonelada que renderam a rajada na fazenda. O patrão estava feliz com ele.
Roque tem 25 anos, começou a plantar aos 17, terminou o 2o grau e, como era menor de idade, não conseguiu nenhum emprego. A solução foi fechar com os irmãos mais velhos, que já haviam trabalhado em algumas colheitas de maconha. Após quatro anos trabalhando em “macheadas” e colheitas nas roças dos outros, pegou a mão do negócio e começou a tocar suas próprias roças, financiadas por Gérson.
O roceiro leva metade do lucro da venda da maconha, descontados os investimentos do patrão. Em caso de apreensão, ambos amargam o prejuízo. Concluindo sua terceira colheita, Roque diz que conseguiu tirar uma grana e quer montar um negócio para sua família, um varejo de suprimentos para roças de maconha, como as lojinhas que, na cidade, vendem lona agrícola, fita, alimentos, gasolina.
Porém, a sua próxima colheita terá um destino muito diferente. Ao fundo do campo havia 2 hectares com plantas saudáveis ainda na pré-flora. Roque cuidava deles com muito carinho e apelidava essa roça de “bucetinha”: ele gastaria todo o lucro com namoradas e prostitutas.
A roça fica horas a pé do vilarejo mais próximo, com bem menos de mil habitantes e muito, muito longe de qualquer cidade. A maior parte dos que circulam é de trabalhadores rurais temporários, trazidos em pau de arara de outras cidades. Praticamente não há mulheres, mas elas povoam seus corações, mentes e mensagens de WhatsApp. Sim, eles têm sinal 3G e trocam selfies, nudes e imagens das plantações que eventualmente vazam para a imprensa.
Numa das minhas várias conversas ao redor da fogueira, questionei o pessoal sobre histórias que ouvi de que, no Paraguai, haveria ainda cultivos familiares. Isso ainda existe em algumas regiões remotas do país, mas, devido à pressão da polícia, sobretudo nas regiões fronteiriças, a prática é cada vez mais rara, disseram. Os custos de manter uma roça não são altos, mas as propinas sim, então fica difícil operar sem um financiador. “Fica cada vez mais difícil trabalhar sem patrão. Porque a polícia tá pedindo cada vez mais dinheiro”, me explica Roque.
Por aqui, nenhum peão ou roceiro jamais trabalhou em outro tipo de agricultura. A maioria é muito jovem, beirando os 20 anos, são calados, desconfiados e transparece sua ambição no olhar, enquanto os mais velhos carregam o semblante tranquilo de quem viu a vida passar fazendo sempre a mesma coisa.
Durante seis meses, Gérson investiu 50 milhões de guaranis na roça de Roque (menos de R$ 30 mil) e colheu 6 toneladas de maconha, que, ao final do processo de secagem, vão virar 4,5 toneladas de prensado. Considerando que o quilo na fronteira custa R$ 30 e no sudeste brasileiro chega a R$ 600, o negócio é extremamente lucrativo e sedutor, mesmo com todos os gastos em propinas, frete e salários.
O dinheiro da maconha alimenta famílias e mantém microcidades funcionando no interior do Paraguai, mas não o suficiente para tirar essas pessoas da miséria. Os gerentes e roceiros que conheci tinham pouquíssimas posses, uma moto e algumas roupas de marca, viviam uma rotina de muito trabalho, paranoia – e a certeza de que são totalmente substituíveis. Se a grana do tráfico compensa, certamente não é para quem está na ponta do negócio.
*Todos os nomes foram trocados para garantir o sigilo das fontes da reportagem – Esse texto é resultado do Concurso de Microbolsa de Reportagem Maconha, realizado pela Agência Pública e CESeC – Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes. 

*Matias Maxx - Matias Maximiliano Acevedo, em arte mais conhecido como Matias Maxx, é um cineasta e diretor de fotografia brasileiro nascido em São Paulo (SP) em 23 de agosto de 1980. Fotojornalista, Cineasta e Editor de HQs, é formado em Jornalismo na PUC-RJ.

FONTE: Pragmatismo Político e Pública


* Breve estaremos divulgando mais artigos sobre esse governo paralelo.