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domingo, 14 de setembro de 2025

São Luís e o lixo urbano: quando a prefeitura insiste em enxugar gelo

UEB Darcy Ribeiro, foto de Juvencio Matos/TV Mirante em 2024,
situação ainda é a mesma hoje.

Por Jorge Antonio Carvalho*

Em São Luís, o problema da coleta de lixo deixou de ser apenas uma questão de limpeza urbana, tornou-se um reflexo da ausência de políticas públicas eficazes. Em diversos corredores da cidade, o lixo se acumula nos canteiros, é descartado fora dos dias de coleta e espalhado por animais e pessoas em busca de materiais reaproveitáveis. A prefeitura, sem planejamento e sem campanhas educativas, parece atuar como quem enxuga gelo: recolhe o lixo hoje, vê tudo voltar amanhã.

Corredores urbanos que viraram pontos de descarte

Três locais ilustram bem esse cenário:

Corredor da Avenida João Pessoa - Entrada do Bairro Filipinho:





Corredor da Avenida Africanos - do início das Franceses até semáforo das entradas do Coroado e Coroadinho.







Corredor da Avenida Vitorino Freire, lado do Bairro Madre Deus





Nesses pontos, comerciantes e moradores descartam lixo diariamente, ignorando os dias oficiais de coleta. A ausência de fiscalização e de ações educativas transforma esses espaços em pequenos lixões urbanos, com impacto direto na saúde pública e na imagem da cidade.

A prefeitura não dá conta e não articula

A justificativa da falta de pessoal para atuar casa a casa nesses entornos não pode ser desculpa para a inércia. A solução não está apenas em mais caminhões ou mais garis, mas em articulação. A prefeitura precisa buscar caminhos que envolvam a sociedade civil, instituições de ensino e órgãos ambientais.

Há alternativas viáveis e já testadas em outras cidades: envolver escolas públicas e privadas, universidades, agentes comunitários e até comerciantes locais em ações de educação ambiental. A juventude, por exemplo, pode ser mobilizada como força transformadora com oficinas, campanhas, sinalização e diálogo direto com a comunidade.

Segundo a Superintendência de Limpeza Pública (SULIP), a coleta domiciliar é realizada em dias alternados nos bairros e diariamente nas principais avenidas. A orientação é que o lixo seja acondicionado em sacos plásticos e colocado na porta cerca de duas horas antes da coleta. No entanto, a prática cotidiana em muitos desses pontos revela que essa programação não é respeitada e tampouco fiscalizada.

Além disso, a Patrulha Ambiental de São Luís, criada para fiscalizar o descarte irregular, atua com base no Decreto Municipal nº 58.614/2022, que regulamenta o Sistema de Limpeza Urbana e Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos. Ainda assim, segundo levantamento de entidades locais, a cidade possui cerca de 500 pontos de descarte irregular, evidenciando a insuficiência das ações de fiscalização.

Caminhos possíveis: educação e protagonismo comunitário

A solução para o problema não se resume à ampliação da coleta. É necessário investir em campanhas permanentes de educação ambiental, com envolvimento direto da comunidade. A articulação com escolas, universidades, comerciantes e agentes comunitários pode transformar a cultura do descarte e promover responsabilidade coletiva.

Experiências locais demonstram que o protagonismo juvenil, aliado à formação cidadã, pode ser um vetor de mudança. Oficinas, sinalização educativa, ações culturais e diálogo direto com moradores são estratégias viáveis e de baixo custo que podem ser incorporadas à política pública municipal.

Espaço aberto ao poder público e à sociedade

Este espaço permanece aberto à manifestação oficial da Prefeitura de São Luís, caso deseje esclarecer à população sobre medidas já adotadas ou em fase de implementação nos pontos citados. A transparência institucional é essencial para que a sociedade compreenda os desafios enfrentados e acompanhe os avanços propostos.

Da mesma forma, este artigo convida a comunidade moradores, comerciantes, educadores e estudantes a refletir e participar ativamente da construção de soluções sustentáveis. A transformação dos bairros começa com o engajamento coletivo e com o fortalecimento de práticas cidadãs que promovam saúde, respeito ao meio ambiente e qualidade de vida

A cidade precisa parar de apagar incêndios e começar a construir soluções. O lixo não é apenas um problema de coleta é um problema de cultura, de gestão e de prioridade.

*Jorge Antonio Carvalho - Oficial do blog


quarta-feira, 28 de maio de 2025

Retrato da Mão de obra desperdiçada


Foto: Blog Cidadania & Cultura

Do Blog Cidadania & Cultura

Com a taxa de desemprego de 7% no primeiro trimestre, a menor da história para o período, o chamado desperdício da mão de obra também está em seus menores níveis. A taxa de subutilização da força de trabalho foi de 15,9% no primeiro trimestre, a segunda menor da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012. Só fica acima dos 15,6% de 2014, antes da recessão de 2015 e 2016.

A taxa indica a parcela de trabalhadores subutilizados frente à força de trabalho ampliada do país, que soma a força de trabalho (quem está trabalhando ou em busca de vaga) com a força de trabalho potencial. O grupo de trabalhadores subutilizados reúne desempregados, pessoas que trabalham menos horas do que gostariam e trabalhadores na força de trabalho potencial, que podem buscar posição e não estar disponíveis ou nem procuram por acreditar não ter chances de conseguir a vaga, por exemplo.

A taxa de subutilização é uma medida mais ampla e traz outras perspectivas sobre o que ocorre no mercado de trabalho. São pessoas que poderiam estar alocadas de maneira mais eficiente na economia.

O comportamento dessas medidas de subutilização acompanha o da taxa de desemprego. Com mercado aquecido, medidas de subutilização estão perto das mínimas. Mas ainda são pessoas que poderiam ser usadas de maneira mais produtiva para a atividade econômica, mas não estão por série de fatores.

Apesar do momento positivo do emprego, o economista da LCA 4Intelligence Bruno Imaizumi aponta que as outras faces do mercado de trabalho observadas nos dados sobre trabalhadores subutilizados permitem ver que há mais espaço para melhorias.

A taxa de subutilização inclui todos os trabalhadores desse grupo. Mas há também medidas intermediárias. No primeiro trimestre, o indicador que somava os desempregados e aqueles que trabalhavam menos horas do que gostariam estava em 11,1%, a menor para o período e pouco acima do piso de 10,6% da série histórica.

Há também um indicador que soma desempregados, quem trabalha menos horas que gostaria e aqueles em desalento – que desistiram da busca por uma vaga por não terem esperança de conseguir, seja porque não se acham qualificados, seja porque não veem chances de vagas no local onde vivem, por exemplo. Essa taxa estava em 13,9%, a segunda menor para um primeiro trimestre da série. Todas elas, no entanto, encontram- se em dois dígitos.

“O desemprego está caindo e as taxas alternativas [de subutilização] também recuam, mas apontam um nível elevado na comparação com a taxa de desocupação. É uma mão de obra que podia estar contribuindo para o mercado”, diz Imaizumi.

Em números absolutos, o grupo de trabalhadores subutilizados somava 18,463 milhões de pessoas – frente a uma população ocupada de 102,5 milhões. Desse total de 18,463 milhões, 7,714 milhões eram pessoas que estavam ativamente em busca de trabalho. Os restantes 10,749 milhões eram trabalhadores que estavam ocupados, mas por menos horas do que gostariam (4,552 milhões), ou estavam na força de trabalho potencial (6,197 milhões).

A força potencial reúne os chamados desalentados (3,228 milhões) – que desistiram de buscar trabalho por acreditarem que não têm chances de conseguir – e trabalhadores que não procuram de forma ativa, mas estariam disponíveis ou procuram, mas não estariam aptos a trabalhar naquele momento (2,969 milhões).

Na avaliação de Bruno Imaizumi, iniciativas fora da esfera macroeconômica poderiam ajudar a reduzir essa mão de obra desperdiçada. Parte desse grupo é formada por pessoas, especialmente mulheres, que estão dedicadas a cuidados com a casa ou com família – crianças ou idosos.

“Creches e locais de apoio para idosos poderiam liberar o tempo dessas pessoas, que dessa forma teriam como se inserir no mercado de trabalho”, nota.

Entre os indicadores de subutilização da força de trabalho, o único que não está nos menores níveis é o que considera o desalento individualmente. No primeiro trimestre de 2025, 2,8% das pessoas na força de trabalho estavam em situação de desalento, quase o dobro da menor taxa para um primeiro trimestre, que foi de 1,5% em 2014.

Neste caso, apontam os economistas, o movimento é influenciado pelas mudanças nas relações de trabalho trazidas pelo covid-19. “O desalento caiu consideravelmente desde a pandemia [quando se aproximou dos 6%], mas a queda não se dá na mesma velocidade que as outras taxas. É possível fazer um paralelo com a taxa de participação, que em vários países não recuperou o nível pré-pandemia”, diz Valério.

Permanência fora do mercado de trabalho daqueles perto da idade da aposentadoria, percepção de que a economia se encontra pior do que a realidade e expansão dos programas sociais do governo são algumas das hipóteses citadas para explicar essa situação.

“Houve mudança estrutural no mercado no pós-pandemia, uma transformação das relações de trabalho, e parte dos trabalhadores não deve mais voltar”, afirma o economista da LCA 4Intelligence.

domingo, 12 de julho de 2020

O brincar e o direito à cidade

Foto: Iñaki Robles

As construções das cidades hegemonicamente retiram o direito da participação social no processo de definição de sua edificação e urbanização. O planejamento urbano via de regra tem a frieza da técnica revestida de asfalto e concreto e o distanciamento da realidade social, dos espaços de memória, saberes, ludicidade e de uma ambiência saudável. Como podemos dimensionar a brincadeira enquanto elemento construtor da cidade?
As cidades vão se construindo de forma atropelada e dicotômica, a partir da lógica de acumulação, concentração e circulação do capital, se essa lógica é desigual, a tendência é que a apropriação do espaço urbano também seja, por conseguinte o direito à cidade é negado.
É preciso agir na contramão, compreendendo que a luta pelo direito à cidade é parte integrante da luta contra a produção social e a apropriação privada, em outras palavras, contra a lógica, do modo de produção de capitalista, que privatiza, excluir e estratifica acessibilidade dos bens, serviços e da inteligência coletiva produzida pela humanidade que poderia gerar cidades mais democráticas.   
Nesse modelo dominante em que urbe vem sendo gestada, os espaços destinados para as crianças vão sendo abatidos. As ruas vão perdendo a sua tranquilidade, as sombras das árvores vão sendo extintas, o asfalto aumenta o barulho, a velocidade, a temperatura e os acidentes. Os espaços de integração comunitária e de trânsito humano vão sendo excluídos dos planejamentos e substituídos para espaços de automóveis.  As praças existentes, em especial, as periféricas, são abandonadas e desprovidas de mecanismos integrativos. Na sua maioria, são construídas sem a devida escuta da população, mas apenas na derivação de área versus técnica, sem o tateamento das subjetividades e necessidades da população.    
As crianças vão sendo escanteadas do direito à cidade, consequentemente do direito ao brincar. Democratizar à cidade é repensar como ela deve ser acessada a partir dos seus lugares e territórios e na inter-relação dos territórios, o que incluir a transversalidade da criança na sua relação com a cidade, na dimensão de compreender a necessidade de ambientes ecologicamente saudáveis, seguros, lúdicos, impulsionadores da imaginação, criatividade e do desenvolvimento cognitivo, psicomotor e afetivo.
A cidade é possível de ser planejada e refletida a partir dos seus lugares e territórios de forma integrada e com a efetiva participação popular, não como mero formalismo, mas como insdipensabilidade  para a materialialização de urbanizações e edificações que tenham  a coautoria e corresponsabilidade do povo  que constrói cotidianamente a paisagem cultural dos seus lugares.
Entretanto, nesse processo, o saber popular deve servir como ponto de partida para o diálogo com a ciência e a tecnologia o que dialeticamente pode conceber cidades mais saudáveis e solidárias.        
O planejamento da cidade pode ser uma construção coletiva, desafiadora, inegavelmente conflitante, mas deve ser um norte para constituição de uma memória coletiva e comunitária e uma escola para tomada de posição e de cuidado coletivo.
Incluir o brincar na discussão da cidade é reconhecer a brincadeira como instrumento indispensável para o desenvolvimento da criança. A partir do brincar a criança ensaia sua vida adulta e ao mesmo tempo se desenvolve na sua relação com outras pessoas e objetos. A interação gerada pela brincadeira proporciona a criança o desenvolvimento psicomotor, emocional, social, instiga raciocínio lógico, criatividade, imaginação, espacialidade, percepção e memória.
A defesa das cidades inteligentes, criativas, educativas, leitoras e lúdicas devem compor o argumento político e pedagógico para fazer balançar, escorregar e fluir a imaginação, num tempo em que as cidades se distanciam cada vez mais do seu povo e da sua participação e ganha tonalidades opacas e formas altas para as crianças acessarem. 
*Alexandre Lucas: Pedagogo, integrante do Coletivo Camaradas e presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais do Crato/Ceará.             

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Medicalização Da Infância: As Drogas Legais Que Ameaçam Crianças Saudáveis

(Foto: Porta Raízes)
Dando continuidade a divulgações de matérias sobre o uso, sua composição, seus benefícios e seus efeitos colaterais nas nossas crianças do medicamento Ritalina, porém vamos colocar uma matéria importante, extraída do Portal Raízes no que tange de uma forma mais geral a "Medicalização da Infância", para se ter um entendimento maior sobre o tema. Após essa matéria, retornaremos a divulgar mais informações sobre a Ritalina.

Segue a matéria do Portal Raízes:

Por Clara Dawn *

Se Einstein fosse hoje criança, é possível que seria diagnosticado com Perturbação de Hiperatividade e Déficit de Atenção. Nem todas as crianças são gênios, claro, mas na pós-modernidade muitas têm as mesmas características cognitivas e comportamentais de Einstein e são medicadas por esse motivo. Dão trabalho, questionam, são agitadas, viajam nos pensamentos, consideram a escola aborrecida, logo, não se concentram nem memorizam.

Se apesar destas características, Einstein se tornou um famoso e brilhante cientista, por que, cada vez mais se medicam crianças para que “obedeçam aos padrões” estipulados pelo ensino, pelos médicos, pelos pais e pela sociedade? Felizmente, Einstein nasceu numa época em que ainda não se medicavam crianças. As suas dificuldades foram ultrapassadas sem drogas e ganhamos um gênio.

A medicalização da infância e o movimento internacional Stop DSM

Neste artigo vamos adentrar a controvérsia científica e cultural sobre a medicalização da infância e o movimento internacional Stop DSM, (Diagnóstico de Saúde Mental) que devem inquietá-lo com dados impactantes sobre o uso abusivo de medicamentos e seus efeitos sobre crianças e jovens. Veremos ainda, a opinião de pesquisadora sobre a droga mais usada em casos de TDAH, a ritalina que segundo a pesquisadora trata-se de uma bomba. Como contrapartida, inserimos opções de atividades físicas e artísticas como substitutivos ao uso das drogas. Confira:

A medicalização da infância é uma forma eficiente de destruí-la 

Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), de 8% a 12% das crianças no mundo foram diagnosticadas com TDAH, e a suspeita dos pais de que os filhos tenham o transtorno é o principal motivo que os leva aos médicos. Em 2010 foram vendidas 2,1 milhões de caixas de metilfenidato. Em 2013, foram 2,6 milhões.

A medicalização é o processo pelo qual são deslocados para o campo médico problemas que fazem parte do cotidiano das crianças. Desse modo, fenômenos de origem social e política são convertidos em questões biológicas tratáveis com medicalização. E é essa medicalização da vida cotidiana da criança, tem provocado uma verdadeira “epidemia” de diagnósticos, ao transformar sensações físicas ou psicológicas normais (tais como ansiedade, insônia, agitação, e tristeza) em sintomas de doenças, de transtornos, de espectros (como distúrbios do sono, TDAH, autismo, e depressão).

A medicalização é um negócio extremamente rentável e a sua associação com transtornos não se dá ao acaso. Esse movimento, político, social e econômico, que tem produzido essa epidemia de diagnósticos, gera também uma epidemia de tratamentos, que nem sempre fazem bem à saúde, principalmente aqueles que não seriam necessários.

Quem ganha com isso é a indústria farmacêutica, a qual investe na divulgação da falsa perspectiva sobre doença e doença mental, na qual a psicofarmacologia resolve todos os problemas humanos, incluindo aqueles ligados ao comportamento. Isso produz a sensação de que os sofrimentos e dificuldades da própria vida podem ser evitados ou eliminados pela via medicamentosa. 

No plano internacional, desça-se o movimento “STOP DSM”, iniciado em 2011 em Barcelona, Buenos Aires e no Brasil, integrando profissionais da área “Psi” para contestarem o modelo estatístico dominante do DSM e resgatar um diagnóstico clínico que considere a subjetividade do sofrimento psíquico. Uma das críticas mais marcantes ao DSM é que, ao longo dos anos e de suas novas versões, ele amplia o escopo das patologias e diminui o espaço da normalidade, com isso também permite a criação de tratamentos medicamentosos, alimentando a indústria farmacêutica. A primeira edição do manual de Diagnóstico de Saúde Mental apresentava 100 transtornos, o atual (DSM 5) tem mais de 300.

Nos EUA o o psiquiatra, líder do movimento contrário ao DSM , Allen Frances, que coordenou o DSM-IV, disse: ” Durante as duas últimas décadas, a psiquiatria infantil já provocou três modismos – triplicou o Transtorno de Déficit de Atenção, aumentou em mais de 20 vezes o autismo e aumentou em 40 vezes o transtorno bipolar na infância”.

Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade 

O TDAH parece incluir comportamentos comuns na infância, porém de forma intensa que não se modificam com as intervenções dos educadores.

Desatenção, atividade excessiva e/ou comportamento emocional impulsivo estão presentes nas crianças, dificultando-lhes o aprendizado desde o começo da vida acadêmica, trazendo-lhe rejeição e incertezas quanto a sua capacidade cognitiva, o que costuma lhes reduzir a autoestima, dificultando ainda mais o processo

O TDAH parece estar relacionado a alterações do sistema nervoso, em particular a algumas áreas relacionadas ao comportamento socioemocional.

Aspectos genéticos estão envolvidos na sua etiologia, observando-se que vários
genes parecem interagir para produção do fenótipo. Também fatores ambientais, como a exposição ao álcool ou a nicotina durante a gestação ou, ainda, a contaminação por substâncias tóxicas, têm sido relacionadas ao transtorno, bem como o peso abaixo da média no nascimento.

O TDAH parece se constituir em disfunção atencional e executiva, que inclui descontrole de processos emocionais e motivacionais. Excesso de impulsividade, desatenção e hiperatividade são algumas de suas características. Outra característica é a limitada socialização, como a dificuldade de participar de atividades colaborativas e a restrição de conseguir e manter amigos.

Os sintomas se reduzem com a idade, mas normalmente não se extinguem. Em termos neurológicos, algumas características incluem a redução no tamanho do cérebro, que persiste até a adolescência, a redução do funcionamento do córtex pré-frontal, com a modificação do circuito que conecta essa região ao corpo estriado e ao cerebelo

As drogas legais psicoestimulantes que ameaçam a infância de crianças normais

A pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, a fez uma declaração bombástica: “A gente corre o risco de fazer um genocídio do futuro”, disse ela em entrevista ao Portal Unicamp. “Quem está sendo medicado são as crianças questionadoras, que não se submetem facilmente às regras, e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de mil anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível”, diz ela.

Da família das anfetaminas, a ritalina, ou metilfenidato, tem o mesmo mecanismo de qualquer estimulante, inclusive a cocaína, aumentando a concentração de dopamina nas sinapses. Segundo a pesquisadora, a criança “sossega”: pára de viajar, de questionar e tem o comportamento zombie like, como a própria medicina define. Ou seja, vira zumbi — um robozinho sem emoções. É um alívio para os pais, claro, e também para os médicos. Por esse motivo a droga tem sido indicada indiscriminadamente nos consultórios da vida. A ponto de o Brasil ser o segundo país que mais consome ritalina no mundo, só perdendo para os EUA.

O fato, no entanto, é que o uso da ritalina reflete muito mais um problema cultural e social do que médico. A vida contemporânea, que envolve pais e mães num turbilhão de exigências profissionais, sociais e financeiras, não deixa espaço para a livre manifestação das crianças. Elas viram um problema até que cresçam. É preciso colocá-las na escola logo no primeiro ano de vida, preencher seus horários com “atividades”, diminuir ao máximo o tempo ocioso, e compensar de alguma forma a lacuna provocada pela ausência de espaços sociais e públicos. Já não há mais a rua para a criança conviver e exercer sua criancice.

E se nada disso funcionar, a solução é enfiar ritalina goela abaixo. “Isso não quer dizer que a família seja culpada. É preciso orientá-la a lidar com essa criança. Fala-se muito que, se a criança não for tratada, vai se tornar uma dependente química ou delinquente. Nenhum dado permite dizer isso. Então não tem comprovação de que funciona. Ao contrário: não funciona. E o que está acontecendo é que o diagnóstico de TDAH está sendo feito em uma porcentagem muito grande de crianças, de forma indiscriminada”, diz a médica.

“Se a criança já desenvolveu dependência química, ela vivenciará a crise de abstinência. Também apresentará surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações e correm o risco de cometer o suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA)”.

A família precisa aprender a integrar às manifestações da criança

O ambiente familiar pode se tornar tenso e com mensagens negativas a criança, prejudicando seu autoconceito, tornando-a mais defensiva e reativa tanto na família quanto na escola. A família precisa aprender a integrar as manifestações da criança.

Compreender que os comportamentos da criança não são voluntários e responder com comportamentos equilibrados. A disciplina, as regras, mantém o equilíbrio e facilitam o dia a dia, porém não devem ser imutáveis, e sim flexíveis, de acordo com as necessidades e as situações que vão surgindo.

Algumas sugestões aos pais:

Participação em grupos de ajuda, a fim de conhecerem melhor o TDAH;
Coerência – é imprescindível que cada um dos Pais avalie sua disponibilidade interna em relação a cada uma das áreas de atrito;

Estabelecimento de papéis – é importante que a criança perceba a autoridade dos pais;

Estabelecimento de rotina – o fato de haver hora certa para brincar, estudar, dormir etc., oferece segurança contra a desorganização e o caos;

Criação de regras – devem se clarificar quais são os comportamentos aceitáveis e os inaceitáveis, evitando-se assim, a sedutora possibilidade desafio por parte da criança;

Coerência nas repreensões – é necessário que a criança faça a correlação entre seu comportamento e posterior consequência;

A importância do lúdico na relação entre os pais e filhos, buscando o máximo de drenagem das tensões;

Responsabilidades – é importante que a criança sinta-se como um ser cooperativo;

Autoestima – qualificação e a palavra mágica;

Dieta do amor – todos necessitam dessa confirmação e, portanto, escutar “eu te amo” deve fazer parte do cardápio pela manhã, à tarde e à noite.

Atividades física /ou artísticas para crianças com déficit são melhores do que qualquer medicação

Como a criança hiperativa tende a ser mais impulsiva, agitada e apresentar dificuldade para se concentrar, há algumas atividades recreativas e exercícios para déficit de atenção que além de estimular o foco, ajudam a acalmar.

Jogos de tabuleiro e de montar, assim como quebra-cabeças, são boas opções de atividades para crianças agitadas, pois normalmente envolvem o exercício do raciocino lógico e a criação de estratégias com base em regras. Durante essas brincadeiras, procure encontrar soluções junto com a criança para mantê-la motivada e interessada.

Entre as atividades para crianças com hiperatividade destacam-se as brincadeiras dinâmicas e visuais, como teatro de fantoches ou brincadeiras que envolvem a pintura e o faz de conta. Através delas, os pequenos podem se expressar sem medo de errar, estimulando suas habilidades e autoconfiança. Então, por que não experimentá-las em casa?

As modalidades esportivas também são recomendadas como atividades para crianças agitadas. Os esportes são ótimos para gastar a energia do hiperativo, e têm a vantagem de serem excelentes meios para trabalhar a motivação e incentivar a socialização com outras crianças. Futebol, vôlei ou atividades junto à natureza, como arvorismo e surf, podem trazer benefícios imediatos. Mas, é bom escolher uma prática que a criança já demonstre um certo interesse para evitar a desistência.

Atividades físicas que trabalham com a respiração podem tanto acalmar, quanto ajudar na concentração. Além das práticas alternativas, como yoga e meditação, a natação e caminhada são boas sugestões de atividades para crianças com hiperatividade.

A música como recurso para a criança com déficit de atenção

A musicoterapeuta Luciana Steffen explica que a musicoterapia é uma nova modalidade de tratamento que tem mostrado sua eficácia com crianças e adolescentes com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Uma atividade musical pode ativar todas as áreas do cérebro, estimulando áreas responsáveis pela atenção, memória, concentração, relaxamento, atividade motora, emoções, entre outras. Quanto mais prazerosa a atividade, mais é ativado o cérebro e maior é a atenção. A música, por despertar grande interesse e curiosidade e provocar prazer e satisfação, faz a criança ou adolescente se engajar na atividade, aumentando a atenção e participação.

Muitas pesquisas mostram que através da Musicoterapia, os sintomas do déficit de atenção diminuíram. Tocar um instrumento, cantar, realizar uma percussão corporal, um movimento corporal em determinado momento da música (atenção seletiva) ou jogo musical (diferenciar timbres) requer atenção, onde precisa-se estar focado para saber o momento preciso de se colocar na atividade musical. Uma atividade musical permite variações, inserir uma grande gama de estímulos, e quanto mais estímulos, maior a atenção. Em uma mesma atividade pode-se modificar a velocidade, a intensidade (forte x fraco), os instrumentos, inserir percussão corporal, dança, cantar, modificar a música, trabalhar só com o ritmo, só com a melodia, juntar tudo… possibilitando diferentes maneiras manter a atenção. Tendo assim, a música o poder de aumentar a capacidade de atenção por sua variedade de estímulos (auditivos, visuais, táteis) e mantendo os neurônios em atividade.

Através do ritmo na Musicoterapia trabalha-se o corpo. Além de dar energia, o ritmo organiza, trabalha a organização espaço temporal, diminuindo os sintomas de hiperatividade e impulsividade. A percepção temporal está alterada nas pessoas com TDAH. O ritmo é uma organização no tempo e no espaço, que obriga a realizar determinada tarefa musical em determinado tempo e em determinado espaço, não em um tempo maior ou menor.

A música também trabalha as emoções, a ansiedade, sendo um dos objetivos terapêuticos da Musicoterapia no TDAH acalmar, tanto diminuindo a ansiedade, quanto relaxando a musculatura. É mais que comprovada a capacidade que a música tem de relaxar e acalmar, o que vai auxiliar na concentração e atenção. Deve-se começar com atividades mais rápidas e após ir diminuindo a velocidade, a fim de tranquilizar, de aumentar o foco e ir inserindo outras atividades, atividades mais calmas, atividades que exijam maior capacidade de atenção.

A autoestima também é aumentada através da autorrealização que uma atividade musical pode oferecer e a música é também um meio de comunicação capaz de expressar mais intimamente as emoções que as palavras, auxiliando no desenvolvimento emocional e também na comunicação (verbal e não verbal). É uma forma de comunicação não verbal, que faz a criança se sentir muito à vontade para trabalhar suas questões emocionais e sociais.

Assim, as atividades musicoterápicas como jogos musicais, atividades rítmicas, cantar, música e movimento, tocar instrumentos musicais e composição requerem todo o trabalho cognitivo de raciocínio, organização, atenção, memória, criatividade, a atividade motora, além da troca de ideias (interação social), comunicação (expressar o que se quer de forma adequada), tranquilidade, ouvir o outro, seguir instruções e de fortalecer o emocional e a autoestima, diminuindo a ansiedade, aprendendo a lidar com frustrações, melhorando comportamentos e oferecendo maior autonomia e segurança, além de aumentar a qualidade de vida. Tornando-se assim uma criança ou adolescente mais saudável na escola, na família e no trabalho.

*Clara Dawn - Clara Dawn é romancista, psicopedagoga, psicanalista, pesquisadora e palestrante com o tema: "A mente na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: escritoraclaradawn@gmail.com




domingo, 28 de junho de 2020

Ritalina: Saiba os efeitos do uso abusivo dessa droga.

(Foto: cmd.cm.faro.pt)
O nosso blog reservou um espaço para divulgar matérias sobre o uso, sua composição, seus benefícios e seus efeitos colaterais nas nossas crianças do medicamento Ritalina. O Brasil já é o segundo país a consumir essa droga, perdendo apenas para os Estados Unidos. 

Hoje vamos divulgar matéria da Carta Capital: 


A busca por soluções fáceis, o diagnóstico equivocado e a incompreensão dos pais acerca da agitação natural das crianças elevou o Brasil ao posto de segundo maior consumidor de Ritalina do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos.
O dado, do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, é alarmante. Ritalina é o nome comercial do metilfenidato, medicação que promete tratar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou TDAH, e os principais consumidores da droga tarja preta são crianças e adolescentes.
Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), de 8% a 12% das crianças no mundo foram diagnosticadas com TDAH, e a suspeita dos pais de que os filhos tenham o transtorno é o principal motivo que os leva aos médicos. Em 2010 foram vendidas 2,1 milhões de caixas de metilfenidato. Em 2013, foram 2,6 milhões.
Para conversar sobre o uso indiscriminado de Ritalina e sua consequências, CartaCapital entrevistou Wagner Ranña, médico psiquiatra com experiência em saúde mental da infância e docente do Sedes Sapietiae, um instituto dedicado à saúde mental, à educação e à filosofia.
CartaCapital: O Brasil é o segundo maior consumidor de Ritalina do mundo. A que se deve isso?
Wagner Ranña: No Brasil, a rede voltada para assistência aos problemas de saúde mental da criança e do adolescente é muito precária — o que não é privilégio do Brasil, este problema afeta a quase todos os países. As crianças com dificuldades de comportamento, agitadas e irrequietas são vistas como doentes pelos profissionais da psiquiatria biológica e da neurociência, e então eles receitam remédios. Como consequência, temos um número elevadíssimo de crianças recebendo medicação, mas sem se discutir se a ela é mesmo necessária ou se é a melhor forma de cuidado.
Na visão do nosso grupo de trabalho no Sedes Sapientiae, que tem um histórico no cuidado com a saúde mental da criança, é de tentar entender o sofrimento psíquico e os problemas de comportamento. E não ver isso de pronto como um problema, porque a maioria são só crianças agitadas. E, no mundo da rapidez, ironicamente, elas são colocadas como doentes. Estamos desperdiçando jovens que poderiam ser sujeitos muito ágeis, como atletas e músicos.
CC: Há efeitos colaterais no uso do remédio?
WR: Além de causar dependência, a Ritalina provoca muitos outros efeitos colaterais: as crianças emagrecem, têm insônia, podem ter dor de cabeça e enurese [incontinência urinária]. E, apesar de sua fama, não tenho uma experiência de eficácia da droga, mesmo em casos em que ela deveria ser usada. Percebo que o trabalho de terapia, de orientação e cuidado real com a criança dá muito mais resultado.
Começamos a passar para a criança a cultura de que um comprimido resolve tudo na vida, de que não existe mais solução pelo pensamento, pela conversa, pelo afeto e pela compreensão. O mundo todo é agitado, as pessoas são desatenciosas umas com as outras, e as crianças é que acabam tachadas de hiperativas.
Outra coisa, as crianças falam assim para mim: “eu sou um TDAH” ou “eu sou o da Ritalina”. Elas se colocam nesse lugar de alguém doente, com um déficit. A vida deles vira isso.
Tratar com drogas as crianças agitadas ou com dificuldade de aprendizagem é deixar de questionar o método de ensino, o consenso da escola, e a subjetividade da criança diante do aprendizado. É uma atitude muito imediatista.
CC: E quais são as alternativas ao tratamento com a droga?
WR: Tenho visto muitas crianças que, por trás da agitação, estão submetidas a uma violência, um abuso, ou a uma situação psicopedagógica não adequada. Colocar tudo como sendo um problema do cérebro da criança é muito antiético, é não levar em conta sofrimentos e as necessidades que ela está expressando.
Por exemplo, outro dia atendi uma menina que a mãe dizia ser hiperativa e precisava de Ritalina. Em cinco minutos de conversa descobri que ela tinha vivido uma situação em que o pai tentou matar a mãe. Essa criança estava angustiada, não era hiperatividade.
É claro que cada caso é um caso, há crianças realmente hiperativas e que precisam de um cuidado. Ainda assim têm muitas medicadas de maneira incorreta. E estamos vivendo uma epidemia de transtornos, ou supostos transtornos. Então além dessa medicalização excessiva, há uma falta de projetos terapêuticos para o sofrimento psíquico na infância, que é grande. Isso facilita a medicalização da infância, pois sem equipes treinadas é mais fácil só dar o remédio.
CC: Há quem exagere ou finja sintomas para conseguir a receita?
WR: Sou totalmente contrário o uso de questionários com pontos para o diagnóstico de sofrimento psíquicos [como fazem muitos psiquiatras]. Isso não é ver a criança eticamente. E os adolescentes podem fingir mesmo, porque querem tomar Ritalina para ter um bom desempenho na prova, ter mais energia para estudar.
A Ritalina é uma anfetamina associada a drogas com ação na atividade cerebral. A cocaína e as anfetaminas são consumidas por atletas que querem mais rapidez, pelos executivos que querem ficar acordados para trabalhar mais, pelos motoristas que querem fazer uma viagem e não dormir. É um verdadeiro doping.