Mostrando postagens com marcador Homosexualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Homosexualidade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A mulher que fugiu para salvar dois bebês intersexuais de seus próprios pais


Há cinco anos, uma parteira no Quênia ajudou uma criança que tinha órgãos genitais masculinos e femininos a nascer.

O pai ordenou que ela matasse o bebê, mas, em vez disso, ela escondeu e criou a criança como se fosse dela. Dois anos depois, a mesma coisa aconteceu - e ela se viu obrigada a fugir para salvar a vida das crianças.

Como uma parteira tradicional no oeste do país africano, Zainab estava acostumada a realizar partos e trabalhou em dezenas de nascimentos. Mas nenhum como aquele de 2012.

Foi um parto difícil, mas nada com que ela não soubesse lidar. O cordão umbilical estava enrolado na cabeça da criança e ela precisou agir rapidamente, usando uma colher de madeira para desenrolá-lo.


Depois de liberar as vias respiratórias e limpar o bebê, ela cortou o cordão umbilical e viu algo que nunca tinha visto antes.

"Quando olhei para saber se era menino ou menina, eu vi uma protusão - esse bebê tinha órgãos masculinos e femininos", disse.

Em vez de dizer o que estava acostumada em momentos como aquele - "É um menino", ou "É uma menina" -, Zainab apenas entregou a criança à mãe e disse: "Aqui está seu bebê".

Quando a mãe, exausta, viu que o sexo do bebê não estava definido, ficou impressionada. O marido chegou e não teve dúvidas do que deveria ser feito.

"Ele me disse: 'Não podemos levar esse bebê para casa. Queremos que ele seja morto'. Eu disse que a criança era uma criatura de Deus e que não poderia ser morta. Mas ele insistiu. Então respondi: 'deixe o bebê comigo, eu o matarei para você'. Mas eu não o matei, eu fiquei com ele", conta Zainab.


O pai voltou a procurar Zainab várias vezes para garantir que ela tinha cumprido a promessa. Ela escondia a criança e dizia que havia matado o bebê. Mas isso não funcionou por muito tempo.

"Um ano depois, os pais ouviram dizer que o bebê estava vivo e vieram me ver. Disseram que eu jamais poderia revelar que o bebê era deles. Eu concordei e desde então crio a criança como se fosse minha."
Crenças tradicionais

Foi uma decisão rara - e arriscada.

Na comunidade de Zainab, assim como em outras no Quênia, um bebê intersexual é visto como mau presságio, que traz maldição para a família e os vizinhos. Ao adotar a criança, Zainab estava desrespeitando as crenças tradicionais e corria risco de ser responsabilizada por qualquer infortúnio.

Isso foi em 2012. Dois anos depois, Zainab ficou impressionada ao se deparar, durante mais um parto, com um segundo bebê intersexual.

Apesar de não haver estatísticas confiáveis sobre quantos quenianos são intersexuais (ou seja, nascem com os dois órgãos sexuais), os médicos acreditam que a incidência seja a mesma de outros países - aproximadamente 1,7% da população.

"Dessa vez, os pais não me pediram para matar a criança. A mãe estava sozinha e simplesmente fugiu, e me deixou com o bebê."

Mais uma vez, Zainab levou a criança para casa e a criou como parte da família. Mas o marido dela, um pescador no lago Victoria, não gostou da ideia.


"Quando íamos ao lago pescar e a pescaria era ruim, ele colocava a culpa nas crianças. Ele disse que elas tinham lançado uma praga sobre nós e sugeriu que eu entregasse as crianças para que ele pudesse afogá-las no lago. Eu disse que jamais permitiria aquilo. Ele então ficou violento e começamos a brigar o tempo todo", contou.

Zainab ficou tão preocupada com o comportamento do marido que decidiu deixá-lo e levar as crianças consigo.

"Foi uma decisão difícil porque financeiramente eu tinha uma situação confortável com meu marido, já tínhamos filhos criados e até netos. Mas ninguém consegue viver em um ambiente com tantas brigas e ameaças. Eu fui forçada a fugir."

As condições de nascimento de crianças vêm mudando no Quênia. Cada vez mais, as mulheres têm trocado os vilarejos por hospitais ao dar à luz. Mas até pouco tempo o uso de parteiras era regra, e havia uma norma tácita sobre como lidar com bebês intersexuais.

"Elas costumavam matar essas crianças", diz Seline Okiki, diretora do Ten Beloved Sisters, grupo de parteiras tradicionais do oeste do Quênia.

"Se um bebê intersexual nascia, automaticamente era visto como maldição e não poderia viver. Já era comum entre as parteiras - elas matavam as crianças e diziam às mães que o bebê havia nascido morto."

FONTE: Terra

sexta-feira, 10 de março de 2017

“Parece uma travesti” então tu és linda!

Maria Clara de Sena. Foto de Wagner Silva.
Por Ana Flor Fernandes Rodrigues* 
Durante muito tempo as características e beleza de uma travesti foram atribuídas a partir de um olhar depreciativo. Neste caso, referir-se aos sujeitos como “travesti” significava – e em muitos lugares ainda se perpetua essa visão – afirmar que o outro é feio. Logo, escrevo com o intuito de desmistificar essa visão pejorativa que é posta sobre identidades e corpos desse determinado grupo, visando criar novas óticas que desconstruam uma visão una de beleza.
Antes de iniciar, é preciso que consigamos compreender como surge o histórico que coloca essas meninas nesse determinado local. Afinal, se identificamos alguém enquanto desprovida de beleza é porque existe uma construção que determinou o que seria o belo. Principalmente quando o fato de ser comparada com uma travesti vem com o intuito de nos pôr em uma situação vexatória.
Quando falamos no Brasil – país líder em assassinatos de travestis e mulheres trans – torna-se possível perceber que existe um processo histórico e social que proporcionou violências e equívocos no que tange o quesito beleza em relação às travestis. É notório o processo desumanizador fincado na experiência desta população. O que nos permite refletir sobre duas posições contraditórias: ou temos o direito de sermos agentes socializadores que irão contra esse processo; ou permaneceremos caladas e calados e seguiremos vivenciando as facetas da violência transfóbica.
O que nos mostra que não podemos ignorar a existência de uma origem para que travestis estejam, erroneamente, ligadas ao que para algumas pessoas acaba sendo um sentimento de vergonha.
Mesmo muitas dessas já tendo estrelado capas de revistas, editoriais de moda, sendo musas da periferia até o Miss Universo T, participado de novelas e grandes filmes, ainda estamos inseridas em um contexto que reforça, cotidianamente, que esses não são os nossos lugares.
Então, faz-se necessário questionar os padrões estabelecidos sobre os nossos corpos, visto que falar sobre travestilidade é penetrar as mais diversas formas de ser; compreendendo que não existe uma fórmula única sobre essa identidade. Ser bonita não é, nem de longe, ser igual. Bonita é ser diferente e, como muito bem pontua Tomaz Tadeu da Silva: ser diferente não significa ser desigual. Logo, é baseado nessa perspectiva que devemos nos guiar. Projetando a imagem das travestis a partir de outro contexto que fuja e destrua o que insiste nos interligar ao senso do ridículo.
Aproveito também para dizer que não devemos apenas questionar o que é lido enquanto deslumbrante e lindo, mas também o que historicamente vem sendo colocado enquanto feio.
Quando pensamos em corpos gordos, por exemplo, automaticamente ligamos ao bruto, de forma que venha a inferiorizar quem não é magro. Como se essas performances não pudessem ocupar o espaço de beleza que vem sendo construído desde décadas passadas. Não tão diferente, com pessoas negras. Não é possível esquecer quando mulheres negras eram apenas “as pretas do fogão”. Muito menos a exotificação que é jogada, desde o período escravocrata, sobre os homens negros. Gays afeminados estão sempre sendo lidos enquanto “engraçadas”, mas nunca enquanto bonitos. Mc Linn da Quebrada, artista que vem construindo uma carreira que trás consigo seu corpo enquanto ferramenta de luta que questiona a heteronorma, em uma das suas músicas, A Lenda, levanta essa questão de que se você não é branca, cisgênero e assimilada, você não é  bonita, mas sim apenas engraçada.  Percebam como todos esses eixos se interseccionam e nos possibilitam compreender qual seria a necessidade de existir os questionamentos. Afinal, existe por trás dessas definições, como citei no início do texto, uma estrutura que determina nossas leituras sobre os indivíduos.
Sendo assim, criar mecanismos para que consigamos construir narrativas e proporcionar que travestis não sejam associadas a algo ruim, é entender que para ser bonita não é preciso desejar o reflexo do que nos foi imposto, mas sim ter o direito de se construir sem que o outro interfira. Se existe hoje um padrão de beleza esse deve ser repensado e, sendo um pouca ousada, destruído. Pois, lindo é tudo aquilo que é diverso, variado. Não acredito que isso aconteça de uma hora para outra, é claro que existe uma demanda de tempo sobre as estruturas dos processos culturais, mas o alerta sobre essa urgência precisa estar sempre ligado. Ressignificar as terminologias é algo que deve ser colocado em pauta nesse futuro tão próximo. Então, se um dia alguém ousar te chamar de travesti acreditando que soará como ofensa, reaja: se pareço ou sou uma travesti, sou linda.
Autora
*Ana Flor Fernandes Rodrigues, 21 anos. Graduanda em Pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Estagiária em Assistência Pedagógica na Organização Galera da Redação. Estuda e Pesquisa em temas relativos à gênero e sexualidade. Modéstia parte, uma travesti muito bonita! Militante por direitos para travestis e pessoas trans.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Denuncie: Site ensina como estuprar mulheres em diversas ocasiões


Site divulga 'guia completo' para estuprar mulheres em festas, escolas e um específico para mulheres homossexuais: "estuprar lésbicas é questão de honra, glória e bem-estar social". Apesar do conteúdo criminoso, site continua no ar. Para que seja removido e os autores punidos, é necessário denunciar. Saiba como.

Surfando na cada vez maior onda de ódio que assola o país – refletida em linchamentos e patrulhas ideológicas agressivas –, alguns indivíduos perderam completamente os limites do tolerável.
Um deles é o autor da página Tio Astolfo. O clima de indignação com o site tomou conta das redes sociais nesta segunda-feira (27).
A internauta Marianna Ribeiro diz estar chocada com as barbaridades expostas no site. “Impressionada com o seu conteúdo imundo. Irei denunciá-la à Polícia Federal agora”. Já Nichele Nayara pede punição aos responsáveis pelo site. “Essa pessoa merece cadeia”, afirma.
No Brasil, crime de estupro se caracteriza por constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. A pena de reclusão é de 6 a 10 anos.
Caso o ato resulte em lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 ou maior de 14 anos, a pena é a reclusão de 8 a 12 anos. Se a conduta resulta em morte, a pena é a reclusão, de 12 a 30 anos.
Diversos internautas estão se mobilizando nas redes sociais para denunciar o site “Tio Astolfo”.

Saiba como denunciar

A Policia Federal investiga os crimes on-line e disponibiliza um link em sua página (veja aqui) para receber as denúncias.
Humaniza Redes, criado pelo Governo Federal para denunciar os crimes de internet, também disponibiliza um link (aqui) para denunciar os crimes on-line.
A ONG Safernet também recebe esse tipo de queixa (aqui) e encaminha para os órgãos responsáveis.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Homofobia e futebol: O tabu das arquibancadas

Por Ciro Barros e Giulia Afiune, na Agência Pública

O ano de 2013 foi expressivo para a discussão de dois grandes tabus do futebol brasileiro: a homossexualidade e a homofobia. Em 9 de abril, torcedores do Atlético-MG fundaram a Galo Queer, uma página no Facebook que reúne torcedores alvinegros com uma postura anti-homofobia e anti-sexismo. “Galo” é o apelido do clube de Minas Gerais e “Queer”, em inglês, significa gay. Em 15 dias, a página ganhou cinco mil fãs, e hoje conta com mais de 6.600.

O gesto da torcida atleticana motivou outras a fazerem o mesmo. Ao longo do mês de abril, surgiram páginas semelhantes de torcidas de todo o país: Cruzeiro, São Paulo, Náutico, Grêmio, Vitória, Bahia, Internacional, Palmeiras, Corinthians, Flamengo, entre outros. A lista é extensa e mostra que a discussão da homofobia no futebol, até então, ainda estava dentro do armário.

“O estádio é um ambiente super homofóbico. Lá não se vê nenhuma manifestação de diversidade afetiva”, diz o jornalista – e palmeirense – William de Lucca, colaborador da Folha de S. Paulo em João Pessoa, na Paraíba. Ele é homossexual assumido e se esforça para prestigiar os jogos do Palmeiras em cidades próximas, como Recife ou Natal. William já era militante LGBT e, assim que ouviu falar, aderiu à página anti-homofóbica “Palmeiras Livre”. “Em 2008, eu morei alguns meses em São Paulo e tinha um namorado que era palmeirense também. A gente foi até aconselhado por um amigo dele da torcida organizada a não ter nenhuma demonstração de afeto dentro do estádio, porque a gente poderia ser agredido”, lembra. “A gente sempre fica com medo. Em outros ambientes, sou muito seguro quanto a manifestar meu afeto: ando de mão dada e tal, inclusive na rua, mas acho que o estádio de futebol é mais hostil do que a própria rua, sabe? A homofobia é muito mais explícita”, conta.
 
“A gente só não tem mais relatos disso porque os homossexuais que torcem nos estádios não arriscam nenhum tipo de demonstração afetiva”, conclui William.

Dentro da Palmeiras Livre, assim como nas outras organizações, ainda se discute quais serão os próximos passos. Os integrantes querem ocupar as arquibancadas, mas temem agressões físicas, já que as verbais ocorrem diariamente. “Dia sim e outro também nós recebemos ameaças”, conta a fotógrafa e analista de mídias sociais Thaís Nozue, também integrante da Palmeiras Livre. “As pessoas vem ameaçando, dizendo que estão mexendo com o time errado, que eles vão descobrir quem é, que não sei o quê”. Por enquanto, a hostilidade está restrita a mensagens no Facebook como: “Vão morrer”, “Experimenta aparecer na torcida e vocês vão apanhar”, “A Mancha [maior organizada do Palmeiras] bate em polícia e não vai bater em um monte de bicha?” – o que não significa que a ameaça venha da Mancha, como explica Thaís.

Segundo ela, a causa da Palmeiras Livre também foi rechaçada pelas organizadas alviverdes. “A gente até tentou uma aproximação com as organizadas, mas elas deram um recado para a gente não se meter com elas. Às vezes aparecem pessoas se dizendo das organizadas nos ameaçando, mas a gente não tem como comprovar se são mesmo”, diz.

A homofobia veste verde?

Procurado pela Pública, Marcos Ferreira, o Marquinhos, presidente da Mancha Alviverde, não quis dar uma entrevista sobre a polêmica da homofobia e sobre um episódio envolvendo o volante e lateral Richarlyson, hoje no Atlético-MG e tido como homossexual, apesar de sempre se declarar heterossexual.
 
No início de 2012, o Verdão estudava a possibilidade de contratar Richarlyson. A Mancha Verde convocou um protesto no dia 4 de janeiro, na frente do Centro de Treinamento (CT) do Palmeiras, zona oeste de São Paulo. Segundo a torcida o motivo era uma rixa antiga com o jogador, que estava à beira de um acordo com o Alviverde, mas acabou indo jogar no rival São Paulo. Porém, uma grande faixa estendida por duas pessoas durante aquele ato dizia: “A homofobia veste verde”.

Ao telefone, Marquinhos negou repetidas vezes que a Mancha tenha algo a ver com a faixa – ela seria obra de duas pessoas desconhecidas da organizada que foram ao protesto. Mas ele disse que “não via nada de agressivo na faixa”. A Pública também tentou contato com Richarlyson, mas foi informada pelo seu empresário, Julio Fressato, que ele estava se recuperando de uma cirurgia.

O selinho de Sheik e o voto das gaivotas

Na esteira das iniciativas anti-homofóbicas, dois episódios jogaram o Corinthians no centro da discussão. O atacante Emerson Sheik, herói corintiano da inédita conquista da Libertadores em 2012, foi vítima de uma onda de ataques homofóbicos depois da vitória do Corinthians sobre o Curitiba por 1 a 0, no Pacaembu, no dia 18 de agosto. Para comemorar, Sheik postou uma foto em seu perfil oficial no Instagram em que aparecia dando um selinho em um amigo de longa data, o empresário Isaac Azar. “Tem que ser muito valente para celebrar a amizade sem medo do que os preconceituosos vão dizer. Tem que ser muito livre para comemorar uma vitória assim, de cara limpa, com um amigo que te apoia sempre”, escreveu.

No dia seguinte, cinco integrantes da Camisa 12, segunda maior torcida organizada do Corinthians, foram ao CT do clube protestar contra a atitude de Sheik, levando três faixas que diziam “Vai beijar a P.Q.P. Aqui é lugar de homem”, “Respeito é pra quem tem” e “Viado não”.

Dois meses depois, o jornalista e apresentador Luiz Felipe de Campos Mundin, que assina como Felipeh Campos, anunciou que faltava pouco para fundar a já polêmica Gaivotas Fiéis, primeira torcida organizada com conceito gay do Corinthians.

A Pública conseguiu entrevistar um personagem importante em ambos os episódios, Marco Antônio de Paula Rodrigues, de 34 anos. Conhecido pelo apelido “Capão”, por ter crescido no Capão Redondo, bairro periférico da zona sul de São Paulo, ele é presidente da Camisa 12, e foi um dos cinco que protestaram contra o selinho de Sheik. Ele revela ter sido o autor da faixa que dizia “Viado não” – a única, dentre as três, que considera agressiva. “Só essa foi um pouco mais forte, foi um excesso. Eu que risquei com o spray essa faixa, eu até pensei [que era agressiva], mas depois que nós já estávamos lá, a gente não podia voltar atrás”, diz. Trajado da cabeça aos pés com roupas da Camisa 12 (boné, camiseta, agasalho, bermuda e até meias da torcida), Capão é assertivo, olha nos olhos e tem a voz rouca. Aceitou falar durante uma hora e meia com a reportagem da Pública na sede da torcida, no bairro paulistano do Pari, região central, para “dar a explanação” sobre os dois episódios.

Sobre a iniciativa de Felipeh Campos, Capão vê a nova torcida gay como puro marketing. “Acredito que ele está pensando mais numa autopromoção do que numa torcida organizada. Porque para nós, uma torcida organizada começa como a gente sempre troca ideia nas torcidas: o cara vai para uma caravana, o cara participa de vários jogos do Corinthians na arquibancada e não na numerada, a pessoa participa de inúmeras manifestações corintianas que teve nesses últimos anos, tanto de protesto contra diretoria, contra jogador. Tem uma caminhada ideológica dentro de uma instituição para você fundar uma torcida organizada. Torcida organizada não é um comércio, mano”, argumenta.

“Tomei muita borrachada da polícia por aí, passei muita fome na estrada, nunca fomos pra qualquer lugar e fomos bem recebidos por qualquer órgão que cuida da organização do jogo no estádio, da segurança pública, nós sempre fomos maltratados por muitos deles, então a torcida organizada não é simplesmente chegar e falar: ‘Ó, vou criar uma torcida hoje. Vou criar uma camisa e vou pro estádio’”.
 
Para Capão, é “inaceitável” a escolha do nome da torcida gay e a corruptela do símbolo do Corinthians – no brasão da Gaivotas, além da nova ave, o símbolo tem como fundo um espelho de maquiagem com direito a pincel e lápis, e a bandeira do Estado de São Paulo foi pintada com as cores do arco-íris, ícone do movimento gay.
 
“Eu acho que o rapaz lá acaba beirando até o ridículo… Ele está transmutando as nossas coisas. Tanto pelo nome que ele coloca se referindo a uma torcida que tem uma puta tradição [Gaviões da Fiel, a maior organizada do Corinthians, fundada em 1969] quanto do nosso símbolo do Corinthians, ele colocar um espelho e uns negócios de maquiagem no símbolo… Numa entrevista que eu vi, perguntaram: ‘Mas por que isso daí?’ E ele: ‘Ah, porque na verdade o corintiano vai gostar de se pintar na arquibancada’. Meu, torcida do Coringão é 90 minutos, mano. A gente gosta é de cantar, de sofrer, de chorar pelo Coringão. Não é de se pintar. Com todo o respeito, nem as nossas mulheres fazem isso”, afirma Capão, que é contra a existência de uma torcida gay. “Já digo de pronto que eu não sou favorável a ter uma torcida gay, porque eu acho que os gays não precisam disso daí pra poder se achar numa sociedade que já está abrangendo todo mundo”.

Perguntado se existem gays na Camisa 12, Capão não hesita: “Nós não temos gays na torcida, mano. Pelo menos nunca soubemos, entendeu. Meu, se o cara tá lá, tá assistindo o jogo. Tudo bem, nós vamos respeitar, mas qualquer faixa assim, nós somo contra mano. Nós não queremos, de verdade mano, aqui dentro da 12. Pra nós é sério o estádio, não é só pra brincar”. Capão, explicando que, se “no meio de um gol os dois de repente se beijarem no meio da nossa torcida”, seria “ruim”: “O estádio pra nós é um templo”.

O lastro, para Capão – que não se considera homofóbico –, é sempre a tradição. “O cara ir pro jogo, se for um homem, de shortinho amarradinho, camisa amarradinha e todo pintado… Pra nós não rola meu, de verdade. Porque o nosso tradicionalismo, infelizmente, meio ogro, tá ligado, até beirando homem da caverna não permite isso daí, certo?”. Se a Camisa 12 fosse homofóbica, exemplifica Capão, “a gente juntava os associados da 12 e ia lá na passeata gay quebrar todo mundo. No entanto que ninguém tá muito se manifestando [sobre a Gaivotas Fiéis], certo? Por quê? Porque tudo que a gente fala, a mídia distorce”.

Sobre o episódio do selinho do Sheik, Capão diz que o problema foi o atacante ter declarado que o beijo era para comemorar a vitória do Corinthians. “Quando ele falou que ele estava fazendo aquilo pra comemorar o jogo ele já transferiu a responsa pro Corinthians”, afirma, explicando que, depois do episódio, onde quer que o Timão jogue é recebido com gritos de “beija, beija, beija” pelos torcedores rivais. “Estávamos ali [no protesto] representando muitos torcedores. Muitos pediram para que a gente tomasse a frente, tanto que eu recebi inúmeras congratulações depois”, diz.
 
Gaviões X Gaivotas

A Gaviões da Fiel, maior organizada do Corinthians, fez uma denúncia de crime contra a propriedade industrial no 1º DP de Guarulhos, contestando a sátira à marca da torcida, que é registrada. A torcida reclama que a proximidade dos nomes e símbolos das duas pode induzir ao erro. “Eu não sei onde eles enxergaram plágio”, contesta Felipeh Campos, da Gaivotas. “A minha torcida chama Gaivotas Fiéis, não é gavioa. Já começa que Gaivota é feminino, não é masculino. Se eu tivesse colocado cílios e salto alto no gavião, aí eu até acredito que poderia ter sido uma questão de plágio. Porém eu não estou utilizando as peças do emblema para plagiar alguma coisa. Entendo isso como uma retaliação homofóbica”, diz.

Felipeh conta que vem sendo ameaçado nas redes sociais, e que foi agredido verbalmente na semana passada, na Avenida Paulista. “As ameaças são coisas do tipo ‘Cuidado, eu vou te matar’, ‘Você já tá jurado de morte’, ‘Abre teu olho’. Então você vê que são atitudes extremamente homofóbicas e preconceituosas, elas não têm outros motivos”, diz. Sobre a agressão ao vivo, ele conta que ocorreu na saída de seu trabalho, na sede da TV Gazeta, na avenida Paulista. “Eu estava com um amigo meu na Paulista e um cara passou, me esbarrou e começou a me xingar. E eu falei: ‘É comigo que você tá falando?’ E ele: ‘ Você acha que é com quem? Tá pensando que você e a sua turminha vai entrar em estádio? Não vai não, mano’. E eu falei: ‘Bom, vamos conversar, abaixa o tom de voz’. E aí ele continuou a gritar e eu falei: ‘Ótimo, a polícia está vindo ali, eu vou te incriminar agora em crime de homofobia e você vai sair daqui para a cadeia’. Aí na hora que ele viu que a polícia vinha vindo a pé, ele meio que saiu de canto e deu um pinote”, relata.

Felipeh Campos conta que desde pequeno frequenta estádios. “O futebol nas décadas de 70 e 80 era uma grande festa. Mas foi crescendo de uma forma tão grande que deixou de olhar para a questão democrática. Não está escrito na porta do estádio que só é permitida a entrada de homens, né? Eu acredito que não só os gays têm que frequentar os estádios, como a mulher, as crianças, entendeu? O futebol é pra todos”, diz. “Mas é claro que o conceito da torcida é gay e o meu objetivo maior é inserir o público gay no estádio de futebol. Eles [as organizadas] monopolizaram os estádios”, diz.

De fato, a divisão do estádio do Pacaembu é um dos argumentos de Capão para rejeitar a convivência com as Gaivotas. Por determinação da Federação Paulista de Futebol, as organizadas do Corinthians têm que ocupar as arquibancadas Verde e Amarela, atrás de um dos gols, nos jogos em que o clube é mandante. Se ficasse fora desse setor, a Gaivotas estaria violando a regra. “Mas dentro desse setor, nós já temos seis torcidas: temos a Gaviões da Fiel, temos a Camisa 12, a Pavilhão 9, a Estopim da Fiel, a Coringão Chopp e a Fiel Macabra. São seis torcidas que estão ali e todas elas obtiveram a caminhada. Ninguém chegou do nada não”, argumenta Capão.
 
Felipeh garante que o objetivo não é “fazer represália com qualquer tipo de segmento sexual”. Porém, sobre dividir espaço com as outras organizadas, ele é enfático. “Nem que eu tiver que pedir segurança para o exército. Mas que a minha torcida vai entrar nos estádios, isso vai, com certeza. Nem que a gente tenha que chegar de carro-forte, de tanque”. Ele ressalta que a sua torcida será profissional e que todo o corpo diretivo será remunerado, diferentemente das outras organizadas.

Procurado pela Pública, Jerry Xavier, diretor da Gaviões da Fiel, disse que a torcida não se pronuncia sobre esse tema. O Corinthians também afirmou, via assessoria, que não se manifesta a respeito de torcidas.

Homofobia bate recorde no Brasil

O Brasil, o país do futebol, vem sendo líder no ranking de mortes por homofobia. Segundo dados do relatório “Assassinatos de Homossexuais (LGBT) no Brasil”, de 2012, do Grupo Gay da Bahia, o Brasil concentra 44% do total de assassinatos por motivação homofóbica no mundo. Em 2012, foram registradas 3.084 denúncias de violações ligadas à homofobia e 310 homicídios por esse motivo.

Estádio: a terra no macho

“Por ser o estádio um ambiente que tem uma série de permissões nas relações masculinas – carinhos, afetos, às vezes até mesmo agressões – é necessário que esse ambiente seja considerado seguro para os homens. Para garantir essa suposta ‘segurança’, os torcedores precisam reforçar a sua masculinidade. E uma das coisas que melhor reforça a masculinidade na nossa cultura é a homofobia. Por isso ela aparece de forma tão gritante”, afirma o pedagogo e professor da UFRGS, Gustavo Andrada Bandeira, autor da tese de mestrado “‘Eu canto, bebo e brigo…alegria do meu coração’: currículo de masculinidades nos estádios de futebol”.

Para Bandeira, esse é o motivo da rejeição às torcidas gays: “Se a torcida do Corinthians, do Grêmio ou do Internacional for a primeira a levantar uma bandeira pró ações afirmativas, ela poderá ser chamada de a ‘torcida gay’, e as torcidas acham que isso é um problema”, diz.

Para Marco Antonio Bettine de Almeida, professor livre docente na Pós-graduação em Mudança Social e Participação Política da EACH-USP, a reação é “natural” num espaço que sempre foi dominado pelo masculino. “A partir do momento que as agendas de visibilidades desses grupos excluídos, que tiveram seus direitos cerceados, que são espancados, é natural, vendo a representação que o futebol tem no Brasil, começar toda essa movimentação de garantir uma representação nesse espaço eminentemente masculino, do macho, do falo”. Para ele, no entanto, há espaço para negociação entre os grupos LGBT e as organizadas. “Uma mulher no estádio é aceita, por exemplo, mas tem que representar os papéis dentro do estádio, que é torcer, xingar, participar. As torcidas gays ou não gays têm que incorporar um pouco da história desse espaço do torcer. E conhecer, minimamente, os códigos, senão vai gerar conflito. Porque o espaço é um espaço sagrado e tem uma carga cultural muito forte”.

Bandeira discorda. “Se é uma torcida gay, que ela tenha comportamentos diferentes das torcidas não gays. É sempre complicado quando a gente quer transgredir as regras de gênero sexual num ambiente muito marcado. Mas me parece que seria muito mais interessante se eles fizessem algo diferente”. Foi essa a aposta da Coligay, a primeira torcida homossexual do país, que em plena ditadura militar conquistou seu espaço dentre os torcedores do Grêmio (leia abaixo).

Uma inspiração para o caso brasileiro pode ser a GFSN (Gay Football Supporters Network, Rede de Torcedores de Futebol Gays, numa tradução livre). Fundada em 1989, a associação do Reino Unido tem diversas iniciativas para a inserção do público LGBT no futebol. “Estamos em contato permanente com muitos clubes para recomendar políticas anti-homofóbicas por parte deles”, afirma Simon Smith, do departamento de comunicação. “Ajudamos, por exemplo, a consolidar os Gay Gooners, a torcida LGBT do Arsenal e conseguimos o apoio formal de representantes do Liverpool e do Everton para a parada do orgulho LGBT da cidade de Liverpool. Dentro de campo, organizamos há dez anos campeonatos de futebol voltados ao público LGBT para a inclusão no esporte”, conta Smith.
 
A GFSN também registra com precisão britânica a ocorrência de gritos e cânticos homofóbicos nos estádios – e faz campanha permanente contra eles. “Na temporada passada, os torcedores do Brighton & Hove Albion FC sofreram com cantos homofóbicos em 72% dos jogos que disputaram. Nós documentamos isso e enviamos à FA (Football Association, a CBF inglesa), que ainda não tomou nenhuma atitude. Mas nós continuamos pressionando”, diz.

No próximo ano, a Copa do Mundo promete ser palco de discussão sobre homossexualidade – pelo menos em São Paulo, onde mais de 40 mil pessoas são esperadas para acompanhar a transmissão dos jogos nos telões da Fan Fest, no Vale do Anhangabaú, centro da cidade. Ali, a prefeitura planeja realizar uma intervenção para discutir homofobia, com direito a exibição de vídeos em telas e distribuição de folhetos sobre o tema. Outra ação que está sendo estudada é transmitir os jogos em telões no Largo do Arouche, um “point” LGBT da cidade, para esses torcedores.

Um pouco de história: em plena ditadura, nascia a Coligay

A tentativa de formar uma torcida organizada gay não é novidade no futebol brasileiro. Foi no dia 10 de abril de 1977, quando o Grêmio foi disputar uma partida pelo Campeonato Gaúcho contra o Santa Cruz (RS), que a novidade estampava as arquibancadas do estádio Olímpico: cerca de 60 torcedores homossexuais impressionaram os demais pela festa que faziam. Era a Coligay, a primeira torcida organizada assumidamente gay do Brasil. A Coligay foi fundada por Volmar Santos, que hoje é colunista social do jornal O Nacional, de Passo Fundo (RS).

Gremista fanático, Volmar nunca deixou de frequentar o Olímpico. “Eu ia aos jogos e achava as torcidas muito quietas, sem animação nenhuma. Foi quando eu resolvi formar uma torcida organizada. Aí me veio a ideia de fazer uma torcida gay”, conta. A ideia surgiu quando ele administrava a boate Coliseu, em Porto Alegre, voltada ao público gay, que não tinha muitas opções na capital gaúcha. O nome Coligay vem do nome da boate. “Foi aí que eu mandei fazer uns caftãs, uma espécie de túnica com as cores do Grêmio, e fomos torcer no estádio. A nossa marca era nunca deixar de cantar, fazer festa, apoiar sempre o nosso time. E a cada jogo a gente inventava coisas diferentes”, relembra. A torcida ganhou fama de pé quente: em 1977, com a Coligay nas arquibancadas, o Grêmio quebrou um jejum de oito anos sem títulos estaduais.

Naquele longínquo ano de 1977, o mesmo Corinthians chegou a convidar a torcida gay a prestigiar os seus jogos – e a Coligay esteve presente na quebra do jejum de 23 anos sem títulos do Timão. “Ganhamos fama de pé quente e o Vicente Matheus [ex-presidente do Corinthians] nos convidou. Assistimos o título do Corinthians contra a Ponte Preta de dentro do Morumbi, vestidos como gremistas”, recorda.

A Coligay durou cerca de seis anos, e acabou em 1983. “A torcida era muito centrada na figura do Volmar. Quando ele teve que ir para Passo Fundo, não teve uma liderança que conseguisse dar continuidade”, conta Leo Gerchmann, repórter especial do jornal Zero Hora, autor de um livro sobre a Coligay que deve ser lançado nos próximos meses.

Segundo Léo, a torcida enfrentou muita resistência por parte do Grêmio e da sua organizada Eurico Lara. “Temendo agressões, eu até coloquei o pessoal pra fazer karatê pra nos defendermos de possíveis ataques”, diz Volmar. Assim, na ocasião em que foram de fato atacados por torcedores do Gaúcho, clube de Passo Fundo, durante o Campeonato Gaúcho de 1977, a Coligay colocou os agressores para correr. “Com o tempo o clube e a própria torcida adotaram a Coligay. Alguns conselheiros gremistas até deram apoio financeiro à torcida. Acho uma página bonita da história do Grêmio, de aceitação da diferença”, diz Gerchmann. “Houve outras experiências de torcidas gays, coisas efêmeras no Cruzeiro, Fluminense e até no Internacional, que teve a Inter Flowers. E dois anos depois da Coligay, teve a Fla-Gay fundada pelo carnavalesco Clóvis Bornay, apesar dele ser vascaíno”.


Fonte: Vermelho
 
Fotos ilustrativas postadas pelo blog.  

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Anatomia do prazer: clitóris e orgasmos

Texto de Érika Pellegrino.*
Anatomia é um conhecimento básico, que aprendemos de maneira mais intensiva no primeiro ano da faculdade de medicina, apesar de retornarmos ao tema o tempo todo durante o curso. Era a matéria que eu mais odiava, muito técnica, milhares de nomezinhos de origem grega ou latina pra criar todo um novo vocabulário e entendimento sobre o corpo que eu sabia que ia usar muito pouco na minha carreira de psiquiatra. Digo isso para me desculpar de antemão por alguma imprecisão ou dificuldade de passar o conhecimento. Não sou uma especialista e também não espero que esta pequena contribuição seja capaz de esclarecer toda a questão da anatomia feminina, já que com livros cheios de descrições e desenho, professores do lado, mesas com cadáveres e peças anatômicas dissecadas já era difícil entender o que ficava onde e para que.
Bom, então para que me proponho a escrever um texto que talvez seja de difícil compreensão sobre um assunto que nem gosto? Porque conhecimento é valioso, e o conhecimento sobre os nossos corpos é essencial –- nos dá poder sobre quem somos, como funcionamos, porque as coisas acontecem de determinada forma. Só assim dá pra questionar e não aceitar o que é colocado como verdade e realmente se apoderar do corpo com propriedade.
Começando do começo
Durante o desenvolvimento embrionário, até por volta de 7 semanas, todo mundo é igual, não dá pra “saber o sexo” (anatômico) ainda. Conforme a presença e expressão de certos genes e hormônios, a maioria dos embriões vai ter o tecido da região genital diferenciado em feminino ou masculino. Uma outra parte apresentará alguma alteração nessa diferenciação pelos mais diversos motivos, e a medicina vai chamar isso de intersexo; nesses casos não dá pra dizer, só olhando externamente, se o sexo anatômico é masculino ou feminino. Isso tem uma série de implicações que não vai dar tempo de discutir aqui, quem sabe em outro post.
Mas o que nos importa para o assunto de hoje é: o que a sociedade e a medicina vai chamar de meninos e meninas na verdade têm órgãos correspondentes, derivados de um desenvolvimento divergente (porém análogo) de um tecido que era comum. Vocês já repararam que na parte de baixo do pênis tem um prega (chamada rafe), assim como no meio dos testículos? Pois é, porque aquilo era separado e se uniu, e uma marca é deixada “no meio do caminho”. A mesmíssima estrutura vai formar a bolsa escrotal no masculino e os grandes lábios no feminino; o corpo do pênis no masculino e os pequenos lábios no feminino; a glande do pênis no masculino e o clitóris no feminino.
Ou seja, não existe isso de que meninos têm pênis e meninas não.
Não somos barbies, quando olhamos para nossa genitália não vemos um pedaço liso de pele, uma grande ausência do precioso falo. Vemos os nossos órgãos genitais femininos, no caso das mulheres cissexuais, a vulva, que é a parte externa da genitália, composta pelos grandes e pequenos lábios, abertura da vagina e da uretra e o clitóris, que é coberto por uma pelinha (prepúcio). E ainda lá para dentro temos a vagina. Tudo formado pelo mesmo tecido, que se arranjou de formas diferentes no período embrionário. Ou seja, se é verdade que não temos pênis, é verdade também que os homens cissexuais não têm vulva ou vagina. Mas não estamos falando por aí em “inveja da vulva”, estamos? Isso porque essa frase de efeito, usada em tom de mais pura realidade objetiva que só as ciências biológicas conseguem dar, não é mais do que uma retrato da autoridade, de quem manda, de quem e do que deve ser invejado. Não tem nada a ver com anatomia, tem a ver com machismo.
anatomia2
Conhecimento é poder
Mas acontece que os meninos cissexuais acabam nascendo com a sua genitália balançando lá no meio das pernas, externalizada, que ele precisa lavar, tocar, mexer até pra fazer xixi. Nossa civilização coloca símbolos fálicos para todo lado e eles se sentem orgulhosos do que têm, usam como símbolo de poder. E, no nosso mundo, poder é demonstrado de forma agressiva. “Pega no meu pau!”, dizem os meninos cissexuais na escola (ou os adultos com mentalidade de pré-adolescentes), fazendo algum gesto obceno. Se alguém duvida de sua masculinidade, estão prontos para ameaçar abaixar as calças e mostrarem o que têm ali. As meninas cissexuais não fazem isso, não só porque seriam execradas, mas porque não faz sentido. Não têm o que mostrar ali, não têm do que se orgulhar, segundo essa lógica cultural. E além do mais, ninguém questiona a “feminilidade” delas como algo ofensivo, elas já são meninas, se disserem que elas têm culhões, isso é um elogio (e não necessariamente porque o masculino é valorizado, mas também porque o que é valorizado vira automaticamente masculino).
Então, no fim das contas, paras meninas não é tão simples. As coisas não são tão proeminentes e sempre ouvimos que é feio ou errado. Não é fácil enxergar tudo, demoramos para desenvolver intimidade, para explorar mais, parece que não deveríamos estar mexendo ali. E aí fica mais difícil descobrir onde está o prazer, experimentar de que jeito é gostoso.
Poxa, sou virgem, né? E se eu ficar mexendo não posso “perder” a virgindade?
Bom, o hímen é uma pele fininha que fica na entrada da vagina, é flexível e tem uma abertura no meio. É por ali que sai a menstruação e outras secreções vaginais. Também é por onde entra o dedo ou o absorvente interno. Em alguns casos, o orifício pode ser muito pequeno e causar algum desconforto ou dificuldade para introduzir algo pela entrada da vagina, mas geralmente ele se alarga com a prática. Em outros, ele pode ser totalmente fechado, e aí na época de menstruar o sangue não tem por onde sair e geralmente precisa fazer uma pequena cirurgia para abrir.
O hímen tem poucas terminações nervosas e pode ser rompido em algum ponto quase sem percebermos, ou causando um leve desconforto, e ele fica lá, para sempre; não desaparece quando transamos pela primeira vez. Repito, ele é um resquício embrionário, um pedaço de pele. Não é lacre de segurança, nem certificado de garantia. O rompimento do hímen é comum na maioria das mulheres e pode acontecer, por exemplo, durante a penetração (de um pênis, dos dedos seus ou d@ parceir@, de um brinquedo), na primeira, segunda ou milésima vez.
Virgindade é uma construção social e não uma instância anatômica, e “perdê-la” tem a mesma definição pra meninos e meninas: é a primeira vez que fazemos sexo (e aí acho que você pode considerar o que quiser, a virgindade é sua, e sexo é uma coisa muito, mas muito ampla). Não dizemos que os meninos deixam de ser virgens quando se masturbam, não é? Então como é que podemos perder a virgindade sozinhas???
Então vamos!
Toda a região da vulva é bastante sensível à estimulação sexual, assim como a parte mais externa da vagina (mais para o fundo ela fica menos sensível), o períneo (região entre a vagina e o ânus) e o ânus. Conhecendo as áreas do nosso corpo que podem nos proporcionar prazer e treinando elas para isso vai fazer tudo ficar muito melhor. Nós temos um circuito nervoso prontinho só para ter orgasmo.
No caso do pênis, o circuito do orgasmo é o mesmo da ejaculação, então é difícil gozar sem ejacular (tanto que frequentemente usam-se essas palavras como sinônimos). Num outro momento, podemos explicar como funciona para os homens e para algumas mulheres transexuais, mas o fato é que a nossa linda anatomia nos permite simplesmente ter prazer sem absolutamente nenhuma função reprodutiva direta nisso. E apesar do patriarcado tentar voltar isso contra nós, e algumas culturas condenarem o prazer feminino porque atribui como unica finalidade sexual a reprodução, nós achamos que isso é muito ultrapassado e também não queremos transar com essas pessoas. Queremos sexo com pessoas que nos deem orgasmos!
Mas então por que até 70% das mulheres não conseguem ter orgasmos?
OK, temos um circuito nervoso prontinho para nos dar orgasmos. E também temos circuitos de linguagem no cérebro iguais aos das pessoas da China, e não sabemos escrever ideogramas. Porque o nosso cérebro aprende o que a gente treina, e se a gente não treinar ter orgasmos, vai ser bem mais difícil. E a gente não treina porque não conhece o próprio corpo. Como eu disse, os meninos cissexuais conhecem, vão lá desde cedo, uma, duas, dez mil vezes, treinam frequentemente imaginando pessoas que os excitam e vendo revistas ou filmes que são vendidos a rodo para eles (mas quase não existem direcionados ao público feminino) e aí fica todo mundo falando: fato biológico, homens são mais visuais, se excitam rapidamente e chegam mais rapidamente ao orgasmo. Aham. Mulheres são mais “sensação”, gostam mais do toque, mas será coincidência que as únicas experiências que ela teve foram com @ parceir@? Uma olhada no espelho, masturbação de vez em quando, com um certo sentimento de vergonha, debaixo das cobertas?
O que é preciso para ter orgasmos é ter orgasmos
É preciso ensinar o seu circuito nervoso, que leva os estímulos ao cérebro, que dependendo da forma que você é estimulada, fica bom assim, você goza. Repetição, repetição, repetição = comportamento aprendido. Claro que diversos fatores emocionais podem atrapalhar, mas podem ajudar também. Descubra do que você gosta. Filmes, contos eróticos, fotos? Treine sozinha, nada é ridículo, é só você e seu corpo.
Tradução: Eu nem sabia que havia uma palavra para o resultado inevitável do movimento de me esfregar na minha cadeira… o espasmo implosivo tão atordoadamente completo e perfeito que por alguns breves momentos eu não poderia questionar sua inerente validade moral. – Do quadrinho Fun Home, de Alison Bechdel
E claro, falamos de algumas questões anatômicas importantes, mas não tocamos no ponto principal aqui. A parte mais sensível (com mais terminações nervosas) do corpo do homem cissexual é a glande (a cabeça) do pênis. E o que é que eu tinha falado que tem a mesma origem embrionária na genitália feminina?
Sim, o clitóris!
Fato, o clitóris tem a única função de proporcionar prazer, mais nada. Não protege lugar nenhum, não recebe o pênis para funções reprodutivas, nada. Só serve para isso, então dê a ele a devida atenção! O circuito nervoso do orgasmo sai do feixe nervoso do clitóris — ou seja, é ele que nos faz gozar. Claro que o orgasmo é cerebral e estímulo em outras áreas pode proporcionar prazer, mas por que não facilitar? Ele está lá para isso e tem duas vezes mais terminações nervosas que o pênis. Peraí, vou repetir: duas vezes! Lá, logo acima da uretra, uma bolinha menor que uma ervilha. Tem uma pele cobrindo, mas quando você estiver excitada ela aumenta de tamanho e fica bem mais fácil de achar.
O clitóris na verdade é um órgão maior e mais comprido, pois continua internamente e enche de sangue durante a excitação sexual. Alguns estudiosos acreditam que o estímulo dessa parte interna durante a penetração poderia corresponder ao tal ponto G — que, desculpe informar, não tem um local anatômico definido, mas divirta-se procurando! O clitóris pode ser estimulado durante uma relação sexual com a mão, com vibradores específicos ou anéis vibratórios penianos, pela fricção com a pelve d@ parceir@, com a língua, os dedos…
O vídeo “Clitóris, prazer proibido” é genial, e pode mudar a sua vida, então assista (é sério, assista).

Enfim, conheça o seu corpo, se goste, goze sozinha para depois ensinar a alguém como te fazer sentir isso. Isso vale tod@s. Sei que esse texto foi majoritariamente direcionado a mulheres cissexuais, mas independente da sua anatomia genital (e se ela é compatível ou não com o seu gênero), pense na questão da necessidade de treino para conseguir ter orgasmos. Claro que pode ser ainda mais difícil, mas lembre-se que mesmo que você vá passar por uma cirurgia de transgenerização, ou tomar hormônios, você vai usar a mesma estrutura nervosa e vascular para ter orgasmos. Se você não treinar antes desses procedimentos, depois pode ser mais difícil saber como deveria ser e mesmo avaliar o sucesso ou o que dá para melhorar.
*Érika Pellegrino é médica, está fazendo psiquiatria e acha o máximo ser paga pra ouvir inúmeras historias interessantes todos os dias.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Quem é mãe?


Sharon, Tomás e Clecy. Arquivo pessoal.
Texto de Sharon Caleffi com colaboração de Carolina Pombo.
Minha mãe é Clecy Teresinha Caleffi, trabalha em uma loja de autopeças, mora em Erechim, Rio Grande do Sul, tem três filhas e um neto. Eu sou mãe do Tomás Caleffi Brusamarello, 3 anos, aluno do CMEI Madre Paulina, que mora comigo em Pato Branco, Paraná.
A mãe da minha mãe é Helena Moro, agricultora, mora numa propriedade rural em Três Arroios, Rio Grande do Sul. Tem 9 filhos, 18 netos e um bisneto. A outra mãe da minha mãe era, na verdade, tia dela, se chamava Joana Pieniak, irmã de minha avó. Minha mãe foi morar com a tia Joana desde novinha, lá por um ano e pouco de idade. Quando chegou na idade escolar, ela voltou a morar com meus avós, porque a escola era mais perto da casa deles. Mas nas férias e finais de semana ela sempre voltava pra casa da tia Joana e do tio Francisco. Tia Joana faleceu antes de eu nascer, não a conheci, não a chamei de vó. Mas a relação entre ela e minha mãe tinha o afeto e a intensidade de uma relação de mãe e filha
Quando a gente está começando a aprender gramática, na escola, e nos apresentam os substantivos, eles podem ser concretos ou abstratos. A princípio, “concreto” é o que a gente pode tocar, cheirar, sentir. “Pedra”, “fogo”, “água”, “mãe”. E pra mim, mãe era uma coisa muito concreta mesmo, era a Clecy, que era a mãe mais bonita que eu conhecia, gostava de ler, trabalhava vendendo jóias, fazia uma delícia de estrogonofe e uma nega maluca maravilhosa e não gostava muito de bagunça. Principalmente nos armários. Minha mãe, concretíssima.
Mas pra minha mãe… “mãe” já não era um substantivo tão concreto assim… as relações que ela tinha com a minha avó e a tia Joana eram muito parecidas, difíceis de separar. A relação familiar deles, a princípio de sobrinha e tios, ganhou complexidade e longitude, se tornou completamente diferente. Eles não eram só os cuidadores, só os responsáveis pela alimentação e higiene da sobrinha. Eram uma família. O tio Francisco era tão pai da minha mãe quanto o meu avô, Feliciano.
E então, os pais. Meu pai é Rubem Antonio Caleffi, tem uma confeitaria, mora em Boa Vista, Roraima. Tem três filhas e um neto. O pai do meu filho é o Rodrigo Palhano Brusamarello, mecânico de automóveis, mora comigo e com meu filho. Tem alguma língua em que pai e mãe não sejam termos separados? O português é uma língua complicada, eu tenho inveja do inglês onde a gente pode usar “parents” para nos referirmos a pai e mãe como iguais que são. Pai e mãe é tudo igual, em algumas famílias, e, cada dia mais, são papéis bem parecidos, nas responsabilidades, nos direitos, nas tarefas.
O que existe nessa relação entre duas pessoas que os torna mãe e filho? O cuidado? O tempo? O que é mãe? O que é filho? São coisas concretas, como a gente aprende na terceira série?
Acho que não, acho que mãe é substantivo abstrato. Porque mãe não é um substantivo para uma pessoa, é um marcador de relação (isso sim, um termo muito abstrato) que se tem com ela. A única condição que, talvez, delimite com certeza o termo é “ser reconhecida como mãe por um filho”, ou seja, que alguém se reconheça filho dessa mãe. É possível ser mãe, por exemplo, dos filhos de outros relacionamentos do companheiro ou da companheira, mesmo que estes não a reconheçam como mãe? É possível existir mãe em outros tipos de relações, não familiares? Uma babá pode ser mãe da criança que cuida? Quem vai dizer que sim? Que não? Alguém de fora dessa relação pode dizer isso? Eu posso dar a alguém o nome “mãe”? Eu posso retirar esse nome de alguém?
E pai, é assim também? É, pai também é abstrato.
A gente só pode resumir dizendo que quem é mãe sabe que é. E que quem é filho sabe quem é, ou quem são, suas mães. Definir mãe, sem deixar nada de fora, é bem mais difícil…
Sharon Caleffi é mãe do Tomás e escreve no blog Quitandinha.
O FemMaterna é um grupo de discussão sobre maternidade com uma proposta feminista. Se quiser participar, basta pedir solicitação na página do grupo. Participe também no facebook.


FemMaterna

Somos mães e feministas, buscando educar noss@s filh@s de maneira libertária. Buscamos construir com eles um mundo que acolha a diversidade e que questione desigualdades, preconceitos e estereótipos.

Fonte: Reproduzido do Blog Blogueiras Feminista

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Brasil precisa barrar o fundamentalismo religioso antes que seja tarde demais.


A intolerância, fundada em uma falsa religiosidade (ou verdadeira, não vem ao caso), já propiciou à humanidade inúmeras tragédias que perduraram séculos. O Brasil parecia ser um país distante dessas intolerâncias, presente em grupos específicos de países controlados por ordens fundamentalistas-religiosas radicais.

O liberalismo e o iluminismo foram estruturas de pensamentos importantes porque combateram tanto a monarquia e as oligarquias, como doutrinas intolerantes, apesar da ascensão do nazismo no início do século passado.

Foram.

O tempo passa e do liberalismo surgiu o fundamentalismo do dinheiro, ou seja, o neoliberalismo, que destrói toda e qualquer relação social em nome do enriquecimento monetário, estabelece um Deus chamado mercado, sem regulação do Estado e com a ideologia da prosperidade a todo custo. Europa e Estados Unidos, nas últimas décadas, sustentam um novo fundamentalismo, baseado na economia.

É nesse contexto que avançam as doutrinas religiosas da prosperidade, os neopentencostais e suas doutrinas fundamentalistas, que servem para legitimar um certo rigor formador da identidade não histórica. Com total liberdade econômica e isenção de impostos, esses movimentos crescem no Brasil e buscam poder político e econômico. Governo e sociedade, sem controle algum sobre o fluxo financeiro desses grupos, assiste impassível a essa ascensão.

A eleição do pastor Feliciano na Comissão de Direitos Humanos parece ser algo isolado, mas talvez não seja. Assim como no Golpe de 64, que faz aniversário hoje, você sabe como começa, mas não sabe como termina. Somente um estado laico garante liberdade religiosa para todas as religiões. Sociedade, artistas, religiosos, intelectuais e instituições civis devem reagir antes que seja tarde demais. A história se repete como farsa, mas talvez seja tragédia.