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quarta-feira, 2 de julho de 2014

As origens elitistas e racistas do futebol, por Mário Rodrigues (irmão do Nelson)

Carlos Alberto, o “pó-de-arroz”
Umas das razões pelas quais não concordo com o epíteto de “reacionário” que a direitosa adotou como verdade absoluta para se referir a Nelson Rodrigues (1912-1980), sem nunca tê-lo lido, é seu pioneirismo na denúncia ao racismo velado brasileiro. Amigo de Abdias do Nascimento (1914-2011), autor de Anjo Negro, uma tragédia sobre o racismo, Nelson questionava o mito da “democracia racial” e se indignava com o preconceito contra os negros em nosso País. “Nos Estados Unidos o negro é caçado a pauladas e incendiado com gasolina. Mas no Brasil é pior: ele é humilhado até as últimas consequências”, dizia. Vamos combinar que não tem absolutamente nada a ver com gente que defende que “não existe racismo no Brasil”.
 
O irmão de Nelson, Mário Rodrigues Filho (1908-1966), considerado um dos maiores jornalistas esportivos de todos os tempos (o Maracanã leva seu nome), também denunciou o racismo em um grande clássico, O Negro no Futebol Brasileiro. No livro, reeditado pela Mauad há dois anos, Mário Filho conta como, de esporte de ricos descendente de ingleses, o futebol se transformou na diversão de meninos pretos e pobres que se tornariam os grandes craques da bola até hoje. Malvistos pela torcida grã-fina, muitos atletas negros tentavam inclusive disfarçar a origem, alisando os cabelos e apelando à maquiagem para clarear a pele. Em 1921, o presidente Epitácio Pessoa “recomendou” que a seleção não convocasse negros, e até 1952 havia times no Brasil que não aceitavam “pessoas de cor”.
 
Mesmo na Inglaterra, onde surgiu, o futebol era jogado nas escolas frequentadas pela aristocracia. Suas regras foram feitas nestes colégios e só daí passaram a ser aplicadas no esporte que já se praticava nas ruas, pela classe operária. Rapidamente a burguesia agiria para transformá-lo em “ópio do povo”. Segundo Roberto Ramos em Futebol: Ideologia do Poder, “os burgueses descobriram o futebol como meio de despolitização dos trabalhadores na década de 1860. As massas do proletariado industrial começaram a interessar-se por este esporte. Os empresários ingleses aproveitaram a oportunidade. Fomentaram o seu desenvolvimento. O objetivo era claro. Eles precisavam manter os operários à margem da atividade política dentro de suas organizações de classe”.
 
Ou seja, a elite branca que ocupa os estádios brasileiros nesta Copa do Mundo era de fato a “dona da bola” no começo, tanto aqui como na terra natal do futebol. Charles Miller (nome da praça onde fica o Pacaembu), o filho de ingleses que teria trazido a primeira bola de futebol para o Brasil em 1894, apresentou o esporte à elite paulista. Os clubes de ingleses do Rio de Janeiro disputam com Miller a primazia: em 1874, 20 anos antes de Miller ter chegado com a tal bola, já haveria jogos de futebol na orla carioca. No princípio, existia uma separação oficial entre os times dos ricos e os dos pobres, mas do nome do jogo às posições dos atletas em campo, todos os termos eram em inglês. Mário Filho conta tudo.
 
Este DNA racista e elitista do futebol, a meu ver, pode explicar o porquê de tantos jogadores negros ainda serem alvo de preconceito. No esporte “bretão”, “branco”, os negros eram bem-vindos para jogar bola, mas não para frequentar as dependências e festas dos clubes que os contratavam, como ocorria com qualquer empregado. Não me parece muito diferente do que acontece atualmente: enquanto o jogador negro, regiamente pago, faz gols, é bem tratado e festejado. Basta cometer algum erro, porém, que a cor de sua pele vem à tona, como nos episódios recentes em que atletas foram insultados, chamados de “macacos”, e bananas foram atiradas no campo.
 
Vale a pena ler o livro de Mário Filho. Outra editora de São Paulo, a Ex Machina, lançou neste ano da Copa As Coisas Incríveis do Futebol: as Melhores Crônicas de Mário Filho. Imperdível para quem gosta de futebol ou não. Leia abaixo os trechos de O Negro no Futebol Brasileiro que compilei sobre os primórdios do esporte.
 
O mulato Arthur Friedenreich
O Negro no Futebol Brasileiro

Por Mário Rodrigues Filho
 
O futebol importado, made in England, tinha de ser traduzido. E enquanto não se traduzisse e se abrasileirasse, quem gostasse dele precisava familiarizar-se com os nomes ingleses. De jogadores, de tudo. Em campo um jogador que se prezasse tinha de falar em inglês. Ou melhor: gritar em inglês.
 
O repertório do capitão do time, justamente quem gritava mais em campo, precisava ser vasto. Quando um jogador do seu time estava com a bola e outro corria para tomá-la, tinha de avisar: ‘man on you’. Quando o outro time atacava e ele precisava chamar seus jogadores lá na frente, a senha era: ‘come back forwards’. E havia ‘take you man’ e havia mais. Onze posições de jogadores num time: goalkeeper, fullback-right, fullback-left, halfbeck-right, center-half, halfback-left, winger-right, inside-right, center-forward, inside-left e winger-left.
 
O juiz era o referee, transformado em referi ou refe, o bandeirinha era o linesman, e por aí afora.
 
***
 
Para alguém entrar no Fluminense tinha de ser, sem sombra de dúvida, de boa família. Se não, ficava de fora, feito os moleques do Retiro da Guanabara, célebre reduto de malandros e desordeiros.
 
Os moleques debruçavam-se na cerca de arame para ver os treinos, se a bola ia fora podiam correr atrás dela, dar um chute. Mas nada de demora. Se demorassem não levariam as malas dos jogadores, acabado o treino, até o bonde que passava na Rua das Laranjeiras.
 
(…)Não se tratava de só querer branco legítimo. Ninguém no Fluminense pensava em termos de cor, de raça. Se Joaquim Prado, winger-left do Paulistano, quer dizer, extrema-esquerda, preto, do ramo preto da família Prado, se transferisse para o Rio, seria recebido de braços abertos no Fluminense. Joaquim Prado era preto, mas era de família ilustre, rico, vivia nas melhores rodas.
 
(…)Por isso, quem ia a São Paulo jogar um match de futebol, voltava encantado com Joaquim Prado, sem reparar até, que ele era preto.
 
***
 
O que distinguia o Bangu do Botafogo, do Fluminense, era o operário. O Bangu, clube de fábrica, botava operários no time em pé de igualdade com os mestres ingleses. O Botafogo e o Fluminense, não, nem brincando, só gente fina. Foi a primeira distinção que se fez, entre clube grande e pequeno, um, o clube dos grandes, o outro, o clube dos pequenos.
 
***
 
(…)Os pretinhos, filhos da cozinheira, sabiam fazer bolas de meia, redondinhas, que saltavam.
 
Boas bolas, aquelas de meia, feitas pelos moleques. Podia se fazer com elas o que se quisesse. Até quebrar vridraças. Melhor do que as bolas de pelica dos meninos de boas famílias, muito leves, como balões de papel de seda, subindo com qualquer chutinho. As bolas de meia ficavam mais no chão. Quase presas ao pé, aperfeiçoando, nos moleques, o que se chamaria mais tarde, o domínio da bola. Da ‘esfera de couro’ de certos cronistas que não queriam escrever, em letras de forma, essa palavra tão corriqueira: bola.
 
Isso fazia quem era do remo, olhar mais por cima quem era do futebol. O futebol se vulgarizava, se alastrava como uma praga. Qualquer moleque, qualquer preto podia jogar futebol. No meio das ruas, nos terrenos baldios, onde se atirava lixo, nos capinzais. Basgtava arranjar uma bola de meia, de borracha, de couro. E fabricar um gol, com duas maletas de colégio, dois paletós bem dobrados, dois paralelepípedos, dois pedaços de pau.
 
Em todo canto um time, um clube. Time de garotos, de moleques, clubes de operários, de gente fina. Mas muito clube, clube demais.
No remo não havia esse perigo.
 
***
 
Valia a pena ser Fluminense, Botafogo, Flamengo, clube de brancos. Se aparecia um mulato, num deles, mesmo disfarçado, o branco pobre, o mulato, o preto da geral, eram os primeiros a reparar.
 
O caso de Carlos Alberto, do Fluminense. Tinha vindo do América, com os Mendonças, Marcos e Luís. Enquanto esteve no América, jogando no segundo time, quase ninguém reparou que ele era mulato. Também Carlos Alberto, no América, não quis passar por branco. No Fluminense foi para o primeiro time, ficou logo em exposição. Tinha de entrar em campo, correr para o lugar mais cheio de moças da arquibancada, parar um instante, levantar o braço, abrir a boca num hip, hip, hurrah.
 
Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz.
 
Quando o Fluminense ia jogar com o América, a torcida de Campos Sales caía em cima de Carlos Alberto:
 
– Pó de arroz! Pó de arroz!
 
A torcida do Fluminense procurava esquecer de que Carlos Alberto era mulato. Um bom rapaz, muito fino.
 
***
 
Friedenreich, de olhos verdes, um leve tom de azeitona no rosto moreno, podia passar se não fosse o cabelo. O cabelo farto mas duro, rebelde. Friedenreich levava, pelo menos, meia hora, amansando o cabelo.
 
Primeiro untava o cabelo de brilhantina. Depois, com o pente, puxava o cabelo para trás. O cabelo não cedendo ao pente, não se deitando na cabeça, querendo se levantar. Friedenreich tinha de puxar o pente com força, para trás, com a mão livre segurar o cabelo. Senão ele não ficava colado na cabeça, como uma carapuça.
 
O pente, a mão não bastavam. Era preciso amarrar a cabeça com uma toalha, fazer da toalha um turbante e enterrá-lo na cabeça. E ficar esperando que o cabelo assentasse.
 
Levava tempo. Embora principiasse quando estava jogando o segundo time, só terminava quase na hora da saída do jogo do primeiro time. O juiz impaciente, ameaçando começar a partida sem Friedenreich, e Friedenreich lá dentro, no vestiário, a toalha amarrada na cabeça, esperando, ainda desconfiado de que não chegara a hora de tirar o turbante.
 
***
 
O Fluminense, cansado de perder campeonatos, tornou-se um pioneiro de profissionalismo. Com o profissionalismo, ele lutaria em igualdade de condições com os outros clubes. (…)E poderia formar um grande time, capaz de levantar campeonatos, indo buscar jogadores nos clubes pequenos, nos subúrbios, nos Estados, fosse onde fosse, brancos, mulatos e pretos.
 
Porque com o profissionalismo não fazia mal o Fluminense botar um mulato, um preto no time, contanto que fosse um grande jogador. Melhor branco. Mulato ou preto, só grande jogador.
 
(…)O preto jogava, ajudava o Fluminense a vencer, acabado o jogo, mudava de roupa, ia embora. Não havia perigo do preto frequentar a sede, aparecer numa soirée, num baile de gala do Fluminense. O jogador profissional, branco, mulato ou preto, era um empregado do clube. O clube pagava, toma lá, dá cá. O jogador ficava no seu lugar, mais no seu lugar do que nunca.
 
Naturalmente, entre o preto e o branco, o Fluminense tinha de preferir o branco. Se fosse possível um time só de brancos, melhor. E talvez fosse possível. Não faltava bom jogador branco. Se não fosse possível um time só de branco, botava-se um preto, dois, nada de abusar.
 
***
 
As vaias, o torcedor do Fluminense aguentava. Para isso tinha seu clássico ‘uh! uh!’. Não aguentava era o ‘pó-de-arroz’. Um grito de ‘pó-de-arroz’ partia de lá, um grito de ‘pó-de-carvão’ partia de cá. O torcedor do Fluminense dizendo que preferia ser ‘pó-de-arroz’ a ser ‘pó-de-carvão’. Podia preferir, mas se ofendia com aquele ‘pó-de-arroz’.
 
O torcedor do Flamengo, não, nem se importava com o ‘pó-de-carvão’. Orgulhava-se dos pretos que vestiam a camisa rubro-negra. Até mesmo dos que tinham sido escorraçados dos outros clubes, como Leônidas.
 
Ninguém queria Leônidas, o Flamengo queria.
 
Reproduzido do Blog Socialista Morena

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

"Não adianta lutar pela humanização dos animais quando se aceita a existência de humanos de segunda categoria"


Tempos atrás, escrevi neste site a história, real, de um cão que resolveu colocar o focinho em uma vasilha de plástico, ficou preso e saiu em disparada com o latido sufocado no recipiente (Leia clicando AQUI). De onde estava, vi metade da cidade se mobilizar para salvar o pobre que, no desespero, cruzava as ruas sem a menor prudência. Dava dó. O garapeiro, o guarda de trânsito, os motoristas e os casais de namorados: não houve quem, diante da cena, não se mobilizasse para arregaçar as mangas e salvar o animal. Foi daquelas provas de que a humanidade ainda tinha jeito: não perdeu a sua capacidade de sentir nem de transferir a sua humanidade a quem passa por apuros. É o que se chama de alteridade, ainda que o outro tenha rabos e patas.
Foi o que pareceu, também à primeira vista, o resgate na última semana dos cães da raça Beagle em um laboratório de testes em São Roque, no interior de São Paulo. Segundo as primeiras notícias, os cães estavam assustados e alguns, machucados. Em um país que só agora parece pegar gosto em se mobilizar para exigir direitos de naturezas múltiplas – da redução da passagem de ônibus ao fim da corrupção, da gripe e da maldade em todos os corações – o direito dos bichos virava uma pauta – digníssima, note-se. Ao que parece, é cada vez maior o número de pessoas indispostas a aceitar maus-tratos em animais. Um grande avanço para quem, até pouco tempo atrás, aprendia a cantar na escola um hino ao aniquilamento felino. Hoje, quem ousou um dia atirar o pau no gato não se elege nem para síndico do prédio – o vereador mais bem votado da maior cidade do País, por sua vez, tem o desenho de um cão, e não a sua foto, como bandeira de campanha.
A consolidação das leis de proteção de animais e a construção de hospitais públicos veterinários são símbolos dessa transformação. (Dia desses, um vizinho bateu à porta da casa de minha mãe com uma ameaça: se o nosso gato voltasse a arranhar a lataria do seu carrão, o gato apareceria envenenado e morto em casa. Diante da gentileza, ela foi até uma delegacia da Polícia Civil e registrou o boletim de ocorrência. Saiu de lá com a garantia de que se o gato tivesse uma simples gripe a partir dali, o sujeito seria intimado, acusado, eventualmente processado e eventualmente preso por maus tratos. Sem direito a fiança. Ao menos na lei, o direito à humanização dos bichos prevalece sobre a humanização dos automóveis. E é bom que seja assim).
O episódio do resgate dos Beagles, no entanto, diz mais sobre o nosso encarceramento do que o dos bichos. Diz muito também sobre a alienação cultural em relação ao que nós mesmos consumimos e alimentamos. É mais ou menos como se, aos 30 ou 40 anos, alguém se chocasse ao descobrir como é que as crianças vieram parar no mundo. No caso, não as crianças, mas as vacinas, os medicamentos, os tratamentos, os testes. O que não deixa de ser curioso: nosso primeiro contato com as galinhas é uma caixa de isopor com doze ovos que não foram gerados espontaneamente em uma gôndola de supermercado. Tampouco o churrasco do fim de semana. O que os olhos não veem, dirão os despreocupados, o coração não sente, e não precisamos assistir ao aniquilamento de bois e vacas nos pastos e frigoríficos para saber como surge o almoço, nosso e dos pets a quem oferecemos abrigo, proteção e alimento. Nesse sentido, a visualização da dor, simbolizada pelos Beagles – como não querer levar para casa? – parece ter produzido uma revolta tardia. Como escreveu um amigo: como vocês achavam que eram feitos os testes de medicamentos? Com jacas?
A resposta pode ser bem melhor do que as que vêm sendo formuladas após o episódio. Por exemplo: transparência, monitoramento, redução do uso de animais e métodos para evitar a dor desnecessária são mais do que recomendáveis. Inclusive para a produção de alimentos. Hoje, a imagem das empresas está diretamente associada à sua responsabilidade em relação ao meio – e, consequentemente, à sua capacidade de evitar desperdícios, o uso de trabalho infantil ou escravo e a ação agressiva ao ecossistema. O uso de animais em laboratórios passará pelo mesmo processo: quanto menos cruel o processo, mais chances de a pesquisa ser socialmente aceita. É o que vai separar os tempos futuros, de testes com células-tronco e outras inovações, com os tempos ancestrais, de sacrifícios, imolações e desprezo à vida, qualquer forma de vida.
A se notar as manifestações sobre o episódio, no entanto, ainda estamos longe desse salto civilizatório. Não que adorar animais seja sinônimo de desprezo a pessoas. Mas o precedente é, no mínimo, curioso. Em conversas, posts e artigos de jornais, o que se vê é a confirmação de um movimento, já citado aqui outras vezes, contraditório: a humanização dos animais e animalização do ser humano. Na crônica citada, recorri a uma sociologia de boteco para rabiscar uma explicação ao fenômeno: à medida que as cidades crescem, passamos a conviver cada vez mais em ambientes insalubres; esbarramos no trabalho, nas escolas, nas casas de vizinhos e outras instituições fechadas com todo tipo de competição, ganância, trapaça, preconceito e intolerância. Nesse ambiente, nos animalizamos e a ideia de lealdade se transforma em valor absoluto – e raro pelo contraste. Nessa, os cães ganham uma aura sagrada, mais ou menos como uma divindade indiana: são leais, amorosos, gostam da gente quase gratuitamente e não pulam o muro de casa para nos trair com o dono do cão vizinho. Os homens, nessa visão, são abjetos, pouco confiáveis. Elimináveis, portanto.
Nos jornais, como a candidatar-se ao Prêmio Relincha Brasil 2013 – expressão de outro amigo – houve quem escrevesse que, em vez de Beagles, a ciência usasse humanos em seus testes. Por exemplo, presidiários. Eles poderiam, chegou a sugerir a colunista, aceitar atuar como cobaias em troca da redução das penas. Não poderia ser mais clara: não aceitamos menos do que a humanização dos animais, mas não nos importamos com o estabelecimento de humanos de segunda categoria. Os Beagles estariam, assim, em uma categoria intermediária entre os brancos livres detentores de direito e os negros, pobres e mulatos, os únicos que afinal cumprem pena, sem serem dignos de pena, no Brasil - ainda que mofem em detenções insalubres sem o direito sequer de serem julgados. Franz Kafka, que no livro A Metamorfose transformou o personagem Gregor Samsa em um enorme inseto – seu alter ego desprezado por sua tuberculose, segundo a interpretação mais plausível – não iria tão longe. Séria ou não, a proposta, de apelo popular indiscutível, lançou as bases de uma nova categoria de indignação: a humanização seletiva. Os ratos deixados para trás na operação resgate em São Roque não poderiam se sentir menos prestigiados.

terça-feira, 16 de julho de 2013

De galinhas e medicina - Janio de Freitas: O médico vem primeiro!


É sempre um alívio saber que, mesmo na grande mídia, ainda existe um resquício de bom senso. Nessa polêmica em torno das medidas do governo para promover melhoras no sistema público de saúde, tem sido muito chocante ver a reação corporativa e egoísta da classe médica, sempre contrária aos esforços do governo para levar mais profissionais ao interior.
Janio parte de uma premissa lógica. Em primeiro lugar, vêm os médicos. Não adianta nada o governo comprar equipamentos e aparelhar os hospitais sem profissionais para operá-los. E a presença de médicos sempre ajudará a sanar problemas estruturais, porque é o médico quem vai denunciá-los adequadamente às autoridades superiores. As estatísticas mostram que o Brasil tem pouco médico por habitante. Mais ainda: os médicos não querem trabalhar no serviço público, sobretudo nas regiões mais necessitadas.
O programa Mais Médicos, do governo federal, cujas inscrições já estão abertas, oferece salário de R$ 10 mil, mais uma “ajuda de custo” para o transporte de até R$ 30 mil.
Leia o artigo de Jânio:
Janio de Freitas: De galinhas e medicina
O que deve ir primeiro para o interior do País: o tão invocado equipamento básico ou o médico?
Janio de Freitas*, na Folha
O ovo ou a galinha.
O ovo já é colega íntimo dos médicos em serviços à vida, no seu papel de receptáculo de contaminações nele injetadas para a produção de vacinas. A galinha tem séculos de contribuição aos pacientes, sob a forma daquela santa canja que reanima muito doente, para maior prestígio da medicina. É natural que se juntem para mais um esforço de contribuição ao mais importante dos saberes humanos.
Faz sentido a ponderação dos contrários à contratação de médicos estrangeiros para o interior, por falta, lá, até dos mais simples recursos para atendimento (a ponderação das associações médicas exala odores de motivação real muito diferente). É diante desse argumento que o ovo e a galinha comparecem com a velha indagação de qual deles veio primeiro. Muito sugestiva no caso atual.
O que deve ir primeiro para o interior, o tão invocado equipamento básico ou o médico? Se for o equipamento, além de ficar inútil, não tem, por si só, poder de atrair quem lhe dê uso proveitoso. Jornais e tevê têm noticiado casos exemplares de municípios com instalações à espera de médicos, mesmo com remuneração melhor que a ofertada nas capitais.
O médico que é médico quase sempre tem alguma coisa a fazer para atenuar o sofrimento mesmo sem a instrumentação e o remédio adequados. Vemos isso, com frequência, nos acidentes. Eu mesmo já ansiei, na beira de uma estrada, por um médico que parasse ao menos para me dizer como estancar a hemorragia perigosa.
Se primeiro a chegar, o médico, além do efeito de sua simples chegada, e das imediatas orientações sanitárias que pode proporcionar, tem meios de requerer, reclamar, denunciar e acusar publicamente as responsabilidades pelo descaso com os recursos de que precisa. E pode romper, até com apoio judicial, o contrato não cumprido pelo contratante.
O que não faz sentido é estabelecer a priori que no interior não haverá sequer os recursos minimamente necessários. Isto é sacar sobre o futuro. Especialidade de economistas e jornalistas, não de médicos. Por que não experimentar com mil ou 2 mil médicos? Se a experiência com metade deles der certo, ou que seja um terço, um quarto, já se terá aprendido muito, mas, sobretudo, quanto alívio terá sido dado, quantas crianças terão deixado de sofrer, se não de morrer?
E, se a carência impeditiva está no interior, os grandes centros urbanos estão equipados para o atendimento à população, mínimo embora? Há três dias noticiava-se que o Hospital do Andaraí, pronto-socorro e referência em queimados no Rio, estava com as cirurgias suspensas por falta até do material mais simplório, como cateter. A desgraçada periferia de São Paulo inclui serviços médicos com o equipamento necessário? As cenas recentes em tevê não foram tomadas no Projac.
Essa discussão não é sobre médicos, hospitais, postos de saúde, equipamentos. É sobre doença, sofrimento, partos, mortes, crianças.


*Janio de Freitas: Um dos mais influentes jornalistas do País, já exerceu cargos importantes em grandes jornais e revistas e, atualmente, é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo
Fonte: Reproduzido do Blog Tijolaço

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sem partido! Sem partido!

Todos concordamos, não é? O brasileiro é um povo ordeiro e bom, representado por políticos desonestos e maus. Ontem mesmo vi um sujeito atirar uma bola de papel pela janela do carro, sujando a rua, e pensei: lá vai um maldito deputado! Aqueles seis bandidos que invadiram a casa de uma família boliviana, em São Paulo, e mataram um menino de cinco anos de idade porque ele chorou. Só podem ser deputados. Pela natureza do crime, talvez sejam senadores. Os sujeitos que andam queimando viaturas da polícia. Não duvido que sejam vereadores, sabe como são esses vereadores.
As pessoas que se aproveitam das manifestações para quebrar, saquear e assaltar, essas pessoas, evidentemente, são presidentes de partidos. No Rio, vi uma senhora de joelhos na calçada em frente a sua loja. Implorava, de mãos postas, para que os manifestantes mascarados não roubassem seu estabelecimento. Eles riram dela e a roubaram. Também deviam ser presidentes de partido. Ou, quem sabe, alguns desses suplentes escorregadios.
Os furadores de fila, os sequestradores que atacam sob os semáforos, os golpistas que ligam para o seu celular, os inoculadores de vírus na internet, os adulteradores do leite das criancinhas, os homens que batem nas mulheres, as mães que deixam os filhos abandonados pelas ruas, os flanelinhas que riscam os carros, os leitores grosseiros, os jornalistas venais, todos os que, todos os dias, iludem, burlam e enganam, todos são, nós sabemos, malditos parlamentares.
Se não fossem esses políticos, que país maravilhoso seria o Brasil. Temos mesmo que implodir a democracia representativa e gritar, como ouvi a massa gritando nas manifestações:
– Sem partido! Sem partido!
A massa é um monstro sem cabeça, já dizia Charles Chaplin, adaptando Marx. Curiosamente, era disso que as massas se orgulhavam nas manifestações: de não haver cabeça; havia só corpo.
– Sem partido! Sem partido! — gritavam, e queriam dizer: vocês, que nós mesmos escolhemos para nos representar, não nos representam.
Por que não representariam? Porque, afinal, somos um povo ordeiro e bom representado por políticos desonestos e maus. Agora, se não for nada disso, se a democracia representativa funcionar, como funciona em todo o mundo, e o Congresso for apenas um espelho do que é o povo, meu Deus, não quero pensar nisso. Porque não vai adiantar quebrar o espelho.
Fonte: Reproduzido do Blog do David Coimbra

sábado, 15 de junho de 2013

"Odeio o PT e Estou Começando a te Odiar Também"

Hoje no nosso país, o governo Dilma passa por uma situação inusitada, várias pessoas de todas as classes, principalmente a “nova classe média” estão usando as mídias sociais, para se manifestar com ofensas, agressões verbais, charges e montagem de fotos medíocres, matérias mentirosas e falsas, tudo na intenção de desmoralizar o governo do PT em várias regiões e desmoralizações contra o Lula.

E não fica por ai não. Até militantes de partidos de esquerda e personalidades políticas da nossa nação sofrem com essas ofensas desses infantiloides de primeira hora, cheios de ódios.

Acontece que essas pessoas, na sua maioria mudaram de vida para melhor durante o governo petista e agora passam por problemas mentais, se esquecem da história do Brasil, principalmente de 64 para cá, e hostilizam os que já arriscaram e se arriscam suas vidas para melhora desse país. É um absurdo!

Pois bem, bisbilhotando a blogosfera, me deparei com uma postagem bastante interessante do nosso camarada mineiro Bemvindo Sequeira no seuBlog do Bemvindo. Nela o artista revela um comentário de um seguidor, informando que odiava o PT e já começava a odiá-lo também, veja só. Gostei e reproduzir para os amig@s lerem também, vai servir para os infantiloides que me criticam e me ofendem. Vejam a resposta inteligente do nobre blogueiro. Obrigado Bemvindo! 

"Bom dia querido Bemvindo, sou teu fã a décadas porém de tempos pra cá estou gostando menos de ti, não pelo seu trabalho na TV e sim pelo seu envolvimento politico nas redes sociais. Eu odeio o PT e estou começando a te odiar também, espero que você mude um pouco suas atitudes. Abraços"


Recebi este comentário de um leitor no meu blog Portal R7. Para evitar exposição que possa a vir ser constrangedora não cito o nome do leitor. Mas é um bom gancho para uma boa conversa. 

"Estimado, talvez você não conheça  a minha história: ganhei consciencia política aos 16 anos. Entrei então para o Partido Comunista em 1963. Aos 17 anos estava combatendo a Ditadura Militar pelo estupro da Constituição democrática que as Forças Armadas juraram defender. Aos 22 estava na luta armada contra o Regime de exceção.


Aos 25, derrotados que fomos  na luta armada retornei ao Partido Comunista de onde saí muito depois, quando dirigente Municipal e Estadual do Rio de Janeiro vi o PPS (sucedâneo do PC) transformar-se em valhacouto de oportunistas e perdedores.


Durante a Ditadura fui preso 5 vezes.


Este ano completo 50 anos de luta política, sempre ao lado do que - por lembrança oportuna - João XXIII chamava de "O Povo de Deus": os excluídos, os perseguidos.


Por esta luta sacrifiquei minha carreira no show business, ao tempo que tenho orgulho por ser um dos que ajudaram a fazer a Lei que regulamentou a nossa profissão e por ter o registro profissional nº 01, das Fls. 01 do Livro 01 da DRT. Gosto de perceber que sou muito querido e respeitado pela minha categoria; de saber que os jovens atores muito me honram todos os dias pelos ensinamentos que lhes trago.


Então estimado, fica difícil neste momento, aos 65 anos, deixar toda esta história de vida para corresponder á sua expectativa. Talvez,  segundo os espíritas, quem sabe...numa outra encarnação...


Além do mais nenhum de nós nasceu para corresponder á expectativa do outro. Somos diversos e devemos viver respeitando a diversidade.


Também não creio que artistas que não se metem em política não tenham posição política. Tem sim. Ao ficarem quietinhos estão na verdade defendendo seus interesses , e quando não estiver bom para eles estarão na linha de frente das batalhas políticas também. 



Por enquanto, a maioria  fica em cima do muro, só que como diz um sábio, o muro já tem dono.


Mas peço-lhe : não odeie. Embora o ódio seja o amor não amamentado, não odeie.


Busco amar. E quando não consigo , busco perdoar, mais por compreensão que por bondade.

Relembro que perdoar não é desculpar. Desculpar é isentar de culpa quem merece ser punido. Como aqueles servidores públicos  que torturaram e mataram  durante a Ditadura  e que  pela Lei dos homens ainda não foram punidos.

E toda a política que faço procuro fazer sempre com muita Alegria, pois esta é Dom benfazejo.


O ódio é compreensível expressão infantil, mas  que nas mãos de adultos gera a Morte.

Hitler odiou os judeus; por ódio Ghandi foi morto a tiros; o mesmo se deu com John Lennon;o Oriente Médio explode em ódios e mortes;por ódio a Al Qaeda mata civis inocentes; o ódio religioso nega a Deus; o ódio assassina homossexuais; não odeie , faça uma revisão e veja se consegue afastar este sentimento de seu coração.

Não se deixe levar pela paixão que cega; não deixe seu coração mandar na sua cabeça. Use da razão, busque o amor na sua mente, pois o coração é enganoso tanto para amar quanto para odiar.



Agradeço muito o quanto me admira, e gosta de mim para chegar ao ponto  de começar a  odiar-me. Agradeço a leitura que faz do meu blog e a atenção que me dispensa ao enviar seu comentário.


Um grande abraço de quem por ser diferente de ti reafirma que em cada família cada irmão é diferente do outro, sem deixar de serem irmãos. E apesar disto, por ódio, Caim matou o irmão Abel"



  
Sobre o autor: Ator, comunista, luta pela melhoria da condição do povo brasileiro. Blog Bemvindo


domingo, 26 de maio de 2013

Veja de novo: Vendendo "gato por lebre"

Cuidado com a sua compra em 2014
Antes peço desculpas  aos defensores dos animais, sei que hoje o gato evoluiu quanto à relação com humanos. Porém, usando o dito popular, onde as pessoas que julgam estarem de posse de um determinado produto, que na verdade era outro ou falso.

Você deve ter passado ou conhece alguém que passou pela experiência de ter comprado “gato por lebre”.

Podemos citar algumas experiências que trazem ou trouxeram consequência graves, como consultar com um médico que não tem diploma, falsos dentista e professores, estudar em uma escola que não era autorizada pelo MEC e aí vai. Até na religião, para se ter uma ideia, um pastor se não receber uma legítima autorização para pregar, não passa de um mentiroso, piorando e muito a situação dos seus seguidores.

Na política não é estranho acontecer esses tipos de experiências, quanto mais após eleger um candidato a um cargo eletivo. Depois com o mandato na mão, aparecem várias pessoas reclamando que não era aquilo que eu pensava, ou seja, comprou “gato por lebre”

Seminário direcionado
Pois bem amig@s, vamos agora ao nosso Maranhão sofrido, citar alguns exemplos, dentro da conjuntura atual, manobras dessa oligarquia, para que a nossa população maranhense fique atenta e não caia na esparrela de ser mais uma vez vítima dessa situação de comprar “gatos por lebre”.

Vendendo “gato por lebre” 01:

A oligarquia Sarney, através da máquina governamental, realizou nos dias 19 e 20/11/2012, com o dinheiro público é claro, um seminário de integração com todos os prefeitos, vices e vereadores eleitos e reeleitos de todo o estado, na intenção primeira de discutir políticas públicas e estabelecer parcerias, no entanto, o propósito foi outro, promover o ex-prefeito de São José de Ribamar e hoje Chefe da Casa Civil de Roseana, Luís Fernando, como o candidato a governador nas eleições de 2014.

Vendendo “gato por lebre” 02:

O então Chefe da Casa Civil de Roseana Sarney, quando prefeito de São José de Ribamar, não podemos tirar esse "mérito" do mesmo, conseguiu com a grande ajuda da oligarquia, vários programas federais e estaduais com grandes volumes de recursos e divulgou diariamente a população, dizendo ser o “novo”, usou a política tradicional, usada sempre como prática pelos asseclas da oligarquia, como sendo obras da prefeitura. Podemos provar pelo material que foi entregue aos convidados no seminário da integração.

A oligarquia mostra sua preferência
Vendendo "gato por lebre" 03:

O candidato de Roseana Sarney, Luís Fernando juntamente com seu substituto e aliado, Gil Cutrim, prefeito reeleito de São José de Ribamar, estão convidando os prefeitos eleitos e reeleitos para conhecer, in loco, o grande “exemplo de administração” dos dois, na tentativa de endeusar e comprovar que a solução para o Maranhão é eleger o candidato quem a oligarquia Sarney, através de Roseana indicar. Nesse movimento, o prefeito e o secretario de governo, escamoteiam a verdadeira situação, como o descaso com a educação, limpeza, habitação e pavimentação de Ribamar.

Vendendo “gato por lebre” 04:

Blogueiros usam "tapiagem"
Lembrando a matéria no blog do nosso doutor em sociologia e mestre em políticas públicas, o maranhense Robson Camara, na sua matéria "As maranhas da tática de manutenção do poder no Maranhão" que retrata as engrenagens das estruturas de poder, usada muita bem pela oligarquia Sarney e diante desse comercio de "gatos por lebres", ainda tem o PIG maranhense, formado por jornalistas e blogueiros capitaneados pelo próprio clã, através do sistema miranteano, usados como "tapias", que diariamente na mídia livre, tentam reforçar a enganação do velho pelo novo.


Diante dessas "maranhas", o povo maranhense em seus diversos seguimentos da sociedade se prepara para dá a resposta em 2014, dando o basta de vez nessa faminta oligarquia e com isso terá a livre escolha pela frente, de escolher o seu verdadeiro "gato" e sua verdadeira "lebre".

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O perfil do jornalista brasileiro


Os jornalistas negros no Brasil são apenas 5% do total. Os brancos, 72%; os pardos, 18%; indígenas e amarelos, somam 3%; os que se definem como "outros", 2%.

Ideologicamente, 25% dos jornalistas brasileiros se dizem de esquerda; 23% de centro-esquerda; 7% de centro; 6% de centro-direita; 4% de direita; 1% de extrema-direita; 1% de extrema-esquerda; e 33% não se enquadram em nenhuma dessas categorias.

As informações sobre a categoria constam do livro “Perfil do jornalista brasileiro – Características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012”, produzido pelo Núcleo de Estudos sobre Transformações no Mundo do Trabalho da Universidade Federal de Santa Catarina, que será lançado dia 6 de maio no miniauditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC.

A publicação apresenta os resultados quantitativos de uma pesquisa com 2.731 profissionais, realizada entre da UFSC, em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas.

O estudo mostra que a categoria tornou-se majoritariamente feminina (64%) e jovem (59% têm até 30 anos), constata que 98% da categoria tem formação superior e 40% já tem pós-graduação, 59,9% recebem até cinco salários mínimos, aproximadamente 50% trabalham mais de oito horas por dia, e 27% trabalham em mais de um emprego.

A pesquisa aferiu também a distribuição dos profissionais por tipo de atividade: os que atuam principalmente na mídia são 55%, os que trabalham em assessoria de imprensa ou outras atividades jornalísticas fora da mídia são 40%, e os professores são 5%.

O jornalista brasileiro, segundo a pesquisa, acredita pouco na organização social: 45% nunca atuou em nenhum tipo delas, e 19,9% já atuou, mas não participa mais.

Somente 6,8% da categoria é filiada a algum partido político.

Outro dado interessante: a maioria (66%) é a favor da criação de um órgão de autorregulamentação, mas  17% quer que tudo fique como está, ou seja, é contra.

O resumo da pesquisa pode ser acessado aqui.


Fonte: Crônicas do Mota

quarta-feira, 27 de março de 2013

Ferreira Gullar envergonha São Luís e o Maranhão.



Pode até setores da sociedade brasileira principalmente maranhenses ficarem raivosos com essa matéria, mas é  essencial que todos saibam o quanto é vergonhoso para maioria das pessoas com um mínimo de compreensão em geopolítica ter como filho de São Luís do Maranhão um escritor que mente e destila ódio em cima de movimentos que procuram se libertar das mazelas que o capitalismo provoca.

Estou falando do "Ilustre" escritor Ferreira Gular, sarneyzista convicto, cortejado pela família Marinho, prestigiado pela Folha e adorado pela oposição tucana, aprontou mais uma das suas, em um artigo seu, duvidando do processo revolucionário venezuelano.

Nosso blog divulga na íntegra, em resposta a análise de Gullar, o artigo de Max Altman, membro da executiva do Partido dos Trabalhadores.

Há sim uma revolução em curso na Venezuela, senhor Ferreira Gullar

Por Max Altman*

Existe um expressão comum no mundo político da Venezuela – “saltar la talanquera” – que poderia ser traduzido por ‘pular sobre a barricada’ e que significa passar para o outro lado. Muita gente que na sua juventude, e por largos anos, abraçou os ideais do socialismo, resolveu “saltar la talanquera’, renegando, sob os mais variados pretextos, tudo o que pensava e defendia, e muda de lado, de mala e cuia. Como necessitam ser bem recebidos pelos novos correligionários, mostram-se crescentemente mais realistas que o rei. Ou seja, homens com uma história de esquerda passam a defender algumas das teses mais caras à direita.

Mudar de lado não é um ato gratuito. Há que se pagar pedágio sempre – e ele é caro e exigente -, demonstrando por atos e palavras que são leais à nova trincheira e aos seus valores. É o caso de Arnaldo Jabor, Roberto Freire, Marcelo Madureira, Alberto Goldman e tantos outros. E do poeta e cronista Ferreira Gullar.
Gullar publicou na Folha de domingo, 17 de março, artigo sob o título “A revolução que não houve”. Não vou refutar suas posições ideológicas ou políticas. Eles tem as deles, nós, as nossas, e assim vamos travando a batalha de idéias. O que quero rebater são suas inverdades e distorções – e até um grave vilipêndio - acerca de fatos concretos. O poeta Gullar não pode alegar desconhecimento, pois é jornalista, nem ignorância, posto que é intelectual.
O articulista afirma que Hugo Chávez “não só fechou emissoras de televisão como criou as Milícias Bolivarianas, que, a exemplo da conhecida juventude nazista, inviabilizava pela força as manifestações políticas dos adversários do governo”. O sinal eletro-eletrônico, lá como aqui, é de propriedade do Estado. A concessão de transmissão por sinal aberto da RCTV – e este foi um caso único – deixou de ser renovada, entre muitas outras razões, pelo fato da emissora ter tramado e liderado o Golpe de Estado de abril de 2002 contra o presidente Chávez, fato cabalmente demonstrado no documentário “A Revolução Não Será Televisionada”. Nos Estados Unidos, por exemplo, esta ocorrência levaria os donos da estação a uma condenação severíssima. O sinal fechado da RCTV continua funcionando normalmente. À parte a odiosa e absurda comparação com as milícias hitleristas, a Lei Orgânica da Força Armada Bolivariana da Venezuela (FABV) estabelece que a Milícia Bolivariana, subordinada ao Comando Estratégico Operacional da Força Armada Bolivariana da Venezuela, tem como missão treinar, preparar e organizar o povo para a defesa integral com o fim de complementar o nível de prontidão operacional da FANB, contribuir para a manutenção da ordem interna, segurança, defesa e desenvolvimento integral da Nação com o propósito de coadjuvar e independência, soberania e integridade do espaço geográfico da Nação. Repto o Sr. Gullar ou qualquer outro a mencionar um só caso em que a Milícia Bolivariana tenha sido utilizada para inviabilizar, pela força ou não, qualquer manifestação política ou de outra ordem da oposição.
Diz mais o cronista: “O azar dele foi o câncer que o acometeu e que ele tentou encobrir. Quando não pode mais, lançou mão da teoria conspiratória, segundo a qual seu câncer foi obra dos norte-americanos.” Agora mesmo estamos assistindo à autorização da família do ex-presidente João Goulart para a sua exumação, 37 anos após o falecimento, porque há forte suspeita que ele tenha sido envenenado para induzir o ataque cardíaco pela Operação Condor, sabidamente apoiada e orientada pela CIA. Foi possível com Jango, porque não poderá ser com Chávez. A ciência provavelmente irá dirimir a dúvida em ambos os casos.
“De qualquer modo, tinha que se curar e foi tratar-se em Cuba, claro, para que ninguém soubesse da gravidade da doença…” Não é nada claro, Sr. Gullar. Vindo do Equador e do Brasil desce Chávez em Havana, caminhando com dificuldade e apoiado numa muleta. Foi estar com Fidel e com ele se queixou das dores. Fidel lhe fez uma enxurrada de perguntas e o convenceu a passar imediatamente por uma bateria de exames no melhor hospital de Havana. Foi nesse momento que se descobriu que carregava na região pélvica um tumor “do tamanho de uma bola de beisebol.” E lá mesmo passou pela primeira das quatro operações cirúrgicas. A Venezuela e o mundo todo souberam imediatamente da gravidade da doença e com algum detalhe. Razões de Estado sempre cercam enfermidades de chefes de Estado e de governo. Não obstante, no caso de Chávez foram 27 comunicados públicos ao longo dos quase dois anos, feitos por ele mesmo ou por ministros do governo. François Mitterrand passou dois setenatos carregando um câncer de próstata, que o acabou matando, sem que a opinião pública soubesse de algo. Antes dele, o presidente Georges Pompidou morreu no exercício do cargo, inesperadamente, de Macroglobulinemia de Waldenström e ninguém soube de nada, salvo alguns jornalistas que suspeitaram de seu súbito inchaço.
Gullar omite e distorce quando diz que “Para culminar, (Chávez) fez mudarem a Constituição para tornar possível sua reeleição sem limites. Aliás, é uma característica dos regimes ditos revolucionários não admitir a alternância no poder.” Na verdade, Chávez fez questão que a emenda constitucional permitindo a postulação indefinida passasse por referendo popular e não simplesmente aprovada pela Assembleia Nacional onde detinha praticamente a totalidade das cadeiras. (A oposição se recusara a concorrer às eleições legislativas.) Houve ampla e livre campanha e o SI ganhou por boa margem. O povo assim decidiu. A propósito, nos Estados Unidos havia uma tradição de apenas dois mandatos de quatro anos mas nada na Constituição impedia a postulação indefinida. Roosevelt foi eleito em 1932, reeleito em 1936, novamente eleito em 1940 e outra vez eleito em 1944. Faleceu em abril de 1945 com apenas 63 anos. Seria facilmente reeleito pela 5ª, 6ª e 7ª vez, pois saíra vitorioso da Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos confirmavam a condição de super-potência. Alguém tisnou de anti-democrático a contínua reeleição de Roosevelt ? Essa possibilidade foi revogada posteriormente por uma eventual maioria republicana.
O articulista envereda sibilina e maliciosamente pelo terreno jurídico. “Contra a Constituição, Nicolás Maduro ... assume o governo, embora já não gozasse, de fato, da condição de vice-presidente, já que o mandato do próprio Chávez terminara.” E mais adiante “Mas, na Venezuela de hoje, a lei e a lógica não valem. Por isso mesmo, o próprio Tribunal Supremo de Justiça – de maioria chavista, claro – legitimou a fraude, e a farsa prosseguiu até a morte de Chávez; morte essa que ninguém sabe quando, de fato, ocorreu.” O sr. Gullar nunca se referiu ao nosso STF como de maioria tucana, claro, em especial durante o julgamento midiático da AP 470. Os membros da Suprema Corte na Venezuela, que devem ser cidadãos de reconhecida honorabilidade e juristas de notória competência, gozar de boa reputação e ter exercido a advocacia ou o magistério em ciências sociais po r pelo menos 15 anos, e possuir reconhecido prestígio no desempenho de suas funções, são eleitos por um período único de 12 anos. Postulam-se ou são postulados ante o Comitê de Postulações Judiciais. O comitê, ouvida a comunidade jurídica, envia uma pré-seleção ao Poder Cidadão, que, por sua vez, faz uma nova pré-seleção e a envia à Assembleia Nacional que fará a seleção definitiva. (arts. 263 e 264 da Constituição Bolivariana). Cabe, por outro lado,  à Sala Constitucional do Tribunal Supremo da Venezuela (art. 266)  exercer a jurisdição constitucional, como única intérprete da Constituição. E ela considerou, em decisão articulada e bem fundamentada, que: a) pelo fato de estar ainda em curso a licença concedida pela Assembleia Nacional ao presidente Chávez; b) que havia uma continuidade administrativa pois Chávez havia sido reeleito; a posse poderia se dar em outro momento e ante o TSJ, fato também previsto na Constituição e que Nicol ás Maduro poderia continuar exercendo a vice-presidência executiva. (Na Venezuela o vice-presidente é indicado pelo presidente e não eleito conjuntamente.) Com a morte de Chávez, aplicou-se o art. 233, passando Maduro a exercer o cargo de Presidente Encarregado, obrigando-se a convocar eleições em 30 dias, o que foi feito.
E onde reside o vilipêndio, a ignomínia de Ferreira Gullar ?  Repetindo maquinalmente o que a extrema-direita golpista e corrupta da Venezuela alardeou, afirma que a farsa prosseguiu até a morte de Chávez, que ninguém sabe quando de fato ocorreu. Isto é uma grave ofensa antes de mais nada à dignidade dos pais, irmãos e filhos de Hugo Chávez, porquanto afirmar que ninguém sabe quando ocorreu a morte é imputar à família do presidente participação numa farsa. As filhas de Chávez em discursos emocionados, num e noutro momento, repeliram a rancorosa e covarde acusação, reafirmando que Chávez faleceu, quase diante de seus olhos, no dia 5 de março no hospital militar de Caracas, exatamente às 16 h25.
E por quê afirmo no título que há uma revolução socialista bolivariana em marcha ?  Evidentes êxitos dos programas sociais do governo Chávez não a caracterizaria. Esta proeza pode ser alcançada por países em regime capitalista. Há, porém, um dado da realidade na Venezuela: a massa pobre e de trabalhadores alcançou um bom nível de consciência política e ideológica e está organizada. Vale-se do Partido Socialista Unido da Venezuela para a sua mobilização. E dispõe-se a respaldar o governo a fim de levar adiante o “Plano Socialista da Nação –  2013-2019”, programa histórico de cinco objetivos fundamentais, que tem por lema ‘desenvolvimento, progresso, independência, socialismo’.
Sempre com fundamento na Constituição que estabelece que a soberania reside intransferivelmente no povo que a exerce diretamente na forma prevista na Carta Magna e nas leis e indiretamente, mediante o sufrágio direto e secreto, Chávez liderou a expansão da democracia participativa, diminuiu o peso do empresariado, dos meios comerciais de comunicação e das casamatas mais retrógadas do aparelho estatal, especialmente no sistema judiciário. Criou com isso a base social que permite agora avançar na transformação socialista em curso, trazendo a Força Armada para dela lealmente participar.
Uma das mais relevantes medidas de transferência de poder ao povo é a criação e o desenvolvimento do poder comunal. Trata-se de pequenas áreas geográficas, distritos ou bairros, que funcionam como instituições políticas e que também podem organizar seus próprios serviços públicos, constituir empresas para diferentes atividades e receber financiamento direto do governo nacional. Busca-se, assim, esvaziar os estamentos burocráticos ainda controlados ou corrompidos pelos antigos senhores.
Ao contrário de outras experiências de identidade socialista, a ampliação da democracia direta não foi acompanhada pela redução de liberdades, mesmo daqueles setores que participaram do golpe de Estado em 2002 ou que insistem na oposição golpista. Não se tolheu a liberdade de expressão nem a liberdade de imprensa. Partidos de cariz neoliberal, de direita, sociais-democrat as ou ultra-esquerdistas continuam a funcionar normalmente com ampla liberdade de organização e manifestação pacífica.
Dois fortes sinais indicam que a revolução socialista bolivariana está atingindo um ponto de não retorno. O primeiro foi o extraordinário comportamento do povo venezuelano diante da morte de seu comandante-presidente. Milhões saíram às ruas para homenageá-lo. Embora comovido, mostrou-se sereno, pacífico, responsável e democrático. Isto permitiu que o governo funcionasse e, principalmente, a estabilidade institucional fosse garantida. Não caiu nas provocações alimentadas por setores raivosos da direita. Reagiu com senso civilizado extraordinário, com dignidade. No entanto, como se pôde assistir, disposto a qualquer coisa para defender o legado de Hugo Chávez, o progresso e as conquistas sociais, o desenvolvimento da economia, a soberania e a independência da pátria, a consolidação da integração regional latino-americana.
O segundo sinal está por vir e será a confirmação desta vontade popular. No dia 14 de abril serão realizadas eleições livres, justas e transparentes, como garante o Conselho Nacional Eleitoral, para presidente da Venezuela. A vitória de Nicolás Maduro constituirá um marco histórico e dará início a uma nova etapa da revolução socialista bolivariana. 






*Max Altman é membro do Coletivo da Secretaria de Relações Internacionais do PT.

Fonte: Brasil 247