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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Racismo e injúria racial no mercado de trabalho

 Foto: Reprodução/Sintrapavsp

Hoje em dia, a discriminação racial é tão comum que chega a ser invisível para quem não é vítima. Abolimos a escravidão física, os chicotes, troncos, grilhões e demais instrumentos de tortura, mas ainda mantemos viva na mente a escravidão do preconceito, repetida por séculos. As condutas racistas podem ser definidas como um sentimento de superioridade biológica, cultural, moral de determinada raça, povo ou grupo social considerado como raça. São manifestações da crença na existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras.

Essa convicção foi utilizada no passado para justificar a escravidão, o domínio de alguns povos sobre outros, os genocídios e um dos maiores crimes contra a humanidade: o nazismo. Mas, mesmo em pleno século XXI, com tantas leis criminalizando condutas racistas, engana-se quem pensa que não ocorrem atos discriminatórios e preconceituosos, ainda que velados. E as principais vítimas são mesmo pessoas da raça negra.

Diante das novas legislações e políticas afirmativas, as empresas hoje têm buscado aplicar métodos e estratégias para o combate à discriminação e ao racismo, proibindo condutas discriminatórias, assédio e todas as formas de opressão exercidas sobre empregados com base em diferenças raciais. Mas, ainda existem aqueles empregadores indiferentes a essa nova mentalidade, que demonstram preconceito em relação ao trabalhador negro. Isso pode ser verificado pela grande incidência de processos na Justiça do Trabalho mineira, que denunciam a prática de racismo e de injúria racial no ambiente de trabalho.

Etarismo

Preconceito relacionado à idade, o etarismo prejudica a saúde, afeta a dignidade, nega às pessoas direitos humanos e impacta a habilidade de cada indivíduo alcançar seu pleno potencial.

Quando o preconceito é racial, as consequências também são inúmeras. A população negra enfrenta o racismo estrutural, institucional e a ausência de políticas públicas para combatê-lo.

Há interseccionalidades entre ambos os preconceitos. É preciso analisar como esses marcadores sociais impactam diretamente na saúde e vão sendo cada vez mais decisivos com o envelhecimento.

Estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP aponta que 47,2% dos idosos negros avaliam sua saúde de maneira negativa, bem como 45,5% dos idosos pardos. Já entre idosos brancos, o índice é de 33%.

Em relação ao acesso aos serviços de saúde, segundo o mesmo estudo, na cidade de São Paulo, os equipamentos de saúde são acessado por: 63,3% brancos, 21,4% pardos e 7,3% pretos/negros.

Os números refletem uma desigualdade latente e desafiam autoridades e a sociedade, como um todo, a criar, implementar e ampliar medidas e políticas que ajudem a mudar essa realidade.

Fonte: AMB e TRT(MG)

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Primeira negra prefeita de Cachoeira (BA) relata ameaças e pressão por renúncia

Foto: Prefeitura de Cachoeira/Divulgação

A cidade onde a população pegou em armas para expulsar portugueses e lutar pela independência do Brasil em 1822 elegeu sua primeira prefeita negra no ano passado, 490 anos depois da sua fundação.

Mas o caminho não tem sido fácil para Eliana Gonzaga (Republicanos), 52, eleita no ano passado prefeita de Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo Baiano, derrotando grupos políticos tradicionais da região.

Na campanha eleitoral, ela foi alvo de ataques racistas em redes sociais. Dias após sua vitória, dois de seus principais aliados políticos foram assassinados em crimes com fortes indícios de execução. Por fim, ela passou a receber ameaças de morte e avisos para que renuncie ao cargo.

Filha de feirantes, Eliana começou a trabalhar cedo, ajudando os pais no mercado municipal de Cachoeira. Na juventude, aproximou-se da política por meio do sindicato de trabalhadores de agricultura familiar.

"Desde então, venho fazendo esse trabalho de formiguinha com políticas para evitar o êxodo rural e enfrentando fazendeiros para garantir do direito à terra", afirma Eliana.

Disputou seu primeiro mandato eletivo em 2008, quando foi eleita vereadora. Reelegeu-se em 2012 e quatro anos depois foi candidata à vice-prefeita, sendo derrotada.

Em 2020, decidiu concorrer à prefeitura em uma ampla coligação de partidos de oposição ao prefeito Tato Pereira (PSD), que disputava a reeleição. A campanha foi agressiva e marcada por ataques racistas em textos que circulavam em grupos locais em um aplicativo de mensagens.

Mesmo assim, venceu as eleições para prefeitura de forma surpreendente, colocando fim a um ciclo de 16 anos de governos da família Pereira, um dos clãs mais tradicionais da cidade de 33 mil habitantes.

Mas não conseguiu sequer comemorar a vitória. Dois dias depois da eleição, seu aliado e cabo eleitoral Ivan Passos foi brutalmente assassinado em Cachoeira. "Ele foi abatido com dez tiros, mesmo número do meu partido. O recado foi dado", afirma a prefeita.

Nos dias seguintes, começou a circular na cidade uma lista com possíveis novas vítimas, que incluía familiares da prefeita e seus aliados políticos mais próximos. Temerosa, tirou várias pessoas da cidade e as enviou para Salvador, onde ficaram hospedadas na casa de amigos.

Uma delas foi Georlando Silva, aliado que foi candidato vereador pelo mesmo partido da prefeita. Em vídeo gravado ainda em abril de 2020, ele conta que estava recebendo ameaças de opositores.

Georlando voltou para Cachoeira no dia 30 de dezembro, nas vésperas da posse de Eliana como prefeita. Foi nomeado coordenador de obras da prefeitura, mas acabou sendo assassinado no dia 7 de março com 19 tiros no rosto. "Foi um crime muito macabro, chocou toda a cidade", lembra Eliana.

A própria prefeita já vinha recebendo ameaças veladas desde a sua vitória. Antes mesmo de tomar posse, recebeu um telefonema em que uma rajada de arma de fogo foi disparada do outro lado da linha. Desde então, passou a andar com escolta armada e carro blindado.

No início deste mês, ela foi intimidada por homens em uma motocicleta enquanto participava de uma ação de vacinação para Covid-19 em um drive-thru na cidade. Eles fugiram após perceberem a presença de policiais no local.

Nesta terça-feira (21), um grupo de 56 entidades do movimento negro e sindical emitiram uma nota de solidariedade à prefeita e cobraram apuração rígida do caso pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia.

"Consideramos um absurdo inaceitável que uma mulher negra democrática e legitimamente eleita seja mais uma vez alvo da violência de grupos autoritários e violentos que não aceitam a vontade de povo expressa pelo voto. Repudiamos as ameaças de mortes, os ataques racistas e misóginos", diz a nota.

A Polícia Civil da Bahia informou que a denúncia de ameaça contra a prefeita foi registrada em dezembro de 2020. Depoimentos de suspeitos foram colhidos, mas o teor não foi divulgado para evitar interferências nas investigações.

Eliana afirma que não pode dar informações sobre as motivações das ameaças, mas lembra que estas nunca aconteceram até o momento em que foi eleita prefeita da cidade. Diz que permanece no cargo e não cogita renunciar.

"Continuarei de pé porque sei que essa luta não é individual. Essa é uma luta coletiva que remete aos nossos ancestrais. O povo de Cachoeira não elegeu uma covarde. Vou ficar e fazer uma gestão de excelência."

Fonte: O Tempo

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Juíza declara em sentença que homem negro é criminoso "em razão da sua raça"

Zarpelon atua na 1ª Vara Criminal da Comarca da
Região Metropolitana de Curitiba (PR). - Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

Acusado de integrar uma organização criminosa e praticar furtos, Natan Vieira da Paz, 48 anos, foi condenado a 14 anos e 2 meses de prisão pela juíza Inês Marchalek Zarpelon, da 1ª Vara Criminal da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba (PR). A decisão foi proferida no dia 19 de junho e publicada na última terça-feira (11). No texto, a magistrada acusa o homem de praticar os crimes por ser negro.

“Sobre sua conduta social nada se sabe. Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça, agia de forma extremamente discreta os delitos e o seu comportamento, juntamente com os demais, causavam o desassossego e a desesperança da população, pelo que deve ser valorada negativamente”, escreveu Zarpelon na página 107, de 115, de sua sentença condenatória.

Em outros dois trechos, na página 109 e 110, a magistrada repete a mesma afirmação ao citar o acusado. “Sobre sua conduta social nada se sabe. Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça.”

Além de Vieira da Paz, outras oito pessoas foram julgadas e condenadas na mesma ação pela juíza Zarpelon. De acordo com a decisão, o grupo formava uma organização criminosa que, entre os meses de janeiro de 2016 e julho de 2018, praticou furtos e saidinhas de banco nas praças Carlos Gomes, Rui Barbosa e Tiradentes, na região central de Curitiba. Eles teriam furtado mochilas, bolsas, carteiras e celulares.
Foto: Reprodução
A advogada de Vieira da Paz, Thayse Pozzobon, recorrerá da decisão de Inês Marchalek Zarpelon e acionará o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para que o julgamento seja anulado, por conta do racismo praticado pela magistrada na sentença.

“Infelizmente, resta evidente o racismo nas palavras da juíza que entendeu que Natan é criminoso por ser negro e deve ser condenado. Essa prática é intolerável. Essa sentença deve ser anulada e proferida por uma juíza absolutamente imparcial. Eu já acionei a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] do Paraná e as comissões de igualdade e direitos humanos, também tomarei providência junto à corregedoria e ao CNJ”, afirma a advogada.

Para Douglas Belchior, fundador da Uneafro, não há dúvida sobre racismo no episódio. “Essa juíza racista precisa perder o mandato e responder pelo crime que cometeu. O Ministério Público precisa se posicionar e abrir uma ação penal. É uma sentença e uma postura inadmissível. E isso joga luz a outro tema recorrente: o caráter estruturalmente racista do judiciário acarreta decisões seletivas todos os dias desde sempre. Até quando?”, pergunta o militante.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Morte de dois homens negros, encontrados pendurados em árvores, geram protestos e FBI vai auxiliar nas investigações

Foto (O Globo)
As mortes de dois homens negros, encontrados pendurados em árvores, sendo um deles em um parque municipal, em um intervalo de 10 dias e a uma distância de 80 quilômetros entre os casos, na Califórnia, serão investigadas após autoridades policiais concluírem prematuramente que foram casos de suicídio. Protestos ganharam as ruas na esteira do assassinato de George Floyd, em Minneapolis, em 25 de maio, exigindo investigações rigorosas.
Leia: Irmão de Floyd pede ao Congresso que acabe com sofrimento dos negros nos EUA e avance com reforma policial
O chefe do condado de Los Angeles, Alex Villenueva, e seu colega no condado de San Bernardino, John McMahon, disseram separadamente que trabalhariam em cooperação com os investigadores do escritório do procurador-geral da Califórnia. Villenueva disse ainda que o FBI forneceria uma supervisão adicional.
– Queremos garantir que não deixaremos pedra sobre pedra – disse Alex Villanueva, sobre o caso de Robert Fuller, de 24 anos, encontrado morto na quarta-feira de manhã, com uma corda no pescoço, na Praça Poncitlan, um parque que fica a uma quadra da prefeitura, na cidade de Palmdale,  a cerca de 100 km de Los Angeles.
Inicialmente, a polícia local determinou que se tratava de um suicídio, mas agora mudou a versão e iniciou uma autópsia.
A família da vítima não aceitou a versão de que o jovem havia tirado a própria vida. E a hashtag #JusticeforRobertFuller foi destaque no Twitter, na semana passada, com os usuários pedindo uma investigação completa do que alguns especulavam ser um encobrimento de um linchamento.
Em entrevista coletiva nesta segunda-feira, o médico legista do condado, Jonathan Lucas, disse que a avaliação preliminar do suicídio aparentemente se baseava na falta de qualquer evidência imediata que indicasse um crime.
– Mas achamos prudente rever isso e olhar mais fundo – disse Lucas.
Autoridades locais comentaram ainda que não foi achado nada próximo ao corpo de Fuller, como uma escada, banco ou cadeira, que pudesse ter sido usado para elevá-lo antes do enforcamento:
– Nada mais foi encontrado no local, além da corda usada para pendurar a vítima e o conteúdo do bolso e da mochila que ele estava usando – disse Kent Wegener, chefe do esquadrão de homicídios do condado.
Villanueva disse que os detetives estão coletando vídeos de vigilância em áreas próximas, além de evidências forenses da corda e analisando o histórico médico da vítima. Eles também vão interrogar sua família e as testemunhas que o encontraram.
– Eles continuarão até que cheguem à verdade do que aconteceu – garantiu Villanueva.
Milhares de manifestantes se reuniram em Palmdale no sábado para se lembrar de Fuller e exigir uma investigação completa para determinar se ele morreu por suicídio ou em outras circunstâncias.
– Queremos saber a verdade, o que realmente aconteceu – disse Diamond Alexander, a irmã do falecido, no sábado. –  Tudo o que eles nos disseram não está certo. Nós apenas queremos a verdade. Não foi suicídio. Ele era um sobrevivente
Em 31 de maio, a cerca de 80 km dali, Malcolm Harsch, um negro de 38 anos também foi encontrado pendurado em uma árvore, em um acampamento para moradores de rua, perto de Victorville. E a polícia do condado de San Bernardino também havia considerado um suicídio.
Autópsias separadas dos dois homens foram realizadas na sexta-feira, mas as conclusões finais aguardavam resultados toxicológicos e mais investigações pelos detetives de homicídios.
Um homem ficou gravemente ferido por tiros durante uma manifestação para derrubar uma estátua, nesta segunda-feira, em Albuquerque (Novo México). A polícia está investigando o possível envolvimento de um grupo paramilitar.
Os manifestantes exigiam a retirada de uma estátua do conquistador espanhol Juan de Oñate, o primeiro governador do Novo México no período colonial, de acordo com a imprensa local.
Quando eles tentavam derrubar a estátua, integrantes de uma milícia de  extrema direita chegaram ao local e um confronto teve início, segundo o jornal Albuquerque Journal.
"Os indivíduos com armas pesadas que se apresentaram à manifestação, autodenominados 'guarda civil', estavam no local por apenas uma razão: ameaçar os manifestantes", escreveu no Twitter a governadora do Novo México, Michelle Lujan Grisham.
De acordo com a polícia, a vítima está em condição crítica mas estável.
Durante a onda de manifestações contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos, várias estátuas e monumentos relacionados com o colonialismo e a escravidão foram derrubados.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Governo Bolsonaro Censura Biografia De Lideranças Negras Históricas No Site Da Fundação Palmares

(FOTO: O Antropofagista)
Para Bolsonaro, dar destaque à biografia de personalidades negras importantes para a história do país é caso de censura sistêmica e não pode, em hipótese alguma, estar no site da Fundação Palmares, justamente porque a instituição federal tem como objetivo zelar por essa memória. Não há nada mais eficaz para o conceito de um racista que suprimir qualquer forma de memória da história do país em que haja papel de destaque de um negro.

Funcionários da Fundação e pesquisadores acusam Sergio Camargo, o chefe do órgão, escolhido a dedo por Bolsonaro para negar a importância dessas figuras históricas que se projetaram na história do país pelas enormes contribuições que deram para o seu desenvolvimento.

Por isso, desde que Camargo assumiu a presidência da Fundação, com a nítida intenção de destruí-la para tirar sua importância do cenário cultural brasileiro, a mando dos ímpetos racistas de Bolsonaro, esse tipo de atitude vem acontecendo de forma coordenada.

Lógico que Camargo é um tarefeiro disposto a cumprir a agenda racista de Bolsonaro. Por isso ordenou que a página fosse apagada do site da Fundação.

O site na internet mostrava um lindo mosaico com fotografias e nomes de diversas personalidades negras e, através dele, tinha-se acesso a vários artigos sobre a vida e obra de mulheres e homens negros que marcaram a história do país, como Zumbi dos Palmares, considerado o principal líder negro do Brasil.

Por isso Camargo, usado como boneco de ventríloquo por Bolsonaro, tem atacado tão fortemente a biografia de Zumbi para reescrevê-la a modo e gosto de Bolsonaro.

Essa sordidez racista que Bolsonaro, ao contrário de esconder, fez grandes esforços para promover na construção de sua candidatura, vide seu discurso fascista contra quilombolas proferido na Hebraica, é parte da personalidade indissociável de Bolsonaro. Ele é racista e faz questão de dobrar a aposta em cada feição, em cada fala e em cada atitude.

Claro que ele não tem o menor medo do ridículo quando demoniza a figura do Zumbi e exalta a coroa imperial como o ponto alto da escravatura no Brasil.

Para Bolsonaro, o importante é apagar a história de qualquer liderança negra, mostrando que seu racismo é carregado de ódio. Mas como o racismo no Brasil pode lhe render uma cadeia, ele usa Sergio Camargo, que é negro e que se presta a esse papel ultrajante para declarar guerra a tudo o que vem promover a história de construção dos negros no Brasil.

E fará isso na Fundação Palmares porque o principal objetivo de Bolsonaro é destruí-la, como quem estivesse destruindo um quilombo que ele odeia, como já declarou.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

“Não é cabelo de crente”: Pastor recusa batizar adolescente por causa do cabelo crespo


Pastor José Azevedo teria humilhado uma jovem fiel
Foto do Blog do PauLopes
Um pastor da igreja evangélica “Assembleia de Deus” impediu uma adolescente negra de 16 anos de ser batizada por causa do cabelo crespo. O caso aconteceu no centro da cidade de Jacobina, no norte da Bahia, no dia 11 de dezembro.
A jovem participava de uma palestra em um curso sobre as funções dos ministérios da igreja. Na ocasião, uma palestrante elogiou o cabelo da adolescente e foi repreendida pelo pastor. “Ele pegou o microfone e disse que eu não seria batizada porque meu cabelo não servia para ficar na igreja”, conta.
Inconformados com a atitude do pastor, um grupo de amigos negros e de cabelos crespos da adolescente realizaram um protesto pacífico. Eles visitaram à igreja no culto do domingo (15).
Segundo a estudante e amiga da vítima, Martha Miranda, de 24 anos, a igreja estava lotada no momento em que o pastor fez a declaração racista. “Tinham várias testemunhas e, no domingo, quando eu e outros amigos fomos visitar a igreja para fazer o protesto, todas as pessoas perceberam o motivo da nossa presença”, relembra.
Amigos de Rebeca fizeram uma manifestação silenciosa
 no culto do pastor acusado
de racismo
Martha acrescenta que, após a repercussão do caso, o pastor chamou a adolescente para conversar. “Ele a chamou para uma reunião e disse que ela poderia assinar o formulário de batismo. A situação foi humilhante e em nenhum momento ele pediu desculpas. O pastor ainda disse para ela mudar o cabelo pois, segundo ele, cabelo crespo não é cabelo de crente. Isso a deixou ainda mais chateada e ela deixou de frequentar a igreja”, relata.
O que diz a “Assembleia de Deus”?
A reportagem do Alma Preta entrou em contato com a Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia (CEADEB) para saber o posicionamento da igreja diante do ocorrido. Em nota, a CEADEB disse que desconhece o caso, mas que repudia qualquer atitude discriminatória. A convenção também ressaltou que racismo é crime. Não há informações se o caso será apurado e se o pastor citado na reportagem receberá alguma medida disciplinar. Confira a resposta na íntegra: 
“Quanto aos questionamentos elencados por vocês, a primeira coisa é que a igreja Assembleia de Deus e podemos falar isso não só na Bahia, mas de forma geral, nunca a discriminação e não digo apenas racial mas falamos em todo tipo de discriminação seja por raça, seja questão social poder aquisitivo ou até mesmo questão sexual, será apoiada.
Outra questão é que os nossos pastores eles são ensinados pela bíblia e eles sabem que Jesus nunca fez acepção de pessoas ou apoiou a discriminação. Pelo contrário, em suas palavras ele diz o seguinte 'Vinde a mim todos que estais cansados', então o evangelho é para todos, independente de cor, de raça, poder aquisitivo ou até mesmo opção sexual. A igreja é a instituição de maior Inclusão social, pois a bíblia ensina isso.
Outro ponto é que Racismo é crime, então qualquer pessoa que se sentir descriminalizada ou até mesmo com um tipo de comportamento de exclusão social deve procurar as autoridades competentes.

Quanto ao episódio, não podemos falar a respeito pois não chegou ao nosso conhecimento tal fato. Mas, caso tenha ocorrido deixamos nossa nota de repúdio à qualquer atitude como esta, seja em nossas igrejas ou em outra denominação. Informamos ainda que possuímos uma secretaria que recebe qualquer denúncia desde que fundamentada pelo autor e assinadas por testemunhas.”

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

“Negro de esquerda é escravo”, diz novo presidente da Fundação Palmares


Sergio Camargo, presidente da Fundação Palmares
Por Erick Mota*

O secretário especial de Cultura, Roberto Alvin, está promovendo mudanças nas principais pastas sob sua coordenação. Entre elas está a troca da direção da Fundação Palmares, responsável por resguardar e fomentar a cultura afro-brasileira. Saiu o presidente Vanderlei Lourenço, e foi nomeado para o lugar Sérgio Nascimento de Camargo. O novo mandatário da pasta tem um extenso histórico de embates com negros nas redes sociais. Dentre as polêmicas ditas por ele está uma publicação que afirma que "negro de esquerda é burro, é escravo".

O novo presidente da Fundação criada para resguardar a cultura negra no país, já criticou rap, funk, capoeira e seus adeptos.

Com uma postura semelhante à do ministro da Educação, Abraham Weintraub, Sérgio promete bloquear os "esquerdistas" do seu Facebook. "Reitero: todo esquerdista será bloqueado; todo comentário de esquerdista será excluído. Não perca seu tempo aqui. Não sirvo capim!", disse o novo presidente da Fundação Palmares.

Recentemente, dezenas de marcas de móveis lançaram uma campanha para não se usar mais o nome "criado-mudo" em seus móveis, pois, segundo historiadores, este nome remete aos negros que deveriam ficar ao lado de seus patrões, segurando seus objetos, sempre mudos. Mas para Sérgio isto é o cerceamento da liberdade de expressão. "Nossa liberdade de expressão não pode ser ditada pelos que enfiam crucifixos no ânus, cagam na rua e fazem criança tocar em peladão no museu.

Ignorem listas de palavras vetadas pela esquerda", disse o novo presidente da entidade criada, também, para combater o racismo.

Para Sergio, quem escravizou os negros, foram os próprios negros e por isso, não deve haver reparação histórica. "Negros sempre ESCRAVIZARAM negros. Escravizam até hoje na África. Quer reparação histórica? Vá cobrar no Congo! Boa sorte!", disse.




*Erick Mota - Jornalista formado pelo Centro Universitário UniOpet. Trabalhou na Gazeta do Povo, Em Cartaz, filadas da TV Band e Record no Paraná, além da TV Evangelizar. Foi freelancer no Correio Braziliense







segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Facebook passa pano para o racismo




Há dois anos, uma página do Facebook de "orgulho branco" – seja lá o que isso for – ostenta um mapa-múndi com a porcentagem de pessoas brancas em cada país na linha do tempo. Nos comentários, os seguidores lamentam a "queda" no percentual da população branca no mundo. "Portugal está até bem", conforma-se um. "O número de brancos está diminuindo </3", lamenta outro. "Coincidência as regiões com maior concentração branca (com exceção de Japão e Coreia do Sul) serem desenvolvidas, e os restantes subdesenvolvidos, não é mesmo?", ironiza um terceiro.

Nada disso é considerado problemático pelo Facebook, que mantém o conteúdo no ar há dois anos.

Depois da denúncia de um leitor, encontrei pelo menos cinco páginas do tipo na rede social, que somam cerca 30 mil de seguidores. Escondidas sob a denominação do orgulho – "branco", "eurodescendente" ou "caucasiano" –, elas proliferam conteúdo supremacista, racista e xenofóbico feito sob medida para ser tolerado pelo Facebook. Não divulgaremos os nomes, os links das páginas e nem prints para evitar que o conteúdo se espalhe ainda mais.

A página mais antiga que encontrei existe desde 2013. Apesar de já ter tido alguns posts removidos pelo Facebook, continua funcionando normalmente. O objetivo dela é defender e exaltar a "raça branca", expondo o suposto "racismo reverso" das outras raças e criticando a miscigenação.

Nas páginas, posts relativizando a escravidão são comuns. Também proliferam notícias sobre crimes cometidos somente por pessoas negras – não preciso nem comentar o teor dos comentários que esses posts despertam. Fingindo que não são brasileiros e, portanto, latinos, os criadores das páginas exaltam a Polônia de hoje e os feitos da Alemanha do passado – onde provavelmente seriam vítimas da supremacia xenofóbica que pregam – e as cidades de colonização europeia do sul do país.

Nem todos os brancos são motivo de orgulho: o presidente da França, Emmanuel Macron, é muito criticado pela abertura que seu país dá para imigrantes não brancos. A França tem a terceira maior população de refugiados da Europa, atrás apenas da Turquia e da Alemanha, segundo um relatório publicado em junho pela Agência da ONU para Refugiados.

Os posts em geral são irônicos, sutis e evitam ataques diretos – uma maneira de seus donos se protegerem de eventuais derrubadas do Facebook. É nos comentários que a intolerância desenfreada acontece: chancelados pelos donos da página e por outros comentaristas, os racistas ficam à vontade para publicar o que quiserem. "Se esses imigrantes fossem pessoas boas o país deles seria um bom país", diz um comentário, no ar há dois meses. "Escondo até carteira e celular", diz outro, em uma foto com uma mulher negra segurando um cartaz.

Em seus padrões de comunidade, o Facebook define "discurso de ódio" como um "ataque direto a pessoas" de acordo com sua raça, etnia, nacionalidade, filiação religiosa, orientação sexual, casta, sexo, gênero, identidade de gênero e doença ou deficiência grave. A empresa diz que discursos degradantes (como comparar pessoas a vermes, excrementos ou criminosos) são proibidos – mas, pelo jeito, comentários xenofóbicos não são encarados desse jeito pela rede social.

Perguntei ao Facebook por que essas páginas continuam no ar. Simples: a rede social não acha que elas violaram seus termos de uso – ou que, pelo menos, não há "evidência clara" de que essas páginas incitam o ódio. "Removemos conteúdos quando temos evidências claras disso, bem como Perfis ou Páginas que publiquem tais conteúdos repetidamente", defendeu-se a rede social. "Vale ressaltar que, neste trabalho de revisão de conteúdo, buscamos encontrar um equilíbrio entre manter as pessoas seguras e dar voz a elas.” De fato, a questão é simples: para o Facebook, não há racismo em comentários racistas.

Em setembro de 2018, o Counter Extremism Project, projeto que monitora e propõe políticas para combater o extremismo online, identificou 40 páginas de lojas virtuais que vendiam roupas, músicas e acessórios com temática supremacista branca. Todas foram denunciadas – mas o Facebook só derrubou cinco delas. As que sobraram? Cresceram em audiência. "Claramente, o processo do Facebook de revisar e remover esse conteúdo – que viola seus termos de uso – é inadequado", avalia o projeto.

Em março, a empresa anunciou mudanças na forma como lida com nacionalistas e separatistas brancos. O anúncio foi feito 12 dias depois de um desses supremacistas matar 50 pessoas em uma mesquita na Nova Zelândia, em um massacre transmitido ao vivo pela rede social.

O Facebook disse que já bania expressões racistas. A diferença era que, a partir de então, o nacionalismo branco (que defende que brancos têm uma identidade que está ameaçada) e o separatismo branco (que defende que brancos sejam apartados das outras raças por conta de sua superioridade fantasiosa) passaram a ser considerados violações. Antes, o Facebook considerava que manifestações nacionalistas e separatistas eram legítimas. "Embora as pessoas ainda possam demonstrar orgulho por sua herança étnica, não toleraremos enaltecimentos ou apoio ao nacionalismo e separatismo branco", disse a rede social no anúncio das mudanças.

As páginas supremacistas já sabem que operam no limite da tolerância no Facebook. Além das contas extras que mantêm caso as principais sejam derrubadas, elas evocam, nas suas descrições, o artigo 5º, inciso quatro, da Constituição – o que garante a liberdade de expressão. Na balança do Facebook, "dar voz" a essas páginas tem sido mais importante do que proteger as vítimas – por vezes fatais, como no caso da Nova Zelândia – desse discurso intolerante. Não custa lembrar que a mesma Constituição, alguns artigos antes, assegura a todas as pessoas a dignidade e repudia o racismo – mesmo que travestido de "orgulho".


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Evangélicos de escola de música de universidade do Rio se recusam a cantar Villa-Lobos



Músicas de Villa-Lobos são
executadas por orquestras
 internacionais, mas enfrentam
 resistência no Brasil
 por motivo religioso

Pode parecer absurdo que alunos de música de uma universidade do país se recusem a tocar ou cantar músicas do genial compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959), mas isso está ocorrendo com frequência.


Andrea Adour, professora de Canto da Escola de Música da UFRJ, informa que alunos evangélicos que se recusam a cantar “Xango” [reprodução abaixo], de Villa-Lobos, porque acharem que se trata de uma reverência a um demônio de religiões de origem africanas.


A estupidez se manifesta com outros compositores, como Guerra Peixe (autor de "Toadas de Xangô"), Francisco Mignone (“Cânticos de Obaluayê”) e Waldemar Henrique (“Abalogun").

A professora explica aos estudantes que a universidade é um espaço laico e, portanto, de diversidade cultural e que, ali, a música está vinculada à arte e não a qualquer prática religiosa.

Além do mais, é impossível estudar música do Brasil sem falar em Villa-Lobos e até entender as origens da cultura popular.

Nem sempre a professora convence os evangélicos, e alguns deles desistem do curso ou trancam matrícula.

Andrea é coordenadora do Africanias, um grupo de pesquisa sobre as influências negra e indígena no repertório brasileiro.

Ela diz que a recusa de alunos ao estudo de músicas com referência a religiões de afrodescendentes é um comportamento recente, mas em ascensão.

Valéria Matos, professora de Regência do Coral da UFRJ confirma: “É comum alunos de formação religiosa mais fechada questionarem, se recusarem a cantar, quando apresentamos alguma obra que usa termos de origem afro, referindo-se a entidades como Oxalá, Oxum”.

Para ela, o que está ocorrendo na escola de música é reflexo do atraso cultural que o Brasil vive no momento, o que serve de incentivo à intolerância religiosa.

Por isso mesmo, segundo ela, aumentou a responsabilidade da universidade em ensinar a diversidade aos estudantes.

Nem todos os estudantes evangélicos estão atrelados ao retrocesso cultural.

Paulo Maria, da Escola de Música, por exemplo, denuncia a existência de um racismo cultural.

“Cantar essas músicas não afeta minha religiosidade. Quando canto peças que se referem a religiões afrobrasileiras, canto como artista. Mas essa situação faz parte da História brasileira. O negro foi feito escravo, a cultura afro foi jogada de lado pelos europeus. Nossa formação histórica é essa”, diz.




segunda-feira, 14 de maio de 2018

Feminismo não é Vitimismo!


Texto de *Mariana Selister Gomes para as Blogueiras Feministas.

Nos últimos dias, assisti ao filme “Negação” (Mick Jackson, 2016), o qual baseia-se na história real da disputa judicial entre a historiadora Deborah Lipstadt e o escritor David Irving, quando este a acusa de difamação, por ela denunciá-lo publicamente como um negador do holocausto. O filme me emocionou, tanto pela história que registra, quanto por perceber o quanto ainda hoje precisamos lutar contra os negacionistas – sejam eles negadores do holocausto, do racismo ou do machismo.
Na Universidade Federal de Santa Maria, recentemente, dois grupos entraram nesta luta, ao enunciar o slogan: “Feminismo não é Vitimismo”. Ambos buscaram denunciar a negação do machismo, que se oculta na alcunha de “vitimista” dada ao feminismo. Um foi protagonizado pelo Coletivo “Manas RI” e outro pelo Programa “Gritos do Silêncio” da Rádio da Universidade.
Somo, aqui, meu grito: Feminismo não é Vitimismo! E explico-o nas seguintes linhas. A categoria “vitimização” ou “vitimismo” tem emergido nas universidades para se referir a luta feminista e anti-racista. De certa forma, esta é uma versão acadêmica da “categoria” “mimimi”, difundida por grupos conservadores nas redes sociais. Por seu turno, legitimamente, os movimentos feministas (entendidos aqui no plural, abarcando mulheres negras, trans, lésbicas…) reagem, por toda a parte, a esta categoria, entrando em uma disputa simbólica para demonstrar que sua luta não é mimimi/vitimismo – como aconteceu na UFSM.
Ressalto que o conhecimento acadêmico não é totalmente neutro e insere-se nestas disputas de saber-poder – como demonstraram teóricas e metodólogas feministas (como Sandra Harding e Donna Haraway), teóricos decoloniais (como Aníbal Quijano e Edgardo Lander) e filósofos pós-estruturalistas (como Michel Foucault). Sendo assim, a objetividade é garantida pelo debate de ideias de forma transparente, no qual é preciso responder a duas questões: 1. Para que(m) serve o conhecimento produzido? 2. Quem está produzindo esse conhecimento?
Neste sentido, podemos questionar quem está produzindo um discurso acadêmico sobre “vitimização/mimimi” e por que o está produzindo – sendo garantida a liberdade científica e a liberdade de expressão em produzir este conhecimento, desde que estejamos alertas para possíveis abusos destas liberdades, os quais ocorrem quando esta é usada para propagar discursos de ódio (como no caso relatado no filme mencionado anteriormente).
No que tange ao discurso acadêmico sobre “vitimismo”, tomo a liberdade de questioná-lo, segundo diferentes pontos de vista, resumidos a seguir:
1) A partir da Sociologia: desde seus primórdios como Ciência, com as proposições de Augusto Comte e de Émile Durkheim, no século XIX, a Sociologia ancora-se em evidências empíricas para análise de fatos sociais. Em que pese todos os debates na área ao longo dos séculos, a demonstração concreta da realidade social continua a ser fundamental. Neste sentido, diversos dados estatísticos constatam o fato de que as mulheres são vitimadas na sociedade atual. Cito, por exemplo, os dados do Datafolha e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados pela grande mídia, os quais demonstram que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, e a cada hora, 503 mulheres são vítimas de agressão física.
2) A partir da Ciência Política: teóricos/as como Nancy Fraser e Axel Honneth tem demonstrado que, a partir de meados do século XX, uma nova pauta política emerge – a luta por Reconhecimento. Grupos sociais historicamente marginalizados (como mulheres e negros) deixam de concentrar suas lutas em conquistas objetivas, para abordar, também, uma pauta subjetiva, lutando pelo seu reconhecimento social e pelo reconhecimento dos problemas sociais, como o racismo e o sexismo. Neste âmbito, torna-se importante disputar e legitimar a categoria vítima, para que a sociedade reconheça o problema e adote medidas reparatórias.
3) A partir da Antropologia: esta área das Ciências Sociais traz à tona a importância de a ciência olhar para o ponto de vista do “nativo”. Ou seja, para a Antropologia, os/as agentes sociais precisam ser ouvidos e seus sentidos precisam ser evidenciados. Desta forma, a categoria vítima, entendida como categoria nativa, deve ser analisada pela importância que ela tem para àqueles/as que a enunciam e reivindicam. Ou seja, se as mulheres estão anunciando-se vítimas, a Ciência deve ouvi-las e compreender o sentido conferido por elas. Ainda dentro da Antropologia, há quem questione o excesso de foco na categoria vítima, bem como, o pouco destaque dado a agência das mulheres. Ainda assim, não é negada a estrutura social que vitima as mulheres.
4) A partir da Filosofia: seguindo uma linha de pensamento sob influência de Hannah Arendt, poder-se-ia refletir que a legitimação social da categoria vítima por determinado grupo social não pode (em um sentido abstrato relacionado com valores universais) servir como justificativa para determinados tipos de ação. Neste sentido, seria possível questionar algumas ações de certos grupos dentro do feminismo. Ainda assim, isto não se configuraria em deslegitimação da categoria vítima, tampouco, em legitimação da categoria “vitimismo”, mas em problematização sobre os usos desta categoria tendo em vista algumas consequências, para outros grupos e para o próprio movimento. Seguindo outra linha filosófica, ancorada na problematização nos contextos de produção de verdades (desde Nietzsche, passando por Foucault, Deleuze e Agamben), poder-se-ia refletir que a “vítima” não existe de maneira ontológica. A “vítima” seria uma construção social e histórica. Contudo essa construção está ancorada em hierarquias de poder. Isto significa, sobretudo em Foucault, que estão em jogo as disputas pelas verdades, as quais tem implicações concretas. Dizer que algum grupo é ou não vítima não significa considerar um grupo vítima a-historicamente, significa compreender o jogo de forças sociais no contexto atual que permite, ou não, a enunciação de um grupo como vítima, bem como, perceber quem ganha ou perde com essa enunciação. Ou seja, quem ganha e quem perde com a legitimação ou a deslegitimação das mulheres como vítimas? Certamente, a luta contra machismo ganha com a percepção coletiva de que o machismo existe e que este vitima as mulheres.
5) A partir da Teoria Feminista e dos Estudos de Gênero: desde a clássica Simone de Beauvoir, diferentes áreas do conhecimento científico têm demonstrado que “ser mulher” e “ser homem” são construções sociais que vão além de determinantes biológicos. Como construções sociais, os papéis de gênero, como definidos por Joan Scott, estão imersos em relações de poder (que operam nas dimensões política/institucional, material, normativa, cultural e subjetiva). Nas relações de poder (mesmo na perspectiva da microfísica foucaultiana) sempre há uma hierarquia, um exercício de subjugação do outro. Nas relações de poder de gênero, historicamente, as mulheres foram as maiores vítimas desse exercício de poder patriarcal. Destacando-se que o patriarcado é uma estrutura determinante da sociedade moderna, como demonstra Carole Pateman. Nesse campo, a categoria “vitimização/mimimi” parece impensável.
Por fim, entendo que é preciso fazer ecoar que: “Feminismo não é vitimismo!”
Autora
*Mariana Selister Gomes é Professora Adjunta do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (DCS/UFSM) e Professora Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe (PPGS/UFS). É Pesquisadora Associada do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NIEM/UFRGS). É Doutora em Sociologia pelo Instituto Universitário de Lisboa (CIES / ISCTE-IUL), com Tese, aprovada com distinção e louvor, sobre os Imaginários Coloniais e Sexistas em torno da “Mulher Brasileira” em Portugal e as diferentes formas de Resistência e Reexistência dessas Mulheres. Na época em que viveu em Portugal, foi uma das coordenadoras do “Manifesto contra o Preconceito às Brasileiras em Portugal”. Já atuou como pesquisadora da (infelizmente extinta) Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, investigando a Violência Simbólica contra Mulheres. Teve seu ensaio sobre Imaginários e Violência contra as mulheres premiado pela ONU-MULHERES.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Promotor paulista racista diz: "Negro em geral é catinguento, fede demais"








Por Luciana Oliveira
Promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Avelino Grota, usou o grupo MP/SP Livre no Facebook para falar de pobres, negros, babás e feios. “Quanto ao pobre, coitado, nasce feio e morrerá feio porque não tem dinheiro nem para comer direito”, escreveu. Grota diz que as mensagens eram ‘ironias’ contra a decisão judicial que arquivou investigação sobre a exigência de clubes paulistanos para que as babás usem uniforme branco.
No texto, postado entre os dias 25 e 26 de agosto, Grota ‘convida à reflexão’. Grota afirma que ‘não tinha muito o que fazer em casa e trabalhar estava fora de cogitação’.

“Analisei, ponderei e cheguei a algumas conclusões. Vamos a elas. Pobre, em regra, é feio; babá, em regra, é pobre; logo, babá, em regra, é feia”, escreveu. “E negro, como todos sabem, tem o péssimo costume de não dar muita atenção à higiene – tanto do corpo quanto da roupa”. Para o promotor, ‘o uso da roupa branca pelas babás é uma solução muito adequada’.

O promotor enumerou. “Em primeiro lugar, o branco é a cor da pureza, e, ao usar roupa branca, a babá, que é feia, se transforma, ficando um pouquinho menos feia – porque pureza não combina com feiura e, assim, passamos a dar mais atenção ao puro branco da roupa do que à feiura de quem a veste.”
“Em segundo lugar, roupa branca é a que suja com mais facilidade, e, desse modo, o patrão da babá verá mais nitidamente se a empregada está ou não limpa – e, se não estiver, ordenará imediata troca de roupa, precedida, é claro, de um banho, o que tornará a babá menos fedentina. Em terceiro lugar, roupa branca esquenta menos; portanto, a babá suará menos; por conseguinte, federá menos.”
O promotor disse ainda. “Em quarto lugar, como geralmente repugna ao bonito dar de cara com o feio, o uso de roupa branca permitirá aos mais sensíveis desviar-se a tempo do caminho, evitando encarar a feia criatura que verga o traje branco.”
“Em quinto e último lugar, a roupa branco também serve para que os novos capitães-do-mato, que nos clubes de ricos, são chamados de seguranças (e, mesmo sendo, em regra, negros, usam roupas pretas), possam ficar de olho nas babás, não para fins libidinosos, como é próprio dessa gente, mas para cuidar de que elas não se sentem em lugares proibidos a babás, não entrem em lugares vedados a babás e mesmo não comam e não bebam comidinhas e bebidinhas que babás não podem e não devem comer e beber.”