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domingo, 31 de maio de 2020

Manifesto une personalidades da esquerda à direita a favor da democracia

(Foto: Redes Sociais)
Um grupo de artistas, políticos, intelectuais, cientistas, organizações, empresas e pessoas de diferentes setores da sociedade se uniu em "defesa da vida, da liberdade e da democracia". O movimento Estamos Juntos, que já conta com mais de 6 mil assinaturas da esquerda à direita, divulgou um manifesto em jornais neste sábado, incluindo O GLOBO, exigindo que autoridades e lideranças políticas exerçam seu papel diante da crise sanitária, política e econômica que atravessa o país.
O escritor e colunista Antônio Prata, um dos organizadores do movimento, explica que a intenção do movimento e do manifesto é aglutinir personalidade, políticos e cidadãos de diferentes setores da sociedade e matizes ideológicos em defesa das instituições e contra um golpe contra a democracia.
- Temos Freixo, Fernando Henrique Cardoso, Boulos e Armínio Fraga no mesmo movimento. A intenção é barrar a ideia de um golpe. Eduardo Bolsonaro disse que não é uma questão de se, mas de quando. Bolsonaro passou a vida defendendo a ditadura e um golpe. Precisamos voltar a discordar dentro do rinque que é a democracia - conta Prata.
A ideia do movimento surgiu após um grupo de autoras e atrizes do Rio de Janeiro, encabeçado pela roteirista Carolina Kotscho, se unirem para fazer uma nota de repúdio às declarações da então secretária nacional de Cultura, Regina Duarte. Em entrevista à "CNN Brasil", a atriz minimizou os casos de tortura e as mortes causadas pela ditadura militar no país.
O movimento cresceu e ganhou aderência de diversos setores.
A lista inicial conta com nomes que vão desde o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) ao cantor Lobão. O manifesto ainda reúne personalidades como o apresentador e empreendedor Luciano Huck, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a atriz Adriana Esteves, a economista Elena Landau, o líder indígena Ailton Krena, João Paulo Capobianco, do SOS Mata Atlântica, e o escritor Antônio Prata.
De acordo com o manifesto, "como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum. Esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia".
- A esquerda vem falando muito só a esquerda. A ideia é ter um manifestado de frente ampla. 70% da população rejeita Bolsonaro. Há um discurso que é muito conveniente para o Bolsonarismo de que existe uma luta entre o bolsonarismo e a corrupção petista. De que só existem esses dois polos na sociedade. Se você não está com Bolsonaro, você é favor da corrupção. Não é verdade - diz Prata, que adianta que há outras inúmeras ações sendo pensadas: - Vamos fazer um festival de música - uma espécia de Virada Democrática - em transmissão online para dar visibilidade e aglutinir ainda mais pessoas para essa luta.
A economista Elena Landau destaca que o projeto é um movimento amplo para afirmar que o cenário de autoritarismo e corrupção não vai ser visto como um novo normal:
— O objetivo é a união acima de questões partidárias para barrar essa trajetória de autoritarismo e corrupção moral. Estamos dizendo que não vamos normalizar a barbárie. Bolsonaro criou um país onde não nos reconhecemos mais.
O ex-ministro da Educação e cientista político Renato Janine Ribeiro conta que decidiu apoiar o manifesto "ao lado de todos que estão contra essa divisão entre direita e esquerda e se unem pela democracia".
- O mais importante é o que nos une e não o que nos separa. E para lutar contra a barbárie é preciso se unir com todos que são contra ela. Só assim podemos salvar a democracia no Brasil, que está seriamente ameaçada. Espero que esses manifestos mostrem que a maioria da população está a favor da democracia e dos direitos humanos. Eles podem ajudar a mostrar que a maioria da sociedade apoia esses valores.
Já o Antonio Claudio Mariz de Oliveira, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP) e advogado criminalista, diz que o presidente Jair Bolsonaro não tem mais condições de governar e que é preciso reverter esse quadro
- É preciso agir para reverter esse quadro e a sociedade civil tem a palavra escrita ou oral como arma. Amanhã também será divulgado o manifesto Basta!, assinado por profissionais do Direito, que vai na mesma direção. O presidente Jair Bolsonaro perdeu a condição de governar o país. Está implantando uma intolerância raivosa e qualquer um que tenha opinião divergente dele vira inimigo, ao contrário do se entende por democracia. Esses manifestos podem ajudar o país dando voz aos cidadãos. É o que está ao nosso alcance. Se isso vai levar a um resultado A ou B, não sabemos. Mas o importante hoje é falar. É obrigação dos cidadãos. Inércia é cumplicidade.
O movimento pede a união dos setores democráticos da sociedade, apesar das ideias diferentes.
“Queremos combater o ódio e a apatia com afeto, informação, união e esperança. Vamos juntos sonhar e fazer um Brasil que nos traga de volta a alegria e o orgulho de ser brasileiro”, diz o manifesto.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Por quê a militância petista não engole Ciro Gomes?


Miguel do Rosário, via Facebook
Eu queria entender esse sectarismo anti-Ciro da militância petista.
Ciro Gomes foi fiel ao PT e a Lula do início ao fim. No mensalão, quando vários petistas pularam fora ou se acovardaram (inclusive muitos que hoje posam de valentões), estava lá, firme.
Hoje é crítico duro da condenação de Lula, sobre a qual afirma, categoricamente, que é injusta, agregando que leu a sentença com atenção e dá sua opinião inclusive como professor de Direito.
PT fez acordos inúmeros com a direita, com o PMDB, com diversos partidos conservadores, com Geddel, com Temer, com Cunha, e a militância sempre entendeu, em nome da governabilidade. Eu mesmo entendi, embora apontando que, sem estruturar uma comunicação autônoma, forte, o campo popular não conseguiria sustentar politicamente durante muito tempo suas iniciativas, e ficaria cada vez mais dependente da direita para governar.
Mesmo assim, entendi. E segurei as pontas. Ciro também. Foi ministro de Lula e se manteve leal, reitero, todo esse tempo.
Por que essa implicância agora com Ciro Gomes, que tem um programa econômico à esquerda do PT, que está num partido de esquerda, que tem ideias progressistas?
Se Ciro quisesse “trair” o PT, tê-lo-ia feito, como todo mundo, ao longo do processo de impeachment, não?
Todos os ministros do STF, indicados pelo PT, traíram o partido, traíram inclusive a Constituiçãopela qual juraram. Traidor é que não falta no Brasil, mas só podemos julgá-los como traidores depois que traírem. Chamar alguém de traidor antes da trairagem não é correto.
Além disso, a militância está caindo muito facilmente nas intrigas da mídia. A grande imprensa pinça uma frase de Ciro Gomes, para intrigá-lo contra o PT, e a militância acredita? Ora, antes de acusar Ciro por causa de frases jogadas pela mídia, assistam a entrevista, leiam a íntegra das respostas.
Acho que é o momento da esquerda petista calçar a sandália da humildade e entender que boa parte das desgraças que acometem o PT nasceram de erros do partido, a começar pela indicação de ministros do STF inteiramente descomprometidos com as causas democráticas e sociais do campo progressista-popular, incluindo aí a defesa das garantias e direitos fundamentais. Não só no STF. No STJ, nos tribunais de segunda instância, na PGR, o PT não teve uma visão estratégica no uso de suas prerrogativas presidenciais para nomear juízes.
Não só isso. O PT não produziu sequer um debate contra o estado de exceção. E não foi por falta de aviso. A Lava Jato mostrava as garras, e Dilma e seu ministro da Justiça batiam palmas para maluco dançar, ao invés de iniciar um enfrentamento republicano, democrático, transparente, duro, contra os arbítrios e abusos de poder da Lava Jato.
Na comunicação, nem se fala. O PT errou feio na comunicação, e esse não foi um erro menor: foi um erro de grandes proporções, que resultou num enfraquecimento histórico do campo progressista. Fortaleceram a Globo e enfraqueceram a mídia alternativa e as rádios comunitárias.
Lula é um preso político e foi condenado sem provas. Ele é inocente do caso triplex, mas não é inocente dos erros políticos, como o já mencionado processo de escolhas de ministros do STF, que resultaram em sua prisão. Obviamente ninguém deve ser preso por causa de erro político, mas é preciso entender que erros políticos trazem consequências graves, terríveis até, para aqueles que os cometeram.
Enfim, o PT e sua militância precisam, a meu ver, ajudar a esquerda a construir pontes entre si, e não dinamitá-las com julgamentos afobados, passionais.
Tenho impressão que muita gente que hoje condena Ciro Gomes sem nem ler o seu programa ou assistir com serenidade suas entrevistas vai acabar passando vergonha.
E, por favor, sem me xingar, sem inventar teorias de conspiração, sem insinuações baratas, e demais truculências.
Vamos debater na boa!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Batalha de ideias: Autocrítica da esquerda precisa refletir sobre comunicação


Por Emilly Dulce, do Brasil de Fato, para o Barão de Itararé
Fotos: Juliano Vieira/Brasil de Fato
Os instrumentos e linguagens da comunicação sindical e popular foi tema de discussão entre João Franzin, coordenador da Agência Sindical, e Altamiro Borges, autor do Blog do Miro e presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Com mediação de Renata Mieli, secretária geral do Barão e coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), os dois jornalistas apontaram, na quarta-feira (28), os erros, acertos e desafios da comunicação do campo progressista. A discussão fez parte do curso A comunicação para enfrentar os retrocessos,  promovido pelo Barão de Itararé.
Miro destacou a força e resistência da imprensa sindical brasileira, que chamou de “poderosa” ao citar exemplos de experiências da classe trabalhadora como o jornal Brasil de Fato, a TVT (TV dos Trabalhadores) e o Sindicato dos Bancários da Bahia, cujo boletim diário de notícias é uma referência para o setor. ”Se não fosse a imprensa sindical forte que nós temos no Brasil, a reforma da Previdência tinha sido aprovada”, argumentou.
Altamiro Borges: Se esquerda não abracar a disputa de ideias, golpe poderá se tornar irreversível. Foto: Juliano Vieira
Franzin compartilha da mesma ideia. Segundo ele, o jornalismo sindical “informa e massifica conceitos”, com ideias dinâmicas e energéticas. “A comunicação nesse momento ganha ainda mais importância porque é uma forma de massificar as convenções coletivas das categorias sindicais na base”. Para isso, ele defende a utilização de todas as plataformas de comunicação, dos meios escritos (boletins e jornais) aos instrumentos digitais (sites, rádio web e redes sociais, por exemplo), estimulando a interatividade com a base sindical.
Franzin também defendeu a implementação e valorização da comunicação comunitária. “As TVs comunitárias tem adensamento e prosseguimento. Se é uma TV com o perfil de fazer cobertura social, ela tem audiência”, destacou. Para maior unidade dos setores de comunicação, Franzin elencou alguns elementos importantes como: ser direto, claro e objetivo na linguagem, ter agilidade e trabalhar com regularidade, se adequando ao perfil do público-alvo (indústria, comércio, serviços, funcionalismo etc.).
Miro citou quatro desafios do jornalismo sindical: 1. pouca sinergia nas pautas, 2. ausência de maior politização nas diversas dimensões humanas, como esporte, cultura e comportamento, 3. pouca diversidade na utilização de instrumentos e plataformas de comunicação e 4. renovação da linguagem do movimento social e sindical.
O presidente do Barão definiu a comunicação como pivô da luta de ideias. “Uma questão decisiva é o debate eleitoral que vamos enfrentar este ano”, frente ao que ele definiu como uma “ofensiva mundial” na combinação de dois movimentos: ultraliberal (desmontes sociais, de nações e de Estados) e ultraconservador (onda neofascista de ódio e violência).
Segundo o jornalista, o clímax dessa combinação foi o golpe parlamentar de 2016, que destituiu uma presidenta eleita [Dilma Rousseff] por mais de 54 milhões de votos. Depois disso, Miro apontou que os retrocessos, apoiados pela mídia corporativa, se tornaram um processo contínuo, citando as reformas propostas por Michel Temer, os cortes de investimentos em direitos básicos e a perseguição ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na tentativa de inviabilizar sua candidatura ao pleito presidencial este ano. “A batalha por hegemonia é decisiva”, completou Miro.
Para Franzin, autocrítica do campo progresista precisa refletir sobre a comunicação. Foto: Juliano Vieira
Franzin acrescentou: “Nós, profissionais de comunicação, temos um desafio hoje que é o de garantir o que nós já conquistamos. Na crise, há dois departamentos fundamentais no sindicalismo: comunicação, na linha de frente, e jurídico, na retaguarda”. Além disso, o jornalista ressaltou as dificuldades de arrecadação diante de tantos ataques à classe trabalhadora, principalmente com a proposta de contribuição voluntária do imposto sindical.
Miro defendeu uma maior sindicalização através da comunicação como forma de reduzir a distância entre cúpulas e bases sindicais. “É fundamental que, evidentemente, levando a luta econômica e corporativa de cada setor, você politize o debate”. Para ele, a luta de classes possui três dimensões: a resistência política, a luta econômica e, por fim, a batalha ideológica. Segundo Miro, este é um momento de intensa luta de ideias frente a uma “regressão política e de costumes”. “Se não nos mobilizarmos, perderemos a batalha de ideias, como perdemos no golpe de 2016. Nada está definido. A única certeza que a gente tem é que ninguém tem certeza nenhuma. Não dá nem para saber se teremos eleições este ano”.
Para Franzin, “com as baterias carregadas”, o jornalismo sindical conseguirá organizar um planejamento estratégico mais efetivo, com investimentos e sindicalização dos profissionais da área. “A comunicação ajuda a resolver o maior problema político do movimento sindical hoje, que é o envelhecimento dos dirigentes e desgaste das instituições”.
Franzin ainda enfatizou a necessidade de autocrítica dos setores de esquerda. “A batalha não está perdida. Nosso campo foi muito afetado e agredido, mas cometeu muitos erros também. O que nós temos que fazer agora é uma autocrítica para reforçar o setor de comunicação como forma de dar energia e coesão ao nosso campo”.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

"É a primeira vez que sou impedido de cantar desde a ditadura", diz Caetano

Caetano Veloso foi à ocupação em São Bernardo (dir),
mas não contou. Imagem mostra vista aérea do local (esq)

O prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB), embargou o show do cantor Caetano Veloso no acampamento Povo Sem Medo, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), marcado para as 19 horas desta segunda-feira, 30. Trata-se da maior ocupação popular da América Latina.
A juíza Ida Inês Del Cid, da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo, definiu uma multa de R$ 500 mil caso o show fosse realizado, sendo “deferida ordem policial, caso necessário” (veja a decisão aqui).
A menos de três horas da hora marcada para a apresentação de Caetano, policiais e guardas civis impediram a entrada de equipamentos de som na Ocupação Povo Sem Medo.
A denúncia foi feita em rede social pelo coordenador do MTST, Guilherme Boulos. “A PM e a GCM acham que a vontade do prefeito Orlando Morando vale mais do que a Constituição”, afirmou o ativista (vídeo abaixo).
Segundo Boulos, a decisão rasgou a Constituição e a prefeitura, o Ministério Público e a Justiça agiram juntos para proibir o show.
“Esse prefeito deve estar morrendo de dor de cotovelo. Esses artistas todos reunidos aqui conosco é a melhor resposta. Foi dito, inclusive, que não podia-se permitir o show porque se tratava de uma ocupação ilegal. Na verdade, ilegal é esse terreno ter ficado 40 anos abandonado e dever R$ 500 mil de IPTU.”, afirmou.
Caetano foi à ocupação, mas obedeceu a decisão judicial e não cantou. O cantor ficou boa parte do tempo em uma tenda no local.
“Viemos aqui para cantar em ação de solidariedade ao movimento que vocês levam […] evitaram que isso acontecesse. Mas nós estamos juntos”, disse o cantor.
Em uma coletiva improvisada no local, Caetano disse que, entre as músicas que planejava cantar, estava “Gente”
Caetano ainda comparou a proibição de hoje aos tempos em que sofria censura na ditadura. “É preciso cantar porque há muitas dificuldades. Não sei se foi censura, não sou um técnico em questões legais, mas é a primeira vez que me impedem de cantar desde a redemocratização. A impressão é de que não se trata de um ambiente propriamente democrático. Acho que é má vontade deles (prefeitura e judiciário)”, afirmou.
VÍDEO:

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Belchior que a crítica vulgar não viu

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, cantor e
compositor brasileiro (reprodução)

Canções do compositor cearense debateram, desde os anos 1970, a alienação, as relações mercantis e a própria indústria cultural. Mas alguns procuraram enquadrá-lo como apenas um rapaz romântico.

Alberto Sartorelli, Outras Palavras
Que tal a civilização

Cristã e ocidental…
Deploro essa herança na língua
Que me deram eles, afinal.

– BELCHIOR, “Quinhentos anos de quê?”
(Bahiuno, 1993)


A imagem de Belchior vendida pela indústria cultural é a do artista brega, de voz fanha e bigodão – uma figura! Poucos prestam atenção nas letras. A forma simples de suas canções possibilitou sua assimilação pela indústria fonográfica, que criou-lhe uma imagem caricata e reproduziu suas músicas em massa, entre shows, premiações e programas de auditório, fazendo tábula rasa de seu conteúdo crítico. Belchior foi reduzido a um mero cantor romântico.
Em estética, o artista engajado politicamente deve escolher entre dois caminhos: o da forma artística de difícil assimilação – e remuneração! – para o público e para a indústria cultural; ou o da forma mais simples, de fácil assimilação do público e do show business. Ambas as opções estão fadadas ao silêncio político: uma não apela, a outra tem seu apelo anulado pela caricaturização. No fim, a indústria cultural impede que qualquer artista seja levado muito a sério, por seu ostracismo ou por sua redução a uma imagem vendável.
A especificidade de Belchior é a sua consciência perante esse processo todo. “Aluguei minha canção / pra pagar meu aluguel / e uma dona que me disse / que o dinheiro é um deus cruel / […] hoje eu não toco por música / hoje eu toco por dinheiro / na emoção democrática / de quem canta no chuveiro / faço arte pela arte / sem cansar minha beleza / assim quando eu vejo porcos / lanço logo as minhas pérolas” (TOCANDO POR MÚSICA, Melodrama, 1987).
Belchior demonstra uma compreensão total do processo de nivelamento – por baixo – da cultura por parte da indústria cultural, dificultando demasiado a ocorrência de composições com alto grau de complexidade – os artistas que se propõem a tal correm sempre o risco da miséria material e do esquecimento. Os próprios arranjos dos discos de Belchior são bem simples, com o teclado tendendo ao “engraçado”. Não é da mesma maneira em relação às letras, sempre de uma profundidade abissal e crítica ácida.
Belchior, antes de músico no sentido geral, é um compositor de canções. Cada autor encontra uma forma para se expressar: o ensaio filosófico, a pintura não-figurativa, a ópera, a canção. A canção foi a forma adequada que Belchior encontrou para transpassar seus pensamentos. É preciso ter em mente, ao pensarmos a obra de Belchior, um autor de vasta erudição, de poesia refinadíssima, conhecedor das línguas latinas e da literatura clássica, e um artista engajado politicamente de maneira radicalíssima. A partir da forma canção, Belchior oferece uma visão do Brasil e do mundo que pouquíssimos filósofos nascidos em nossas terras puderam vislumbrar. Como diz Nietzsche, o homem verdadeiramente de seu tempo sempre está à frente de seu tempo. É o caso de Belchior.
Uma das críticas mais ferrenhas do cancionista sobralino é contra a arte alegre, moda da época nos anos 1960-70. O filósofo Theodor Adorno, em sua Teoria Estética (1969) diz que a arte se utiliza de elementos da vida enquanto seus materiais; se a vida social é cindida pela divisão do trabalho, que separa o homem de sua produção e da natureza, e impede a felicidade enquanto reconhecimento recíproco entre sujeito e objeto, a arte que imita essa vida deve ser triste, como a própria vida. A arte alegre seria, então, ideológica, uma falsa verdade. A Bahia alegríssima de Caetano Veloso dos anos 1970 (a triste é de Gregório de Matos) não passa de logro, ilusão. “Veloso / o sol não é tao brilhante pra que vem / do norte / e vai viver na rua” (FOTOGRAFIA 3X4, Alucinação, 1976). Surpreendente o jogo de ambiguidade: “veloso” pode ser tanto um adjetivo do Sol, velando pelo migrante e suas dificuldades na metrópole, ou assumir outro sentido completamente oposto, identificado com o próprio Caetano enquanto imperativo moral – “Veloso (Caetano), veja!, para quem sofre, o sol não é tão brilhante quanto dizes”. Ou então esta outra: “Mas trago de cabeça uma canção do rádio / em que um antigo compositor baiano me dizia / tudo é divino / tudo é maravilhoso / […] mas sei que nada é divino / nada, nada é maravilhoso / nada, nada é sagrado / nada, nada é misterioso, não” (APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, Alucinação, 1976).
Chamado de “antigo”, pois já havia deixado de ser vanguarda e caído no pop, encontramos mais uma crítica a Caetano e sua composição “Divino Maravilhoso” (1968), em parceria com Gilberto Gil e que foi imortalizada na voz de Gal Costa. Vale notar, sem dúvida, que a crítica de Belchior a Caetano provém de alguma admiração: em entrevista ao Pasquim em 1982, Belchior diz que Caetano Veloso é o melhor letrista da MPB, “o autor da modernidade musical no Brasil”. Todavia, é com enorme verve materialista que ele fortemente rebate a letra de Caetano – “nada é divino, maravilhoso, sagrado, misterioso!”
O materialismo é um dos fundamentos da música de Belchior. Seus grandes inimigos são os escapistas, os fugidios, aqueles que diante de crenças metafísicas falam de uma vida reconciliada, feliz. Musicalmente representada na Tropicália, essa ideia era disseminada pelos hippies, com a cabeça feita por alucinógenos e um mix de espiritualidade. A resposta do materialista é ácida [sic]. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria / em nenhuma fantasia / nem no algo mais / nem em tinta pro meu rosto / oba oba, ou melodia / para acompanhar bocejos / sonhos matinais / eu não estou interessado em nenhuma teoria / nem nessas coisas do oriente / romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia-a-dia / e meu delírio é a experiência / com coisas reais” (ALUCINAÇÃO, Alucinação, 1976). É como se Belchior dissesse que não é por estar num registro de experiência desconhecido que essa experiência é necessariamente divina; especular metafisicamente sobre isso não passa de teoria vazia. E que o importante não é o plano espiritual, mas este aqui, o da miséria e do sofrimento, a realidade empírica e social.
Aos 29 anos em 1976, quando do lançamento do álbum Alucinação, Belchior teve o tempo, a maturidade e o olhar aguçado para ver a dissolução do sonho pacifista de liberdade. Os libertários de outrora logo se tornaram os burgueses. “Já faz tempo / eu vi você na rua / cabelo ao vento / gente jovem reunida / na parede da memória / esta lembrança é o quadro que dói mais / minha dor é perceber / que apesar de termos feito / tudo, tudo o que fizemos / ainda somos os mesmos e vivemos / como os nossos pais / […] e hoje eu sei / que quem me deu a ideia / de uma nova consciência e juventude / está em casa guardado por Deus / contando seus metais” (COMO OS NOSSOS PAIS, Alucinação, 1976). É curioso notar que foi exatamente “Como os nossos pais”, na magnífica voz de Elis Regina, a canção que colocou Belchior de fato no mercado fonográfico.
O radicalismo político de Belchior tem seu principal fundamento na crítica do dinheiro em si e do trabalho alienado, uma crítica mais profunda do que a mera crítica do capitalismo. O dinheiro é tratado enquanto fetiche e abstração, mas também enquanto necessidade material e fonte da corrupção moral. “Tudo poderia ter mudado, sim / pelo trabalho que fizemos – tu e eu / mas o dinheiro é cruel / e um vento forte levou os amigos / para longe das conversas / dos cafés e dos abrigos / e nossa esperança de jovens / não aconteceu” (NÃO LEVE FLORES, Alucinação, 1976). E é o trabalho aquilo separa o homem da natureza, exterior e interior, desumanizando-o. “E no escritório em que eu trabalho e fico rico / quanto mais eu multiplico / diminui o meu amor” (PARALELAS, Coração Selvagem, 1977). Por isso, o aspecto político da obra de Belchior ultrapassa a defesa do socialismo centralista ou qualquer outro sistema que envolva a burocracia. O problema é um problema fundamental, primeiro, filosófico: a civilização. “Aqui sem sonhos maus, não há anhanguá / nem cruz nem dor / e o índio ia indo, inocente e nu / sem rei, sem lei, sem mais, ao som do sol / e do uirapuru” (NUM PAÍS FELIZ, Bahiuno, 1993). Profundo como um antropólogo anarquista, um Pierre Clastres da canção, a crítica mira o fundamento da coisa: a racionalidade ordenadora, dominadora, instrumental, como fora notado por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento (1946).
Belchior faz as denúncias fundamentais; sua arte é hegemonicamente negativa. Todavia, há um resquício de esperança nessa visão do Apocalipse, mesmo que a esperança fale sobre o que não deve ser. Nada absurdo para o cancionista sobralino, pois para ele a sociedade é ruim por excesso, não por falta. “Não quero regra nem nada / tudo tá como o diabo gosta, tá / já tenho este peso / que me fere as costas / e não vou, eu mesmo / atar minha mão / o que transforma o velho no novo / bendito fruto do povo será / e a única forma que pode ser norma / é nenhuma regra ter / é nunca fazer / nada que o mestre mandar / sempre desobedecer / nunca reverenciar.” (COMO O DIABO GOSTA, Alucinação, 1976). “Como o diabo gosta” deveria ter sido um hino da liberdade; passou despercebida, sem ninguém contestar a “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré, 1968) o posto de canção de protesto.
Para Belchior, as palavras são um instrumento de luta política, do despertar da consciência contra a opressão e seus mecanismos ideológicos. “Se você vier me perguntar por onde andei / no tempo em que você sonhava / de olhos abertos, lhe direi / amigo, eu me desesperava / […] e eu quero é que esse canto torto feito faca / corte a carne de vocês” (A PALO SECO, Alucinação, 1976). Para tal intento, sua canção deve ter um quê de dissonância para com o sistema estabelecido, e em vez de cantar as “grandezas do Brasil”, tem de denunciar os horrores de uma sociedade civil falida. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve / correta, branca, suave / muito limpa, muito leve / sons, palavras, são navalhas / e eu não posso cantar como convém / sem querer ferir ninguém / mas não se preocupe meu amigo / com os horrores que eu lhe digo / isso é somente uma canção / a vida realmente é diferente / quer dizer / a vida é muito pior” (APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, Alucinação, 1976). Se a arte é a mímese da vida, toda arte, por mais verdadeira que seja enquanto parte, não dá conta do todo. A realidade é pior do que a tristeza que a arte transpassa, e pior do que o pesadelo em sonho. É essa realidade que importa mudar.
Um mecanismo utilizado nas letras e nas melodias de Belchior é o da aproximação perante o ouvinte. Cearense, migrante, que na cidade grande sofreu, tocou em puteiros, foi explorado para “fazer a vida”. “Pra quem não tem pra onde ir / a noite nunca tem fim / o meu canto tinha um dono e esse dono do meu canto / pra me explorar, me queria sempre bêbado de gim” (TER OU NÃO TER, Todos os sentidos, 1978). É assim, por meio de sua experiência de vida trash, que Belchior realiza o approche para com o ouvinte. Ritmo simples e letra aguda, essa foi a aposta do cancionista para a politização da massa. “A minha história é talvez / é talvez igual a tua / jovem que desceu do norte / que no sul viveu na rua / que ficou desnorteado / como é comum no seu tempo / que ficou desapontado / como é comum no seu tempo / que ficou apaixonado e violento como você / eu sou como você que me ouve agora” (FOTOGRAFIA 3X4, Alucinação, 1976). Ao dizer “eu sou como você”, Belchior almeja arrebatar o outro como identidade, e trazer à tona a revolta contra a opressão; seu público – alvo, escolhido a dedo, não é o intelectual burguês letrado, mas o pobre que vai ao boteco depois da jornada de trabalho; ele o reconhece como indivíduo ativo a ser despertado: o sujeito revolucionário. Mas é claro que a indústria cultural fez de tudo para anular esse conteúdo: em plena ditadura militar, transformaram Belchior numa personagem caricata, num astro romântico, o galã de “Todo sujo de batom” (Coração Selvagem, 1977).
Belchior sabe, desde muito tempo, que “Eles venceram / e o sinal está fechado pra nós / que somos jovens” (COMO OS NOSSOS PAIS, Alucinação, 1976). Mesmo assim, não foi em vão seu esforço: além de todas as canções citadas até agora, ainda há muitas outras de conteúdo crítico ferrenho, como por exemplo “Pequeno perfil de um cidadão comum” (Era uma vez um homem e seu tempo, 1979), uma epopeia sem o elemento épico, que fala de como é vã a vida do sujeito raso, de gosto pouco refinado, cuja finalidade é voltada ao trabalho; “Arte Final” (Bahiuno, 1993), grande canção sobre tudo aquilo que deveria ter acontecido e não aconteceu; ou “Meu cordial brasileiro” (Bahiuno, 1993), que identifica a tese do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil, 1936), o elemento diferenciador do brasileiro, com o aspecto consentido do nosso povo perante a política e o trabalho. Belchior teve sua poesia impregnada pela frustração de não ter podido colocar em prática o projeto por um mundo melhor, e sua música é mais verdadeira e mais revolucionária por isso: não promete a felicidade, mas escancara a impossibilidade dela no estado de coisas vigente.
No fim, em meio a essa cena sombria, nos tempos dele e no nosso tempo de agora, ainda há alguma esperança. Para Belchior, mais importante do que a filosofia ou a arte é a vida. “Primeiro o meu viver / segundo este vil cantar de amigo” (AMOR DE PERDIÇÃO, Elogio da Loucura, 1988). Sua filosofia é oposta à de Caetano: se para o compositor baiano, quem “mora na filosofia” está separado dos sentimentos humanos, a filosofia de Belchior provém da experiência; é pensamento vivo. “Deixando a profundidade de lado / eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia / fazendo tudo de novo / e dizendo sim à paixão / morando na filosofia” (DIVINA COMÉDIA HUMANA, Todos os sentidos, 1978).
Marcado no cancioneiro latino-americano como uma de suas grandes vozes, Belchior foi um mestre da poesia. Foi assimilado pela indústria cultural, de fato, como Mercedes Sosa ou Che Guevara. Ele se jogou na contradição da música popular, assim como qualquer um se joga nas contradições da lógica do trabalho. Assimilado, mas não rendido. “Marginal bem sucedido e amante da anarquia / eu não sou renegado sem causa” (LAMENTO DE UM MARGINAL BEM SUCEDIDO, Bahiuno, 1993). Não é por ter sido reproduzido e veiculado pela indústria cultural que Belchior perdeu totalmente a sua virulência: ela se mantém viva em ouvintes atentos que, como nós, encontram nele uma manifestação da consciência de seu tempo, e mais: a esperança de um mundo melhor, inteiramente outro. Por agora, o importante é viver. “Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa / e não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza / sempre é dia de ironia no meu coração” (NÃO LEVE FLORES, Alucinação, 1976). Belchior, como Nietzsche, diz sim à vida, apesar de tudo, e talvez por isso tenha caído fora dessa loucura midiática que é a vida de um artista famoso sempre sob os holofotes.
Em relação às dúvidas acerca de seu paradeiro, que me perdoem os escandalizados, mas a letra já estava dada há muito tempo. “Saia do meu caminho / eu prefiro andar sozinho / deixem que eu decido a minha vida” (COMENTÁRIO A RESPEITO DE JOHN, Era uma vez um homem e seu tempo, 1979).

terça-feira, 10 de maio de 2016

PCdoB: plebiscito por “diretas já” fortalece a luta contra o golpe

Segue a íntegra da resolução assinada pela Comissão Política Nacional: 

Plebiscito por “diretas já” fortalecerá luta contra o golpe!

Em 17 de abril último – depois de um ano e três meses de pesada ofensiva da oposição neoliberal, da grande mídia, de amplas camadas das classes dominantes em conluio aberto com setores do aparato jurídico e policial acoplados à Operação Lava Jato –, a Câmara dos Deputados abriu as portas para ser consumado um golpe de Estado no país, ao aprovar, por maioria de votos, a admissibilidade de um impeachment sem base jurídica, portanto, fraudulento, contra o mandato legítimo da presidenta Dilma Rousseff.

A batalha decisiva está sendo travada, agora, no Senado Federal, que consolidará ou refutará o golpe. Por isto, a resistência democrática, nas ruas, nas tribunas, em atos e manifestos, canalizará suas ações para derrotar esse impeachment golpista no Senado, em todas as fases, até o julgamento desse processo. Nesta jornada, destacam-se as manifestações do 1º de Maio contra o golpe, em defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores e do povo, fortemente ameaçados por uma pauta eivada de neoliberalismo selvagem do pretenso governo do golpista Michel Temer.

Nesta hora grave da história do país, o PCdoB apresenta – para exame das amplas forças democráticas e populares que lutam contra o golpe – a proposta de que venhamos a batalhar pela convocação de um Plebiscito no qual o povo seja chamado a decidir pela realização imediata de eleições diretas para presidente da República.

A vitória dos golpistas na Câmara maculada por fatos irrefutáveis

No golpe em andamento, não são usados tanques, nem metralhadoras, como em 1964, conforme frisou a própria presidenta Dilma, mas, igualmente ao que ocorreu naquela ocasião, foi rasgada a Constituição Federal e mutilada a democracia. 

Busca-se cassar um mandato, sufragado por 54 milhões de votos, de uma presidenta honesta, que não cometeu crime algum, conforme está patente na sua defesa – juízo corroborado por milhares de juristas e advogados, endossado por um elenco de personalidades do mundo das ciências, das artes e da cultura do país e respaldado pelo povo que foi e está nas ruas contra o golpe, em manifestações organizadas e espontâneas às quais se somaram e seguem a se somar centenas e centenas de milhares.

O processo da Câmara foi conduzido pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha, réu no Supremo Tribunal Federal (STF), investigado por crimes de corrupção por um número de inquéritos que se avoluma a cada semana, num acordo espúrio com o vice-presidente Michel, que se revelou um conspirador, e o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, um dos chefes políticos do golpe.

Pela barganha, Cunha, ostentando cinismo, se mantém no mandato e no posto, como até agora acontece. Temer pretende chegar ao Palácio do Planalto pela porta dos fundos, sem voto popular, e ao golpista Aécio, e ao seu partido, o PSDB, está prometido um quinhão do botim, um pedaço do pretenso governo Temer. 

Além de ser fruto dessa barganha, e também inconstitucional, o impeachment foi ungido numa sessão que envergonhou e indignou a opinião pública brasileira e mesmo estrangeira pelo que se viu, desde baixarias circenses até a apologia à tortura; e ainda, pelo que não se viu, conforme relatos na imprensa de negociatas inomináveis. Os golpistas venceram, mas se desnudaram, revelando-se quem verdadeiramente são ao vivo e a cores – para o espanto e o horror do povo.

A luta contra o golpe no Senado Federal

Confrontado, internamente, pelas forças democráticas e populares do país, contestado internacionalmente por instituições, personalidades e mesmo pela grande mídia de vários países, agora o golpe marcha no Senado que, em sessão prevista para o próximo dia 11 de maio, ou afastará a presidenta Dilma Rousseff do cargo, para em seguida julgá-la, ou arquivará o processo do impeachment.

Com o objetivo de conquistar os 54 votos necessários para o afastamento em definitivo da presidenta Dilma, Michel Temer, mesmo antes das deliberações do Senado, já “nomeia” ministros, distribui cargos – ao que, também, dá respostas às cobranças oriundas da Câmara por parte daqueles que votaram pelo impeachment sob a promessa de recompensas.

O PCdoB enaltece a resistência democrática que cresce e se eleva, sublinha o relevante papel de mobilização do povo e dos trabalhadores da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo, da atuação corajosa das bancadas dos partidos de esquerda, PCdoB, PT, PDT, PSOL e de parlamentares de outras legendas, bem como aponta como indispensável a tomada de posição de amplos setores progressistas da sociedade, e conclama a todos para que sigamos juntos, revigorando as mobilizações e ações para persuadir e pressionar os senadores e senadoras a votarem em defesa da democracia, preservando o legítimo mandato da presidenta Dilma.

A luta articulada entre os senadores e senadoras que se opõem ao golpe e a resistência democrática nas ruas e em outros palcos irá a cada fase, a cada dia, através de uma agenda diversificada e crescente, desmascarar jurídica e politicamente o processo do impeachment e derrotá-lo.

A Nação sob grave ameaça

O Partido reitera a denúncia e reafirma sua posição: trata-se de um golpe contra a democracia, contra o povo e a Nação, tal e qual outros que infestaram a história da República.

Caso o golpe se imponha, longe de instaurar um governo de “salvação nacional”, como propagandeiam, entronizará um governo ilegítimo, cujos programa, pacto de classes, partidos e forças que o enlaçam indicam que enquanto ele durar será um governo de traição nacional, de desfiguração antidemocrática e antinacional da Constituição de 1988, de entrega da riqueza do Pré-Sal às multinacionais, de privatizações, de tutela do Banco Central pelo rentismo, de enfraquecimento dos bancos públicos enquanto alavancas do desenvolvimento, de corte de direitos trabalhistas e previdenciários, desmonte de programas sociais, retrocesso político e perseguição aos movimentos sociais.

Ilegítimo, o governo imposto não teria autoridade para tirar o país da crise, muito menos para pacificá-lo. Ilegítimo, será confrontado pelas forças democráticas e populares.

Plebiscito: que o povo decida o caminho para se restaurar a democracia!

Ante o risco iminente de ruptura de um ciclo contínuo de 31 anos de democracia – que, se concretizado, irá provocar uma fratura institucional de graves consequências –, ante tão grave ameaça, o PCdoB apresenta para o exame das amplas forças democráticas do país a proposta de que seja realizado um plebiscito, no qual o povo, no exercício de sua soberania, decida sobre a convocação imediata de eleições presidenciais. O plebiscito está grafado na Constituição e a soberania do voto popular é o alicerce no qual está erguida a Carta Magna.

O país caminha para um impasse, para divisões, para o encastelamento de um governo ilegítimo, quando, exatamente para superar a crise política e econômica, a Nação precisa de coesão, de legitimidade e de mais democracia. Somente a soberania do voto popular poderá oferecer ao país esses atributos e qualidades. Um presidente sem votos não será um presidente, será um impostor. Não unificará o Brasil, irá dividi-lo.

Que diante dessa grave ameaça, desse impasse, o povo seja chamado a decidir pelo melhor caminho para se restaurar a democracia. Para o PCdoB, esse caminho são as eleições presidenciais diretas, já!

A luta pela realização do Plebiscito, por eleições já para presidente, seria levada a cabo simultaneamente à batalha contra o impeachment no Senado Federal, até o último minuto. E até a última etapa, que é o julgamento, lutaremos no Senado para derrotar o golpe.

Finalmente, o PCdoB conclama sua militância e conjunto das forças populares e democráticas para que se empenhem ao máximo pela realização massiva e vitoriosa em todo o país do 1º de Maio e que a mobilização prossiga em variados palcos e formas.

São Paulo, 29 de abril de 2016
A Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil – PCdoB

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Frentes se unem para levar 100 mil em marcha a Brasília

A Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo prometem realizar uma grande mobilização nacional com 100 mil trabalhadores e estudantes em uma Marcha a Brasília no próximo 31 de março. 

Em nota, as frentes – que reúnem centenas de entidades do movimento social – anunciaram que o Dia Nacional de Lutas contará ainda com ações nas principais cidades brasileiras.

Segundo os organizadores, a mobilização unitária conta com cinco eixos de luta: Contra a Reforma da Previdência; Não ao Ajuste Fiscal e cortes nos gastos sociais; Em defesa do Emprego e dos Direitos dos Trabalhadores; Fora Cunha; Contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O conjunto das pautas desta jornada será apresentado nos próximos dias em uma Carta Convocatória. 

Na próxima segunda-feira (22), haverá mais uma plenária nacional da Frente Brasil Popular no colégio Pio XI, na Lapa, em São Paulo-SP.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

“A esquerda precisa se reorganizar”

Por Sérgio Lirio
Flávio Dino, governador do Maranhão, fala sobre o Brasil e seu estado
Nenhum governador assumiu tarefa tão espinhosa quanto o simpático Flávio Dino, do PCdoB. Cabe a ele administrar a herança de mais de quatro décadas, com raríssimas e curtas interrupções, do reinado da família Sarney no Maranhão. Não bastasse, o País atravessa um momento econômico difícil e o governo federal, de quem o estado depende, faz cortes profundos nos gastos públicos. Desesperador? Não para Dino. A seguir, de forma serena, o governador analisa a crise nacional e os desafios de governar as unidades da Federação mais pobres do Brasil e prega a reinvenção das esquerdas.
CartaCapital: Como estavam as contas do estado quando o senhor assumiu?
Flávio Dino: Infelizmente, a situação era pior do que imaginava. Havia muitas dívidas ocultas, não informadas durante a transição de governo. Parte desse endividamento deu-se após a renúncia da governadora Roseana Sarney. Tínhamos um diagnóstico oficial, mas descobrimos dívidas com a companhia de energia, créditos tributários em poder de empresas do setor de combustíveis...
CC: De quanto?
FD: Nos dois casos, passam de 200 milhões de reais.
CC: O Maranhão depende muito dos repasses e dos programas sociais do governo federal. O senhor tem sentido os impactos do ajuste fiscal?
FD: A situação econômica nacional tem vários aspectos preocupantes. O primeiro é o fato de a crise mundial ter afetado os preços das commodities. Caiu o preço do ferro, por exemplo, e isso afeta bastante as exportações realizadas pela Vale por meio do porto do Maranhão. Por causa dos problemas na Petrobras, perdemos a refinaria que seria construída no estado. E há o temor de forte queda nos investimentos de programas federais, entre eles o Minha Casa Minha Vida, vital por sua capacidade de gerar empregos. O desenvolvimento regional não acontece por si só. Depende do crescimento nacional. Um alívio vem do agronegócio, que continua firme. Por isso é fundamental uma agenda pós-ajuste. O acerto das contas não pode ser um fim em si mesmo.
CC: A esquerda parece ter perdido o debate econômico e social. Como erguer a cabeça?
FD: É central que o governo recupere a governabilidade social, não apenas institucional. E isso se faz com novas políticas, novos programas e ações transformadoras, em especial na direção da distribuição de renda e da inclusão. Mas não basta. A esquerda precisa se reorganizar. Há um claro desgaste do papel de liderança do PT. Não vou entrar no mérito se isso acontece em razão das virtudes ou dos defeitos do partido. A pergunta a ser feita é: o que se colocaria no lugar?
CC: O quê?
FD: Imagino um agrupamento semelhante à Frente Ampla Uruguaia ou à Concertação Chilena. Um rearranjo institucional baseado nos partidos existentes. Eles não seriam dissolvidos, mas transformados a partir de um novo programa capaz de reconectar o pensamento progressista com o sentimento da maioria. É impossível qualquer força de esquerda prosperar se ficar isolada da população.
CC: O senhor concorda que o brasileiro é mais conservador do que aparentava?
FD: Nossa história recente contraria essa tese. Não acho que esse avanço conservador represente algum movimento estruturado. Faz parte da conjuntura. De um modo geral a esquerda tem a estratégia correta no Brasil, defender os interesses e o desenvolvimento nacional, a soberania, a participação do povo, a inclusão social e a distribuição de renda.
CC: O senhor vê riscos à continuidade do mandato de Dilma Rousseff?
FD: Não. Inexiste base constitucional e jurídica para um impeachment. Achar que as tais pedaladas fiscais sejam motivo é ignorar a Constituição. Trata-se, inclusive, de uma prática corriqueira. Mas o direito não explica o mundo, por isso o governo precisa se atentar mais à política.
CC: Um dos mais graves problemas herdados pelo senhor foi a tensão no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Uma comitiva de militantes de direitos humanos visitou, recentemente, a penitenciária e constataram que as violações continuam. Por que é tão difícil mudar essa situação?
FD: Assumimos há seis meses. Apesar do pouco tempo, existe em vários setores um reconhecimento das medidas tomadas para melhorar a situação. Discutimos com o Supremo Tribunal Federal, o Ministério da Justiça, o Ministério Público e os Três Poderes do Maranhão um redesenho do sistema penitenciário. Entre agosto deste ano e novembro de 2016, pretendemos entregar a reforma de unidades e alguns presídios novos. Essas obras vão permitir mudanças nas condições carcerárias de Pedrinhas. Mas não estamos de braços cruzados. Desde o início do mandato tomamos as providências para acabar com as terceirizações nas penitenciárias. Neste momento, atuamos para substituir 960 terceirizados pelo equivalente de funcionários concursados.
CC: As entidades de direitos humanos citam casos de violência e intimidação em Pedrinhas.
FD: Estamos à espera de que as entidades apontem claramente os fatos. Minha determinação é clara: as más condutas serão apuradas e punidas. Temos uma reunião marcada com representantes de organizações de direitos humanos para ouvir o relato dos acontecimentos. Tivemos uma redução de 63% no número de mortos no sistema. Não desvalorizo as quatro mortes ocorridas neste ano. São terríveis, lamentáveis. Mas antes eram 15, 20 mortes no mesmo período. Melhoramos a alimentação dos presos, humanizamos os espaços, preparamos a reforma e a construção de áreas de trabalho. Tudo é, no entanto, um processo. Não tenho a pretensão de em seis meses resolver todos os problemas daquele que já foi tido como o pior sistema penitenciário do Brasil. É preciso ponderação, equilíbrio, para apontar as coisas negativas e reconhecer avanços concretos.