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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Projetos voluntários ajudam na construção de casas em comunidades de baixa renda

Voluntários do TETO em ação na comunidade
 Vila Esperança, na Bahia.
(Foto: Reprodução/Facebook)
A ideia de formar mutirões e ajudar na construção de moradias para pessoas que necessitam de ajuda para viver com mais dignidade não é nova, mas nos últimos anos a prática vem ganhando força com a iniciativa de ONGs que se engajaram nessa prática, inclusive aqui no Brasil. Um exemplo é a organização latinoamericana Um Teto Para Meu País, mais conhecida como TETO, que busca superar a situação de extrema pobreza, vivida por muitas comunidades, por meio da ação conjunta entre moradores e jovens voluntários.

De acordo com o último relatório publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), no qual foi feito um balanço sobre as metas para o milênio, o número de pessoas que ainda vivem na pobreza extrema, com menos de 1,25 dólares por dia, tem diminuído consideravelmente ao longo do tempo, porém, ainda existem cerca de 800 milhões de indivíduos pelo mundo que enfrentam essa situação.
O grupo TETO foi fundado em 1997, no Chile, com o objetivo de amenizar este estado de dificuldade. Uma das principais propostas de trabalho é focar na construção de casas de emergência para os assentamentos mais precários e excluídos dos países da América Latina. Em longo prazo, eles também ajudam a projetar metas de desenvolvimento social para estas comunidades. Hoje, a organização faz trabalhos em 15 nações diferentes: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, Colômbia, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai, Panamá, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.
Voluntários do TETO em ação na comunidade
 Vila Esperança, na Bahia.
 (Foto: Reprodução/Facebook)
Eles trabalham em conjunto com voluntários e as pessoas das comunidades que eles atendem. Essas comunidades são selecionadas por meio de uma pesquisa feita pela equipe da ONG, que avalia diversos locais em condições de pobreza, onde estão as famílias mais vulneráveis.
Quando eles visitam o local escolhido, é feito um levantamento socioeconômico. Essas informações vão ajudar a planejar os projetos comunitários de maior emergência, como a construção de moradias. Segundo a arquiteta curitibana Bruna Gregorini, que é uma das voluntárias da ONG, o diagnóstico ajuda a detectar as principais demandas para melhorar a qualidade de vida nestes ambientes.
As casas são pré-fabricadas e custam pouco mais de R$ 3 mil cada uma. A quantia é arrecadada com colaborações de pessoas físicas e jurídicas, que podem ajudar com qualquer valor. Para ter mais resultado com as doações, o TETO organiza campanhas de coleta, com ações de recolhimento feitas pelos voluntários. Eles também postam vídeos destes eventos no YouTube, que são lincados nas redes sociais, aumentando a visibilidade para a arrecadação.
A arquiteta Bruna (segunda à direita) e outros
voluntários fazendo umlevantamento socioeconômico.
Junto está a Dona Irene, que recebeu a ajuda
do TETO, no Paraná.
(Foto: Divulgação)
Este projeto é considerado uma ação de curto prazo. Durante o período, a equipe permanente de voluntários do TETO trabalha com os moradores pela mobilização e organização comunitária. Em longo prazo, acontecem diversos diálogos com líderes comunitários para garantir que as primeiras ações sejam duráveis, apenas um ponto de partida para que a comunidade comece a se desenvolver. Segundo Bruna, o objetivo final pretendido pela ONG é que a população que está recebendo o apoio consiga se tornar autônoma.
O TETO costuma funcionar como um guia para a comunidade. Além de solucionar os problemas de moradia, nós ajudamos eles a detectarem outros problemas de cunho social e político e mostramos o caminho do que precisa ser feito para resolvê-los, com os procedimentos que devem ser adotados junto das autoridades. Uma vez que eles consigam tomar a iniciativa de conquistar seus direitos para uma vida mais justa, o nosso trabalho está concluído, porém, vale ressaltar, que estaremos sempre prontos para retornar e dar mais suporte para qualquer outro obstáculo encontrado.
Bruna se interessou em fazer parte da ONG em 2011. Na época, ela fazia os trabalhos de construção, em ações mais pontuais. Ela se identificou muito com o trabalho por conta da sua profissão. Mas depois da sua primeira ação, ela diz que a experiência ganhou um significado ainda maior. “Foi transformadora para mim. Ter o contato com uma realidade tão diferente da minha e que ao mesmo tempo está ali, tão próxima, basta querer enxergá-la”. Poder participar destas mudanças deu um novo propósito para a vida da arquiteta, ela tinha muita vontade de participar de algum projeto comunitário e a possibilidade de fazer parte do TETO superou a sua expectativa. Hoje é voluntária fixa da organização e, com um grupo de amigos, conseguiu expandir as ações para o estado onde vive, no Paraná.
Equipe do “Habitat para a Humanidade Brasil”
durante q ação realizada em uma comunidade de Recife.
(Foto: Reprodução/Facebook)
Outra ONG que tem uma proposta parecida com a do TETO é a Habitat para a Humanidade Brasil (HPH), que também tem como causa a viabilização da moradia como um direito humano fundamental. Ela faz parte da rede internacional Habitat for Humanity (HFH), fundada em 1976 e presente em 70 países. A HPH, entidade nacional, já desenvolveu projetos em 11 estados brasileiros ajudando diversas comunidades a se desenvolverem.
Ambas as organizações apoiam o desenvolvimento de comunidades por meio de ações de construção, reforma e melhoria de unidades habitacionais. Além de ajudarem na regularização urbanística e fundiária de assentamentos. O objetivo dessas ações é para que famílias e comunidades em situação de vulnerabilidade tenham um lugar seguro para viver e se desenvolver.
Como faço para participar?
Todas as informações sobre doações e inscrições para os voluntariados estão descritas no site do TETO. Com apenas alguns cliques em diferentes abas você escolhe de que forma deseja contribuir, e em qual estado você vai atuar.
Já na HPH, as opções de voluntariado podem ser acessadas clicando aqui.
Pegada ambiental
Outras iniciativas não possuem o mesmo impacto que o TETO e a HPH, porém, a partir de ações menores, também têm ajudado populações mais carentes no seu desenvolvimento. O Low Construtores Descalzos, por exemplo, é formado por um grupo de amigos, que se uniram em uma espécie de caravana, para atender comunidades mais isoladas.
Caravana do “Low Construtores Descalzos”.
(Foto: Divulgação/Low Construtores Descalzos)
A organização atua aqui no Brasil e é formada por arquitetos, historiadores, jornalistas e educadores de diferentes lugares mundo, entre eles tem gente do México, Portugal e da Ucrânia. Além de planejar ambientes, eles promovem oficinas e palestras sobre formas de construção sustentáveis e educação ambiental.
A equipe está desde 2012 na estrada. Neste tempo, eles já trabalharam com povos indígenas da Amazônia e no sul da Bahia, fazendo parte da construção de uma espécie de maternidade, na comunidade de Piracanga, que foi edificada pelos próprios moradores do local. O propósito de seu trabalho é contribuir para um mundo mais justo, sustentável e diversificado.
Projeto do “Low Construtores Descalzos”
sendo construído. (Foto: Divulgação/ “Low
Construtores Descalzos”)
O Low Construtores Descalzos foca seus conhecimentos em três diferentes frentes: educação, arquitetura e bioconstrução.
Na primeira, eles saem Brasil adentro oferecendo oficinas e palestras sobre novas formas sustentáveis de construção, com o objetivo de disseminar essas ideias.
A segunda frente é voltada para a construção de projetos arquitetônicos criados por eles mesmos. O grupo defende a ideia da arquitetura orgânica, uma linha de pensamento desenvolvida por Frank Lloyd Wright, que acreditava que uma casa deve nascer para atender as necessidades das pessoas, e que esta construção influenciaria profundamente seus moradores.
E, por fim, a terceira frente é a bioconstrução, que envolve o uso de materiais naturais, como barro, madeira, palha, areia ou o bambu – geralmente o que é mais abundante em cada região. Eles também usam métodos de reaproveitamento e cuidado das águas negras (sanitárias) e cinzas (chuveiros e torneiras), filtros biológicos, banheiros secos, iluminação natural e por aí vai.
Projeto envolvendo o uso de materiais naturais.
(Foto: Divulgação/Low Construtores Descalzos)
Para realizar seus projetos, o Low Construtores busca modos econômicos mais flexíveis, alguns deles são pagos com a troca de meios para poderem se manter na comunidade o tempo que estiverem construindo, outras vezes eles apenas pedem a quantia que a pessoa acha que pode contribuir.
Para ficar por dentro dessas novas ideias acompanhe a trajetória dos Low Construtores por aqui. Com informações sobre suas oficinas e relatos sobre os últimos projetos desenvolvidos.

sábado, 14 de junho de 2014

Atenção coxinhas e vira-latas podem vaiar, Dilma decide ajudar os sem-teto em Itaquera

Por Lúcia Rodrigues, no blog Viomundo:
 
A decisão da presidenta Dilma Rousseff de construir duas mil unidades habitacionais na ocupação Copa do Povo, em Itaquera, zona leste da capital paulista, deixou os sem teto que vivem no acampamento, radiantes. “Quero dar um beijo na boca dela. Eu tô sendo sincero. Não tô brincando. A Dilma tá de parabéns”, vibra Jailton Jaime Albuquerque Diógenes, 22.
Desempregado e sem condição de pagar um aluguel, o soldador Jailton viu na Copa do Povo sua tábua de salvação. Resolveu entrar no terreno, depois de ter sido alertado pela mãe e avó de que várias pessoas participariam da ocupação. A própria avó e a irmã dele, também ocupam outros barracos. “Eu vim com pensamento positivo. Enfrentamos chuva e frio, mas valeu a pena. Agora vou ter onde morar”, comemora.

“Fui eu que construí esse barracão”, aponta satisfeito para o local onde ocorrem as reuniões do MTST, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que coordena a ocupação. Jailton também montou uma pequena horta de plantas medicinais, que os sem teto chamam de farmácia popular.

Na Copa do Povo praticamente tudo é coletivo: banheiro, cozinha. Apenas os barracos com chão de terra batido, cobertos e forrados com plásticos pretos, onde os sem teto dormem, são privativos. Na maioria deles, só cabe uma cama. Alguns moradores cobrem os colchões com plásticos para evitar que a chuva molhe a espuma durante o período em que estão fora de casa.

Solidariedade

Quem está desempregado, ajuda nas oito cozinhas comunitárias distribuídas pelo acampamento. Rafael Leite, 25, pai de Kimberlly,de um ano e sete meses, levantou cedo para levar a filha na creche e correr para preparar o café da manhã de outras crianças e sem teto que vivem no acampamento. “Eu faço café da manhã, almoço. Cada um ajuda um pouquinho”.

Ele conta que algumas padarias doam pãezinhos. As outras refeições também dependem de doações: “arroz, feijão, tudo é doado”.

Sobre a decisão do governo federal de construir moradias populares no acampamento, ele brinca: “O terreno tava abandonado há 30 anos. A gente lutou muito, batalhou e agora sai essa notícia de que a gente ganhou o nosso pedacinho de chão. Agora é só felicidade. Vamos esperar sair os nossos apês”, afirma rindo.

Outra que não continha a alegria, era a aposentada Márcia Belarmina da Paixão, 51. Há 20 anos em São Paulo, a pernambucana sempre morou em favelas. Veio para a Copa do Povo porque o barraco onde vivia no Jardim Colonial corre risco de desmoronar. “Já perdi seis vezes a casa. O barro cai em cima e desmorona, é de madeira. Muita gente doou coisas, mas eu fui perdendo, perdendo. Já perdi tudo”, conta entristecida.

Quando estava na ativa, Márcia trabalhava como doméstica. O baixo salário não permitiu que o sonho da casa própria se concretizasse. “O dinheiro nunca deu pra comprar. Dilma eu te amo!”, exclama ao se referir à autorização, para a construção das moradias, dada pela presidenta.

Respiração ofegante e pernas inchadas não tiram dela a gana de conquistar o primeiro endereço, para ela, marido e três filhas. “Todos nós merecemos uma moradia digna. Lá onde eu vivo, não tem correspondência (correio não passa). Também tô muito feliz porque têm moradores de rua que estão vivendo aqui, vão conquistar uma casinha”, frisa. “Se eu pudesse chegar na Dilma, eu ia até lá (Brasília), pra dizer que eu amo ela.”

Ajoelhou para agradecer

A desempregada Dalva Souza, 37, conta que ficou tão emocionada quando recebeu a notícia, que chegou a ajoelhar no chão e chorar. “Abracei minha Vitória (a filha de um ano e meio) e agradeci a deus de joelhos. Chorei, bati os joelhos no chão. E tem de agradecer a Dilma também”, enfatiza.

Ela já teve casa, mas perdeu o imóvel quando se separou do marido. “Ajudei a construir e fui expulsa”, conta com os olhos marejados. Para ajudar no orçamento da nova família, Dalva toma conta de Gustavo, um menino da mesma idade de Vitória, filho de um casal de moradores do acampamento que trabalham.

No início da manhã desta terça, 10, ela levou o garoto para comer pão com manteiga em uma das cozinhas da ocupação. Quem serviu o bebê foi o cozinheiro desempregado, Daniel Lima Custódio, 25. O rapaz tem sobrevivido com o seguro-desemprego que recebe do último serviço.

Antes de mudar para a Copa do Povo, ele morava no Carrão, também na zona leste, mas o preço do aluguel, o trouxe para Itaquera. Daniel ficou sabendo da ocupação pela sogra. “Gosto mais dela, do que da minha mulher”, brinca.

A precariedade do acampamento não tira o ânimo dele. “Tomo banho frio, mesmo, não tem luz…” Na maior parte do acampamento não existe energia elétrica. Ele explica que para iluminar os barracos e as cozinhas à noite, os sem teto usam lanternas, lampiões e velas, de vez em quando, por causa do risco de incêndio.

Preocupado com a limpeza do ambiente, ele varre o chão de terra batido durante a conversa com a reportagem de Viomundo. A cozinha que administra, além de dois fogões e mesas, também tem um quadro emoldurado de uma paisagem pendurado em uma das madeiras que sustentam a estrutura. A água para lavar as louças é trazida em garrafas pet, que ele começa a organizar assim que termina de varrer o chão.

Um cartaz no interior do cômodo informa o horário em que as refeições são servidas. Café da manhã, das 8h às 10h, almoço, das 13h às 15h, café da tarde, das 16h às 17h, e janta, das 20h às 21h.

Baiano de Vitória da Conquista, o jovem conta que sempre pagou aluguel em São Paulo, onde vive há 18 anos. Mais reticente do que os colegas sem teto, Daniel afirma que “tava mais do que na hora de resolver o problema. Porque pra gastar bilhões em estádios, tem. Lá na Bahia o governo constrói casas, rapidinho, não é que nem o governo de São Paulo”, alfineta.

Vizinhos do Itaquerão

“Se algum gringo vier assistir o jogo no Itaquerão e quiser dormir no meu barraco, pode vir”, afirma Daniel ao oferecer solidariamente a habitação.

A maioria dos entrevistados pela reportagem do Viomundo é corinthiana e está duplamente alegre com a decisão do governo federal. Ao mesmo tempo em que vão conquistar um teto, se tornam praticamente vizinhos do estádio do time do coração.

“Sou corinthiana fanática. É um privilégio morar aqui. À noite nos dias de jogos, o Itaquerão fica todo iluminado”, revela a desempregada Gisleine Cristina dos Santos, 24, mãe de um menino de um ano e quatro meses.

Solteira, ela deixa a criança com mãe do pai criança, enquanto espera pelo teto. “Quando eu trabalhava, ganhava o salário mínimo e pagava R$ 350 de aluguel. Não dava pra me manter. Agora, não pagando aluguel vai dar. Vou conseguir arrumar um emprego. Deus abençoe a Dilma.”

“Nossa luta não é contra a Copa, contra o futebol, mas contra o dinheiro que foi gasto”, ressalta o corinthiano Daniel Rodrigues de Carvalho, 32. Desempregado, faz bicos como motorista de van esporadicamente. O orçamento minguado também o empurrou para a Copa do Povo. Assim como os demais sem teto, ele ocupa um dos milhares de barracos erguidos ao longo do terreno íngreme, que quando chove torna-se um perigo para quedas.

Ele recorda que frequentava o terreno, que deve se transformar em sua moradia, desde criança. “A gente vinha jogar bola no campo de futebol. Caçava passarinhos. Peguei uns tico-ticos aqui. Estou muito feliz com a notícia. É uma sensação de satisfação, de felicidade”, fala com os olhos marejados. “Conseguimos uma vitória, mas a guerra não acabou. A luta contínua”, pondera.
 
Fonte: Blog do Miro